MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/05/2013

Um mundo em que não se pode confundir uma echarpe com um buquê de dálias: “Acontecimentos na irrealidade imediata”, de Max Blecher


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(a resenha abaixo foi publicada originalmente, sem notas de rodapé ou anexos, em A TRIBUNA de Santos, em 07 de maio de 2013)

Na semana passada, comentei um livro de Diego Moraes, A solidão é um deus bêbado dando ré num trator, onde podemos ler a pungente declaração poética: “Anteontem andei de roda gigante e o cara disse que não era preciso/pagar o ingresso porque eu parecia o avô dele//O mais foda é que só tenho 29 anos”.

Nascido em 08 de setembro de 1909, o romeno Max Blecher nem chegou aos 29 (morreu em 30 de julho de 1938), devido a uma doença degenerativa. Contudo, é como se ele carregasse a experiência de muitas vidas, a julgar pelo assombroso Acontecimentos na Irrealidade Imediata (Întâmplări în irealitate imediată, 1936, num marcante trabalho de tradução de Fernando Klabin), o qual poderia ter sido escrito em nossos dias, quando se fala exaustivamente na pós-modernidade e suas características inquietantes de liquidez e insubstancialização de todas as realidades, afetos e narrativas.

Narrado em primeira pessoa, o texto implode o chamado romance de formação (em que o leitor acompanhava a constituição de uma individualidade) de tal maneira que pode ser tomado como um “romance de desconstrução” de um indivíduo[1].

Numa quermesse, ao ver sua fotografia (uma daquelas tiradas por um lambe-lambe) em exposição, o protagonista comenta: “O fato de que eu me movia, de que estava vivo, só podia ser puro acaso, um acaso que não tinha o menor sentido, pois, assim como eu existia do lado de cá do mostrador, podia existir também para além dele, com a mesma face pálida, com os mesmos olhos, com o mesmo cabelo desbotado que formavam no espelho uma figura fugaz e bizarra, difícil de definir.

Desde criança, através de transes e delíquios súbitos, ele tinha a percepção crua da estranheza do mundo (e da sua falta de transcendência; de fato, poucos textos fizeram uso tão cabal de uma meditação fenomenológica, mostrando que a existência é estar-aí, irremediavelmente contingente), uma “irrealidade imediata” onde as coisas, mais do que os seres, avultam.

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Depois de, numa cena dolorosa e patética, tentar se fundir ao “barro de que são feitas todas as coisas” (e se suicidar, ingerindo um vidro de comprimidos[2], por não conseguir se manter em tal estado adâmico), numa visita à Edda, mulher por quem sente um ininterrupto fascínio,  ele julga ver um buquê de dálias num vaso, mas que na verdade é uma echarpe. Da insólita confusão perceptiva chega à seguinte conclusão: “o mundo tinha um aspecto comum próprio, no meio do qual eu despencara por equívoco; jamais poderei me transformar em árvore, jamais poderei matar alguém, jamais o sangue jorrará em ondas. Todas as coisas, todas as pessoas encontravam-se presas em sua triste e pequena obrigação de ser exatas e nada mais que exatas. Era inútil acreditar que havia dálias dentro de um vaso quando o que havia ali era uma echarpe. O mundo não tinha força de mudar o mínimo que fosse, encontrava-se tão mesquinhamente preso a sua exatidão que era incapaz de permitir que se tomasse uma echarpe por flores…”.[3] Não há escapatória do mundo tal qual, e nesse ponto, Blecher é um praticante circunspecto e desencantado da escrita surrealista, com a qual apresenta certas afinidades. E de fato, entre inúmeros outros pormenores, há o “livrinho preto” que encerra o “perfume autêntico da sua infância”:

    “Eu o encontrara, no meio de outros, em cima de uma mesa, e o folheara com grande interesse. Era um romance banal, Frida, de André Theuriet, numa edição ricamente ilustrada com vários desenhos. Em cada um deles havia a imagem de um garoto de cachos loiros com roupa de veludo e de uma menina gorducha com vestidinho de babados. O garoto parecia-se com Walter[4]. As crianças nos desenhos ora apareciam juntas, ora separadas; compreendia-se bem que se encontravam sobretudo em esconderijos num parque ou debaixo de muros em ruínas. O que faziam juntos? Era o que eu gostaria de saber (…) Alguns dias depois, o livrinho preto  desapareceu sem deixar vestígios. Comecei a procurá-lo por toda a parte. Perguntei nas livrarias, mas parece que ninguém ouvira falar dele. Devia ser um livro envolto em muitos segredos, visto que não podia ser encontrado em lugar nenhum[…].[5]

    De maneira que mantenho até hoje intacta, dentro de mim, a imagem do livrinho preto em que se encerra um pouco do perfume autêntico da minha infância.”

Como nas narrativas oníricas (Sylvie, por exemplo) de Gérard de Nerval (1808-1855), (aliás, precursor do surrealismo), Acontecimentos na Irrealidade Imediata é permeado pelo sexo, de uma feição quase inaudita para sua época, inclusive por assumir as fantasias sexuais como parte integrante da experiência pessoal (diga-se de passagem, a maravilhosa capa da edição da CosacNaify já nos prepara para esse “clima”). Nesse sentido, pouco importa se aconteceram ou não as iniciações sexuais relatadas, o que importa é a sua “presença” efetiva na sua fabulação incessante (mas toda curto-circuitada, pois não há uma “continuidade”, um “nexo causal” entre os episódios) dentro de uma existência cotidiana insuficiente e falsificada: amante do cinema, dos cicloramas, de figuras de cera (ou seja, das “realidades artificiais”), o herói desse anti-romance vê com clareza a impostura do real, ao sair de uma matinê: “na minha ausência, ocorrera no mundo um acontecimento imenso e essencial, uma espécie de triste obrigação de continuar (…) Em tal mundo, submetido aos efeitos mais teatrais e obrigado a cada entardecer a representar um pôr do sol correto, as pessoas ao meu redor pareciam pobres criaturas dignas de pena pela seriedade com que continuamente se ocupavam, acreditando, ingênuas, naquilo que faziam e sentiam.”

