MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/06/2013

O mundo a partir de uma voz: “O último minuto”, de Marcelo Backes


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“…complicado descobrir o que o levara pra tão longe dos trilhos de sua árvore genealógica, se é que o deslocamento geográfico da roça pra cidade era mesmo tão importante, se é que a diferença entre um campo de futebol e uma lavoura de soja era de fato tão grande assim a ponto de intervir decisivamente no destino de um homem…”

(uma versão condensada da resenha abaixo foi publicada no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em 08 de junho de 2013)

VER

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1291478-critica-narrador-fraco-nao-prejudica-trama-sobre-tecnico-de-futebol.shtml

I

Acompanhando a nossa ficção recente, percebemos que alguns escritores voltaram a valorizar a peculiaridade da “voz” do protagonista, cujo paradigma brasileiro mais relevante é o Riobaldo (com seus companheiros Brás Cubas e Bentinho, o Dom Casmurro, e Paulo Honório).

Nessa vertente, O último minuto nos apresenta o missioneiro (de Anharetã) Yannick Nasyaniack, descendente de russos (por parte de pai) e alemães (por parte de mãe), “mistura do Sul com estepes”[1], técnico de futebol de um time carioca que, após dez anos foragido, se entrega para expiar um assassinato (cometido por ciúme). Homem da roça de feição mais arcaica (“no lugar de onde ele vinha era assim que se fazia”), na prisão tenta entender sua passagem para a esfera urbano-globalizada:

“Sim, pois só um universo daqueles era capaz de explicar a história que ele me contou”. Afinal,  “vinha de uma terra onde criança de colo não chupava pirulito, mas comia salame”.

Marcelo Backes, em seu terceiro romance, se propõe um desafio digno de um craque: não ouvimos a “voz” de Yannick diretamente, mas filtrada (retocada, ele admite) por outro personagem (um seminarista, “filho de juristas”), que acha tudo “estranho” no espécime que tem diante de si (a princípio, a fala do outro é uma “ladainha monomaníaca”), e só aos poucos vai decifrando seus códigos de conduta e linguagem: “Se digo cuia, aliás, foi porque aprendi com ele, e se não disse que as calças eram bombachas foi porque ele não me falou, pensando que eu sabia. Eu não sabia, mas logo descobrir, porque costumo me informar sobre aquilo que desconheço e investigar o que me escapa. Meu papel era estar ali, e eu estava (…) e o estranho acabou por se debulhar todo pra mim, e, na medida em que é possível contar alguma coisa, em que o contado efetivamente tem a ver com o sucedido, ele me contou tudo, pelo menos era a impressa que eu tinha”.

Em outro trecho marcante:

    “Fica-se encafifado com a grosseria da máscara que cobre aquele homem, esse tal de João, o Vermelho, Yannick pros íntimos, conforme ele logo diz, ainda em tom de piada, as caneladas doem, mas, também sem saber por quê, se vai gostando dele aos poucos, depois de tantos encontros, talvez porque ele fale tudo e não esconda nada, porque ele não entra no jogo, não veste máscara civilizatória, e com isso faz o humano sentir saudade do bafejo da barbárie na nuca, porque ele veio dum outro mundo e ainda vive num outro mundo, e experimenta tudo na carne, sem camisas nem casacos cosmopolitas pra lhe proteger a pele exposta, as fraturas mal saradas por causa de seu metafísico arrumador de ossos, as feridas todas que lhe cobrem a alma.

    Os grandes problemas de comunicação vão diminuindo aos poucos,e com pasmo se percebe que inclusive se vai assumindo a linguagem do estranho na muita intimidade que passa a vincular o falante ao estranho…”

                                                        II

Essa mediação permite que a maior parte das diatribes com relação ao estado do mundo[2] (com várias analogias futebolísticas, que justificam inclusive —creio eu— o título do romance, meio sem graça) e inúmeras veleidades intertextuais[3] fluam na narrativa, sem que se quebre a força do relato de Yannick, ou João, o Vermelho, que é grosso, truculento, passional, mas também é manhoso, rodeando os eventos mais dramáticos da sua vida (“Eu ouvia tudo e ficava e ficava pensando quando ele contaria enfim sua versão dos fatos que de fato interessavam”).

Nem sempre funciona. Às vezes o discurso generalizante, para além dos personagens e da sua situação (as visitas semanais do narrador à cela de Yannick), degringola para a panorâmica didático-moralista.  O maior reparo a se fazer (afora alguns capítulos curtos do final, cuja função não consegui captar), porém, é que, quando o autor gaúcho esclarece as motivações para seu narrador encetar tão estúrdio relacionamento com o atormentado técnico homicida, não consegue fazer com que ele se torne convincente para o leitor, permanecendo como um ser abstrato, que está ali para representar e espelhar o emasculamento e impotência do herói[4]. O “diálogo” entre as instâncias narrativas é muito bem realizado, mas não entre os dois seres que as encarnam (o sentimento de filiação, por exemplo, me parece forçado).

Ainda assim, a exegese que o seminarista-escritor faz da “voz” de Yannick (com toda a impureza do processo) é um feito notável e, mesmo com os desequilíbrios apontados, O último minuto não deixa de ser um baita romance, com o charme adicional de incorporar ousadamente fatos muito recentes da nossa história[5].

Pois essas vozes muito individualizadas, e com as marcas de uma região (penso no Jurandir de O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, ou na narradora de Palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes, como exemplos recentes e notáveis da afirmação que abre este meu texto), como o já citado Riobaldo demonstrara cabalmente, podem ter uma vocação enciclopédica maior (na acepção mais ampla da vocação do romance, que é, como dizia, e eu gosto tanto de citar,  Osman Lins, “mundo imerso no mundo”) do que a da ficção urbano-cosmopolita, que me parece ter muito pouca ambição nesse sentido, com as exceções de praxe.

