MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

A nau dos insensatos de Autran Dourado


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Após relançar as obras de Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, a editora Rocco reedita outro importante autor brasileiro:  Autran Dourado. De saída, já temos seus três livros mais famosos, A barca dos homens, Ópera dos Mortos e Os sinos da agonia, e também aquela que é provavelmente sua maior obra, O risco do bordado.

Pelo aspecto cronológico, melhor começar com A barca dos homens, publicado em 1961, ano importante já que nele também surgiu A maçã no escuro, um dos mais intrincados, densos e fascinantes textos de Clarice Lispector. Ambos eram poderosos antídotos contra o rasteiro naturalismo que infesta a ficção brasileira. E se o caminho de Lispector era a radical problematização da própria linguagem e do discurso ficcional, o de Dourado era uma espécie de realismo simbólico.

A barca dos homens apresenta uma ilha (Boa Vista) como espaço concreto e simbólico. Ali, uma família citadina (Godofredo, o pai; Maria, a mãe; Dirceu e Margarida, os filhos) passa as férias, tendo como empregada Luzia, mãe de um deficiente mental, Fortunato, que será o pivô dos acontecimentos.

Na ilha encontram-se marcas “gloriosas” do passado colonial: a casa da Câmara, o chafariz, a nave da igreja; o próprio narrador faz uma constante paródia da linguagem dos cronistas da época colonial. Mas o presente encontra-se degradado pela exploração industrial da pesca.

As figuras masculinas, as quais teoricamente representam a autoridade paterna, legal ou espiritual (Godofredo, Tenente Fonseca, Frei Miguel), confrontam-se com suas fraquezas e ridículos (Godofredo sofre a hostilidade da esposa, que o despreza) e reportam-se a imagens maiores que eles mesmos (uma persona de si mesmo, mais “representativa”, no caso de Godofredo; o marechal Floriano, no caso do tenente; o Pai Celestial, no caso do padre) em suas artimanhas retóricas.

Num único dia, que apresenta um caráter psicológico de sempiternidade, como fosse “um dia de todos os dias”, dia ritual, feriado, Fortunato, mulato, bastardo e retardado, desestabiliza a Ordem e é perseguido pela polícia por falsas alegações do respeitável Godofredo, que o acusa de ter roubado um revólver, aliás, um símbolo de autoridade, após surpreendê-lo remexendo as roupas íntimas de Maria.

Embora “filho de pai desconhecido”, Fortunato tem um pai simbólico, o agora imprestável pescador Tonho (que parece atrelado a um estágio ultrapassado, pré-industrial, da economia), o qual poderia ser seu salvador, porém fracassa como “herói”; aliás, Tonho fora incumbido dessa missão por seus companheiros de prisão, que se compadecem do destino de Fortunato. Outra dupla pai-filho simbólica, os soldados Gil e Domício (este último, não por acaso, oriundo do interior, tendo seus valores confrontados com os dos companheiros, nesse dia inusitado e fatídico), é responsável pela execução de Fortunato, o pharmakós, bode expiatório, cuja morte desde o início era anunciada.

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Esses são apenas aspectos do mundo de dualidades e complementaridades que se constrói em A barca dos homens (numa linguagem que usa de forma extremamente sofisticada para nossa literatura recursos como o discurso indireto livre, aquele em que se confundem a voz do narrador e a do personagem). A caça a Fortunato nos estreitos limites da ilha confirma o atrito entre tradição e modernidade: o moderno burguês Godofredo procura relegar ao “mundo da escuridão” pressentido pela filha todos os rebotalhos remanescentes de uma vida “ultrapassada”. O heroísmo entra em crise, se entendermos por heroísmo a ação de um homem que resgata uma comunidade do perigo (e quando o “perigo” é um pobre deficiente mental, então algo de muito errado está se passando nessa comunidade), como Teseu, por exemplo, salvando Tebas do Minotauro.

Dessa forma, antes mesmo de inventar Duas Pontes, seu espaço fictício característico, e ambientando seu romance num espaço não muito usual na sua obra (com a presença do mar), o grande escritor mineiro dava um salto de qualidade com relação aos seus livros anteriores, os anódinos Teia e Sombra e exílio, o já talentoso Tempo de amar e as irregulares Nove histórias em grupos de três. Com A barca dos homens estamos no pórtico de um grande universo dentro da nossa ficção.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em  23 de novembro de 1999)

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https://armonte.wordpress.com/2012/04/13/o-lugar-vazio-na-roda-o-risco-do-bordado-de-autran-dourado/

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1 Comentário »

  1. […] Após relançar as obras de Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, a editora Rocco reedita outro importante autor brasileiro:  Autran Dourado. Li A Ópera dos Mortos do autor nos tempos de faculdade e me botou uma ou duas ideias boas na […]

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