MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

Tróia miúda: duas resenhas sobre “Novelário de Donga Novais”


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O TEAR DAS INTRIGAS: O  MUNDO…DUAS PONTES

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em   08 de agosto de 2000)

Há alguns anos  (ver resenha abaixo) comentei o reaparecimento de Novelário de Donga Novais, de Autran Dourado, publicado originalmente em 1976 (e depois reeeditado pela Guanabara). Porém, a Francisco Alves, editora que estava relançando as obras do grande autor mineiro, entrou em falência e sumiu do mercado, e algumas delas nem foram distribuídas às livrarias, ao que parece. Portanto, é agora que a Rocco assumiu a reedição da obra inteira de Dourado que o leitor pode ter acesso a um dos textos mais surpreendentes, fascinantes e extraordinários (sei que esses adjetivos são muito usados, mas poucas vezes tão verdadeiramente como neste caso) da literatura brasileira contemporânea. Só que o leitor fica perplexo também com o horrível desenho da capa dessa nova edição, onde há um rosto de mulher (presumivelmente, a personagem que tira o sono dos homens no texto, Lelena) que parece mais um mamulengo. Bem, fazer o quê? Nada é perfeito.

Novelário de Donga Novais se passa em Duas Pontes, cidade-universo que é o palco da maior parte das narrativas de  Dourado. Seu Donga é  o ancião janeleiro de Duas Pontes, de idade indefinida (“Ele não dizia os anos com medo de revelar o eterno”), que nunca dorme (tecelão da insônia), capaz de viver em tempos simultâneos, pantemporal, enfim, um sábio oracular perdido numa cidadezinha de Minas nas primeiras décadas do século XX, sempre postado à sua janela e sempre se expressando por provérbios (“ponderações, rimas, ditos e rifões”).

Embora tenha nascido em Ópera dos mortos (1967), só no Novelário seu Donga ganhará a importância estratégica que compartilha com João da Fonseca Nogueira, alter ego de Autran Dourado. Seu Dongas é o narrador oral, o repositório da sabedoria tradicional da comunidade; João, o narrador letrado, que rompe o círculo e busca um destino individual, longe do labirinto patriarcal e proverbial de Duas Pontes.

A narrativa é um diálogo complexo entre as duas vozes, a de seu Donga e a voz do narrador (João). Seu Donga já morreu há muito tempo, mas vive na memória da cidade, pois todos repetem seus ditos: “É verdade que se acrescentava muito à fama, novelava-se a  figura de seu Donga. Só mesmo um poder descomunal e divino, já se dizia criando o mito… Depois que ele se recolheu, cansado do peso de viver, levado pelos anjos… aninhado à placenta de Deus”.

Quando vivo, as pessoas procuravam avidamente a janela de seu Donga: “Ninguém passava por aquela janela sem deixar alguma coisa, a sua moeda de sonho, na esperança de multiplicação… Perguntava com tanto jeito que era difícil perceber que ele estava perguntando, quem falava era porque queria. A gente punha uma pedra do dominó, ele tinha sempre a outra. Se recompunha depois o jogo, se conferia no retrocesso toda a história, para ver se ele trapaceava. Em vão, sempre o mesmo número de pedras. O desenho é que variava…”

A princípio a narrativa tem um aspecto emaranhado, literalmente enovelado, que dá as mãos ao clima mítico que o narrador procura criar em torno de seu Donga. O leitor não deve desanimar, pois logo surge a necessidade de ordenação: “é capaz (certamente) de que agora se esteja enfraquecendo, quando a gente é quem conta, no correr arrastado do tempo, o brilho do que ele contou: inventando descolorido—a gente, não ele… Mas sem a ordenação do tempo, como contar?”

O que se conta em Novelário de Donga Novais? Conta-se nada mais nada menos do que uma saborosa miniguerra de Tróia. A bela Lelena é objeto de desejo de todos os homens da cidade, o que desperta a fúria do seu namorado (depois marido) Lalau. Lelena é tão bela e sua juventude tão exuberante que ela perturba até mesmo seu Donga, o comandante da pantomima, além de médicos, juízes, professores e outras autoridades de Duas Pontes.

Outro personagem perturbador é o anarquista-agitador Giuseppe Fuoco, o italiano flamejante, o único habitante de Duas Pontes que seu Donga não consegue compreender, talvez porque represente o elemento transgressor e transformador, uma força histórico que se opõe ao mundo paralisado, tradicional e machista onde o ancião oracular e proverbial é venerado, onde parece que tudo é igual desde o começo dos tempos e assim ficará.

Num dos mais belos momentos da ficção brasileira, Lelena entrará na sapataria de Giuseppe Fuoco e eles viverão um momento de impasse que desmascara toda a farsa social em que todos se empenham. Ela entrará como a coquete, aquela que mexe com os homens só por desfastio, a tentadora do santo, digamos assim; ele então lhe fará uma proposta de fuga inaudita e desmedida, que mostrará a ela quanto o seu destino é pueril.

Será possível fugir de Duas Pontes, o mundo-novelo, o mundo-provérbio, de seu  Donga, a teia que ele criou (aranha tecedeira), labirinto sem entrada e sem saída?

Poética do narrar, da tessitura de intrigas, Novelário de Donga Novais é sem dúvida uma obra-prima, um exercício de estilo maravilhoso, no qual se parodia tanto a sabedoria popular quanto a cultura letrada.

