MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/05/2013

O interesse ininterrupto pela vida de Isabel Archer: “Retrato de uma senhora”, de Henry James

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(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de abril de 1997)

Henry James (1843-1916) é provavelmente o maior escritor do final do século passado (e começo deste) e RETRATO DE UMA SENHORA (The Portrait of a lady, 1881) é um dos seus melhores romances. Quando saiu pelo Círculo do Livro, a tradução de Gilda Stuart foi considerada por mim o acontecimento literário mais importante de 1993. Agora que o (discutível) Retrato de uma mulher, de Jane Campion (a mesma do risível O piano), está em cartaz, o leitor pode encontrar a mesma tradução publicada pela Companhia das Letras.

O “retrato” de Isabel Archer (no filme, apesar das barbaridades cometidas, ela é vivida por uma fulgurante Nicole Kidman, que ganhou alguns dos closes mais bonitos do cinema), a moça americana que vai para a Europa e se torna centro das atenções de vários personagens que querem saber “no que vai dar a sua vida”, pertence à primeira fase da produção jamesiana, dedicada ao tema do cosmopolitismo, isto é, das relações entre americanos e europeus, e suas mútuas influências e incompreensões.

A questão do vai acontecer à vida de Isabel é uma das várias e fascinantes versões da literatura oitocentista para a problemática da mulher (basta lembrar de Madame Bovary, Ana Karênina, Casa de Bonecas). Isabel tem diante de si a liberdade absoluta, pois é órfã, maior de idade, independente, inteligente, compassiva, com uma curiosidade insaciável (e ainda por cima, graças a seu primo, Ralph, herdeira de uma fortuna).

Nem por isso deixa de embarcar num matrimônio que se revela um verdadeiro Titanic: Gilbert Osmond (que o afetado canastrão John Malkovitch estraga no filme) casou-se com ela graças a uma conspiração traiçoeira, infame mesmo, e acaba odiando-a (e agindo de maneira  odienta), quando não a humilha, sempre que pode, procurando destruir sua confiança em si mesma: “Ela podia reviver o incrédulo temor com que se dera conta da dimensão da sua morada. Entre aquelas quatro paredes, ela passara a viver desde então; iriam rodeá-la até o fim da vida. Era a casa das trevas, do mutismo, do sufocamento. A bela mente de Osmond não deixava entrar nela nem luz nem ar, a bela mente de Osmond, na verdade, parecia espiar por uma pequena janela lá do alto e zombar dela.” (no original: “She could live it over again, the incredulous terror  which she had taken the measure of her dwelling. Between those four walls she had lived ever since; they were to surround her for the rest of her life. It was the house of darkness, the house of dumbness, the house of suffocation. Osmond´s beautiful mind gave it neither light nor air; Osmond´s beautiful mind, indeed, seemed to peep down from a small high window and mock at her.”)

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Mesmo antes, no decorrer da trama,  há uma asfixiante aparição de pretendentes, como se toda a vida da mulher fosse um “estado de espera pelo homem certo”. É por isso que, à exceção do primo Ralph (curiosamente assexuado, muito mal encarnado nas telas, mas indiscutivelmente um dos dois personagens que roubam o livro)  e do seu pai, Mr. Touchett, não se tem simpatia por nenhum personagem masculino, nem por Osmond, nem por Lord Warburton ou por Caspar Goodwood, pretendentes de Isabel, sequer por Rosier, pretendente de Pansy (a filha de Osmond).

Tudo é contado num vertiginoso aprofundamento psicológico, realizado num estilo riquíssimo em humor, metáforas e imagens, como na cena em que Isabel, a “nossa farfalhante heroína” recebe uma visita inesperada de Goodwood e o ferino narrador conta que ela se olhou no espelho e “esperou por ele, mais empertigando o espírito do que arranjando o cabelo”. E é pela falta de ironia e humor (que fazem de Ralph um personagem tão marcante) que a crítica em geral, e com toda a razão, tem recriminado o filme.

De fato, uma das frases ácidas de Ralph para dizer a Isabel o porquê de não gostar de Osmond (mas quem gosta?), “ele se leva a sério demais”, poderia ser usada contra Jane Campion. Porém, isso acaba sendo uma qualidade inesperada de Retrato de uma mulher. O leitor de RETRATO DE UMA SENHORA fica tão entretecido com o modo maravilhoso como James conta sua história, com a sua requintada finura psicológica, que ás vezes não se dá conta do lado mais sombrio e desagradável, do lado mais cruel e angustiante, essência dissimulada de várias fabulações do genial ficcionista norte-americano, que muitos não percebem, terminando por considerá-lo enfatuado e artificioso. E a versão cinematográfica transmite bem esse aspecto mais dramático e sufocante do livro, especialmente a atmosfera do casamento, embora não seja lá muito feliz em outros momentos.

