MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/04/2013

O travesti e o dono do mundo numa obra-prima da ficção hispano-americana


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“Quero rir. Não é possível que tudo seja triste desse jeito…” (Pancho Vega, em O lugar sem limites)

resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 02 de abril de 2013

José Donoso (1924-1996), no Brasil, era praticamente apenas o autor de O obsceno pássaro da noite (1970), um clássico do romance hispano-americanos. Até agora. A situação deve mudar com a tardia, porém bem-vinda tradução de O lugar sem limites (El lugar sin límites1965, em tradução de Heloisa Jahn).

Os personagens principais dessa outra obra-prima do escritor chileno são o travesti Manuela (já de idade avançada) e sua filha, a Japonesita, proprietários do único puteiro (é uma espelunca muito chinfrim para ser chamada de bordel) de El Olivo,  povoado que está desaparecendo aos poucos, apesar das promessas recorrentes do latifundiário local, Don Alejo Cruz, de trazer eletricidade e progresso à cidade (na verdade, deseja mesmo é que todos vendam suas casas para ele, para poder colocar tudo abaixo e ampliar seus vinhedos). Houve uma fugaz possibilidade de uma rodovia trazer um novo tempo para o cafundó “perdido no mapa”, como se diz, porém ela acabou passando (possivelmente por meio de maquinações de Don Alejo) a quilômetros.

O maior desejo de Manuela, obstado pela filha (que não quer ser envergonhada pelo pai em outro lugar), é ir embora de El Olivo (“…um dia desses agarro meus trastes e me mando para um povoado grande como Talca. Tenho certeza de que a Pecho de Pala me dá trabalho. Mas quantas vezes já dissera isso, e estava com sessenta anos”).

Muito tempo atrás, chegara ali para uma apresentação de dança (num momento de vitória eleitoral de Don Alejo, com muitos votos de cabresto) e se envolvera numa aposta entre a Japonesa, então dona do estabelecimento e o político-fazendeiro: a cafetina seria a dona da casa se conseguisse fazer o travesti transar com ela, com todos os presentes assistindo. A cena tal como é narrada é um extraordinário feito literário, mas só retenho dela uma informação relevante: a Japonesa consegue convencer Manuela propondo-lhe sociedade. Como se estivesse preso num visgo, contudo, anos depois (já morta a mãe da Japonesita, a qual assume os negócios), ele não consegue fazer uso da sua parte, ficando quase como uma empregado da filha, fenecendo ali, e sempre sonhando com uma “vida mais plena”. Como se num cenário de faroeste, um mundo de fronteira e confim, esses personagens tão latino-americanos vivessem uma espera inerte, similar àquela de certas peças do russo Tchekhov ou do norte-americano Tennessee Williams.

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E este é apenas um dos prismas de um texto curto (cerca de 150 páginas), nem por isso menos caleidoscópico: o que Donoso consegue, de forma assombrosa, é fincar na mente do seu leitor, para sempre, todo um pequeno rincão, seus habitantes e toda uma série de estratagemas e tensões entre eles, que vão se delineando por anos, e que conheceremos através de um complexo (mas bem sutil), magistral, tratamento do tempo narrativo.

Pois, talvez mais ainda do que o drama de Manuela (que já por si seria poderoso[1]), creio que o ponto crucial do romance é nos apresentar um lugar que tem um dono. Penso que Don Alejo é o centro do relato[2]. Primeiro ele é apresentado de forma um tanto quanto benigna, protegendo e sendo condescendente com Manuela, a Japonesita e as meninas do puteiro (como fora com a Japonesa, com quem teve seus amores e principalmente seus negócios). Mas depois o vemos andando pela localidade com seus quatro ferozes cães, atiçando-os contra quem o irrita e enfrenta, vemos suas negociatas, suas segundas intenções, a maneira como vai se apossando das propriedades alheias, à força da deterioração e do abandono[3].

É por isso que El Olivo se torna mais que um fim de mundo, o Inferno (na acepção do trecho da peça de Christopher Marlowe, que serve de epígrafe e justifica o título: Mefistófeles explica para Fausto que “o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos). Servindo como ponto de costura desse tecido infernal, temos o caminhoneiro Pancho Vega, à primeira vista um “homão”, aquele tipo viril que deixa Manuela siderada, mesmo que depois inevitavelmente a maltrate, e que consegue mexer até com a Japonesita, em geral desinteressada do sexo oposto.  Haverá uma disputa surda e perversa entre pai e filha:

“__ Defender você, para quê? Vá para a cama com ele, não seja burra. É ótimo. O homem mais macho das redondezas, e tem caminhão e tudo, e poderia nos levar para passear. E já que algum dia você vai ter que ser puta, então…

