MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/06/2013

Uma irremediável lentidão existencial: “O homem que se atrasava”, de Louis Begley

628x471O_HOMEM_QUE_SE_ATRASAVA_1243288409P

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de julho de 1994)

Até agora, O homem que se atrasava (The man who was late, em tradução de Anna Olga de Barros Barreto para a Companhia das Letras) é o mais expressivo lançamento de ficção contemporânea em 1994. Em grande estilo, narra-se a trajetória de Ben, judeu que escapou da Europa destruída pela Segunda Guerra e transformou-se, após rápido processo de americanização, num homem de negócios cosmopolita, vítima porém de “irremediável lentidão existencial”, como confirma Jack, o narrador e seu maior amigo.

Por que Ben, tão bem sucedido nos negócios e com as mulheres, considerava-se “atrasado”? A resposta a essa questão e mais o desajeitado envolvimento dele com Véronique, prima de Jack, na França, formam o centro do romance de Louis Begley.

O próprio fato de Jack ser o narrador demonstra que o “atraso” de Ben é fruto de seu desenraizamento: ele vive as “boas coisas da vida” (no sentido capitalista da expressão, bem entendido), entretanto seu passado e sua condição pessoal fazem com que elas tenham gosto de cinzas, como se houvesse chegado tarde demais, quando o vazio já se instalou, de forma que o resto da existência é tomado pela ânsia de fugir da rotina e da aridez de sentimentos.

Image

O homem que se atrasava (publicado em 1993, nos EUA) lembra sutilmente, apesar das muitas diferenças, O grande Gatsby, o clássico de Fitzgerald (que, aliás, precisa ser reeditado; está há anos fora de circulação) sobre o materialismo e o vazio no imaginário americano após a Primeira Guerra, condensados na abrupta trajetória de Jay Gatsby, o qual também chega tarde demais a uma pretensa vida festiva, também observado ambiguamente por um narrador mais pobre e que no entanto, pelas suas origens, pode ser admitido naturalmente nas altas rodas.

No livro de Fitzgerald (publicado em 1925) ainda subsistia um fundo idealista e ecos românticos. A Segunda Guerra, a Guerra Fria e a consumação da “aldeia global” fazem do Gatsby de Begley (que ainda por cima é imperdoavelmente judeu) um personagem mais dramático, mais afrontado pelo absurdo da existência, e mais ansioso pelos simulacros do sucesso e bem-estar. A trajetória de Jay Gatsby, com todos os conflitos internos, só poderia ser detida de fora, através do assassinato. A interrupção da trajetória do homem que se atrasava, por sua vez, só poderia ser interna, advir do suicídio. Toda uma (melancólica) derrocada civilizatória insinua-se nessa diferença de finais trágicos.

Mas antes do final há ainda um intervalo no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis, uma das melhores passagens da narrativa, mostrando a perspicácia e acuidade do estilo e visão do mundo de Begley. É no mar do Rio que Ben tem o vislumbre do seu destino: “Exceto pelo pensamento nos tubarões, que tentou afugentar da consciência, começou a sentir um grande medo e imenso regozijo. O que aconteceria se se cansasse e se afogasse: seria possível isso ocorrer num cenário mais paradisíaco do que este? Uma pequena ponta da cortina que esconde a vida futura pela qual não se espera estava sendo levantada. Sempre gostara de sair de festas em seu auge, quando a pista de dança está repleta, antes que o cansaço da madrugada descompusesse os rostos dos anfitriões…”

E assim, ao atributo de homem atrasado soma-se o de homem prematuro, que precipitou-se para a morte antes de se deixar transformar pelo sofrimento e pela solidão. E junto com Paul Auster, autor de A música do acaso & Leviatã, outro especialista em trajetórias desesperadas e desesperadoras, Louis Begley revela-se o grande talento da moderna prosa de ficção norte-americana.

716264imagem1833554imagem (1)infancia de mentira begleyVR_09_03_p10_Begley_4C-310x232

Anúncios

05/06/2013

Qual a moral?- A fábula perigosa de Fernando Trías de Bes

ec02-fernando-trias-de-bes875-zoom_20130207183534 (1)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de junho de 2013)

Karl Marx passou muitos anos de sua vida na sala de leitura do Museu Britânico, enquanto sua família se equilibrava a um passo da miséria, para delinear os fundamentos de O Capital. O romance Tinta (Espanha, 2011) é uma fábula extravagante e perigosa sobre a miragem da página impressa. Em última instância, o livro trata das tentações da utopia, quando misturadas aos aspectos mal resolvidos e tortuosos das nossas existências pessoais.

No enxutíssimo relato de Fernando Trías de Bes (cujo currículo inclui a carreira de economista, especializado em “Criatividade, Inovação e Marketing”, o que para mim já faz dele um personagem de O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias), a mulher de um livreiro (na cidade alemã de Mongúcia, ao longo do período 1900-1910) é obcecada por um amante, cuja pele guarda resquícios de tinta de impressão. O livreiro se desespera na busca de um meio para quebrar tal feitiço, unindo-se a um matemático que perdera o filho e também tenta encontrar o Motivo, isto é, a origem das fatalidades e circunstâncias; este resolve montar um livro, o Livro, com frases que retira de milhares de outros (mas só dos que pertencem à livraria do marido traído), aí propõe a um impressor (cujo passado também tem um evento traumático ligado ao Motivo) a impressão dessa definitiva obra (que faria inveja no Pierre Menard, de Borges) com uma tinta que se apague no momento mesmo da leitura.

O matemático compõe pessoalmente as chapas tipográficas para a impressão; o dono da gráfica contrata um revisor, escritor desiludido, que desistira da literatura, dedicando-se a capturar nuvens dentro de cápsulas de vidro, e o qual se tranca com as chapas e remistura todas as palavras (pois, se elas pertencem a um livro, elas poderiam ser colocadas em ordem diferente mas ainda seriam as palavras daquela obra e de nenhuma outra); o livro é impresso com tinta diluída em água, de forma que não aparece nada, só que alguns de seus parcos leitores creem que viram palavras, tramas, ideias. E o revisor propõe a publicação a um editor que nunca leu o que publica porque a mãe (numa relação abusiva e incestuosa) só lhe permitia a Bíblia (isso após banhos de imersão em gelo e neve, para mantê-lo “puro”). Seu único contato direto com livros é um exemplar que recebe toda manhã, com tinta ainda fresca,e com a qual ele esfrega o corpo todo…

 

little-black-book-entrepreneurship-fernando-trias-de-bes-paperback-cover-arto-livro-negro-do-empreendedor

A crítica a essa perseguição de um livro definitivo, que resolvesse todos os dilemas, improbabilidades e desacertos da vida, esse enfeitiçamento pela tinta, que já está na pedra-de-toque do enredo (com a mulher do livreiro enleada com um amante por quem nem sente atração) parece bastante saudável e lúcida, quando nos damos conta dos horrores que a civilização letrada foi capaz de engendrar (e nesse ponto, não é fortuito que Tinta transcorra na Alemanha da Belle Époque, pouco antes que a economia alemã fosse pulverizada pelo fracasso na Primeira Guerra, com as conseqüências nefastas que conhecemos). Independentemente de qualquer outra consideração, já torna o romance um feito digno de nota, que não faz feio ao lado das experiências de um Gonçalo M. Tavares (na série O Reino, cujo volume mais famoso é Jerusalém, e na qual põe em cena as dicotomias e polaridades da cultura que se cristalizou na Europa); por outro lado, e é aí que me sinto desconfiado e cético quanto ao livro, acredito que na base do projeto de Trías de Bes está uma daquelas liquidações modernosas e neoliberais das Grandes Narrativas.