Voltando ao texto, a maestria de James também se revela nos diálogos de RETRATO DE UMA SENHORA, os mais extraordinários que a história do romance já conheceu. E, é claro, há Madame Merle (o outro personagem, além de Ralph, que rouba a cena). Quando, nesta minha coluna, celebrei a tão esperada tradução de Gilda Stuart, afirmei que as maiores atrizes se estapeariam para interpretá-la, pois essa admirável intrigante (que empurra Isabel para o casamento e quase destrói sua vida) é um personagem de infinitas nuances. Barbara Hershey, ao dar conta do recado de maneira notável, inscreve-se, portanto, no rol das maiores atrizes.

Quanto à Isabel Archer, seja nas páginas da obra-prima de seu criador, seja no claro-escuro a cores cinematográfico, continua atraindo pretendentes para si, pessoas que querem saber “no que vai dar a sua vida”. E todos continuarão a ficar em suspenso, na expectativa (e isto frustra muita gente), pois a história termina antes de o retrato ser completado.

A história termina, mas o retrato de Isabel continua a crescer dentro de nós, pretendentes que nunca deixaremos de assediá-la, perguntando sem cessar qual sua escolha definitiva. E sua reposta será nossa própria experiência da vida, do tempo, da dor, do prazer e da morte.

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DÖBLINENSES: Berlin Alexanderplatz (duas resenhas e anotações de leitura)

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DUAS VERSÕES DE UMA MESMA RESENHA

“E Franz começa a observar a cidade como um cão que perdeu o rastro. Que cidade é esta, que cidade gigantesca, e que vida, que vida já levou nesta cidade….”

Apesar das qualidades da pioneira tradução de Lya Luft (lançada em 1995), a nova versão de Berlin Alexanderplatz, feita por Irene Aron, é realmente admirável, vibrante, colocando o leitor brasileiro atual no coração do projeto literário que norteou essa obra-prima de Alfred Döblin publicada em 1929: “escrevei como sempre, sem plano, às cegas, sem diretrizes, construí uma fabula, a linha era: o destino, a movimentação de um homem até então fracassado. Podia confiar na linguagem; a linguagem falada de Berlin, podia criar a partir dela… Dizem que imitei o irlandês Joyce. Não tenho necessidade de imitar quem quer que seja. A linguagem viva que me rodeia é suficiente para mim… O simples operário dos transportes, Franz Biberkopf, falava como berlinense e era um ser humano…”

Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo que pode ser repulsivo ou cativante, é questão de gosto: grandalhão (“forte como uma cobra naja”), glutão e beberrão, espancou até a morte a amante a quem cafetinava. Depois de cumprir sua pena, tenta levar uma vida “decente” na Berlim dos anos 20, assolada pela inflação e ainda amargando a derrota na Primeira Guerra, vendendo jornais. Sempre traído, envolve-se com os membros de uma quadrilha, e após um assalto (do qual participou incautamente) é atirado de um carro em movimento, perdendo um braço.  Nem por isso desiste. Acolhido por antigos amigos, arranja nova amante, Mieze, a qual é assassinada pelo mesmo homem (Reinhold) que fizera dele um aleijado.  Uma vida de lúmpem (aquela camada da sociedade abaixo dos proletários), misturando o naturalismo, na sua panorâmica urbana, e o expressionismo tipicamente alemã, na sua deformação dos dados da realidade, hipertrofiada ao ponto do pesadelo, de uma forma ironicamente “épica” (como será também o teatro poderoso do amigo de Döblin, Bertolt Brecht). Veja-se a narração “épica” de uma refeição:

“…tem diante de si um prato fumegante de bife rolê, molho e batatas e está prestes a engolir tudo aos bocados… corta, amassa sua porção e empurra-a na boca, rápido, uma garfada, mais uma, mais uma, mais uma e, enquanto trabalha, para dentro, para fora, para dentro, para fora, enquanto corta, amassa e devora, fareja, saboreia e engole, seus olhos observam, seus olhos examinam a sobra sempre menor no prato, vigiando-o por todos os lados como dois cães raivosos… Pronto, agora terminou, agora se levanta, molenga e gordo, o sujeito limpou o prato, agora só falta pagar… Então o sujeito gordo sai, resfolega, afrouxa o cós da calça para dar mais lugar à barriga. Carrega no estômago um bom quilo e meio só de comida. Agora começa a função em sua barriga, o trabalho, agora a barriga tem o que fazer com tudo o que o sujeito mandou para dentro. Os intestinos se mexem e remexem, giram e rodam como minhocas, as glândulas fazem o que podem, expelem seu suco naquela coisa, esguicham como os bombeiros, de cima escorre a saliva, o sujeito engole, o líquido flui para os intestinos, ocorre a investida sobre os rins, como na semana de liquidações das lojas de departamentos… É assim que caminha o mundo”.

