MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/04/2013

RAÍZES EM ÁGUAS PARADAS: Os 50 anos de “Verão no Aquário” nos 90 de Lygia Fagundes Telles


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(uma versão do texto abaixo foi publicada como resenha em A TRIBUNA de Santos, em 23 de abril de 2013)

“__ Somos capazes de ódio, mas não somos capazes de indignação, o que é diferente. Deus vai nos vomitar.

__ Não seja pretensiosa, estaremos em outros vômitos, não nesse, compreende?”

I

Em meio às comemorações dos 90 anos da grande Lygia Fagundes Telles (nascida em 19 de abril de 1923), outro marco a ela relacionado: o meio-século de Verão no Aquário, o qual ocupa uma posição ainda desconfortável e problemática: postado entre sua impactante estreia, Ciranda de Pedra (1954) — na qual exercitava de forma maravilhosa o discurso indireto livre (quando o narrador está tão “colado” ao ponto-de-vista do personagem que os discursos de ambos se “contaminam”), —  e a obra-prima As Meninas (1973) — mais polifônica e caleidoscópica —, até pela utilização da convencional narrativa em primeira pessoa esse segundo romance poderia ser tomado, no conjunto da obra, como uma realização mais tímida, menor.

Mas eu acredito que essa opção era essencial, pois a narradora, Raíza, se debate realmente no “aquário” em que transcorre sua vida, sintetizada e concentrada (com maestria) num único verão, especialmente sufocante. Por conseguinte, Ciranda de Pedra, Verão no Aquário e As Meninas, formam, a meu ver, uma belíssima trilogia (um quarto romance, bem mais tardio, As Horas Nuas, de 1989, também não faz feio junto a eles).

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II

“Minha mãe apertou um pouco os olhos. Como eu amava aquele sorriso de Gioconda a insinuar todo um mundo secreto e que jamais seria revelado! Para uma escritora famosa, só mesmo um famoso sorriso, não, mãezinha?”

Devido aos (sempre) inusitados mecanismos da memória, da minha última leitura do livro tinha ficado a imagem um tanto limitada de que ele se concentrava maciçamente na disputa entre Raíza e a mãe (Patrícia, famosa escritora—os demais personagens se referem com certa ironia aos seus livros porque neles sempre há um tom “sublime”) pelo amor de um atormentado ex-seminarista, cuja idade o aproximaria mais da filha: Raíza deseja André para afrontar a postura “olímpica” da mãe e para averiguar se de fato eles são amantes (nunca há uma confirmação cabal).

Não deixa de ser fascinante que Patrícia seja basicamente a personagem mais difícil de acreditar, mais irreal e “literária” de Verão no Aquário e, no entanto, também a que fica mais fortemente marcada em nossa cabeça. Como Lygia Fagundes Telles conseguiu fazê-la não soar postiça? Gastei o bestunto, caro leitor, para tentar descobrir como aconteceu essa façanha (personagem inverossímil num relato de tão vívido realismo = personagem que rouba o livro), e só posso arriscar a hipótese de que, como a vemos pelos olhos de Raíza, pela ótica da sua rivalidade, da sua má fé, do seu amor, da sua admiração ressentida, ela mantém seu mistério e cumpre a função de ser tanto obstáculo quanto figura de passagem para a heroína:

“Fiquei sorrindo e pensando em minha mãe. Tão deusa, tão inacessível, as vinte mil léguas submarinas longe daquela vulgaridade que se pintava diante de mim. E o mesmo triste lado humano na sede de mocidade: o mais velho sempre sugando o mais jovem na ânsia de alguns anos de seiva. E como ela soubera manejá-lo, com que finura conseguira atraí-lo criando uma atmosfera mística de incesto. A sonsa. Mas a mim não iludia da mesma forma que a mulher-gata não iludia o espelho: eu era o espelho da minha mãe, em mim ela se refletia de corpo inteiro. Senti um calafrio. Levantei-me. O suor corria pelo meu pescoço. E se eu fosse um espelho deformador de imagens como o espelho louco do parque de diversões?”

Pois Patrícia é um obstáculo por ser o superego de uma filha que teima em se autodestruir, e também por ser uma guardiã do “decoro”. Como um Thomas Buddenbrook de saias, Patrícia tenta salvar a dignidade familiar, mesmo com o alcoolismo do marido, a alienação da irmã, a loucura do cunhado, os aprontos da filha e da sobrinha, além da opressiva e patética presença de André e a decadência galopante do patrimônio familiar; enfim, o “aquário”: “ajudai a ela para que os que dependem da sua força sejam ajudados também, eu, Marfa, André, tio Samuel, tia Graciana, Dionísia… A frágil família. Tinha ainda o aquário com os peixes nadando em círculo, amigos e inimigos condenados à mesma água…”

E é uma figura de passagem porque Raíza percebe que não pode se conformar às (escassas) opções das mulheres da geração da sua mãe, mesmo que esta seja uma figura tão forte, esteio de uma família pusilânime e combalida.  Paradoxalmente, é ela quem alerta a filha a respeito do simbolismo explorado no título do romance (pois, seguindo as implicações do seu nome, a heroína se enraíza demais no fetichismo mortuário familiar, com seus objetos embalsamados e decadentes):

“Encarei-a. Via agora que assim nos tratávamos há anos, variando apenas a graduação da ironia que podia chegar até ao sarcasmo. Uma simples conversa de rotina, como tantas outras nas quais as estocadas mais ou menos profundas eram iniciadas por mim. E ela se defendia ou não se defendia, o que era pior ainda. Apenas não notara que no momento eu queria a trégua.

__ Vou pedir à titia que vista uma roupa de fada e me transforme num peixe. Deve ser boa a vida de peixe, murmurei.

__ (…) Não se esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.

__ No mar, seriam devorados por um peixe maior, mãezinha.

__ Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha. Nesse aquário não há vida.”[1]

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III

“Marfa entrou no meu quarto sobraçando um pacote. Deixou-o na mesa e abriu a bolsa.

__ Trouxe seu cheque. E mais esses três livros para traduzirmos, normas de bem viver, compreende? Precisamos decorá-las com urgência (…).

    Apertei com o polegar a tacha num dos cantos da gravura das rosas. Houve um dia em que elas me pareceram feitas de carne. Mas hoje eram apenas um punhado de rosas num pote. Cerrei as venezianas para que o quarto ficasse mais fresco. Era longo demais aquele verão. Era longa demais a vida. Seria bom morrer jovem, os deuses amam os jovens, André poderia citar na ocasião. Voltei-me para Marfa. E animei-me com sua tristeza.”

É interessante analisar a dinâmica da relação entre Raíza e sua prima Marfa (filha do tio doido, Samuel), a partir de um depoimento (foi publicado  no volume dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, do Instituto Moreira Salles, dedicado à autora de Verão no Aquário, em 1998) ao mesmo tempo muito bonito e muito esclarecedor de Hilda Hilst sobre a sua amizade com Lygia Fagundes Telles:

“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes (…) Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo,  ela é ela (…) ela teve também uma vida muito mais difícil que a minha. O pai dela era um jogador… Foi uma moça com a vida difícil. Eu sempre tive dinheiro e tal. Tudo isso é complicado de dizer (…).

(…) somos muito tristes, o tempo todo. Telefono pra ela e digo assim: Você acha normal a mulher que pariu num avião e teve a criança sugada pela turbina? (…) A gente tenta falar coisas agradáveis, mas não consegue. Ou então a gente faz humor negro pra não ficar muito mal (…).

  Mas a gente ri muito. Ela diz coisas incríveis. Um dia ligaram pra ela dizendo que um conhecido nosso, meio distante, tinha acabado de morrer. Eu estava lá. Ela perguntou assim: Mas, me diga uma coisa, ele estava bem? Aí o cara disse: Lygia, ele estava morto! Ela tinha distrações assim. Mas como ele estava, no caixão, estava bem? Não, ele estava morto. Aí eu tinha ataques de riso, porque não era isso que ela queria dizer. Ela queria saber se ele estava com uma parecença arrumada, porque tem aqueles bossa Oscar Wilde, caindo aos pedaços. Ela quis saber se a parecença dele era normal ou de assustar. Ela era distraída com essas coisas e eu ria muito. E outras coisas divertidíssimas.”