Por isso, não concordo em nada com a apresentação da Autêntica para esse seu lançamento: lemos que se trata de uma “história que se lê com o coração”, de uma homenagem ao “poder que a literatura e a imaginação têm de transformar vidas”. Ao fim e ao cabo, a moral que se tira é que empreendimentos tais como o de Marx são absurdos, prova da cegueira do homem, que não pode viver com incertezas, que quer capturar nuvens.

Resta o pragmatismo dessacralizante misturador de tintas para impressão. O irmão do seu patrão fizera (um fiasco) uma palestra para colegas cientistas, anunciando a descoberta da verdadeira origem da vida (o Motivo). E era na gráfica da família que os jornais da região eram impressos, e neles haveria matérias ridicularizando o jovem visionário:

“__ Será sua perdição.

__ Não podemos fazer nada. Devemos lealdade à nossa profissão. Nós não escrevemos, apenas imprimimos.

__É meu irmão—insiste Patrik Gensfleisch.

__ Se negarmos , seremos denunciados pelo jornal. Um impressor não pode se negar a editar um diário por conter uma notícia que o prejudica.

__ É meu irmão!

__ É tinta, somente tinta!”

Em todo caso, sempre pode acontecer com Tinta o “efeito Orwell”. Como se sabe, o grande escritor inglês idealizou 1984  como uma crítica contundente ao stalinismo. Hoje, desbotados os laços históricos mais contingentes da sua fábula, ele parece ser muito mais uma crítica ao estágio mais voraz do capitalismo, que inverte todos os sinais e transforma a linguagem numa grande mentira. Ou seja, as famosas ironias da história. E aí, então, qual a moral da fábula?

tinta-9788432209390064d5gp1_1

Tá me tirando, Paulo Lins? O Estácio não acalma o sentido dos erros de “Desde que o samba é samba”

“É que o Estácio, o Mangue, tá passando por um momento muito precioso. A prostituição é festa todo dia. Aqui é outra cidade com muita luminosidade, muita gente alegre. A música brasileira de fato está nos cafés da Lauro de Araújo, a grande veia da zona. São grupos de flautas, cavaquinhos, pandeiros para tocar choro! As mulheres nuas em toda liberdade nas portas escancaradas…”

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de novembro de 2012, sem as notas de rodapé e o trecho selecionado)

A proposta de Desde que o samba é samba era estupenda, verdadeiramente grandiosa: tratava-se de reconstituir o momento em que foi criada a primeira escola de samba do Rio de Janeiro, no Estácio, quando o samba de feição moderna (incluindo a invenção de instrumentos) se impôs, principalmente através de Ismael Silva (um dos protagonistas) e outros compositores que faziam parte das rodas de malandragem dos anos 1920, sempre com um pé nas contravenções e no submundo.

Para tanto, Paulo Lins desenvolveu —como fio da meada— o triângulo amoroso formado por outro compositor-malandro (mais afeito ao segundo termo do que ao primeiro), Brancura, a prostituta mais linda cafetinada por ele, Valdirene, ambos negros, e um português (o qual, paulatinamente vira um chefão na zona do meretrício), Sodré. Como diz aquela canção tão bela, “se alguém quer matar-me de amor/que me mate no Estácio”.

Só que, apesar de ter Cidade de Deus no seu currículo, e da quantidade de pessoas que lhe prestaram assessoria (só para o texto foram duas, que parecem não ter cumprido muito bem a função), Lins produziu um dos piores romances que já li na minha vida inteira. É difícil dizer o que irrita mais: se o texto frouxo, amorfo, se o didatismo fora de hora, se os personagens mal explorados, se a estrutura mal concatenada, com segmentos desalinhavados, se o proselitismo duvidoso (que também afetava Jorge Amado, mas que saudade do poder com que este recria a resistência da cultura popular e negra, no maravilhoso Tenda dos Milagres![1]).