…ele que a pegasse à força. Naquela noite, finalmente, nem que corresse sangue. Pancho Veja ou outro qualquer, isso ela sabia. Mas hoje Pancho. Fazia um ano que sonhava com ele. Sonhava que ele a fazia sofrer, que batia nela, que a violentava, mas naquela violência, debaixo dela ou dentro dela, encontrava alguma coisa com que enfrentar o frio do inverno. Aquele inverno, porque Pancho era cruel e brutal e torcera seu braço, fora o inverno menos frio desde a morte da Japonesa Grande. E os dedos de Manuela tocando sua cabeça, apalpando sua têmpora perto da orelha para falsificar a coqueteria do cabelo eriçado, também não eram tão frios… Era um menino, a Manuela. Podia odiá-lo, como agora há pouco. E não odiá-lo. Um menino, um pássaro. Qualquer coisa, menos um homem. Ele próprio dizia que era muito melhor. Mas nem isso era verdade. Enfim, ele tem razão. Se vou ser puta, melhor começar com o Pancho.

    Manuela acabou de ajeitar o cabelo da Japonesita no formato de uma colmeia. Mulher. Era mulher. Ela ia ficar com Pancho. Ele era  homem. E velho. Um veado pobre e velho. Uma bicha que adorava festas e vinho e roupas e homens. Era fácil esquecer essas coisas aqui, protegido no povoado—é, ela tem razão, melhor ficar por aqui. Mas de repente a Japonesita lhe dizia aquela palavra e sua própria imagem ficava borrada…”

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Depois, assim como acontece com Don Alejo vamos conhecendo o avesso dessa aparência inteiriça: um ex-peão da fazenda da família Cruz (que morre de medo de ser um dos bastardos do latifundiário), que acha que conseguiu escapar da servidão, mas que para ter seu caminhão contraiu uma dívida “apalavrada” (não-escrita) com Don Alejo. Devendo alguns meses, ele é humilhado, sendo lembrado da sua eterna dependência, da qual crera ter se subtraído, ao morar em outro local, mais urbano[4]. Um dos maiores momentos de O lugar sem limites acontece quando ele consegue (graças ao cunhado) o dinheiro para quitar a dívida com Don Alejo. Outro momento fantástico é a ida  dele ao puteiro, para ajustar “outras contas” com a dupla Japonesita-Manuela (tinha prometido “comer aquelas duas muito bem comidas), e ao deixar-se envolver por uma atração inexplicável (para ele, na condição de “macho autêntico”), para além da fanfarronada testosterônica[5], flagrar a reprovação escandalizada do cunhado, precipitando o  inevitável clímax da história… Afinal, como Sartre nos ensinou, o olhar dos outros é que nos dana: “O inferno são os outros”.

E eu achava que nenhuma obra hispano-americana (com a experiência de leitura de realizações no gênero mais para caudalosas, como Cem anos de solidão, Conversa no Catedral, O jogo da amarelinha, O século das luzes, Sobre heróis e tumbas, Paradiso o próprio Obsceno Pássaro da Noite) conseguiria a concisão lapidar de Pedro Páramo, de Juan Rulfo! Mais ainda, história de Manuela  é pertinente e eu diria mesmo urgente, num momento em que as forças mais retrógradas começam a colocar suas manguinhas de fora, sob o beneplácito de uma Esquerda (se é possível ainda chamá-la assim) vazia, que não quer largar o osso do poder.

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[1] Apesar de ser, no vocabulário corrente de hoje, uma pessoa “excluída”, Manuela não deixa de seguir a rotina católica, os ritos das chamadas “pessoas decentes” que nunca falariam com ela ou a tratariam decentemente. No início da narrativa, ela está desesperada por conta de obstáculos que a impedem de ir à missa (que pode ou não acontecer, dependendo do aparecimento ou não do padre que vem de fora): “Como é que eu vou ficar sem a missa?”).

Nisso ela segue o exemplo da Japonesa Grande, cuja adesão entusiástica à eleição de Don Alejo se explica assim: “Por isso ela pertencia ao partida político de Don Alejo, o partido histórico, tradicional, da ordem, o partido das pessoas decentes que pagam suas dívidas e não se metem em confusão…”

[2] Um vislumbre da sua personalidade e atitude: “Quando Don Alejo vê que algum de seus cachorros pretos está mal, que está ficando mole ou muito manso, ou que começa a mancar de uma das patas, eu e Don Alejo nos trancamos com o cachorro e ele mata o animal com um tiro…eu seguro o cachorro para que o tiro pegue direito, depois enterro. E quando a cadela que temos trancada no fundo da horta entra no cio, damos suplemento alimentar aos cachorros e nos trancamos de novo, Don Alejo e eu, com eles no galpão, e as feras lutam pela cadela, ficam loucos, às vezes se machucam até montá-la, e assunto resolvido. Ficam só os melhores filhotes, e no caso de ele haver matado um dos grandes fica só com um, os outros eu jogo no canal de Los Palos num saco. Quatro, ele gosta de ter sempre quatro. A senhora Blanca fica brava porque fazemos isso, diz que não é natural, mas o senhor ri e diz a ela que não se meta em assuntos de homens. E os cachorros, embora sejam outros, têm sempre o mesmo nome… desde os tempos em que Don Alejo era pequenino… sempre perfeitos, os quatro cachorros de Don Alejo, ele gosta que sejam ferozes, do contrário, mata…”