   Nos últimos anos, ao ler as cenas em que Lygia mostra seu gume afiado ao enfocar as relações femininas, sempre penso nessas palavras de Hilda. E não teve como isso não lançar sua sombra nos meandros dessa amizade que é também um pouco disputa, que é também um pouco de impaciência (da moça prática e despachada, sem frescura, com a moça contemplativa e passiva), com essa cumplicidade que é também um pouco de espera de Godot, ou pelo pior, e que é meio desencantada mas também tão afetiva e intensa. E só uma ficcionista do quilate de Lygia e com amizades como a que ela manteve com uma pessoa como Hilda poderia escrever que sua heroína, para quem até a reprodução do quadro de Van Gogh (que sempre lhe fora tão viva), murchara, desvanecera, “sente animação” com a tristeza da prima/confidente[2].

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                                                       IV

“Raíza, você está linda demais, disse Eduardo, limpando o peito nu na tira do pulso. O vestido colara-se ao meu corpo e agora já não me repugnavam os outros corpos também molhados que se encostavam ao meu: o suor nos irmanava, o suor e a aflição. Ele me beijava e eu me enxugava nas suas bandagens encharcadas e suas mãos me penetravam e a língua buscando mais fundo — o quê?

   Um homem pintado de preto puxou-me pela cintura, mordeu-me de leve o ombro. Segui-o enternecida. Poderia me entregar a todos, se isso lhes dava prazer, todos tão afobados, que custava satisfazê-los com aquele meu falso corpo: ah, tão longe eu estava!… É indiferente, eu murmurei ao homem. Mas Eduardo já me arrastava com violência para a mesa. Antes, cravou as unhas no meu braço e beijou-me com a mesma força com que me feriu, não banque agora a…

(…) Pensei em Eduardo e sorri para Marfa que refazia a pintura dos olhos. Entendi agora o que me ordenara: em meio do ciúme ela queria, com todas as forças queria que eu me entregasse a ele. Precisava de mim, não fique negaceando!

(…) Fui recuando de costas. Se conseguisse sair dali, poderia ser salva mas tinha que ser já (…) Fui envolvida num bloco de palhaços. Desvencilhei-me e entrei numa ciranda de bêbados em meio dos quais distingui, em pânico, o dominó roxo que me conhecia. Fugi agachada como uma barata passando por debaixo de uma porta. E caí nos braços de um homem calvo que tentou prender-me, a loura de vermelho que eu procurava!… Deixei nas mãos dele um punhado de franja do vestido e prosseguindo fugindo até tropeçar em dois corpos fundidos junto de uma coluna. Tombei de joelhos em meio de um desfalecimento. Onde estaria a saída?! Alguém levantou-me por detrás. As mãos eram delicadas, tão delicadas que estremeci. Voltei-me. Um homem com cabeça de urso estendia-me os braços, fica comigo! A voz era triste como os olhos lá no fundo dos buracos do papelão envernizado. O focinho ria numa alegria alvar mas esse era um riso desmentido pelos olhos que imploravam, fica comigo!… Recuei. A enorme cabeça oscilava como a de um animal decapitado. Lembrei-me da história da fera de olhos pungentes, bastava beijá-la e ela se transformaria num príncipe. Sim, seria fácil amá-lo com aqueles seus olhos humanos. Mas quem daria o beijo em mim, quem?”

Na citação acima “pesquei” do aquário trechos de uma passagem extraordinária, uma festa a fantasia na qual Raíza comparece vestida de “loira de gangster”, seduzindo,  entre outros, o namorado atual de Marfa, Eduardo (cujas bandagens de “múmia” estão impregnadas de éter, de lança-perfume, fazendo com que todo o relato em primeira pessoa adquira um tom “fora do ar”).