Em certos momentos, tive a nítida impressão de que o autor carioca, como a garotada de hoje diz de forma tão expressiva, estava “me tirando”, gozando da minha cara. Quando se reporta ao passado de Sodré, ficamos sabendo que, em função do uso da maconha, ele passara a ter relações sexuais com um vizinho (um índio velho?, haveria algo alegórico aí??!!), o qual morre durante uma transa mais vigorosa, digamos assim. Desacorçoado pela falta de Seu Lotório (nas palavras do próprio personagem, “Eu não sei do que mais eu sinto saudade… De futucar aquele cu dele ou de levar o cacete dele no meu rabo), Sodré descobre um clubinho de sexo grupal gay e exclama: “Nossa, que maravilha! Acho que voltei a viver!”!!!???[2]. A fogosa Valdirene fará com que ele descubra outras maravilhas e teremos pérolas do tipo:  “Na Pereira Pinto [onde mais?], Valdirene sentiu piripaque na vagina e começou a aguar logo depois que cruzou com Sodré naquele sol de primavera fria. Fazia tempo que não sentia nenhum remelexo na boceta por outro homem que não fosse Brancura. Sodré fez que não a viu, mas a pica foi endurecendo pelo caminho, conforme se lembrava das fodas que tivera com ela.”

Esse miasma textual desagradavelmente chulo que Desde que o samba é samba propaga é fruto da maneira tosca com que Lins manipula o foco narrativo. Para que a narrativa funcionasse, era fundamental que ele criasse uma “voz” que se somasse ou fundisse às personagens, mimetizando seu universo (o famoso discurso indireto livre). Lins não se decide entre o tom didático, em terceira pessoa, e essa amalgamação com os seus personagens (que só é lograda pouquíssimas vezes, num relato de quase 300 páginas),e o resultado é que seu tom desafina, fica forçado, e sobretudo reles. Daí acompanhamos um narrador em terceira pessoa que nos proporciona experiências de linguagem do tipo: “E foi o que rolou. E Sodré se revelou um otário…. Foi aí que fodeu tudo.” Nada contra o uso do “palavrão”, é óbvio, apenas me pergunto para que serve a literatura se não for para utilizar a linguagem de uma maneira radicalmente diferente da que usamos no cotidiano.

Essa confusão (que não me parece proposital, e se for, é muito mal realizada) entre o linguajar dos personagens e do narrador em terceira pessoa se torna mais grotesca ainda porque Lins está nos mostrando o momento em que uma linguagem artística, popular e revolucionária está se formando e se firmando dentro da nossa sociedade hiper-classista, ao mesmo tempo em que ocorre o (não há como negar) elitista Modernismo. Quando as duas vanguardas se encontram no livro (e aí aparecem Manuel Bandeira e Mário de Andrade[3], além de Carmem Miranda), é tarde demais, o leitor já se desinteressou por completo: “Para eles, não havia nada mais interessante na Cidade Maravilhosa do que o Estácio.” Desafortunadamente, como espaço literário, o Estácio não “acontece”, e Lins trai essa profunda vocação balzaquiana do romance de criar uma geografia inconfundível.

Funciona mais a parte em que os personagens se voltam para os guias da Umbanda (vista como outra forma de vanguarda, com relação ao Candomblé). Embora uma figura como Seu Felintra pareça um pouco o Gandalf da malandragem carioca, o que lhe dá uma certa comicidade, a linguagem das interpolações “espirituais” na vida dos personagens resulta mais convincente do que o resto. Talvez, no futuro, Paulo Lins possa se tornar um importante escritor do gênero espírita.

TRECHO SELECIONADO– O diálogo entre um representante da malandragem e um policial:

“(…) ____O mundo nunca é como a gente pensa. O senhor, por exemplo, é um final de comédia e nem sabe que é!

__ Comé que é?

__ O senhor gosta de teatro? Já assistiu a uma comédia?

__ Já.

__ Então, essa coisa do senhor ficar tentando lembrar aí o que o delegado disse, escutando música que pode e que não pode, é final de comédia.

__ Como assim? Eu não estou entendendo.

__ É um pouco difícil mesmo. Mas se um dia o senhor pensar direito, assistir a mais comédias, o senhor vai ver que o final é tudo igual, assim que nem o senhor e as suas preposições.

