MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

O meio da história: “Um cavalheiro de antigamente”


imageUM_CAVALHEIRO_DE_ANTIGAMENTE_1314404512P

SOBRE O MESMO ASSUNTO VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/aproximacoes-entre-faulkner-autran-dourado-e-a-falta-tragica/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/antigona-perdida-na-%E2%80%9Ccidadezinha-qualquer%E2%80%9D/

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de setembro de 1993)

  Autran Dourado  é o nosso maior romancista vivo. Por isso, leitor, não se intimide com o título pouco atraente nem com a capa medíocre (edição da Siciliano) de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE, um título que merece toda a atenção.

Em 1967, o autor mineiro publicou Ópera dos Mortos, que contava a história de Rosalina, última remanescente do clã Honório Cota. Os dois primeiros capítulos, no entanto, eram sobre o pai dela, João Capistrano, e o avô, Lucas Procópio (que foi personagem-título de um livro de 1985). Havia o começo e o havia o fim, faltava o meio.

UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE explora a personalidade de João Capistrano, considerado um “homem das antigas” por seu comportamento distinto, nobre. É o orgulho da cidade. Sua lembrança mais antiga, porém, é a do pai espancando a mãe. A esse fato junta-se uma carta anônima denunciando um caso que teria acontecido entre a mãe e Agostinho, o padre da cidade (aliás, escorraçado pelo pai). Verdade ou mentira?

Obsedado, tendo se criado no horrível código de honra mineiro (que “se lava com sangue”), João procura as pessoas que podem esclarecer o assunto. As conversas com essas pessoas, o que elas têm a dizer, o que elas têm a mentir, o que elas têm a lembrar, e o que sucede quando João descobre o autor das cartas anônimas fazem o tecido narrativo desse romance da maturidade autraniana.

Uma das chaves do livro é o fato de que a mãe de João construiu um falso retrato de Lucas para a cidade, e após sua morte fez do filho (sobre quem tem forte influência) um homem oposto. A dúvida sobre o comportamento passado da mãe confronta João com as suas diferenças e semelhanças de caráter com relação ao pai. Ele é ao mesmo tempo oposição e complemento (como figurado na construção do sobrado da família), permitindo ao grande escritor mineiro não apenas fazer um romance de introspecção como também um retrato dos valores do Segundo Reinado e da Primeira República, quando o café sustentava a nossa economia.

Outro ponto essencial é a do antepassado quase mítico, primevo, bruto, de passado obscuro, que chega de longe, instala-se numa terra e torna-se poderoso, e cuja pujança os descendentes (embora mais respeitáveis)  não têm, estabelecendo-se a decadência da gens. Essa fábula, remanescente dos “mitos de fundação”, já foi muito contada, nenhuma tão bem como no inexcedível Absalão!Absalão (1936), infinitamente mais complexo em termos narrativos, pois nas mãos de William Faulkner os fatos se transformam, contados sob um ou outro ponto de vista.

Os vários focos de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE ratificam sempre a mesma coisa, os mesmos fatos.  Utiliza-se uma técnica parecida com a da pedra jogada na água, que ativa círculos concêntricos, habilmente encadeados por alguém que entende muito do seu riscado, do seu ofício, com um final que é um verdadeiro achado de mestre, contudo a excessiva univocidade dos diversos testemunhos limita um tanto o romance.

Mesmo assim, é um bom primeiro passo para o leitor que não conhece Autran Dourado e que pode depois se arriscar nas águas mais profundas da culpa familiar de O risco do bordado (1970), a obra-prima de um escritor de antigamente, isto é, dos bons.

Nota de 2013– Ainda que, a essa altura já tivesse lido alguns livros de Autran, nem imaginava em 1993 que me dedicaria anos ao estudo de sua obra e que escreveria uma tese de doutorado sobre ela. Não lera Lucas Procópio e, portanto, não sabia do segredo importante que muda toda a visão da história dos Honório Cota.

autran-dourado-opera-dos-mortos_MLB-O-3131412966_092012LUCAS_PROCOPIO_1239591964P

II

(Em 14 de maio de 2002, a TRIBUNA publicou outra resenha minha sobre UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE)

Agora que está para estrear a versão cinematográfica de Uma vida em segredo  (a qual, com Lavoura arcaica & Abril despedaçado poderá compor uma belo painel do Brasil rural), aumenta o interesse pela reedição que a Rocco está fazendo dos livros de Autran Dourado. Um deles, UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE (que só tivera uma edição anterior, bastante fuleira, pela Siciliano), faz parte de uma trilogia composta ainda por Ópera dos mortos (1967) & Lucas Procópio (1985).

No primeiro, era contada a história de Rosalina, última remanescente da principal família de Duas Pontes (cidade imaginária em Minas Gerais), os Honório Cota; no segundo, descobria-se que o avô de Rosalina foi sempre um impostor: seu nome era Pedro Chaves, um feitor que usurpara a identidade do verdadeiro Lucas Procópio Honório Cota, verdade que jamais foi descoberta.

Faltava a vida de João Capistrano, filho do falso Lucas Procópio e pai de Rosalina, criado no código de honra mineiro, e que precisa manter as rédeas do seu prestígio e autoridade numa terra de coronéis, em “tempos de política braba, de protetores e protegidos, de vinganças prometidas, das mortes contadas, das favas do medo” (como se lê em outro romance autraniano, o magnífico O risco do bordado), tempos que ficam bem ilustrados pela atitude hipócrita do delegado Requião:

“Mesmo deixava de perseguir os capangas dos coronéis do município, só exigia que eles não permanecessem dentro da cidade, só de passagem. Como era pouco o que ele queria, os coronéis que o mantinham na delegacia, do partido da situação, achavam uma exigência de somenos, até elogiavam, caso contrário viver nas Duas Pontes ficava perigoso para as famílias. Cobra e capanga é no mato, dizia seu Requião e o chefe político das Duas Pontes, quando lhe contaram o ditado riu muito, até louvou o zelo de seu Requião.”

   João procura as pessoas que podem esclarecer o assunto (por exemplo, o dr. Maciel Gouveia, um daqueles intelectuais provincianos típicos do grande escritor mineiro) e a tessitura narrativa de UM CAVALHEIRO DE ANTIGAMENTE se compõe dos diversos focos através dos quais os incidentes são interpretados. A dúvida sobre o comportamento passado da mãe, a quem venera, serve para João Capistrano confrontar-se com suas diferenças e semelhanças com o pai, do qual ele é ao mesmo tempo oposição e complemento (curiosamente, sua personalidade evoca a do “verdadeiro” Lucas Procópio, com o seu quê de quixotesco): o sobrado onde vive a família traz, na sua construção em dois andares, a marca das duas personalidades (e isso mais tarde influenciará o comportamento esquizofrênico de Rosalina).

Isso permite a Autran fazer um belo painel, introspectivo, crítico e político, dos valores do final do Segundo Reinado e começo da República Velha, os tempos de política braba (que nunca acabam), quando o café sustentava nossa economia e as alianças políticas entre Minas e São Paulo comandavam os destinos do atraso nacional.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/o-cantinho-do-mundo-de-prima-biela-uma-vida-em-segredo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/autran-dourado-sempre-o-mesmo-sempre-mutavel/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/fedra-bovary-tragedia-e-vida-besta-em-os-sinos-da-agonia/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/a-nau-dos-insensatos-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/13/o-lugar-vazio-na-roda-o-risco-do-bordado-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/autran-dourado-capitula-diante-do-senhor-das-horas/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/troia-miuda-duas-resenhas-sobre-novelario-de-donga-novais/

um-cavalheiro-de-antigamente_4317665_182001

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: