MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/05/2013

O UNIVERSO DE MANUEL BANDEIRA MAPEADO POR ELE MESMO


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“Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,

Interessa mais que uma avenida urbana.

Nas cidades todas as pessoas se parecem.

Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda a gente.

Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.

Cada criatura é única.

Até os cães.

Estes cães da roça parecem homens de negócios:

Andam sempre preocupados.

E quanta gente vem e vai!

E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:

Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho

                                                            manhoso.

Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos

                                                            símbolos,

Que a vida passa! que a vida passa!

E que a mocidade vai acabar.”

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(resenha publicada, sem notas de rodapé,  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de maio de 2013)

Calhou ao destino que os nossos dois maiores poetas fossem pernambucanos: João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Manuel Bandeira (1886-1968). Deste último, a Global está relançando a magnífica Antologia Poética, preparada pelo próprio autor, em 1961, na qual reunia o seu cânone pessoal, de A cinza das horas (1917) a Estrela da Tarde (1960), num total de 219 poemas, além de 17 traduções, que vão Bashô a Rilke.

Bandeira já estava bem acima da média, ao estrear em A cinza das horas, aos 31 anos, onde encontramos  poemas do naipe de Cartas do meu avô: “O meu semblante está enxuto/ Mas a alma, em gotas mansas/ Chora, abismada no luto/ Das minhas esperanças”, mas alcançaria a genialidade, ao tematizar a sua posição de “pierrot” no carnaval da vida; diante da “complicada carne”, é um aspirante ao prazer, todavia é como se fosse relegado à posição de observador, anelando por coisas que lhe fossem negadas. Daí, a amarga autoironia, e seu reverso emocionante: uma empatia absoluta pelo que é mais obscuro, relegado e humilde na existência[1]. Assim, temos a sequência maravilhosa de títulos que flertam com o dionisíaco: Carnaval, O ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã.

Embora os dois últimos sejam, talvez, os pontos mais altos de toda a obra bandeiriana, Carnaval  é possivelmente a essência da sua poética. Nos 15 poemas selecionados, uma férrea coesão: a festa da carne exclui os poetas acadêmicos (pulverizados no célebre Os sapos), mas também o próprio eu lírico, que anuncia de saída: “Quero beber! cantar asneiras/No esto brutal das bebedeiras/Que tudo emborca e faz em caco…” (note-se a fatura perfeita dos versos, uma característica inigualável que Bandeira manteve), para constatar adiante: “Insensato aquele que busca/O amor na fúria dionisíaca!/Por mim desamo a posse brusca: A volúpia é cisma elegíaca…//A volúpia é bruma que esconde/Abismos de melancolia…” (e ele ainda estava na casa dos 30 anos ao escrever isso). E ele manterá uma postura similar por toda a vida, como constatamos em Preparação para a morte, de Estrela da Tarde: “A vida é um milagre/ Cada flor/Com sua forma, sua cor, seu aroma/ Cada flor é um milagre/ Cada pássaro/Com sua plumagem, seu voo, seu canto/Cada pássaro é um milagre/ O espaço, infinito/ O espaço é um milagre/O tempo, infinito/ O tempo é um milagre/A memória é um milagre/A consciência é um milagre/Tudo é um milagre; Tudo, menos a morte.”

Agora: como falar brevemente dos 26 poemas escolhidos do extraordinário Libertinagem (1930, o mesmo ano de Alguma poesia, de Drummond)? Não sei dançar, o primeiro, começa de forma indelével: “Uns tomam éter, outros cocaína/Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.”

  E aí é uma sucessão de maravilhas, culminando com a Evocação do Recife: “Rua da União…/Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância/Rua do Sol/ (Tenho medo que hoje se chama do dr. Fulano de Tal)/Atrás da casa ficava a rua da Saudade…/…onde se ia fumar escondido//Do lado de lá era o cais da rua da Aurora…/…onde se ia pescar  escondido (…)// Um dia eu vi uma moça nuinha no banho/Fiquei parado o coração batendo/Ela se riu/Foi o meu primeiro alumbramento.”

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Também em Libertinagem,  a síntese do lirismo de Bandeira que é O impossível carinho: “Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo/Quero apenas contar-te a minha ternura/Ah se em troca de tanta felicidade que me dás/Eu te pudesse repor/Eu soubesse repor/No coração despedaçado/As mais puras alegrias de tua infância!”

Sim, leitor, isso é lirismo, sem pieguice, apesar de roçar o patético e o sentimental. Num dos seus poemas de 50 anos, podemos encontrar outra amostra exemplar: “Espelho, amigo verdadeiro/ Tu refletes as minhas rugas/Os meus cabelos brancos/Os meus olhos míopes e cansados/Espelho, amigo verdadeiro/Mestre do realismo exato e minucioso/Obrigado, obrigado!// Mas se fosses mágico/Penetrarias até ao fundo desse homem triste/Descobririas o menino que sustenta esse homem/O menino que não quer morrer…”

E entre os 12 poemas de “Opus 10”, o poeta cujos “pulmões viraram máquinas inumanas”, o mestre da solidão solidária, nos dá uma de suas declarações poéticas definitivas: “Esse fundo de hotel é um fim de mundo!/Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto/Que deu nome a este morro, põe no fundo/De cada coisa o seu cativo canto.// Ouço o tempo, segundo por segundo/ Urdir a lenta eternidade. Enquanto/Fátima ao pó de estrelas sitibundo/Lança a misericórdia do seu manto.//Teu nome é uma lembrança tão antiga/Que não tem som nem cor, e eu, miserando/ Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.//Falta a morte chegar… Ela me espia//Neste instante talvez, mal suspeitando/Que já morri quando o que eu fui morria.”

Terminemos de forma menos grave (ainda que profundíssima), e mais jocosa (outra feição maravilhosa do nosso poeta-mor): “Atirei um céu aberto/Na janela do meu bem/Quando as mulheres não amam/Que sono as mulheres têm!”

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[1] Na versão de Belo Belo, publicada na Lira dos Cinquent´anos:

“Não quero amar/ Não quero ser amado/ Não quero combater/ Não quero ser soldado. // Quero é a delícia de poder sentir as coisas mais simples”.

Já na coletânea Belo Belo, encontramos um poema-título bem diferente na letra, porém não no espírito:

“Belo belo minha bela/Tenho tudo que não quero/ Não tenho nada que quero/ Não quero óculos nem tosse/ Nem obrigação de voto/ Quero quero/ Quero a solidão dos píncaros/ A água da fonte escondida/A rosa que floresceu/ Sobre a escarpa inacessível/A luz da primeira estrela/ Piscando no lusco-fusco (…)/ Quero quero tanta coisa/ Belo belo/ Mas basta de lero-lero/ Vida noves fora zero.”

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