MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/06/2013

Carlos Ruiz Zafón: entre Dickens e Dan Brown


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  28 de março de 2009)

Para  minha querida amiga Maria Amélia, grande companhia destes últimos anos

Um fenômeno interessante de se acompanhar na ficção atual é a vigência (e pujança) do  modelo dickenseniano (o órfão que nos desvela um mundo) em romances ambiciosos:   além das obras do genial John Irving (como As regras da Casa de Sidra e O filho de Deus vai à guerra), tivemos recentemente o deliciosamente esplêndido Sua resposta vale um bilhão(2005), de Vikas Swarup, e acabo de ler O jogo do anjo, publicado ano passado na Espanha. O livro faz parte de uma tetralogia que o catalão Carlos Ruiz Zafón (atualmente com 44 anos; Swarup é apenas dois anos mais velho) está urdindo, misturando diversos registros de linguagem, que vão do folhetim deslavado, do grand guignol, até altas discussões sobre o fazer literário, a história, as religiões. O primeiro título foi o grande sucesso A sombra do vento, que, levado pela idéia de que se tratava de outro Código da Vinci ou outro Caçador de pipas, eu ignorei. E, para ser sincero, só me decidi a ler O jogo do anjo porque me foi emprestado por uma amiga muito querida, cujas opiniões sobre livros, mesmo que difiram das minhas, eu prezo muito.

A primeira coisa a se destacar no romance de Zafón é que ele se alinha aos escritores atuais que ainda apostam no requinte retórico, como o Ian McEwan de Reparação ou o Alan Pauls de O Passado. É um prazer ler o portentoso texto, em todas as suas modulações (imagens, descrições, reflexões, diálogos) mesmo que às vezes a trama adquira contornos pífios, e até maçantes, pela previsibilidade. Será que ele avaliou o risco de abarcar mesmo todos os registros possíveis, até aqueles que coincidem com as receitas mais baratas dos mais reles best sellers?

A narrativa em primeira pessoa é feita por David Martín, começando em 1917, concentrando-se muito no final da década de 20, e com um epílogo em 1945. Martín tem a idade do século XX: escritor bem sucedido de histórias sanguinolentas, góticas e enfarruscadas, aluga uma casa bizarra, com um passado obscuro. Cansado de escrever na linha grand guignol e apaixonado por Cristina, secretária do seu protetor, escritor mais velho, Pedro Vidal (o qual guarda um segredo relacionado ao violento assassinato do pai do narrador), ele decide interromper uma série popular (A cidade dos malditos) e produzir dois romances ao mesmo tempo: um deles, de seu próprio punho, e mais “autêntico” com relação às suas ambições literárias (Os passos do céu) e, auxiliado por Cristina, que lhe traz os manuscritos capengas que eles, mais do que copidescam, acabam por reescrever, um romance de Vidal (A casa das cinzas). Tudo isso porque recebeu de um médico a notícia de que teria pouco tempo de vida devido a um tumor cerebral.

Pois bem, os dois livros são publicados ao mesmo tempo: o de (hãhã) Vidal se torna um clássico instantâneo, o de Martín-ele mesmo é ignorado e achincalhado, ao ponto de ser criticado como imitador do outro. Seu destino é ser enterrado num misterioso Cemitério de Livros Esquecidos, no qual David Martín (D.M.) encontra um manuscrito, Luz Aeterna, datilografado por um D.M. na mesma máquina (uma Underwood) que foi um dos atrativos para que nosso herói alugasse sua casa. Diga-se de passagem, o último proprietário chamava-se Diego Marlasca (D.M.) e seu fim fora misterioso.

Para cúmulo dos infortúnios, Cristina e Vidal se casam. Sozinho, desiludido, fracassado, Martín recebe a proposta de escrever um livro que “crie uma religião” (e cuja descrição se parece com o ideário fascista, que a Espanha logo conhecerá com Franco) de um editor “francês”, Andréas Corelli, o “anjo” do título (e que já se comunicara por escrito com ele algumas vezes antes de aparecer pessoalmente na história). Martín passa uma noite na casa de Corelli e acorda curado da sua doença, embora comece a ser suspeito (é seguido e importunado por três policiais, um simpático, inspetor Grandes, e dois truculentos) de crimes que vão se sucedendo (os primeiros a morrer são os editores que exploravam o talento de Martín com um contrato draconiano) na colorida e diversificada Barcelona.

Cada vez mais intimidado por Corelli, horrorizado e ao mesmo tempo fascinado pelo texto que escreveu para ele (tanto que não consegue destruí-lo), Martín começa a investigar o passado da sua casa e a verdade sobre a morte de Marlasca…

Bom, acho que isso dá uma idéia mínima do que ocorre em boa parte de O jogo do anjo. E não há como negar que clichês à parte (casa mal assombrada, passagens secretas, aparições sobrenaturais, crimes que parecem sempre apontar para o “homem errado”: o protagonista) é tudo muito envolvente e acima da média. O problema é o excesso, a intoxicação de dados ficcionais que estrangulam a narrativa e fazem com que seu terço final se assemelhe cada vez mais com um balão que murcha, murcha, pela impossibilidade de se resolver a narrativa, tal como foi armada, de uma forma satisfatória. Então, o autor nos empurra goela abaixo a providencial burrice do seu herói (é difícil de alguém com o background folhetinesco e grand guignol que ele carrega não adivinhar que Diego Marlasca nunca poderia estar morto, que o policial que foi afastado do caso por investigar demais, na verdade é um dos vilões, e que Cristina, a heroína, foi atacada por Corelli por sua tentativa de ler o manuscrito maldito do amado, e por isso vai parar num sanatório, estropiada e semi-catatônica… e, incrível, ele não relaciona um fato com outro!!!!), uma narrativa que vai se encaminhando, como muitos filmes que desperdiçam seus engenhosos argumentos, para a luta corporal como forma de resolução dos conflitos (Martín lutando com o simpático, mas corrupto, inspetor Grandes num teleférico; Martín em luta com o demoníaco Marlasca no quarto secreto da casa onde ambos moraram) e, por fim, a aceitação pacífica de uma sobrenaturalidade espúria pairando sobre a trama e o real, gerando até personagens imortais que repetem ciclos de tormento e maldição (D.M); apesar de haver um aspecto interessante nisso, que é a ligação com a luta pela imortalidade através das palavras e da literatura. Mas Zafón vem, ele mesmo, acrescentar um toque de senso comum piegas que ajuda a entornar o caldo: há uma personagem a que não me referi até agora (talvez porque ela seja um dos elementos irritantes e excessivos de O jogo do anjo), Isabella, que se apresenta a Martín como aprendiz de escritora, que vai morar na casa dele e que aparecerá com a seguinte pérola lá pela página 316, “resolvi que prefiro viver a vida a escrevê-la”. Ta bom, Zafón… Ah, a nostalgia de VIVER a vida. Nada mais certeiro para abalar um bom romance do que essa falácia.

_____

O jogo do anjo (El Juego del Angel, Espanha-2008), de Carlos Ruiz Zafón. Tradução de Eliana Aguiar. Editora Objetiva- Selo Suma de Letras (que cafona!), que apresenta uma das mais horrendas capas que já vi na vida. 410 páginas. R$ 42,90.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: