MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

Autran Dourado: sempre o mesmo, sempre mutável


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O MOINHO DA FANTASIA: FREUD EM DUAS PONTES

 (Resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de julho de 2006)

O meu leitor habitual já deve ter percebido o apreço que tenho pela obra de Autran  Dourado. Dos mais de vinte títulos do grande escritor mineiro (que  em 2006 completa 80 anos), três são especiais: O Risco do Bordado (1970), Novelário de Donga Novais (1976) e Armas & Corações (1978), cuja reedição acabou de sair pela Rocco, com mais uma capa assustadoramente feia.  Três novelas (Manuela em dia de chuva; Às seis e meia no Largo do Carmo; Mr. Moore) são excelentes, contudo maravilhosa mesmo é a última, A extraordinária senhorita do país do sonho, uma das obras-primas da nossa ficção.

Nela, se conta como o gigantesco e truculento Aristeu (filho de um dos coronéis de Duas Pontes, a cidade criada por Autran como eixo do seu universo ficcional) apaixona-se por uma minúscula artista de circo, a “extraordinária” Jezabel Kislány. A cidade inteira acompanha os lances dessa paixão: “A diversão do público durante o número musical de Jezabel era ficar observando a postura, os gestos, o olhar embevecido do infeliz namorado Aristeu… Nunca ninguém teve notícia de que ele a tivesse procurado, de que os dois tivessem se encontrado. Jezabel e Aristeu eram vigiados atentamente, tinha sempre alguém rondando a casa de Aristeu, para ver se ele saía e saindo, para onde ia. Os dois se comunicavam não só por gestos e olhares, a gente soube depois.”

Nessa expectativa geral, apaixonada e bisbilhoteira, o que se vai fiando e se tecendo coletivamente é um “mito” da cidade, cuja conseqüência mais “extraordinária” é que a origem obscura (e suspeita) de Jezabel, o tal país do sonho, vai sendo substituída, no processo, pela transformação do cotidiano de Duas Pontes no verdadeiro “país do sonho”, remodelando a vida besta num estado onírico: “E só se falava daquele grande-pequeno amor. Era uma curiosidade malsã… se vivia o caprichoso desfiar do rendilhado, a se ver no fim tinha mais alguma coisa além do ponto.” O passional interesse coletivo pelo casal é, na verdade, uma tentativa da cidadezinha decadente de salvar-se da imersão no arcaico, do mergulho no esquecimento histórico, de se regular pelo mundo do desejo (e não pelo princípio da realidade), entregando-se a uma atividade lúdica, distinta radicalmente da vida ordinária, um fazer de conta, para “alimentar o moinho da cidade e saciar a nossa fome de infinito, de poesia…peça por peça, como quem compõe um jogo.”

A srta. Kislány torna-se a mulher de Aristeu, que a leva para sua fazenda, o casal isolando-se. E aí a “manivela da nossa fantasia é acionada principalmente pelo fuxico centrado no aspecto sexual, na curiosidade anatômica (“ a simples existência dos dois, a sua desproporção física). Assim, o lúdico libera o que é reprimido na esfera da libido.

Ao analisar, num livro clássico, os motivos para o chiste (gracejo), sua técnica, suas tendências, e por fim sua relação com o inconsciente, Freud sublinhou que o prazer em gracejar nos reata com nosso psiquismo infantil: “Pelo trabalho repressor da civilização perdem-se possibilidades primárias de prazer que são reprimidas pela censura psíquica. Mas, para a psique humana, é muito violenta qualquer renúncia, e encontra no chiste um expediente que nos proporciona meios de tornar ineficaz a dita renúncia e ganhar novamente o perdido.” Os ditos picantes abririam, então, “fontes de prazer que se tinham tornado inacessíveis. É por esse motivo que a manivela da fantasia de Duas Pontes se dedica ao grotesco de uma relação anatomicamente desproporcional. É também uma forma de vingança: tinha-se medo de Aristeu, agora se pode falar dele com toda a liberdade. Até que a falta de notícias (haverá uma grande reviravolta, que não convém contar) coloca a fabulação da cidade em perigo:“E a nossa fantasia tão boa, o nosso mito tão rico, ameaçava se esvair nas nuvens, virar espuma no ar, tanta era a falta de um mínimo de realidade de que a nossa fábrica de sonhos carecia.”

O que temos aqui é uma representação do imaginário se formando, e também uma poética do narrar. Como afirma Ecléa Bosi, no memorável Memória e Sociedade- Lembranças de Velhos, narrar –por ser uma forma artesanal de narração—é transformar. A narração, segundo ela, “não visa a transmitir o ‘em si’ do acontecido, ela o tece até atingir uma forma boa. É o que mostra a fábrica de sonhos de Duas Pontes. Mas só Deus é quem conhece  por inteiro o risco do bordado.

TECENDO O PASSADO

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de  janeiro de 2006)

O nosso maior romancista, Autran Dourado, por duas vezes abordou seu período como assessor  de Juscelino Kubitschek, nove longos e desgastantes anos que o seqüestraram do fazer literário, que o levaram a um esgotamento nervoso (e internação num sanatório) até que emergisse como grande romancista em 1961, com A Barca dos Homens.

Antes de ficar à sombra do grande homem,enredado em sua teia, publicara duas novelas titubeantes, Teia e Sombra & Exílio, e um romance talentoso, Tempo de Amar. Transcorreria um longo interregno de experiência palaciana, só quebrado pelos contos reunidos em Nove Histórias em Grupos de Três.

