MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/06/2013

A “opacificada” luz de John Banville (com o pitaco de Sérgio Flaksman): as coisas podem dar errado, e deram


Banville-Photo-1aLUZ_ANTIGA__1370277528P

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no Caderno “Ilustrada” da FOLHA DE SÃO PAULO, em 22 de junho de 2013)

VER

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1299110-critica-vazio-e-enfadonho-livro-luz-antiga-exige-indulgencia-de-seu-leitor.shtml

Pode-se escolher entre dois caminhos na abordagem de Luz Antiga [Ancient Light, 2012): a indulgência escorada na obra anterior de John Banville (que conta com títulos marcantes como Livro das Provas, além do premiado— e um tanto quanto superestimado— O mar), um daqueles autores que atingiram uma “aura” de veneração automática em torno de si; ou o aborrecimento indisfarçável com um romance que parece ter sido escrito num jorro de descarada autocomplacência. O ficcionista irlandês não se vexa em transformar sua narrativa numa mixórdia de elementos desconexos, ou melhor, numa finória lengalenga, cheia de truques fáceis de veterano da ficção (“O sol de inverno—não, não, era verão, pelo amor de deus, não perca o fio!”);aliás, como uma meditação sobre as trapaças e titubeios da memória[1] o livro perde longe quando lemos de outras experiências do gênero, como A versão de Barney, de Mordecai Richler, sem contar o quanto parece pífio perto de outras meditações ficcionais, em que um estofo filosófico acompanha a fabulação, como nos maiores romances de Iris Murdoch ou Saul Bellow (que saudade de O mar, o mar e O planeta do sr. Sammler).

O sessentão Alexander Cleave, ator aposentado (em consequência uma apresentação vexatória), amargando o suicídio da filha única e disfuncional (que fornece a epígrafe da narrativa: “O Broto está em botão. A Lama é marrom./Sinto-me pronta como uma Pulga./As coisas podem dar errado”)[2], é convocado para o elenco de um filme sobre a vida de um pensador de reputação polêmica, um tal de Axel Vander, que de saída era um impostor (tendo roubado a identidade de outro), “o tipo de especialista misterioso e cifrado—a palavra desconstrução brota com frequência—que minha filha Cass certamente conheceria a fundo.” Não se anime, leitor, nem Cass nem Vander com seu “rastro fétido” são caminhos que vão dar em algum lugar.

Entrementes, ele evoca sua iniciação amorosa (aos 15 anos) com a mãe do melhor amigo, que apesar dos pesares, ainda é o que de melhor Luz Antiga tem a oferecer.

Nunca convence a condição de ator para o protagonista de Luz Antiga, e ela nunca deixa de ser mero disfarce maltrapilho para o escritor (não no sentido autobiográfico, mas de atividade profissional mesmo). Até quando se envolve nas intrigas da produção (“fugindo” com a atriz principal), nunca o sentimos como um intérprete de fato, a não ser por vagas e banais considerações.

A reconstituição do caso com a sra. Gray poderia, então, ser o trunfo da arte banvilliana. Ele adota uma prosa do tipo “suntuosa” (que em português, pelas mãos de Sérgio Flaksman, se torna por vezes “untuosa”, como no trecho em que se fala de um “marido indizível”, seja lá o que for isso[3]).

A meu ver, entretanto, ele acaba se saindo mais um sub-Nabokov, carreando o pior lado do autor de Lolita, um tom afetado (as referências mitológicas desnecessárias: “um Teseu, abandonado em Naxos, enquanto sua Ariadne se entregava despreocupada aos seus afazeres”), sem o seu encanto luxuriante e indiscutível genialidade.

No final do percurso, nos damos conta de quão enfadonha e vazia foi a leitura e, a não ser que se peça emprestado um pouco do brilho das realizações melhores de seu criador, Luz Antiga se desvanece num lusco-fusco tão inapelavelmente irrelevante quanto certas conclusões do narrador: “o maior de todos os meus enigmas, a saber, eu mesmo”.[4]

pe-luz

TRECHO SELECIONADO– foram as páginas (197-198) que me fizeram desistir de esperar alguma coisa de Luz Antiga:

“Os cisnes, com seu esplendor exótico e encardido, sempre me parecem estar mantendo uma fachada de despreocupação por trás da qual na verdade se debatem num tormento de dúvida vergonha. Esses dois eram fingidores de primeira, nos dirigiram um olhar especulativo,  viram que nossas mãos estavam vazias de migalhas e seguiram em frente, simulando um frio desdém.

 (…) O que eu deixei de dizer, o que enfaticamente deixei de dizer, foi por que eu deseja tornar a encontrar a sra. Gray. E por que seria?—por que é? Saudades? Um capricho? Porque  estou ficando velho, e o passado começa a me parecer mais nítodo que o presente: Não, o que me move é uma coisa mais urgente, embora eu não saiba direito o que é.”


ancient light

[1] “A sra. Gray e eu tivemos o nosso primeiro—como devo dizer? Nosso primeiro encontro? Não, soa íntimo e imediato demais—já que no fim das contas não foi um encontro propriamente dito—e ao meso tempo bastante prosaico. Seja qual for o nome, ocorreu num dia de aquarela em abril, com rajadas de vento, chuva repentina e céus vastos e lavados. Sim, outro abril; de certo modo, nessa história é sempre abril.”

Ou ainda:

“… como explicar essas anomalias, essas improbabilidades? Não sei. O que descrevi é o que se revela ao olho da minha memória, e só posso contar o que vejo.”

   Outro exemplo:

“Mas esperem mais um pouco—uma coisa acaba de me chamar a atenção…”

Às vezes é um tom que se dirige diretamente aos leitores: “como vocês hão de lembrar se estiverem prestando atenção”.

[2] “ela finalmente se esquivou de nós e executou seu número de desaparecimento”

[3] Tem também um “brilho inicial que se opacificou” !!!???

[4] Banville abusa dos símiles e das descrições excessivas e muito convencionais: “É um tanto sinistro, vagar pela casa às escuras—não me atrevo a acender a luz—perseguindo desesperado esse vulto rápido. As sombras à nossa volta nos oprimem como um coro silencioso, e a intervalos um rasgo de luar ou a luz de um lampião da rua que entra por uma janela parece um refletor atenuado…” A esposa, inconsolável com a morte da filha, “me faz pensar numa dessas rainhas trágicas do teatro grego, errando aos gritos pelo palácio do rei seu marido à procura de um filho que perdeu.”

Quanto às reflexões, olhem um exemplo (em que discorre sobre a atuação cinematográfica): “Outros já tinham me falado da natureza necessariamente desconjuntada e fragmentária do processo, mas o que me surpreende é o efeito que isso tem sobre a maneira como me vejo Tenho a impressão de que não só a minha identidade enquanto ator, mas também minha identidade identidade, transformou-se num composto de fragmentos desconexos, não só nos breves intervalos em que me encontro diante das câmeras mas mesmo quando abando o meu personagem—meu ´papel´–e reassumo minha identidade supostamente real. Não que eu jamais me tenha imaginado um produto ou um defensor das unidades: já vivi e refleti o suficiente para reconhecer a incoerência e a natureza múltipla do que antes era visto como a identidade individual.”

banville_john-20010308_2_png_300x490_q85banville

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: