MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/05/2013

Digerindo memórias num cinco estrelas (ou Samarkan como o nosso exótico)


“De tudo ficou um pouco. Não muito. (Drummond)”

Gostei de um episódio do novo romance (é o quinto, sem contar a novela As larvas azuis da Amazônia) de Edgard Telles Ribeiro, Um livro em fuga: o narrador precisa ir à Brasília e se hospeda na casa de uma antiga namorada, com a qual manteve intermitentes relações amorosas ao longo da existência nômade (ele seguiu a carreira diplomática). Na véspera de sua partida, ela comunica subitamente que está para se casar: “Mas então… nós… esses dias?”… A rigor, nada em nossa relação justificaria cobranças de qualquer tipo. Era o aspecto inesperado da notícia que incomodava, como se a minha existência tivesse recebido um tranco. Sentia-me triste, sem saber por quê”.

Tudo o que ele pode acrescentar, depois que ela informa que aproveitou uma viagem do noivo para “conferir certas decisões” é: “Mas Carla, isso não se faz”. O pior é a sensação de que essa porta, até então sempre esteve aberta, se fechou: “Será penosa minha viagem de volta a Samarkan. Em uma questão de minutos, tornei-me tão remoto quanto o país. E se agora afago a mão de Carla, é para pedir que ingresse com delicadeza em meu passado”.

Um livro em fuga é o relato minimalista, em filigrana, das muitas mudanças desse tipo na paisagem sentimental do protagonista: seu casamento se desfez, sua mãe enfrenta uma doença que desestabiliza seu senso de realidade e sua memória (“Tudo escorrega na minha cabeça, não consigo mais segurar meus pensamentos”), e ele cumpre uma função diplomática numa região em ritmo veloz de mudança, com suas características milenares desfiguradas pela pressa da globalização, além dos efeitos do catastrófico tsunami que marcou nossa década. Enfim, somando tudo, ondas gigantescas varrem a experiência acumulada em sessenta anos.

Toda essa devastação dos diversos passados e realidades, intrincadamente interligados (como o narrador é escritor, assume que seu relato é o romance que está escrevendo, e uma prova de que a literatura é o imponderável liame da existência é a cena em que os personagens de seus livros anteriores tomam assento no restaurante do hotel onde se hospeda; além disso, uma das vertentes exploradas por esse livro em fuga é o contato com dois candidatos a escritores e um deles lhe permite fazer uma homenagem a Lawrence Durrell e seu Quarteto de Alexandria) é muito bem escrita, porém incomoda, desagrada (e enfraquece totalmente o conjunto) o tom complacente adotado, como se a melancolia de um desmanche dos referenciais fosse um dos últimos charmes da civilização e de uma vida banhada em bem estar, o que é evidenciado na cena em que ele almoça com um velho conhecido: “A comida é servida, nossa conversa prossegue em círculos. Não sei bem onde vamos chegar, provavelmente a lugar algum… Dois velhos elefantes digerindo memórias em um restaurante cinco estrelas, no mais remoto ponto do planeta”

Digerir memórias em restaurantes cinco estrelas não é tão difícil assim, não?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 9 de agosto de 2008)

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