MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/04/2013

O TEATRO DA INOCÊNCIA


DEBAIXO DA LUPA DE LYGIA FAGUNDES TELLES

para Nilton Resende

No centro de A noite escura e mais eu, há uma história chamada “O segredo”, na qual a narradora, uma menininha,  espia pela janela a casa onde ficam as prostitutas. Apanhada no ato, explica (mas é  mentira) que veio atrás da bola que caiu no quintal delas. Elas fazem com que entre, a menina observa tudo tão intensamente que é como se o leitor estivesse ali, e, ao ser informada de que está falando com a filha do delegado da cidade, uma das prostitutas lhe pede para guardar segredo. Mais ainda, ela ensina a menina que os segredos são necessários, que eles fazem parte da vida. Portanto, a visita inesperada funciona como um rito de passagem, onde há o aprendizado da duplicidade, como se os mundos (o decente e o “sórdido”) fossem nitidamente separados, num “teatro da inocência” que é sempre desmascarado com precisão pela grande Lygia Fagundes Telles.

Publicado originalmente em 1995 (pela Nova Fronteira), A noite escura e mais eu agora é reeditado pela Companhia das Letras.  Das coletâneas da autora  é mais coesa, mais amarrada, tanto porque os contos foram pensados para pertencer a essa reunião (muitas vezes, suas coletâneas são rearranjos de contos de outras), e não há nenhum que lhe dê o belo título (tirado de um poema de Cecília Meireles), como porque até a ordenação das nove histórias parece ter obedecido a um propósito férreo, seguindo um ritmo ternário, que propõe três conjuntos.

As três primeiras (“Dolly”; “Você não acha que esfriou?” e “O crachá nos dentes”) são histórias em que os protagonistas, através do acaso, da curiosidade perversa ou de uma brecha fantástica no cotidiano, têm acesso a uma situação passional ou violenta: a moça estudiosa (que lembra a Lorena de As meninas), louca para sair da pensão onde mora e que  atende a um anúncio para dividir casa com uma aspirante a starlet,  porém fica assustada com esse território estranho, mas que esquece seus cadernos ali, e na volta, encontra  a outra   assassinada; a esposa que resolve ter um caso com um amigo que é apaixonado pelo marido; o cachorro de circo (que, como punição pelos erros e desatenções, tem as patas queimadas por cigarros) que vive por algum tempo a vida humana.

As do meio ((“Boa noite, Maria”; “O segredo” e “Papoulas em feltro negro”) mostram imagens da Mulher em idades diferentes, e confrontada com as “inconveniências” da condição humana como o envelhecimento, a morte, o sexo, para os quais se recomenda restaurações, decoro ou hipocrisia: a sexagenária que teme a decrepitude e que encontra um estranho que pode ser o “bom anjo”, aplicando-lhe a eutanásia no momento certo; a menina que, como já citado, tem um vislumbre da prostituição; e, por fim, a mulher que, chamada para uma reunião em torno de uma professora que já está com um “pé na cova” relembra sua meninice e seus embates com a mesma professora, e que deseja explicações, só conseguindo obter da moribunda uma imagem dissonante da que tinha de si mesma (diga-se de passagem, na minha opinião, esse conto, “Papoulas em feltro negro” talvez seja o melhor da seleção).

No último conjunto (“A rosa verde”; “”Uma branca sombra pálida” e “Anão de jardim”), temos testemunhas impotentes e desesperadas, deixadas de lado, nos bastidores do “teatro da inocência”: a menina que perdeu os pais e que, vivendo na fazenda dos tios, observa o universo dos insetos e seres minúsculos com uma lupa, e descobre que “aumentados eles eram horríveis por se parecerem demais conosco, com suas crueldades e mesquinharias (“debaixo da lente era medonho demais); a mãe que assistia calada a o desabrochar da paixão entre a filha e uma amiga e que ao confrontá-la, causa o seu suicídio e que, nas visitas ao túmulo entra numa espécie de disputa de flores (ela leva brancas, a outra vermelhas) com a amiga da filha, disputa que no entanto é uma maneira de mantê-la viva; e, por fim, o anão de pedra que acompanha os acontecimentos terríveis da casa onde foi instalado (o sujeito que o comprou, por achá-lo parecido com o avô, com um ar de “juiz”, é assassinado pela esposa), e que espera a demolição da propriedade o alcançar para mudar de condição, pois (de uma forma que deixa o leitor comovido) ele sabe que tem uma alma, uma fome de deus, algo que persistirá mesmo quando a sua forma for feita em pedaços. Ele sabe que aqui, debaixo da lente, tudo é medonho demais, mas quer existir, como todos nós.

Eu  gostei muito de “Anão de jardim” em 1995, quando  A noite escura e mais eu  apareceu. Agora o achei ainda mais bonito do que da primeira vez, assim como o livro inteiro.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos, em 15 de dezembro de 2009)

ADENDO

O leitor que porventura queira mais de Lygia Fagundes Telles encontrará aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

A respeito de A noite escura e mais eu, só acrescentaria algumas coisas, digamos, “negativas” (uma palavra meio forte para uma coletânea tão boa), e que me fizeram da primeira vem em que li o livro achar que a prosa de Lygia estava “estática”, em ponto morto (e por isso gostei tanto de Invenção e Memória, que veio cinco anos depois cheio de garra e verve):

__ há uma certa aura “recôndita” e passadista em alguns contos que caem muito bem nas coletâneas mais antigas tipo Antes do baile verde ou em romances como  Ciranda de Pedra, devido à passagem do tempo, mas que  parecem desconfortavelmente antiquada e anacrônica para textos publicados em 95: é o caso do casal de “Você não acha que esfriou?” ouvindo “Carmen” e Mozart, por exemplo (mas há outros exemplos, como o violoncelo de “Anão de jardim”, etc etc). Também as referências dos personagens mais velhos são muito antiquadas, até mesmo para a sua idade…
        Além disso, há aspectos “mundanos” no conto “Boa noite, Maria” que não me agradaram novamente nessa releitura: por que colocar, por exemplo, que a protagonista mora num triplex, esse tipo de informação parece de best seller, parece uma coisa que o Rubem Fonseca, na sua caricaturização de ricos e novos ricos colocaria. Aliás, todo o lado “mulher de negócios” parece mais uma informação telenovelesca e irreal do que um dado importante no texto, e para mim fica como uma nota dissonante.
         De um modo geral, além de “Papoulas…”, os contos de que mais gostei foram “A rosa verde”, “Anão de jardim” (apesar das referências antiquadas), “O segredo” e “Dolly”.
      Acho inferiores por causa dos motivos alegados acima, embora ainda assim muito bom “Boa noite, Maria” e “Você não acha que esfriou?”
       Os que eu gosto menos são “Uma branca sombra pálida” (não gosto da conversinha com a borboleta, e também porque me parece que teria mais força e convenceria mais  se tivesse sido escrito entre os anos 40 e 60; aliás, a preocupação da mãe com o que acontece no quarto entre a filha e a amiga me lembrou um filme de 1973, que já era antiquado na época: Lembranças, de Gilbert Cates, com Joanne Woodward; de qualquer forma, apesar desses senões, foi desse texto que tirei o título “O teatro da inocência“) e “O crachá nos dentes” (que, para mim, é um projeto de conto mais do que um propriamente realizado).
         Finalizando, aproveito aqui para evocar minha inesquecível gatinha Donguinha, que  peguei, filhotinha, abandonada no estacionamento do Pão de Açúcar, à época da minha primeira leitura de A noite escura e mais eu (no final de 95) e que morreu agora nessa época da releitura.
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2 Comentários »

  1. Maravilhoso tudo! Um blog para se “viver nele” (parece que estou parafraseando alguém…?) por muito tempo. Um verdadeiro achado para ser muito lido e compartilhado (rimei sem querer).

    Comentário por solange — 20/04/2013 @ 15:41 | Responder

    • Obrigado, Solange, “viva nele” quando quiser. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 21/04/2013 @ 13:02 | Responder


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