Mas não é à toa que se fez o paralelo com o autor de Dublinenses e Ulisses (“Quando eu escrevia a primeira parte do livro não conhecia Joyce. Mais tarde, sua obra encantou-me… Uma mesma época pode dar ensejo a coisas parecidas e até mesmo iguais em lugares diferentes, independentemente umas das outras. Não é difícil de compreender”). Afinal, aqui encontramos os mais diversos e criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, a linguagem das ruas, o desbocamento. Há a inclusão de noticiários, reclames, de montagens cinematográficas, formando um “mosaico” urbano fabuloso, no qual também abunda a paródia, inclusive a de muitos trechos bíblicos, caso do “Eclesiastes”: Cada coisa qualquer coisa tem seu tempo e todo propósito sob o céu tem sua hora… Cada coisa tem seu tempo. Por isso percebo que não há nada melhor do que ser alegre...”

O Biberkopf de Döblin pode ser tomado, com sua boçalidade, sua truculência, como  um ainda brando precursor de Moosbrugger, o sociopata que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar sob a ambígua influência de traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e pela morte brutal de Miese, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

 Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que povoam o livro, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra,aquelas multidões que compõem o espetáculo do fascismo.

(versão completa da resenha publicada  originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 29 de setembro de 2009)

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O ANTI-HERÓI DE UM AUTOR DEMOLIDOR

   Péssima e inadequada, a capa escolhida para a tradução de Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin, nos mostra um homem colocado diante de um céu carregado. Temos, então, o estereótipo do ser humano angustiado, como se fôssemos aqueles heróis gregos, prometéicos, lutando contra a fatalidade.

Nada disso tem a ver com Franz Biberkopf, o anti-herói do livro de Döblin, publicado em 1929. Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo quase repulsivo, grandalhão (“forte como uma jibóia”), glutão e beberrão, e que espancou até a morte a amante de quem era quase um cafetão (“pode acontecer com qualquer um dar uns tapas quando está de porre”). Ao sair da prisão, tenta levar uma vida “decente” vendendo jornais. Envolve-se num assalto, é atirado de um carro em movimento, perde um braço e acaba nos mostrando, apesar de “não aprender nada nem discernir nada”, como afirma o narrador, através de sua trajetória, a vida numa grande metrópole no final dos anos 20. Uma vida sem grandeza, valores (a não ser aqueles proclamados de forma sentimental, oca ou hipócrita), nada que nos inspire simpatia, transcorrendo em ambientes sórdidos (“lá pelas nove liberaram seus cotovelos, meteram charutos nas bocas gordurosas e começaram a soltar, com arrotos, o cálido vapor da comida”), entre gente de mentalidade mesquinha, e sempre com um pé na miséria.

Na quarta parte do romance, em meio a uma panorâmica dos moradores das ruas em volta da Alexanderplatz, há um trecho revelador, no qual o narrador fala diretamente ao leitor: ‘Finalmente, ao lado, um oficial de padeiro com sua mulher, que trabalha numa tipografia e tem inflamação nos ovários. Desejaria saber o que esses dois têm na vida? Bem, primeiro um tem o outro, depois, no domingo passado, tiveram teatro e cinema, uma ou outra reunião da Associação, e visita aos pais dele. Mais nada?  Ora, não exagere, senhor. Ainda há o bom tempo, o mau tempo e assim por diante. E o que mais vocês têm?, você, quem quer que seja? Não se iludam.

De vez em quando faz bem à literatura de um país aparecer um autor demolidor, que sacuda o bom-gosto literário, que faça uso da linguagem das ruas, que atole o leitor no desagradável. É o caso de Döblin (e também do seu amigo Brecht, no teatro; ambos, herdeiros do expressionismo e do naturalismo, fazendo cruzamentos inesperados entre essas duas formas de apreender o real) na literatura alemã e, alguns anos depois, de Céline, na francesa.

É possível que, num certo sentido, o autor de Berlim Alexanderplatz vá ainda mais longe do que o raivoso autor de Viagem ao fim da noite & Morte a crédito porque apresenta maiores e mais criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, o desbocamento e as pequenas histórias paralelas. Há a inclusão de noticiários, reclames, de pastiches e paródias, de montagens cinematográficas.