Em 1984, o romance A Serviço del-Reise apresentava como uma experiência literária similar à que Glauber Rocha dera forma cinematograficamente em Terra em Transe. JK aparecia sob os traços deformantes, caricaturescos, pantagruelescos, porém muito verdadeiros, de Saturniano de Brito, que cooptava o alter ego de Dourado, João da Fonseca Nogueira, levando-o a trair ideais e amigos, abandonando Duas Pontes (cidadezinha-centro simbólico da obra do autor mineiro) e suas ambições literárias. O texto parodiava a Teogonia (a narrativa do nascimento dos deuses e do mito), era todo hiperbólico e cruzava poderosas referências literárias, como a famosa fala de Júlio César, de Shakespeare, na qual se ironiza a traição efetuada por Brutus, But Brutus is an honourable man. Brutus é um homem honrado ?

Na época, apesar das evidências biográficas, boa parte da crítica resistiu em tratar A Serviço del-Rei como um  “roman a clef”, isto é, um romance em que cada personagem cifrava uma figura da realidade política dos anos 50.

Em 2000,  a publicação de Gaiola AbertaTempos de JK e Schmidt veio complicar a simples negação.  Muitos fatos ali ecocados espelhavam episódios narrados no romance.

O título vinha de uma frase de Kafka, “Um pássaro foi em busca da gaiola” (cuidado leitor, para não confundir com a reunião de 150 sonetos com o mesmo título da autoria de Domingos Pellegrini e lançada há pouco pela Bertrand).

Não é um livro que trace um contorno simpático de JK, muito pelo contrário, ainda que apresente uma aura de fascínio ressentido. Como fica claro num diálogo com o incentivador do projeto memorialístico, Silviano Santiago: “Como é aquela frase do padre Antônio Vieira que você usou como epígrafe de A Serviço del-Rei ? ‘A serviço del-Rei, prudência; el-Rei  de perto queima, de longe esfria’, disse eu. Está numa carta dele. Você ficou bem queimado, disse Silviano. Queimadura sim, até hoje tenho cicatrizes… Não passei de um pássaro que foi em busca da sua gaiola”.

Fragmentado, enovelado, polêmico,  Gaiola Abertavai até o momento em que Autran recusa-se a acompanhar JK a Brasília, após servi-lo em Belo Horizonte e no Rio (então, Capital Federal). E a atmosfera tensa do relato contraria a todo momento a suspeitíssima afirmação de que “Contadas assim a frio, a uma distância de quase cinqüenta anos, as coisas perdem a ênfase, costumam aparecer pálidas e descarnadas, se não mesmo ossos de defunto, que é o destino de toda a carne”.

Mais verdadeirmante se lê: “Oito ou nove anos de convívio assim nos afeiçoam. E eu gostava realmente dele… eu lhe dera a minha saúde, tempo precioso de literatura…”.

No fim das contas, em se tratando do matreiro mineiro Autran Dourado, o  leitor tem nas mãos um  texto “urdido com a habilidade de uma aranha tecedeira”.

Sempre o mesmo, sempre mutável

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em   03 de setembro de 2005)

A Rocco reeditou um livro há muito tempo sumido, Meu mestre imaginário, publicado por Autran Dourado em 1982, momento em que seu prestígio ainda se conservava no auge, tendo recebido o prêmio Goethe por sua coletânea As imaginações pecaminosas (1981).

Nos anos seguintes, algo aconteceu e a repercussão do seu trabalho foi progressivamente diminuindo, embora ele tenha publicado alguns livros muito bons (Lucas Procópio; Violetas e caracóis; Um cavalheiro de antigamente; Ópera dos fantoches) e outros menos felizes (A serviço del-Rei; Um artista aprendiz; Monte da alegria; Confissôes de Narciso; Vida, paixão e morte do herói), embora não desinteressantes.

    Meu mestre imaginário é um livro de ensaios, ancorado na ficção, uma vez que ele cria um personagem, Erasmo Rangel (o nome é uma homenagem a um mestre verdadeiro na vida de Autran, Godofredo Rangel, autor de Vida ociosa) para discutir suas idéias sobre literatura e carpintaria literária. A vantagem é que o Mestre é “contraditório e mesmo absurdo”,  sem “a virtude pequeno-burguesa de querer ser sempre o mesmo e conseqüente”, “sempre o mesmo, sempre mutável”.

Como Autran Dourado escreve muito bem, o livro é um saboroso passeio pelos bosques da ficção de Flaubert, de Stendhal, a respeito de Homero, dos trágicos gregos, de Quevedo, todavia revela uma certa tibieza e fragilidade intelectual, já evidentes no livro teórico anterior, Uma poética de romance: matéria de carpintaria(1976). Ele parece esquecer que o termo carpintaria é utilizado, no teatro, para definir o estilo dos autores comerciais: Fulano tem uma boa carpintaria! E seus  devaneios e caprichos acabam lembrando a pedante, ainda que comovente exibição do dr. Viriato, um dos seus personagens mais inesquecíveis (particularmente em Novelário de Donga Novais), perdido na província, e cujo único recurso é assombrar os basbaques e capadócios locais com uma erudição meio charlatã, ainda que divertida para o leitor.

No mais, a leitura sempre valeu para mim por causa da história de Numênio Rhetoricus, um gramático que inventou um dicionário circular e labiríntico, no qual os verbetes remetem infinitamente a outros verbetes: ‘quem entrasse por qualquer das palavras do mágico dicionário jamais poderia sair do seu universo vocabular (o resto da história, leitor, só lendo Meu mestre imaginário).

E há ainda algumas belas proposições sobre o labirinto. A mais bonita: “Quando o homem mata em si o Minotauro, o que nele resta é apenas a razão. Um ser esvaziado de sentido, cadáver do mito.”

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