MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

O cantinho do mundo de prima Biela: “Uma vida em segredo”


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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de setembro de 1996)

O relançamento de UMA VIDA EM SEGREDO, na série Mestres da Literatura Contemporânea (Record/Altaya) é muito oportuno, pois além de trazer de volta um dos nossos melhores textos de ficção neste século (publicado originalmente em 1964), serve também como homenagem aos 70 anos que o autor está comemorando em 1996.

UMA VIDA EM SEGREDO conta a história da roceira (e ronceira) prima Biela que, após a morte do pai, vai morar com seu primo Conrado e a família dele. Embora eles morem no interior de Minas Gerais (nas primeiras décadas do século), ainda assim são demasiado civilizados e refinados para essa prima bisonha, mocoronga, que só se sente bem na cozinha, com os criados, e que tem medo até de sair na rua. Ao longo dos anos, a cidade e a família vão se acostumando ao jeito de Biela, sempre “tão boazinha”, mas vivendo no seu mundinho particular, irredutível a qualquer tentativa de mudança, principalmente depois de um frustrado noivado, arranjado por Constança, esposa do primo Conrado.

É admirável a maneira como a narrativa vai se acercando de Biela, como se fosse a “voz geral” da cidade que estivesse comentando seu jeito ao chegar, como tornou-se para agradar aos primos, e como retraiu-se depois do abortado noivado, recapturando sua autêntica maneira de ser e sua solidão essencial, alimentada apenas pelas lembranças da roça e por alguns parcos investimentos afetivas na sua existência de “agregada”: “Todo mundo achava prima Biela uma boa moça. Pena que seja assim tão mais sem jeito, diziam as mulheres. No parecer, moça roceira, sotrancona. Porque por dentro ela era boa, via-se logo. A gente vê logo quando uma pessoa é boa. Tão prestativa, tão simplezinha, tão alma boa. Num instante esqueceram o espanto da aparição domingueira de Biela (…) Com a aprovação da cidade, Constança foi se conformando com a ideia de ter prima Biela por companhia.”

Esse recurso de utilizar na narrativa um tom coletivo, valendo-se de ditados e provérbios, é muito comum em Autran Dourado e faz com que o leitor veja Biela quase sempre de viés, através de dissimulações narrativas, de lances que parecem se encaminhar para o dramático, para o patético pelo menos, mas que são blefes que lembram o jogo de truco (um típico jogo de dissimulações), também presença constante nas suas obras. E esse é o grande mérito de UMA VIDA EM SEGREDO: não há nada excessivamente dramático, piegas, patético ou trágico no destino de Biela; ela simboliza um tipo de pessoa que foi sendo apagado pela História, pelo progresso, pela urbanização.

Nesse pequeno romance foi utilizado o chamado “modo irônico” que, segundo o brilhante crítico canadense Northrop Frye, caracterizaria a ficção moderna. Se nas narrativas épicas os autores contavam histórias de homens (líderes, reis) superiores a nós, nas narrativas contemporâneas mais radicais, sucessoras do Realismo-Naturalismo, há uma degradação e os heróis (e heroínas) muitas vezes são inferiores a nós, leitores, em condição social (como Frye coloca em Anatomia da Crítica, temos a “sensação de olhar de cima uma cena de servidão, malogro ou absurdo”).

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Como já disse, não há lances dramáticos ou trágicos na vida de Biela, mas a “ironia” que decorre da sua trajetória é que oferece a amplidão dramática, a sensação do desperdício de uma vida num ambiente tão hostil (mesmo que aparentemente benigno) a ela, que a degrada e a transforma num ser absurdo.

Conforme se encaminha para o final, o livro atinge uma excelência rara na ficção brasileira. É o ponto em que Biela adota um cachorro, ao qual dá o nome de Vismundo, e em quem investe toda a afeição autêntica de que é capaz em meio ao mundo cheio de estranhos que lhe coube viver.