O Biberkopf de Döblin parece, com sua boçalidade, sua truculência, e um certo fundo sociopata, um precursor de Moosbrugger, o assassino que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar à mercê do traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e que assassinará Miese, uma das amantes de Biberkopf, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que compõem Berlim Alexanderplatz, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra. Assim como no Brasil de hoje. Quem tiver olhos para ver que fique atento para o que um neofascista pode conseguir com todos os excluídos que estão literalmente nos sitiando. Olhos para ver e ler a terrível advertência que nos chega bem atrasada, mas em hora oportuna.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 27 de fevereiro de 1996)

 

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ANOTAÇÕES DA  RELEITURA DE 2009

INTRODUÇÃO

“O ex-presidiário de casaco amarelo de verão, o sujeito grandalhão, andou para trás do sofá, pegou seu chapéu, espanou-o, colocou-o sobre a mesa, tirou seu casaco, tudo em silêncio, desabatoou o coleto: Aqui, olhem, minha calça. Eu era gordo assim e ela ficou larga desse jeito, cabem dois punhos grandes juntos, de tanto passar fome. Foi-se tudo. A pança toda para o diabo. É assim que vem a ruína, porque nem sempre a gente é como deveria ser. NÃO ACREDITO QUE OS OUTROS SEJAM MUITO MELHORES. Nada, não acredito não. Querem é enlouquecer a gente.

      O castanho cochichou para o ruivo: Pronto, aí está. Está o quê? Ora, um presidiário. E daí? O egresso: Aí dizem: a gente está livre e vai preso de novo  no meio da sujeira e ainda a mesma sujeira de antes. Não há razão alguma para rir. Voltou a abotoar o colete: Estão vendo o que fizeram. .. É, será que não somos nada só porque fizemos algo errado? Todos podem se erguer de novo, todos que cumpriram pena e podem ter feito o que for (Arrepender-se o quê! É preciso desafogar-se! Sair batendo! Depois tudo fica para trás, depois tudo pasa, o medo e o resto)… Meu ome é Biberkopf, Franz. Bonito de sua parte ter me acolhido.Meu passarinho já cantou no pátio. Ora, viva, tudo vai passar. Os dois judeus lhe apertaram a mão, sorriam. O ruivo reteve sua mão por um tempo, radiante: Ora,o cavalheiro está mesmo melhor ? E será um prazer, se o cavalheiro tiver tempo, passe por aqui. Obrigado, farei isso, tempo é fácil de achar, só dinheiro é que não…. Acompanharamo homem até a porta… O ex-presidiário, caminhando ereto, sacudiu a cabeça, balançou os braços no ar (a gente precisa de ar, ar, muito ar, e mais nada)~: Não se preocupem. Podem me deixar seguir adiante, fiquem tranquilos. O senhor falou sobre os pés e os olhos. Esses ainda tenho. Ainda não foram arrancados por ninguém… E lá se foi caminhando sobre o pátio estreito, atulhado, os dois ficaram olhando para ele do alto da escada. Tinha o chapéu-coco enterrado sobre o rosto, resmungou quando meteu o pé numa poça de óleo: Droga de veneno. É hora dum conhaque. Quem se aproximar vai levar um soco na cara. Vamos ver onde se consegue um conhaque…”

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   Como saiu há pouco tempo a versão em DVD do magnífico filme seriado que Rainer Werner Fassbinder extraiu de BERLIN ALEXANDERPLATZ, é bem-vinda uma nova tradução da obra-prima de Alfred Döblin (1878-1957), publicada originalmente em 1929, e que pertence àquele grupo de romances do alto modernismo (dos anos 20 e 30) que redefiniram a ficção (é o caso de Ulisses, de Joyce, 1922; Mrs. Dalloway, de 1925, e os demais romances de Virginia Woolf dessa fase; O processo & O  Castelo, de Kafka, publicados postumamente nos anos 20, assim como a publicação dos últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; O som e a fúria, de Faulkner, é de 1929; temos também A montanha mágica, de Mann, em 1924; O lobo da estepe, de Hesse, é de 1927; fora esses, o autor maior do Modernismo que mais tem a ver com Döblin, o francês Louis-Ferdinand Céline, publicaria suas duas obras-primas, Viagem ao Fim da NoiteMorte a crédito, respectivamente em 1932 e 1934… A diferença entre os dois é que, enquanto Döblin se mantém ironicamente afastado do seu “herói”, Franz Biberkopf, Céline, de uma forma visceral e ainda praticamente insuperada, quase que anula a distância entre ele, autor, e seu narrador em primeira pessoa, inaugurando uma elaboradíssima forma de “função expressiva ou emotiva” da linguagem).