Acompanhamos então o mergulho da heroína em sua geração, um retrato que, 50 anos depois, soa tão moderno e acurado, que imediatamente faz envelhecer num átimo vários textos supostamente atualíssimos em seu afã de representar jovens enfronhados no sexo desregrado, no uso de drogas (no caso de Verão no Aquário, ainda não há o rock´n roll, já que os personagens curtem mais música clássica e jazz).

Ao inventariar as suas relações com vários parceiros, a experiência de Raíza esbarra num ponto fundamental: nosso aprisionamento na ciranda de certos padrões afetivos que se repetem, se petrificam. Ao saber que o seu mais recente caso já está com outra, lemos: “Fernando, Fernando. Tínhamos nos amado. E agora ele amava outra e depois amaria outra ainda e os amores e desamores iriam se renovando com a mesma naturalidade com que Dionísia renovava a água do aquário: assim que o visgo acumulava no fundo, ela abria a torneira e o jato d´água limpa subia cobrindo tudo. Apoiei-me nos cotovelos e olhei minhas mãos sujas de poeira. Antes tinham existido as de Germaine. Agora, cobrindo as minhas, tinham vindo as de Josefina. E embora durassem no tempo um minuto, de certo modo não mudavam porque a essência era a mesma.”

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V

“E de repente tudo aquilo me pareceu já ter acontecido há muito tempo: era como se em outra tarde igual eu tivesse estado naquele mesmo lugar, fazendo os mesmos gestos e à espera do mesmo milagre enquanto secava nos joelhos o lenço molhado de lágrimas. Tudo estava disposto como já estivera antes. O acontecido ia-se repetir, por experiência eu sabia que nada podia ser mudado e embora me doesse a certeza do inevitável, cheguei a sentir um certo alívio, porque esse desespero era meu conhecido e conhecendo-o, podia agora suportá-lo.

    Não haveria milagre. Dentro em pouco Marfa aparecia sem pressa, naquele andar de quem não precisa mais se apressar. Diria: Acabou-se, compreende? Ou nem diria nada, apenas me lançaria um olhar penalizado e eu ficaria sabendo: acabou-se.

    Lembrei-me do nadador tragado pelas ondas e do meu rancor pelo mar que não esperou pela corda. Mas lembrei-me também de quando chegou a noite e vi as ondas estourando na pedra, esqueci o nadador, ah, eu amava o mar, amava-o acima de tudo, podia acontecer o que fosse e eu continuaria a amá-lo com um amor que seria uma condenação se nele não houvesse alegria. Que importava os nadadores que iam e vinham? Ele continuava. Cruzei as mãos. Seja feita Vossa vontade, seja feita Vossa vontade….”

É preciso dizer que esse é um romance, mais do que qualquer outro da obra lygiana, marcado explicitamente pelo catolicismo. Tivemos uma plêiade de escritores de estridente obsessão com os temas da culpa, pecado, transgressão e degradação. De Lúcio Cardoso ao primeiro Vinícius de Moraes, de Octávio de Faria a Otto Lara Rezende, não faltaram católicos expiando e gozando seus tormentos  em nossa ficção. No entanto, sem alarde e muito cruamente, a autora de Verão no Aquário vai mais longe e mais fundo do que qualquer um deles, com a agudeza adicional de mostrar a formação de uma mulher (e sob a ótica feminina) em meio a todo esse contexto moralista (de angústia e penitência) e, ao fim e ao cabo, bem machista (quantos Mauriacs tupiniquins não se debruçaram sobre suas Thérèses Desqueyroux locais).

E ainda, como sombra a se esgueirar pelo vidro do aquário, o clima político ameaçador: “Tem lido os jornais? Já está engrossando por aí uma revolução para derrubar o presidente, coisa de militar, compreende? Me dá depressa a fórmula, impedir uma outra ditadura, hem? Posso escrever às chamadas cúpulas políticas meus bilhetinhos de protesto, me enfiar numa armadura e ir à luta — é isso que você espera de mim?” Alguns personagens que frequentam o romance de Lygia conhecerão pouco depois alguns lugares bem mais abafados do que o aquário da burguesia enclausurada em seus valores de fachada: os porões do DOI-CODI.