__ Agora que eu não entendi nada mesmo.

__ O senhor é um preconceituoso, um estulto, e nem sabe.

__ Estulto? O que é estulto?

__ Então a sua voz só tem força, mas não tem alcance, pode fazer calar agora, pode interromper, mas não pode destruir pra sempre.”


[1] “Noite de muita música, de letra, de várias invenções que se faz e se perde na mesma hora (…) Quem viveu viu, quem não viu não vive mais. Criações entre doses de uma bebida quente para soltar a voz, um vento sul soprando lá detrás da lua crescente (…) Foram felizes porque a melodia tem o dom de combinar direitinho com a gente, de jogar nosso corpo e fazer dele uma dança.

   Vovó Cambinda, ainda na terra, rezava um filho no cantinho. As crianças brincavam de esconde-esconde no terreiro. Tudo naquela hora se transformava, fazendo o futuro acabar sendo uma avenida colorida.

   Tudo naquela hora se tornava novo, uma nova coisa na arte para sempre. Era a reinvenção do carnaval, naquele doze de agosto de mil novecentos e vinte e oito.”

[2] O trecho em forma mais estendida, para o leitor ter uma ideia mais clara:

“__ Quer dizer, tem uns pormenores que, se você aceitar, nunca mais vai faltar cannabis pra você.

__ Quais?

__ Se você enterrar o seu cacete na minha bunda, deixar eu abocanhar ele na hora que você vier fumar, você vai ter cannabis enquanto eu estiver vivo.

__ Poxa! Eu tava mesmo a fim de comer um cu pra saber como é que é. Por que o senhor não falou antes?

__ É educação. Tava querendo pegar mais intimidade.”

A nostalgia do “tempo perdido” e a volta à vida:

“__ Você não deve tá muito bem com a morte do Seu Lotório. Nunca mais deve ter fumado maconha, nunca mais deve ter dado esse cu, né?

__ É, saudade também daquela bunda dele. Eu não sei do que mais eu sinto saudade.

__ Como assim?

__ De futucar aquele cu dele ou de levar o cacete dele no meu rabo. Ele me caralhava que era uma beleza.

__ Bunda por bunda, a gente podia fazer um negócio aqui, ó.

__ O quê?

__ A gente se reveza. Eu enfio o cacete na bunda dele, depois ele enfia na minha, depois eu enfio na tua e assim vai. Quem gosta mais de levar fica mais um pouquinho, quem gosta de meter, também. E pode chupar pra dar mais impulso, e assim vai. Vamos lá no clubinho!

__ Nossa, que maravilha! Acho que voltei a viver.”

[3] Ismael Silva e Mário de Andrade (I):

“__ Você gosta de homem também, né, querido? Alves me falou que você é homossexual.

__ Não, sou veado mesmo!”

Ismael Silva e Mário de Andrade (II):

“Chegaram ao cais deserto por volta de seis da noite, os dois fuzileiros já esperavam ali na proa, um deles foi logo dando tapa na bundinha de Mário, o outro sapecou logo um beijo no pescoço de Silva. Começaram a meter naquela hora e só pararam depois de meia-noite. Mário era só alegria:

__ Não para, não para, não para—falava toda vez que ia gozar.

   O Rio de Janeiro era seu lugar de alegria. Trepava olhando e sentindo o remelexo das águas da baía, o ir e vir do naval dentro de seu corpo, a melodia do mar em seus ouvidos. As mordidinhas no pescoço o faziam gemer, o naval tocando punheta em seu caralho. A viva vivida como deve ser.”

