MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/04/2013

Inês não é morta, muito pelo contrário


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https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de junho de 2000)

Embora tenha gostado da coletânea  A noite escura mais eu, de 1995, pensei comigo mesmo: Lygia Fagundes Telles atingiu o ponto que Alberto Moravia intitulava de “grande escritor estático”, aquele que é incapaz de renovar sua fórmula, mesmo que a requente dignamente, até com maestria em alguns instantes.

Pois foi um prazer encontrar em Invenção e Memória, cinco anos depois, uma vibrante refutação da idéia empoeirada de uma grande escritora estática. Entre outras coisas, se trata de um livro charmoso, jovial, no qual a verve encontra um tom preciso e econômico para se expressar. Nos seus 15 textos, só três me desagradaram, “A dança com o anjo”, “A chave na porta” e “Potyra”. Todos os três com um pé no fantástico, o que pode indicar uma implicância minha, pois creio que não é bem no fantástico que se encontra o melhor de Lygia, embora ela utilize muitas vezes pitadas do gênero (e são as pitadas a sua peculiaridade, não o exercício do gênero). Para outros leitores, inclusive a garotada que mantém a vitalidade da ficção fantástica, pode ser que eles funcionem perfeitamente. “A dança com o anjo” tem a situação engraçada do Dia do Pindura (que já existia nos tempos de estudante da autora), mas o tal anjo não diz a que veio; “A chave na porta” narra o encontro com um colega de faculdade, 40 anos depois, só que ele aparentemente já morreu. Nesse encontro a narradora se sente “com a mesma idade daquela estudante da academia. Outra vez inteira? Inteira. E também ele com o seu eterno carro, meu Deus! Na noite escura tudo parecia ainda igual ou quase. Ou quase, pensei ao ouvir sua voz um tanto enfraquecida, rareando como se viesse de alguma pilha gasta. Mas resistindo”. Há algo de fundamentalmente forçado e artificioso na situação, algo muito “arrumadinho” para se enquadrar bem na instigação fantástica. Talvez porque há um sub-tom meio edificante, diluindo o clima elegíaco e pretensamente comovente deixado pelo “encontro/desencontro”; e “Potyra” é uma fantasia meio descabida, que parece destoar completamente do conjunto do livro. Parece Todos os homens são mortais, de Simone de Beauvoir, com um piteco de O perfume, de Patrick Süskind.

O resto, porém, é luxo só. Nesses doze textos, apenas dois contos (cruéis) não envolvem a autora-narradora como personagem, “Se és capaz” e “História de um passarinho”. Os outros dividem-se, grosso modo, em dois grandes grupos:

1) aqueles que exploram a trajetória da vida como memória ou como invenção, seguindo o famoso mote de Mark Twain: “Quando eu era mais jovem podia lembrar-me de qualquer coisa, tivesse ou não acontecido; mas agora as minhas faculdades estão decaindo e em breve só serei capaz de me lembrar das coisas que nunca aconteceram”. Diga-se de passagem, haverá melhor definição do que seja a ficção do que o título da coletânea de Lygia Fagundes Telles?

Nessa vertente, encontramos textos sobre a velhice, sobre a maturidade (acho extraordinário “Rua Sabará, 400”), sobre a juventude (aqui o destaque vai para o igualmente notável “Nada de novo na frente ocidental”), sobre a infância , fase que apresenta primorosos relatos, por exemplo, “Que se chama solidão” e “Cinema Gato Preto”; neles, encontramos o fabuloso uso que Lygia faz dos ditos populares (um dos traços da sua obra mais apreciáveis): “Sua tia vive falando que agora é tarde porque Inês é morta, quem é essa tal de Inês?Sacudi a cabeça, não sabia. Você é burra, Maricota resmungou… Não sei da Inês mas sei do seu namorado, tive vontade de responder”; e, mais tarde, após o evento central do texto: “Tia Laura demorou para falar: Agora é tarde! Mas não tocou na Inês”(“Que se chama solidão”); “Segundo a minha mãe, Matilde já tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança e embora eu não soubesse que cabo era esse, desconfiava que não poderia ser boa coisa” (“Cinema Gato Preto”);

2) aquelas que parecem crônicas e que trazem um olhar sobre o  presente da  autora-narradora. “O Cristo da Bahia” é um texto bonito, mas eu ainda prefiro os mortíferos “O menino e o velho” e “Dia de dizer Não”: “Estou ótima! Posso até declarar aos quatro ventos, quais são os quatro ventos? Esqueci. E principalmente “Que número, faz favor?” Este último tem uma graça especial. Durante anos impliquei com os pronunciamentos públicos, palestras e participações em simpósios de Lygia, que sempre repetia os mesmos chavões, “grande escritora estática”, empoeirada. Agora ela mesma varre a poeira e vem brincar com essas suas aparições de grande dama, de forma mordaz e brilhante.

Os textos dessa vertente me lembram a evolução da obra de Truman Capote. Há um curioso paralelo entre os dois: Antes do baile verde poderia fazer companhia ao primeiro Capote, seus primeiros contos e romances; Invenção e Memória me lembra as vinhetas cotidianas que Capote desenvolveu (narrando fatos corriqueiros com a perícia da ficção) no genial Música para camaleões (para mim, um dos livros fundamentais do século XX) e certamente não passa vergonha na comparação: é de certa forma um mesmo emparedamento na vida de escritor consagrado, sem novos temas, mas fazendo do próprio cotidiano uma ponte entre a memória e a invenção. Nada de meta-ficção, mas o escritor é o personagem.

Como ponto de ligação das duas vertentes há uma lembrança de infância que se desdobra na dolorosa anedota de um galo suicida em “Suicídio na granja”. É impossível descrever a emoção que esse texto me causou, só posso dizer que é um exemplo definitivo do dom especial da grande (e nada estática) autora paulista para lidar com os bichos. Não é à toa que ela criou o inesquecível gato Rahul em As horas nuas (1989).

Para terminar por hoje, algo não tão desolador, mas um trecho especialmente lindo de “Rua Sabará, 400”: “Abri a janela. Mas o céu está desabando de estrelas, eu disse baixinho. Como se tivesse me entendido, a Pum-Gata aproximou-se com um miado amoroso, subiu no espaldar da poltrona verde e esfregou a cabeça acariciante no meu braço. Em seguida, com seu ar bem comportado ela sentou-se no topo da almofada e ficou olhando a noite”.

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