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ANEXO- TRECHOS SELECIONADOS:

“Há alguma santa com o nome de Raíza? Perguntei e Dionísia hesitou: Que eu saiba, nenhuma. Raíza era o nome de sua tia avó, disse-me ela e eu tive um certo desaponto porque me parecia mais fácil atingir a santidade com um homônimo no céu.

    E agora ali estava eu em meio das pedras e das velas que pareciam sempre as mesmas. O leve torpor que senti também era igual ao que me vinha quando assistia à primeira missa do dia. Quis rezar mas as orações estavam rotas, esgarçadas. Advogada nossa, murmurei e prossegui repetindo, advogada nossa, advogada nossa

   Pensei em minha mãe. Lá devia estar ela na sua sala, tão bem-penteada, tão bem-composta que parecia recear algum fotógrafo invisível, pronto para o flagrante do descuido, caso se descuidasse. Advogada nossa, ajudai-a! pedi colhendo com a unha do polegar duas gotas de cera que escorriam da vela mais próxima. E pensei em André com suas unhas roídas e batina esfarrapada, pregando na Indonésia, tinha que ser na Indonésia, tudo bem difícil para que ele sofresse ainda mais na sua punitiva vida. Havia os padres tranquilos e os padres aflitos, ele seria sempre aflitíssimo, debatendo-se como um homem atirado ao mar.

     Como aquele homem junto das rochas. Vimos tudo e não pudemos fazer nada a não ser gritar por uma corda. Mas não havia nenhuma corda em redor. Ele sentara-se para tomar banho de espuma das ondas que se chocavam na pedra, quando um vagalhão mais violento o levou para o mar alto. Pusera-se então a nadar, ele nadava com a segurança de um matemático expondo um teorema. Nem perdera os óculos, o que era extraordinário: um jovem de óculos tentando vencer pela lógica das braçadas a ilogicidade das ondas que o levavam até próximo das  pedras para puxá-lo novamente assim que ele chegasse a tocar nelas. Voltava nadando, a argumentar com os longos braços que se estendiam como réguas de cálculo, pronto, agora vai conseguir! eu pensava. Mas nova onda formava-se maliciosamente e arrastava-o para longe. Até que o jogo cansou o nadador e o mar. Num dos seus retornos, em meio do caminho ele ergueu os braços e ficou se debatendo, numa fração de segundos ficou se debatendo sem esperança e sem os óculos. Depois, só ficou o mar e o grito do pescador que chegou correndo com um rolo de corda embaixo do braço (…) Nessa mesma noite, voltei às pedras. O luar prateava tudo. Pensei no afogado da manhã e quis odiar o mar mas ele estava tão suave assim banhado de lua. Disse adeus ao afogado. Ele já se desintegrava como um naco de miolo de pão, só o mar era eterno.

   Colhi na unha uma gota de cera que escorreu da vela, não, não era um desconhecido que se debatia na água, era André, tão difícil a pedra, o equilíbrio, só minha mãe tinha o rolo de corda, advogada nossa, ajudai-o!…

    Concentrei-me na oração sem oração, só pensamento ardendo com aquela chama. Fechei os olhos: ajudai a ela para que os que dependem da sua força seja ajudados também, eu, Marfa, André, tio Samuel, tia Graciana, Dionísia… A frágil família. Tinha ainda o aquário com os peixes nadando em círculo, amigos e inimigos condenados à mesma água…”

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[1] Não resisto a citar outro belo momento entre as duas “antagonistas”:

“E pensando em ir para o meu quarto achei-me defronte do escritório da minha mãe. A porta estava entreaberta.

__ Estou interrompendo?

     Ela pousou as mãos no teclado da máquina. Tirou os óculos.

__ Não, não está interrompendo… Quer uma xícara de chá?

     Comecei a rir. E inclinei-me para cheirar o solitário botão de rosa espetado no vaso.