01/06/2013

Labirintos, bueiros e tonterías: “O mistério da cripta amaldiçoada”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de julho de 2012)

Antes das mudanças do perfil urbano de Barcelona devido às Olímpiadas de 1992 (tão lamentadas pelo protagonista de O labirinto grego, de Manuel Vásquez Montalban), o narrador de O mistério da cripta amaldiçoada (El misterio de la cripta embrujada) se movimenta por toda a cidade como bom malandro que é: “Adentramos numa daquelas típicas ruas do centro histórico de Barcelona, tão envolventes, às quais só falta um teto para virarem bueiro…”

Estamos em meados dos anos 1970, Franco morreu e, mesmo não tendo mais a mesma “autoridade” que o regime moribundo lhe propiciara, o delegado Flores obriga nosso anti-herói, que está internado há cinco anos num manicômio, e que perdera um incisivo durante uma “conversinha” com o agente da lei (do qual era informante), a investigar o desaparecimento de uma menina que estudava num reputado internato dirigido por freiras. Na verdade, é o segundo desaparecimento. Anos antes, acontecera  idêntico incidente, entretanto a averiguação policial fora truncada pela reaparição inesperada da vítima, que alegava não se lembrar de nada. Havia um cadáver  (neste segundo desaparecimento também haverá, o de um marinheiro sueco, que aparece em vários lugares) e tudo fora abafado, em prol da fachada de respeitabilidade das famílias burguesas católicas do franquismo.

A “moral” do regime está bem caracterizada (através da hipérbole, bem entendido) pela descrição que o jardineiro do internato (aposentado compulsoriamente após o primeiro incidente) faz do seu casamento: “Nunca fizemos uso do matrimônio, minha esposa e eu. À moda antiga. Hoje em dia o pessoal casa para poder fazer sacanagem…bem sabe Deus que às vezes nos foi difícil resistir à tentação. Imagine o senhor: trinta anos dormindo juntos nesse catre tão estreito. O Altíssimo nos deu força. Quando as paixões estavam a ponto de vencer-nos, eu batia na minha esposa com o cinto e ela me acertava com o ferro de passar na cabeça”.

O narrador, maltrapilho, malcheiroso (e provavelmente mentiroso) nos conta suas andanças e peripécias para descobrir o segredo do labirinto (não-grego), a que se chega através de uma cripta no internato. Embora sua mente tortuosa e os eflúvios do éter possam desvirtuar um pouco a lógica narrativa tradicional…

Pois o que faz toda a diferença de O mistério da cripta amaldiçoada é a linguagem criada por Eduardo Mendoza nesse que era o seu segundo romance (publicado em 1979), aos 36 anos,  após sua estreia ter sido muito celebrada e bem-sucedida (em 1975, meses antes da morte de Franco, com A verdade sobre o caso Savolta).

O inspirado autor espanhol utiliza um tom gaiato para seu personagem, que mistura um arremedo delicioso da linguagem formal e circunlocutória das áreas da psicologia, da jurisprudência e da etiqueta social, com inversões de fórmulas-padrão (“O colégio das madres lazaristas, como você sem dúvida ignora). Como diz Adelto Gonçaves muito bem na sua apresentação, são tonterías, uma fala de bobo da corte, de maluco beleza, que (imagino o impacto à época) dão a esse Mistério da Cripta Amaldiçoada um tremendo frescor moleque, um falso ar  de inconsequência: “Enquanto pisoteava as baratas que corriam pela cama, não tive como não lembrar da cela do manicômio, tão higiênica, e confesso que a nostalgia me tentou. Mas não existe bem maior, dizem, que a liberdade, e não era o caso de menosprezá-la, agora que desfrutava dela. Com esse consolo, enfiei-me na cama e tentei dormir repetindo para mim mesmo a hora em que queria acordar, pois sei que o subconsciente, além de desvirtuar nossa infância, confundir nossos afetos, lembrar-nos do que ansiamos esquecer, revelar-nos nossa abjeta condição e destroçar-nos, em suma, a vida, quando lhe dá na telha e a título de compensação, faz as vezes de despertador”.