Na história do pé-rapado Franz Biberkopf, a partir do momento em que sai do presídio (por homicídio culposo resultante de agressão física) e adentra por uma fervilhante Berlim, Döblin juntou o romance naturalista, esmiuçados dos avessos burgueses, de Zola; a linguagem do expressionismo, uma das grandes contribuições da arte alemã do início do século XX, e que foi um dos fundamentos do que se fez de melhor no cinema mudo, além de influir em toda a estética posterior, por exemplo, nos filmes noir e na obra de Orson Welles, até no tardio A marca da maldade; a poesia da paisagem urbana, que Walter Benjamin identificou como uma das mais duradouras contribuições de Baudelaire ao imaginário ocidental, e que foi incorporada nos maiores romances modernistas, que tem a cidade-labirinto como personagem tão importante quanto o herói da trama; o romance-mosaico, exercitado pelo norte-americano John dos Passos (1919; Manhattan Transfer), que atropela a voz do narrador “culto” com a linguagem das ruas, os anúncios publicitários, o cinema e a linguagem das manchetes de jornal; além de um exercício de solilóquio narrativo, em que uma voz entre parênteses faz o papel de “sombra” de Franz Biberkopf, desfazendo e corroedo seu projeto de levar uma vida decente e acomodada, a partir do momento em que recupera a liberdade.

O livro também recupera um recurso tanto do folhetim quanto do romance picaresco ao apresentar em cada uma de suas nove partes um resumo das peripécias de Biberkopf  “em liberdade”. E se vale da técnica altamente livre e flexível desse gênero, fazendo os encontros de Biberkopf com outros personagens prescindirem de uma verossimilhança ou causalidade estritas (como os dois judeus do trecho citado).

Temos, também, um romance arrepiante na sua maneira profética de mostrar que razões e que mentalidade levaram o zé-povinho alemão dos tempos de derrota da 2a. guerra e da inflação monstruosa a aderir ao ideário nacional-socialista e permitir a ascensão de Hitler, como um “salvador da pátria” (o adjetivo “arrepiante” vem das similaridades com certos aspectos da mentalidade brasileira).

Enfim, um dos grandes romances do século XX. Eu já o li na versão anterior, de Lya Luft, publicada em 1995 pela Rocco. Me parece que essa versão nova, de Irene Aron, é mais arrojada, menos formal… Vamos ver…

ANÁLISE DE UMA DAS PARTES DO LIVRO

“Caminha de braço dado com Lina, olha em volta da rua escura. Bem que poderiam acender mais lâmpadas. O que as pessoas querem da gente, primeiro as bichas com quem não temos nada a ver, agora os vermelhos. Que me importa tudo isso, que limpem a própria porcaria. Deviam deixar a gente ficar sentado onde está;nem deixam a gente beber uma cerveja sossegado. Queria mesmo é voltar e deixar em pedaços o boteco de Henschke. De novo, os olhos de Franz lampejam e pulsa, incham-lhe a testa e o nariz.(…) Franz matou a noiva a pancadas, Ida,o sobrenome dela não vem ao caso, na flor de sua juventude. Isso aconteceu numa discussão entre Franz e Ida, na casa da irmã dela, Minna, durante a qual, em princípio, os seguintes órgãos da mulher sofreram lesões leves: a pele sob o nariz, na ponta e no meio, o osso subjacente com a cartilagem, o que, porém, só foi percebido no hospital, e, mais tarde, teve papel importante nos autos do processo; além disso os ombros direito e esquerdo sofreram leves contusões, com sangramento. Mas depois o palavreado se torna mais vívido… Na mão, nada além de um pequeno batedor de creme chantilly… E foi esse batedor de creme com a espiral de arame que ele, num imulso duplo, arremessou contra o tórax de Ida… o tórax da delicada moça não estava adaptado ao contato com o batedor de creme (…) Franz, como um leão aos urros, teria matado a pancadas a pessoa lesada se a irmã não viesse aos saltos do  quarto ao lado. Diante dos clamores desta mulhere, ele saiu em retirada e à noite foi apanhado por uma patrulha da polícia perto da casa dele.”