Não deixa de ser engraçado que, nessa minha tentativa de resenhar o texto, eu tenha separado uma série de trechos para citações, e acabei escolhendo outros, ao folhear o volume para localizá-los e transcrevê-los. Entre os vários motivos do fascínio de Acontecimentos na Irrealidade Imediata está esse caráter de texto que se oferece à tentação da citação incessante. Em 2013, vai ser difícil aparecer um lançamento de literatura estrangeira que o supere. Nos breves 28 anos que viveu, Max Blecher estava—para me valer de um chavão usado a granel—muito  adiante do seu tempo. Seria melhor para nós que não estivesse.

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ANEXO- TRECHO SELECIONADO:

“Eu fitava de olhos abertos tudo o que havia ao meu redor, mas os objetos perdiam seu sentido comum: uma nova existência os animava.

    Como se tivessem sido subitamente desempacotados de papéis finos e transparentes em que se encontravam envoltos até então, seu aspecto se tornava inefavelmente novo. Pareciam destinados a uma utilização nova, superior ou fantástica, que eu em vão tentaria encontrar.

    Mas não era só isso: os objetos se deixavam tomar por um verdadeiro frenesi de liberdade. Tornavam-se independentes uns dos outros, uma independência que não significava simples isolamento, mas exaltação extática […].

   O que era mais comum e mais conhecido naqueles objetos me perturbava ainda mais. O costume de vê-los tantas vezes provavelmente fizera sua pele exterior ficar desgastada, por isso às vezes eles surgiam diante de mim esfolados e coberto de sangue: vivos, indizivelmente vivos.

     O momento supremo da crise se consumava numa flutuação agradável e dolorosa, que não era deste mundo. Ao menor ruído de passos, o quarto rapidamente voltava ao seu aspecto inicial. Ocorria então entre as suas paredes uma redução instantânea, uma diminuição extremamente pequena de sua exaltação, quase imperceptível; isso me convencia de que uma finíssima crosta separava a certeza em que eu vivia do mundo das incertezas […].

     O quarto conservava vagamente a lembrança da catástrofe, como o cheiro de enxofre que paira no local de uma explosão…”

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[1] “A terrível pergunta `quem realmente sou´ pulsa no meu âmago como um corpo perfeitamente novo que cresceu dentro de mim com pele e órgãos que me são completamente desconhecidos”

   Esse trecho alude aos “espaços malditos”, lugares onde o estranhamento com relação à “irrealidade imediata” parece mais concentrado. Neles, ocorrem as “crises” do narrador. Para dar uma ideia desses espaços amaldiçoados, uma passagem: “As paredes altas do barranco, tanto de um lado como de outro da ladeira, eram abruptas e cheias de fantásticas irregularidades. A chuva esculpira longas tranças de rachaduras finas como arabescos,porém pavorosas como chagas mal cicatrizadas. Eram verdadeiros farrapos feitos a partir da carne do barro, feridas abertas, tenebrosas.” Isso, em espaços abertos; em quartos fechados, a estranheza não é menor (ver ANEXO-TRECHO SELECIONADO).

[2] Revirando gavetas em busca de um veneno, ele nos diz: “Encontrava toda sorte de objetos que não podiam servir para nada: botões, cordões, barbantes coloridos, papeluchos, tudo com um cheiro forte de naftalina. Tantas, tantas coisas, todas incapazes de provocar a morte de uma pessoa. Eis o conteúdo do mundo nos momentos mais trágicos: botões, barbantes e cordões…”

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[3] Digna de nota também é a maneira como ele “percebe” o buquê de dálias. Embaraçado pela falta de um gancho para iniciar a conversação com Edda, “Vi de repente numa prateleira um grande buquê de flores dentro de um vaso. Minha salvação.

     Como eu não as vira antes? Todo o tempo eu concentrava meus olhos naquele canto, desde que entrara. Para comprovar a sua aparição, olhei por um instante para outro lado e depois retornei a elas. Lá no seu lugar estavam elas, imóveis, grandes, vermelhas… Como eu não as observara? (…) Eis que um objeto surgira naquele quarto onde antes não havia nada […]

__ Que flores bonitas aquelas—eu disse a  Edda,

__ Que flores?

__ Aquelas ali, na prateleira.

__ Que flores?

__ Aquelas dálias vermelhas são tão bonitas…

__ Que dálias?

__ Como assim… que dálias?

    Ergui-me e precipitei-me na direção da prateleira. Atirada sobre um monte de livros, uma echarpe vermelha…”

[4] Um garoto que ele só encontra uma vez e com quem tem uma experiência sexual, e que pode muito bem ter saído das páginas do livro.

[5] Ou seja, ele preenche todas as características de um “objeto de sonho” (sonho entendido no sentido francamente freudiano, de realização de um desejo, através da condensação e do deslocamento).

Intamplari in irealitatea imediatamax Blecher en el sanatorio foto del archivo de Saşa Pană

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