O Sertão já estava dentro da gente, as Missões agora também.

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[1] “tinha cinquenta e cinco anos bem redondos e vinha de fato de um município chamado Cacimbinhas, comunidade de Anharetã, conforme vim a confirmar na certidão (…) tudo localizado nas missões sul-rio-grandenses, região fronteiriça, barranca do Uruguai, divisa com a Argentina, conforme ele dizia”.

    A evocação da imigração (particularmente a russa) é bastante expressiva no romance de Backes, sem a palidez literária que torna bastante limitadas, desse ponto de vista, experiências recentes, até premiadas, como Os hungareses, de Suzana Montoro (Prêmio São Paulo de Literatura), e Nihonjim, de Oscar Nakasato (Jabuti).

[2] “Richarlisson, Maicossuel, Keirrison, onde já se viu uma coisa dessas, ele gritava na verve de quem via seu mundo cair pelas beiradas, e  não conseguia mais se orientar em meio ao caos. A perversão passara da coisa ao nome! Parecia até que os originais não eram com dois esses, ele dizia, Maicossuel, por incrível que pareça, e Richarlyson com direito a ípsilon, conforme via nos jornais, de modo que até  a ortografia da última flor ia pro laço, pervertida. E aquelas comemorações estúpidas, então, o espetáculo da oligofrenia, jogador imitando um boneco babaca, paspalhice de plástico, dançando as piores músicas…”

[3] Por exemplo, a pantera de Rilke, os clássicos literários russos (sempre com seus labirintos de crime e castigo), o Funes de Jorge Luis Borges (o memorioso por excelência), uma anedota (a da chaleira) contada por Freud na Interpretação dos Sonhos, a famosa frase de Euclides da Cunha, parodiada (“O missioneiro era antes de tudo um grosso”), o contraste camponês/marinheiro, tematizado por Walter Benjamin;  sem contar o onipresente fantasma de Riobaldo, até por causa de certas formulações (“bom mesmo era antes e depois das coisas, porque as coisas em si, tocadas, vividas, sempre deixavam a gente no meio de uma paisagem que não tinha mais graça”  ou ainda “entender aquilo que ele mesmo não entendia muito bem e talvez entendesse um pouco melhor junto comigo”; mais?: “O problema maior era botar estribeiras na própria alma” ; e para encerrar: “na hora em que eram contados, eles, o fim e os meios, talvez se mostrassem mais importantes do que quando vividos (…0 Na verdade, ele hoje sabia, os mesmos erros acabavam sendo cometidos durante a vida inteira, e o máximo que se conseguia era errar com conhecimento de causa, o que já ajudava um pouco”).

Penso, no entanto, que ele não precisava explicitar o exercício do “discurso indireto livre” (“O esboço do meu discurso indireto se tornou bem mais fácil desde aquele encontro”)e muito menos a concepção do futebol como uma metáfora (“o futebol desde sempre havia sido uma metáfora formidável”). Parece-me que ele está fornecendo muletas ao leitor, ou dando acenos para  o leitor universitário-acadêmico. Também, numa futura edição, talvez o talentoso autor gaúcho devesse repensar o rebarbativo início do capítulo 24: “O que levava as coisas a seu conhecido desenlace? O que empurrava os homens para seu sabido fim? E que medida havia o destino, em que grau o tal do livre-arbítrio? Um mero presente esquecido podia acabar com toda a ordem de uma vida, e dizem que a mãe de Hitler só último momento desistiu de abortá-lo. Tudo terá acontecido porque a mãe de Hitler era austríaca? Aliás, por que ela era austríaca? Ou terá apenas o fato de ela ter pensado no aborto levado o mundo a mais de vinte milhões de mortos”. Respeito muito a ambição do romance, mas isso é retórica simplesmente.

E não sei se Backes é fã de Seinfeld, mas há uma “panorâmica civilizatória” que é igualzinha a um comentário de Jerry Seinfeld sobre a relação dos homens com seus cães de estimação: “Um homem levava seu guaipeca pra passear (…) E, enquanto o cachorro se retesava todo, forcejava e forcejava, o homem ficava à espea, numa espera paciente, até o canídeo terminar o serviço. Pra depois abaixar e juntar sua merda. E ele dizia que eu devia imaginar um extraterrestre vendo a cena. O que o extraterrestre pensaria?” Mais um exemplo da apropriação do universo da indústria cultural: “às vezes o rastro deixado por godzilla era tão grande, e ele  perguntou se eu vira o filme…”

[4] “A propósito da Itália e da mesma copa, e ele continuava a resenha, a única coisa que Zidane fizera de errado na final, e esse era craque de verdade, um talento com desvelo, fora não ter chutado o tal do Materazzi depois de derrubá-lo com aquela baita cabeçada. Havia horas em que não existia coisa mais honrada do que perder o tal do espírito esportivo, ouvir os apelos da honra, ele achava. E, ademais, como não iria defender a cabeçada do Zidane, se até defendera a mordida que o Tyson, o Mike Tyson, o boxeador, meu guri (…) a mordida que o lutador dera na orelha do Holyfield. Era uma briga mano a mano e nunca alguém fora tão honesto, tão ingênuo, tão puro como aquele animal no ringue quando metera seus dentes…” São os vestígios da hombridade, do homem-herói no mundo sem aura.

[5] E ao contrário do que acontece, por exemplo, em Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, onde o recurso não funcionou muito bem, as referências “contingentes” não sufocam o texto, até permitem que ele seja mais flexível. Yannick pode, no meio de uma digressão, soltar um “sem contar o preço da frolic”.

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