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[3] Em contraste com os “bons tempos” da Japonesa Grande e do funcionamento pleno da estação de trem, depois quase que largada de mão. Veja-se um trecho a respeito da comemoração da vitória na eleição:

“As senhoras… encarregaram os maridos de gravar bem na memória todos os detalhes do que acontecesse naquela noite na cada da Japonesa e que, se possível, se houvesse alguma guloseima interessante, quando ninguém estive olhando pusessem um pouco no bolso para elas, que afinal iam ficar sozinhas em casa entediando-se, enquanto eles faziam sabe lá o quê na festa. Claro que hoje não tinha importância se eles se embriagassem. Dessa vez a causa era boa. Que ficassem por perto de Don Alejo, o importante era isso, que Don Alejo os visse na sua comemoração, que de passagem e como quem não quer nada lembrassem-no da questão do terreninho e daquela partida de vinho que ele prometera vender-lhes com desconto, isso, que cantassem juntos, que dançassem, que aprontassem todas, hoje não tinha importância, desde que aprontassem junto com o senhor.

    O povoado passou meses coberto de cartazes com o retrato de Don Alejo Cruz (…) e noite após noite os cidadãos da Estação El Olivo reuniam-se ali para alimentar sua fé em Don Alejo e organizar encontros e excursões pelos campos e povoados próximos para propagar aquela fé. Mas o verdadeiro centro da campanha era o estabelecimento da Japonesa (…) No decorrer do último mês, principalmente, quando a proximidade do triunfo, atiçou a verve da patroa, fazendo-a esquecer tudo que não fosse sua paixão política, a Japonesa, generosa, distribuía seu vinho a todo visitante cuja posição fosse vacilante ou ambígua, e no curso de algumas horas deixava-a firme como um peral ou afiada como uma faca (…)

__ Vou gastar todo o meu dinheiro, mas algum prazer eu preciso me dar, e que tudo isso sirva para que El Olivo tenha o futuro que nos promete o recém-eleito deputado Don Alejo Cruz, aqui presente, orgulho da Zona…” Na minha transcrição dos trechos, eu utilizei sempre Don Alejo Cruz (nome mais familiar de Don Alejandro Cruz), para evitar confusão.

El lugar sin límites Jose Donoso Arturo Ripstein

[4] “Então ele e seu compadre não podiam se divertir um pouco um dia sem ouvir o nome de Don Alejo, Don Alejo? Doña Blanca que fosse à merda (…) Eles que fossem á merda. A mão de Pancho subia pela perna da Japonesita e ninguém dizia nem uma palavra (…) Ele pagara toda a sua dívida e o caminhão agora era dele. Seu caminhão vermelho. Acariciar seu caminhão vermelho e não a Japonesita com seu cheiro de roupa, e aquela buzina rouca o bi-bi fala igual a papai, dizia Normita. Dele, o caminhão. Mais que a mulher. Que a filha. Se quisesse, podia correr com ele pela estrada longitudinal que era reta como uma faca, esta noite por exemplo, podia correr com ele feito um condenado, tocando a buzina para tudo que aparecesse, pisando lentamente no acelerador para penetrar até o findo da noite e de repente, porque sim, porque Don Alejo já não tinha como controlá-lo (…) Se eu quiser. Se me der na telha, e não devo explicações a ninguém. A perna da Japonesita começou a esquentar debaixo de sua mão…”

[5] “Lembrava-se do ano anterior dos olhos de Manuela olhando para ele e ele olhando para os olhos aterrorizados, iluminados entre suas mãos que apertavam o pescoço dela e os olhos a olhá-lo como redomas lúcidas com a certeza de que ele ia afogar aquela paisagem de terror nas marés de dentro. Ficou imóvel.

__ E a Manuela?

__ Meu pai está deitado.

__ Chame.

__ Ele não pode. Está doente.

     Agarrou-a pelos ombros e a sacudiu.

__ Que doente nada! Aquela puta velha! Você acha que vim aqui para ver sua cara de coelho resfriado? Não, vim ver a Manuela (…)

__ Não chame meu pai de a Manuela…”

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2 Comentários »

  1. legal! conseguiu me despertar a vontade de ler esse livro do Donoso! abraço

    Comentário por Ademir Demarchi — 02/04/2013 @ 13:20 | Responder

    • Obrigado pelo comentário. Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 02/04/2013 @ 17:01 | Responder


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