No relato da maneira como ela vai conquistando o cachorro está o ponto alto do livro, pois temos aquele egoísmo humano bem característico no trato com os animais, de eles serem esteios das nossas carências, porém ao mesmo tempo há uma identificação dela com Vismundo, uma genuína empatia entre dois seres “tolerados”, aos quais é permitido um “cantinho” no mundo. E é verdadeiramente emocionante o final, quando, ao morrer, a última visão de Biela é a do cachorro, como síntese do que a sua vida teve de boa e realmente vivida.

É possível que a história da prima Biela seja, junto com O risco do bordado & Novelário de Donga Novais, o que de melhor Autran Dourado escreveu. E é inexplicável que ele se encontra hoje em dia tão ignorado pela mídia, quando tem uma das obras sólidas, indiscutíveis e de alto nível da literatura brasileira das últimas décadas, como o também ótimo Osman Lins (autor de Retábulo de Santa Joana Carolina). Seria muito bom que prima Biela conseguisse atravessar essa indiferença e fazer o mesmo sucesso de 30 anos atrás. E que ela trouxesse atrás de si Donga Novais, Lucas Procópio e outras criaturas do novelário sem fim do grande ficcionista mineiro…

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de outubro de 2002)

É inexplicável: na Baixada Santista  há tantas salas de exibição e, no entanto, se quiser assistir a filmes nacionais recentes, importantes e premiados, o público daqui tem que contar com a saletinha que é o Cinearte-Posto 4, onde eles passam com considerável atraso e por pouquíssimos dias (mas passam, pelo menos). Foi o caso de Lavoura arcaica; é o caso agora de UMA VIDA EM SEGREDO.

Não deixa de ser curiosa e reveladora a escolha do belíssimo texto de Autran Dourado por Suzana Amaral para o seu segundo filme, uma vez que o primeiro era uma (linda) adaptação de A hora da estrela, de Clarice Lispector. O próprio autor de UMA VIDA EM SEGREDO já declarou, no depoimento que está num livro que o homenageia (Autran Dourado, Coleção Encontros com Escritores Mineiros, Editora da UFMG): “Não há como negar que Macabéa e prima Biela são muito parecidas. Aquele desamparo diante da vida, diante do mundo, das coisas, das convenções, aquela pureza e ingenuidade, o lado franciscano das duas. Acho que Biela e Macabéa são irmãs.”

Biela vai morar na casa do primo, após a morte do pai. Ao longo dos anos, a cidade e a família dele vão se acostumando ao jeito ronceiro da estranha parenta, sempre tão “boazinha”, em contrapartida, e sempre vivenciando o seu mundinho recôndito, isto é, “em segredo”, irredutível até mesmo às desastradas tentativas casamenteiras de Constança, esposa do primo Conrado, após as quais ela recaptura por assim dizer sua radical solidão, alimentada apenas pelas lembranças da roça e por alguns parcos investimentos afetivos, o maior deles o cachorro Vismundo, também um ser “tolerado”, com que ela compartilha um cantinho minúsculo do vasto mundo.

Sempre me emociona o final, quando—ao morrer—a última visão da prima Biela é a do seu cachorro, símbolo irrisório mas profundo do que sua vida teve de boa e vivida de fato, embora “franciscana” em seu despojamento, em seu “coeur simple”.

E outro fenômeno inexplicável como a  indiferença dos cinemas regionais a qualquer filme que não seja para grande público, é como—apesar da reedição da sua obra completa pela Rocco—a mídia atual ignora quase que ostensivamente o grande escritor mineiro. Parece que ele mimetizou o destino de sua maravilhosa personagem e criou uma obra em segredo. E é uma lástima porque nossos três maiores ficcionistas vivos são Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Autran Dourado, os únicos que, no panorama atual, e se algum dia o Nobel descobrisse que o Brasil existe, mereciam incontestavelmente o prêmio.

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