__ Há bandejas de chá em todos os cantos desta casa, acho que nossa família tem raízes no Oriente. É ver a China.

      Ela serviu-se, imperturbável. Havia duas xícaras na mesa, naturalmente Dionísia se esquecera de que André estava ausente.

__ E então, Raíza? Quais são as novidades?

__ Faz tempo que não acontece nada, mamãe, a não ser este calor… Mordisquei uma torrada. Mas sabe, só mesmo nesse aspecto vocês duas se parecem, quero dizer, titia e você. Acho que é o único traço familiar entre ambas: um bule de chá. E também essa preferência pelas cores tímidas, vocês só usam o rosa, o lilás, o azul-claro, cores assim. Titia está cortando um vestido cor de mel…

    Ela encarou-me. Usava uma blusa de percal com delicadas ramagens num fundo verde-água. Os cabelos presos. O rosto liso, limpo. Que beleza era aquela que parecia vir de dentro, tão mansa? Grave. Era incrível como enfrentava a claridade perigosa de um dia assim.”

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[2] Ao pensar na amizade entre Lygia-Hilda e na estatura das duas enquanto escritoras, acho-as similares ao que acontecia entre Thomas Mann e Hermann Hesse. Enquanto este último era objeto de culto pessoal (como Hilda), para além de seus textos—havia todo o lado místico, de inquietação espiritual— Mann, mesmo quando respeitado como escritor, era objeto de certa reserva por seu apego ao formalismo (no sentido social da palavra, não literário), ao “decoro” (como seu personagem Thomas Buddenbrook e Patrícia, mãe de Raíza), como Lygia. E ambos sempre deploraram a tentativa de se colocar um contra o outro (o que não impede de modo nenhum uma, digamos, rivalidade literária “do bem”), explorando essas polaridades maniqueístas.

Talvez o respeito mais do que a admiração apaixonada que Lygia suscita, de um modo geral (como Mann, e curiosamente sou apaixonado pela obra dos dois), aconteça porque ela não se transformou num mito como Clarice Lispector, e em menor medida, a própria Hilda (o que eu considero péssimo para a apreensão das qualidades das duas como grandes escritoras que foram). Na minha história pessoal mesmo posso recordar de, no início dos anos 1980, conviver com um grupo de leitores meus amigos para quem Clarice era “a” escritora, uma ciranda de pedra onde não haveria lugar para uma Lygia Fagundes Telles (brincavam com um de seus títulos, “os mistérios de Lygia que são nenhuns”). Para o bem ou para o mal, sem desdenhar nunca dos desafios da obra clariceana (apesar de me irritar com seus “seguidores”), cada vez mais descobri os seguramente muitos mistérios lygeanos, além-cerimônias do chá e outras práticas recônditas e decorosas.

Quanto a Verão no Aquário, foi uma história um pouco demorada. Conhecia sua história e algumas passagens longas, por causa do volume dedicado a Lygia em LITERATURA COMENTADA (1980), mas só o li integralmente (justamente na edição da Nova Fronteira cuja foto aparece abaixo), após me impressionar (e com isso voltar a ler seus textos mais intensamente) com As horas nuas (que tem uma parte final discutível, porém na sua maior parte é um romance poderoso).

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2 Comentários »

  1. gosto demais desta postagem, alfredo.
    ela joga luz sobre aspectos desse romance que eu não percebi quando li. quando fizer uma releitura, virei aqui de novo.

    e gosto muito da parte onde você trata da relação hesse/mann – hilda/lygia. e da relação dos viúvos de clarice para com à lygia, também.

    abraço =].
    nilton.

    Comentário por niltonresende — 08/09/2013 @ 19:41 | Responder

    • Para dizer a verdade, foi uma das que mais me deixou orgulhoso aqui no MONTE DE LEITURAS, Nilton. Nem sempre os autores que a gente mais gosta merecem os nossos melhores textos, mas aqui acho que consegui mostrar o quanto, e com quanta razão, gosto dos romances de Lygia Fagundes Telles. Bjs.

      Comentário por alfredomonte — 09/09/2013 @ 18:26 | Responder


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