Tivemos por aqui em 1994 algo similar, quando José Roberto Torero apareceu com O Chalaça e seu cadinho  de alta diversão e irreverência que transita muito bem entre uma leitura descompromissada, como puro entretenimento,  e um uso paródico poderoso da linguagem “séria”, sem cair no escracho ou no pastiche. Infelizmente, Torero parece ter perdido esse ímpeto na sua produção mais recente, e se rendido ao besteirol, Enquanto isso, o autor espanhol continuou a exercitar sua rara verve. Basta comparar O evangelho de Barrabás e A assombrosa viagem de Pompônio Flato.

Esperemos que a Planeta lance as outras aventuras do “louquinho” de Mendoza (salvo engano, são mais três), e que elas encontrem se não o mesmo, um tradutor tão hábil quanto Luis Reyes Gil.

Carlos Ruiz Zafón: entre Dickens e Dan Brown

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  28 de março de 2009)

Para  minha querida amiga Maria Amélia, grande companhia destes últimos anos

Um fenômeno interessante de se acompanhar na ficção atual é a vigência (e pujança) do  modelo dickenseniano (o órfão que nos desvela um mundo) em romances ambiciosos:   além das obras do genial John Irving (como As regras da Casa de Sidra e O filho de Deus vai à guerra), tivemos recentemente o deliciosamente esplêndido Sua resposta vale um bilhão(2005), de Vikas Swarup, e acabo de ler O jogo do anjo, publicado ano passado na Espanha. O livro faz parte de uma tetralogia que o catalão Carlos Ruiz Zafón (atualmente com 44 anos; Swarup é apenas dois anos mais velho) está urdindo, misturando diversos registros de linguagem, que vão do folhetim deslavado, do grand guignol, até altas discussões sobre o fazer literário, a história, as religiões. O primeiro título foi o grande sucesso A sombra do vento, que, levado pela idéia de que se tratava de outro Código da Vinci ou outro Caçador de pipas, eu ignorei. E, para ser sincero, só me decidi a ler O jogo do anjo porque me foi emprestado por uma amiga muito querida, cujas opiniões sobre livros, mesmo que difiram das minhas, eu prezo muito.

A primeira coisa a se destacar no romance de Zafón é que ele se alinha aos escritores atuais que ainda apostam no requinte retórico, como o Ian McEwan de Reparação ou o Alan Pauls de O Passado. É um prazer ler o portentoso texto, em todas as suas modulações (imagens, descrições, reflexões, diálogos) mesmo que às vezes a trama adquira contornos pífios, e até maçantes, pela previsibilidade. Será que ele avaliou o risco de abarcar mesmo todos os registros possíveis, até aqueles que coincidem com as receitas mais baratas dos mais reles best sellers?

A narrativa em primeira pessoa é feita por David Martín, começando em 1917, concentrando-se muito no final da década de 20, e com um epílogo em 1945. Martín tem a idade do século XX: escritor bem sucedido de histórias sanguinolentas, góticas e enfarruscadas, aluga uma casa bizarra, com um passado obscuro. Cansado de escrever na linha grand guignol e apaixonado por Cristina, secretária do seu protetor, escritor mais velho, Pedro Vidal (o qual guarda um segredo relacionado ao violento assassinato do pai do narrador), ele decide interromper uma série popular (A cidade dos malditos) e produzir dois romances ao mesmo tempo: um deles, de seu próprio punho, e mais “autêntico” com relação às suas ambições literárias (Os passos do céu) e, auxiliado por Cristina, que lhe traz os manuscritos capengas que eles, mais do que copidescam, acabam por reescrever, um romance de Vidal (A casa das cinzas). Tudo isso porque recebeu de um médico a notícia de que teria pouco tempo de vida devido a um tumor cerebral.

Pois bem, os dois livros são publicados ao mesmo tempo: o de (hãhã) Vidal se torna um clássico instantâneo, o de Martín-ele mesmo é ignorado e achincalhado, ao ponto de ser criticado como imitador do outro. Seu destino é ser enterrado num misterioso Cemitério de Livros Esquecidos, no qual David Martín (D.M.) encontra um manuscrito, Luz Aeterna, datilografado por um D.M. na mesma máquina (uma Underwood) que foi um dos atrativos para que nosso herói alugasse sua casa. Diga-se de passagem, o último proprietário chamava-se Diego Marlasca (D.M.) e seu fim fora misterioso.