Para quem deseja ter uma boa idéia do que foi a alta ficção do Modernismo,  o que ela trouxe de novo à ficção urbana consagrada por Balzac & Dickens, eu sugiro a leitura da Segunda Parte de BERLIN ALEXANDERPLATZ. cujo resuminho folhetinesco é o seguinte: “Franz Biberkopf entra em Berlim/ sai à procura, é preciso ganhar dinheiro, sem dinheiro o homem não vive/ Sobre a feira de louças de Frankfurt/ Lina dá o recado aos boiolas/ O Hasenheide, Novo Mundo, se não é isto, é aquilo, não se deve tornar a vida mais difícil do que é/  Franz é um homem de envergadura, sabe o que deve a si mesmo/ Dimensões deste Franz Biberkopf. Ele pode competir com antigos heróis” (isso no índice,no intróto já temos as inquietantes afirmações seguintes: “Mas não é um homem qualquer este Franz Biberkopf. Não o chamei aqui para um jogo e sim para viver uma dura, verdadeira e esclarecedora existência… Vocês verão como se manteve decente durante semanas. Mas isso de certa maneira é apenas um adiamento”).

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Essa Segunda Parte começa no Paraíso com Adão e Eva,  depois vemos graficamente caracterizados os diversos setores econômicos e de serviços de uma cidade como Berlim. Na página seguinte, citam-se  decisões legislativas e judiciárias. Depois se fala da meteorologia (antecipando o uso que Robert Musil fará desse recurso em O homem sem qualidades), da tarifa dos bondes elétricos, de logradouros segundo a lista telefônica de 1928,  dos trens que chegam do Mar Báltico e dos turistas (“Onde as pessoas arranjam tanto dinheiro para viajar“); depois, temos vinhetas sobre alguns passageiros que embarcam numa determinada parada na linha 4 do elétrico, e  um deles é um rapazola de quatorze anos, cujo futuro inteiro nos é narrado em  poucas linhas (de uma forma sensacional); depois, temos o diálogo entre um ex-professor viciado em morfina e um rapaz que enfrentou o chefe “em bom alemão” e talvez tenha perdido o emprego (e agora está no boteco com medo de enfrentar a mulher): “Nunca se deve falar em bom alemão em certas situações. Se o senhor tivesse falado francês com o homem, ele não teria compreendido e o senhor ainda estaria dentro”.

Ainda vemos uma mocinha que se encontra com um senhor mais velho, com os qual tem relações das mais suspeitas. Todo esse caleidoscópico movimento ocupa umas dez páginas e aí então Biberkopf  reaparece na narrativa, tentando se tornar vendedor de qualquer coisa, sendo aconselhado por seu amigo Gottlieb e sempre com o seu mote, a decência, a necessidade de uma existência estável.  Sem nem ao menos ter uma colocação garantida no mercado, ele se encanta com a oratória de um sujeito que faz uma diatribe contra a feira de Frankfurt (uma passagem que me lembrou aquele momento antológico dos comícios agrícolas de Madame Bovary, onde há uma retórica vazia e ao fundo o que realmente interessa na narrativa, no caso, a disposição simplória e franca, sem má fé, do perdedor nato) e se inscreve como membro da associação comercial, embora nem tenha dinheiro para pagar a inscrição.

Biberkopf arranjou uma namorada, a polonesa Lina. Vemos os dois num passeio, num quiosque onde se vende jornais, onde de passagem ouvimos o seguinte comentário de algum cidadão: “Veja como as pessoas estão embrutecidas: um cara desses ataca uma moça no bonde e quase  a mata de tanto bater por causa de 50 marcos” e a réplica de um outro: “Por esse dinheiro faço a mesma coisa… É um monte de dinheiro para gente como nós, um montão, meu senhor. Pois então, quando souber  o que são 50 marcos, continuamos a nossa conversa“.

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Franz vira homem-propaganda na frente de uma loja anunciando presilhas de gravatas (o seu discurso, ele que é apaixonado pela oratória dos outros, é uma delícia). “Mas isto não basta a Franz Biberkopf”. E ele  conversa com um vendedor de panfletos com histórias eróticas, de “educação sexual”, algumas delas fazendo a apologia do homossexualismo tanto masculino quanto feminino.Para se ter uma idéia do teor desses panfletos: “Um careca sai para passear uma noite e encontra…um jovem bonito que logo lhe dá o braço… e então o careca sente a vontade… de, naquele instante, ser muito meigo com o rapaz. É casado,já percebera algo várias vezes, mas tem de ser agora… Você é meu raio de sol, meu torrão de ouro… Venha, vamos a um hotelzinho. Você me presenteia com cinco marcos ou dez, estou totalmente liso. O que você quiser, meu sol…

   Mas no quarto há orifícios na porta. O senhorio vê algo e chama a patroa, que também vê algo. E mais tarde dizem que não admitem tal coisa em seu hotel, viram aquilo, e ele não pode negar… e ele deveria envergonhar-se de seduzir rapazes, iriam denunciá-lo. O criado e uma arrumadeira aparecem também e sorriem ironicamente…