Há um dito, para não fugirmos do tom proverbial, atribuído pelo próprio Autran Dourado a Guimarães Rosa: “faça pirâmides, não faça biscoitos”. Grande arquiteto (ou carpinteiro) da narrativa, Autran Dourado sempre primou pelas suas  exímias construções romanescas (A barca dos homens; Ópera dos mortos; O risco do bordado; Os sinos da agonia ), pirâmides indestrutíveis. Mas Novelário de Donga Novais é um biscoito finíssimo, uma sensacional demonstração  de como o arquiteto das coisas mais sólidas pode, com sua maestria consumada, criar algo levíssimo, imponderável, fluido, que parece que vai se desmanchar e que, no entanto, a cada ano que passa se torna mais indispensável e obrigatório.

 

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O DIVISOR DE ÁGUAS NA OBRA DE AUTRAN DOURADO

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de maio de 1997

Neste ano de 1997, a Francisco Alves não apenas lançou o mais recente (e fraco) romance de Autran Dourado, Confissões de Narciso, como felizmente colocou de novo em circulação também Novelário de Donga Novais. Para mim, esse romance de 1976, é um divisor de águas na ficção do autor mineiro, um ponto de inflexão a partir do qual ele começou a reiterar deliberadamente seu universo ficcional: a cidade de Duas Pontes, as mesmas situações e personagens.

Duas Pontes já aparecera nomeada em O risco do bordado (1970), mas é o Novelário que se encarrega de sistematizar tudo o que nas obras anteriores se entrevia.

E seu Donga, de idade indefinida (porventura eterno?), “tecelão da insônia”, que nunca dorme, pantemporal, capaz de viver na simultaneidade do tempo, sábio oracular da cidadezinha mineira, sempre postado à sua janela, e sempre se expressando por provérbios, embora tenha “nascido” em Ópera dos mortos (1967), só no Novelário terá seus “poderes” desenvolvidos e sua estatura mítica na cidade agigantada, e assim se tornará um dos dois personagens estratégicos  de Autran Dourado na retomada incessante das mesmas histórias. O outro é o alter ego do autor, João da Fonseca Nogueira.

Seu Donga ainda aparecerá em livros como Lucas Procópio (1985) ou nas belas coletâneas de contos que são As imaginações pecaminosas (1981) e Violetas e caracóis (1987, este último também em relançamento pela Francisco Alves), só que nenhum livro desenvolverá tanto sua figura e as possibilidades poéticas do uso dos provérbios, os quais aliás permitem que ele, Donga Novais, sobreviva na memória da cidade mesmo depois de ter morrido, pois todos repetem seus ditos: “É verdade que se acrescentava muito à fama, novelava-se a figura de seu Donga Novais. Só mesmo um poder descomunal e divino, já se dizia criando o mito… O sobrenatural e o absurdo eram a própria realidade, a despojada nudez das coisas acontecidas, a dura e seca aparência da vida, a sua realidade. Real hoje, fantástico amanhã… A vida e o  real, fantásticas geometrias, os rigorosos prismas de cristal. Que se procurava ignorar, esconder, vestir de plumas, compor e imaginar. De tanto que se temia a luz antes de decomposta em cor, em signos. Como não havia óculos escuros para todo mundo, tinha-se de usar não só a caixa de cores, mas os olhos de seu Donga, enfumaçados por dentro. Para se poder ver e suportar a nudez e o desconhecido, o que há de terrível nas coisas banais”.

Outro ponto fascinante do Novelário  é que ele complementa os posicionamentos de Dourado, afirmados no ensaio Poética de romance: matéria de carpintaria (também de 1976, com uma parte já publicada em 1973) sobre o uso do lugar-comum, sobre como se pode tirar “força nova” da repetição dos clichês que todo mundo solta no dia-a-dia. Além disso, como que nascendo, ou se alimentando, do ensaio (é incrível como esses dois livros mantém uma afinidade, como se fossem as duas faces da mesma moeda, o ensaio se aliviando do  fardo do cerebral racionalista, o romance oferecendo a comprovação lúdica e mágica; temos a carpintaria e a tecelagem), o Novelário acaba sendo uma poética do narrar, do tecer intrigas, do enovelar situações, criando um estilo maravilhoso, carnavalesco, que parodia tanto a sabedoria popular quando a erudição e a cultura letradas. É por isso que a narrativa, a princípio, tem um aspecto emaranhado, que dá as mãos ao clima mítico que o narrador procura estabelecer em torno de seu Donga.

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Contudo, dois personagens acabarão perturbado o “comandante da pantomima” de Duas Pontes, e fazendo com que o tempo mítico se precipite no tempo histórico (afinal, a história se passa na República Velha, nas primeiras décadas do século): a bela Lelena (que causa uma Tróia em ponto miúdo) e o anarquista Giuseppe Fuoco, o único habitante da cidade que seu Donga “não consegue compreender” porque representa a desestabilização de um mundo supostamente estabilizado,  é uma força histórica assombrando o mundo paralisado e tradiconal onde o ancião-oráculo é venerado, com seus provérbios costurando os possíveis rasgos que indicariam onde o eterno começou de fato.

A habilidade narrativa de Dourado fará com que Lelena e Fuoco acabem se cruzando num único e intenso momento de autenticidade crua, longe da pantomima. Fuoco, sempre passional e utópico, proporá a ela a fuga de Duas Pontes, do mundo de seu Donga Novais. Mas uma narrativa que se tornou novelo (com o qual seu Donga, “aranha tecedeira”, cria uma teia)  e, portanto, sem entrada e sem saída, não permitirá que ninguém escape do círculo da insônia do ancião janeleiro.

Ou será que a porta de saída, mágica, é a canastra de seu Donga, cujo conteúdo é relacionado no final do livro?

Num ano em que se comemoram os 75 anos da Semana de Arte Moderna, é importante destacar um dos livros que melhor e mais radicalmente cumpriram os mais seminais pressupostos modernistas.

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