Para cúmulo dos infortúnios, Cristina e Vidal se casam. Sozinho, desiludido, fracassado, Martín recebe a proposta de escrever um livro que “crie uma religião” (e cuja descrição se parece com o ideário fascista, que a Espanha logo conhecerá com Franco) de um editor “francês”, Andréas Corelli, o “anjo” do título (e que já se comunicara por escrito com ele algumas vezes antes de aparecer pessoalmente na história). Martín passa uma noite na casa de Corelli e acorda curado da sua doença, embora comece a ser suspeito (é seguido e importunado por três policiais, um simpático, inspetor Grandes, e dois truculentos) de crimes que vão se sucedendo (os primeiros a morrer são os editores que exploravam o talento de Martín com um contrato draconiano) na colorida e diversificada Barcelona.

Cada vez mais intimidado por Corelli, horrorizado e ao mesmo tempo fascinado pelo texto que escreveu para ele (tanto que não consegue destruí-lo), Martín começa a investigar o passado da sua casa e a verdade sobre a morte de Marlasca…

Bom, acho que isso dá uma idéia mínima do que ocorre em boa parte de O jogo do anjo. E não há como negar que clichês à parte (casa mal assombrada, passagens secretas, aparições sobrenaturais, crimes que parecem sempre apontar para o “homem errado”: o protagonista) é tudo muito envolvente e acima da média. O problema é o excesso, a intoxicação de dados ficcionais que estrangulam a narrativa e fazem com que seu terço final se assemelhe cada vez mais com um balão que murcha, murcha, pela impossibilidade de se resolver a narrativa, tal como foi armada, de uma forma satisfatória. Então, o autor nos empurra goela abaixo a providencial burrice do seu herói (é difícil de alguém com o background folhetinesco e grand guignol que ele carrega não adivinhar que Diego Marlasca nunca poderia estar morto, que o policial que foi afastado do caso por investigar demais, na verdade é um dos vilões, e que Cristina, a heroína, foi atacada por Corelli por sua tentativa de ler o manuscrito maldito do amado, e por isso vai parar num sanatório, estropiada e semi-catatônica… e, incrível, ele não relaciona um fato com outro!!!!), uma narrativa que vai se encaminhando, como muitos filmes que desperdiçam seus engenhosos argumentos, para a luta corporal como forma de resolução dos conflitos (Martín lutando com o simpático, mas corrupto, inspetor Grandes num teleférico; Martín em luta com o demoníaco Marlasca no quarto secreto da casa onde ambos moraram) e, por fim, a aceitação pacífica de uma sobrenaturalidade espúria pairando sobre a trama e o real, gerando até personagens imortais que repetem ciclos de tormento e maldição (D.M); apesar de haver um aspecto interessante nisso, que é a ligação com a luta pela imortalidade através das palavras e da literatura. Mas Zafón vem, ele mesmo, acrescentar um toque de senso comum piegas que ajuda a entornar o caldo: há uma personagem a que não me referi até agora (talvez porque ela seja um dos elementos irritantes e excessivos de O jogo do anjo), Isabella, que se apresenta a Martín como aprendiz de escritora, que vai morar na casa dele e que aparecerá com a seguinte pérola lá pela página 316, “resolvi que prefiro viver a vida a escrevê-la”. Ta bom, Zafón… Ah, a nostalgia de VIVER a vida. Nada mais certeiro para abalar um bom romance do que essa falácia.

_____

O jogo do anjo (El Juego del Angel, Espanha-2008), de Carlos Ruiz Zafón. Tradução de Eliana Aguiar. Editora Objetiva- Selo Suma de Letras (que cafona!), que apresenta uma das mais horrendas capas que já vi na vida. 410 páginas. R$ 42,90.

« Página anterior

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.