 … E certo dia… sua esposa tem de assinar uma intimação por ele.Ela abre o envelope e lá está escrito tudo sobre os orifícios e a carteira e o rapaz simpático.E quando o careca retorna… todos estão chorando por causa dele, a patroa, as duas filhas crescidas. Ele lê a intimação, isso não pode ser verdade,é a burocracia atrasada inventada por Carlos Magno, e que chegou até ele agora… SenhorJuiz, o que foi que eu fiz?… Fui para um quarto e lá me fechei. Que culpa tenho eu se lá puseram furos. E não aconteceu nada de condenável. O jovem confirma. Portanto, o que fiz eu? O careca de casaco de pele chora: Será que roubei? Cometi algum assalto? Apenas assaltei o coração de uma pessoa querida.Disse a ele: meu raio de sol. E isso ele era.

É absolvido. Em casa, era um choro só.”

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Apesar de algumas diferenças de idéias com o vendedor (um diálogo particularmente delicioso), ele simpatiza com a causa e é convidado para um “meeting”  onde se depara com vários casais de mulheres e de boiolas (o termo utilizado com grande felicidade pela tradutora Irene Aron): “Por uma hora, Franz não disse uma palavra, por trás de seu chapéu, soltava risadinhas. Após as dez horas, não pôde mais se conter, teve de sair, as pessoas, a coisa toda, eram engraçadas demais, vários homossexuais num monte só, e ele no meio deles, saiu às pressas e gargalhou até chegar à Alexanderplatz”.

Quem não gosta nada da históra é Lina, que joga todo o material gay em cima do vendedor num acesso de fúria, para admiração e embasbacamento do seu amante: “No botequim, na ponta dos pés, ela se apoia nele, junto a região do corpo que ela supunha ser coração, mas que, sob a camisa de lã, era na verdade o seu esterno e o lóbulo superior do pulmão esquerdo”.

E aí então vem uma narração magnífica de alguns boêmios.E encontramos depois Franz vendendo jornais nacional-socialistas: “Não tem nada contra os judeus, mas é a favor da ordem. Pois é preciso haver ordem no paraíso, isto qualquer um tem de reconhecer” e depois seu confronto com um grupo de comunistas num boteco, cena que nada fica a dever a James Joyce, principalmente pela alusãoirônica às “dimensões deste Franz Biberkopf.Ele pode competir com antigos heróis” (embora um dos rapazes que o provocam o chame de “suástica ambulante”),quando na verdade ele está tomado por um acesso de fúria homicida, berrando e prestes a uma ação desastrosa aos seus planos de decência, ordem, paz e harmonia, um escuro estado de horror que se apossa dele: “algo explodira dentro dele e começa de fato a borbulhar, soltando-lhe as rédeas, uma torrente de sangue perpassa seus olhos… Ele fervilha, cumpriu pena em Tegel, a vida é terrível, que vida é essa… Raiva, paralisia, isso é Franz Biberkopf”.

 

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01/05/2013

“Madrid, Paris, Berlim, S.Petersburgo, o mundo”: Cesário Verde

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I

O dr. Viriato, personagem de algumas histórias de Autran Dourado, adorava recitar o alexandrino (verso de doze sílabas) “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! de O sentimento dum ocidental, obra-prima de Cesário Verde que abre e fecha com dois dos mais belos quartetos da língua portuguesa, dignos antecessores do melhor Fernando Pessoa:

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

         Há tal soturnidade, há tal melancolia,

         Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

         Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

                                   (…)

         E, enorme, nesta massa irregular

         De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,

         A Dor humana busca os amplos horizontes,

         E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

O leitor brasileiro agora tem a oportunidade de conhecer toda a obra poética e um pouco da correspondência de um poeta português do século XIX  (morto aos 31 anos, em 1886) tão fascinante quanto Antero de Quental, graças a Ricardo Daunt, que organizou a Obra poética integral de Cesário Verde, publicada pela editora Landy, tirando-o do quase total desconhecimento que já o angustiava em vida: “Ah! Quanto eu ia indisposto contra tudo e contra todos! Uma poesia minha, recente…não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação! Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!(… )literariamente parece que Cesário Verde não existe.”

Bem ao contrário, como Cesário Verde existe, com seu desejo absurdo de sofrer! Ele praticamente introduz a modernidade na poesia portuguesa, com seus finais jocosos, com sua incorporação do espaço urbano, da paisagem da cidade grande e elementos típicos (ele não faz uma poesia “ao gás” que fazia a iluminação pública naquele momento?). Em Proh pudor! comenta o furor cultivado há quase um mês, “modernamente”, pela amada:

 

         “Todas as noites ela, ah! sordidez!

         Descalçava-me as botas, os coturnos,

         E fazia-me cócegas aos pés…”

Esse lirismo insólito, que depois faria praça na poesia do século seguinte, se alimenta do anti-clericalismo (“Eu posso amar-te como o Dante amou/ Seguir-te sempre como a luz ao raio/ Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou / Lá nessa é que eu não caio!”) e do anti-militarismo (eu, que detesto a farda), atacando, bem dentro da tradição de Baudelaire, o leitor: “muito embora tu, burguês, não me entendas”.

Autor de versos perfeitos, de imagens líricas poderosas ainda hoje, ele que afirma, em suas cartas, primeiro do que tudo está a vida”, conclui um poema (Cinismos) no qual deseja falar lugubremente do seu amor enorme e massacrado, expor seu peito descarnado, abrir o seu íntimo sacrário, mostrar os pegos abismais da sua vida, até fazer a amada chorar, com este verso delicioso e moleque: “E eu hei-de, então, soltar uma risada…”

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de dezembro de 2006)

o livro de Cesario Verde

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                                          II

“Eu antes que encaneçam os meus bigodes

Ao meu mister de amar-te hei de pôr meta,

         O coração mo diz —feroz profeta

         Que anões faz dos colossos lá de Rodes.”

Na seção passada já enalteci  a importância de  Obra poética integral de Cesário Verde devido à modernidade que esse grande poeta trouxe ao lirismo lusitano, de um modo similar a Puchkin (que causou celeuma e impacto pelo léxico inusitado que introduziu em sua poesia), na Rússia, e, guardadas as devidas proporções, a Baudelaire, na França. Nós, brasileiros, acossados até hoje pela herança de uma dicção poética bombástica e piegas, somos talvez os maiores devedores do autor dos versos acima (na verdade, a 2a. estrofe de  A forca, poema inaugural da coletânea organizada por Ricardo Daunt), o qual desbravou a vereda seguida décadas mais tarde, e já em outro século, por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade: uma espécie de regurgitação espasmódica e sardônica do pathos sentimental corriqueiro:

“Eu temo muito o mar, o mar enorme,

          Solene, enraivecido, turbulento,

         Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

         O mar sublime, o mar que nunca dorme.

                            (…)

         E ouvindo muito ao perto o seu bramar,

         Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,

         Escarro, com desdém, no grande mar! (Heroísmos)

Devedor confesso de João de Deus (a quem é dirigido o poema Cadências tristes), mas um apaixonado por Paris e pela civilização francesa, Verde certamente fascinou-se com o vasto panorama lírico desencadeado pelas Flores do mal baudelairianas (e ao autor delas aparece explicitamente em Frígida), que instituíram definitivamente a poesia do espaço citadino moderno, o sumo poético a ser extraído do corriqueiro, da paisagem urbana do dia a dia e dos seus tipos humanos: “Sentado à mesa dum café devasso/ Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura/ Nesta Babel tão velha e corruptora/ Tive tenções de oferecer-te o braço.” É um trecho de A débil, cuja protagonista se vê envolvida pela massa: Mas se a atropela o povo turbulento/ Se fosse, por acaso, ali pisada / De repente, paraste embaraçada / Ao pé dum numeroso ajuntamento.”

Talvez em nenhum outro momento, a influência de Baudelaire (e o aproveitamento brilhante que dela faz Cesário Verde, inclusive pela perfeição do seu verso e seu ritmo) apareça de forma tão seminal quanto no extraordinário Num bairro moderno, onde a banalidade das situações casa-se, em mágicos quintetos, com uma visão audaciosa e transfiguradora, que remonta às figuras de Arcimboldo, ao montar um corpo humano com as  ofertas de uma vendedora, uma “regateira”: “Bóiam aromas, fumos de cozinha/ Com o cabaz às costas, e vergando/ Sobem padeiros, claros de farinha / E às portas, uma ou outra campainha/ Toca, frenética, de vez em quando. // E eu recompunha, por anatomia/ Um novo corpo orgânico, aos bocados/ Achava os tons e as formas. Descobria / Uma cabeça numa melancia / E nuns repolhos seios injetados // (…) Há colos, ombros, bocas, um semblante / Nas posições de certos frutos. E entre / As hortaliças, tímido, fragrante / Como dalguém que tudo aquilo jante / Surge um melão, que me lembrou um ventre // E, como um feto, enfim, que se dilate/ Vi nos legumes carnes tentadoras / Sangue na ginja vívida, escarlate/ Bons corações pulsando no tomate / E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.”

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em nove de dezembro de 2006)

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