MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/03/2013

A “CIDADE DE DEUS” de Doctorow: um fracasso amoroso de leitura

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“Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

Nos anos 80, um recorde de estupidez foi alcançado quando a Rocco transformou Roger´s version, de John Updike, em Pai-Nosso Computador. A Record, talvez inspirada por seu nome, tentou quebrá-lo recentemente com o título brasileiro de City of God, de E.LDoctorowDeus—Um fracasso amoroso!!??

Doctorow escreveu um dos melhores romances norte-americanos, O livro de Daniel (1971). Chegou perto com A Grande Feira e a novela Vida dos poetas, e ainda tem outros belos livros, como os muito famosos Ragtime e Billy Bathgate, além de Tempos Difíceis (na verdade, Benvindo a Tempos Difíceis, pois Hard Times é o nome de um lugarejo) e The Waterworks- A mecânica das águas.

Estabelecida, portanto, a minha admiração, é preciso dizer que City of God (traduzido com empenho por Roberto Muggiati) representa um fracasso amoroso de leitura. O título original nada tem a ver com o nosso Cidade de Deus, de Paulo Lins, e sim com Santo Agostinho. Como a metrópole urbana dos nossos dias, representada por Nova Iorque, pode ser o palco da manifestação do Senhor, como podemos nos relacionar com Ele num mundo como o nosso, com seus problemas específicos e carregando o fardo dos horrores muito particulares do século XX?

“…do jeito que as coisas estão acho que temos de refazê-Lo. Se precisamos nos refazer, precisamos refazer o Senhor, Deus”.

Um Deus contemporâneo?  “Estamos vivendo numa democracia pós-moderna. Acha que Deus não sabe disso?”

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O livro de Santo Agostinho serve como referência devido à “toda a sua mala de truques de escritor. Todas aquelas doutrinárias tratadas como se existissem, como personagens num romance de Henry James” (outro padroeiro do romance é Wittgenstein, o qual tem até seu estilo parodiado).

Os problemas de Deus são associados aos problemas dos narradores. Como organizar esse material caótico à nossa volta? Tim Pemberton, o protagonista, diz ao seu amigo Everett:“Está perturbado porque se deu conta… como você, errônea e gloriosamente, presumiu que podia escrever um livro sobre isto!” Everett tenta tecer um romance partindo do roubo da cruz de uma Igreja Episcopal, ato sacrílego que servirá para  aproximar o casal central, o reverendo Pemberton e a rabina Sarah Blumenthal, embora Doctorow, autor evocativo por excelência, continue a exercitar sua máquina do tempo, desta vez com incursões nos guetos judeus da época da Segunda Guerra e nas trincheiras da Primeira, só para dar dois exemplos. Ele se vale também dos nomes de família que utilizou em Mecânica das águas, Pemberton e McIlvaine.

Ele precisava de 350 páginas para exercitar a ironia de contestar a onipresença tanto de Deus quanto do Narrador? Já que estamos no terreno religioso, Doctorow cometeu os pecados do orgulho e da soberba, pretendeu escrever o Livro da virada do milênio, a obra-referência. Não conseguiu. O que salva City of God de ser apenas um romance cansativo e falho, são as mesmas qualidades que também salvavam Loon Lake- O lago da solidão, até então seu trabalho mais discutível: iluminações repentinas, o estilo, enfim,  toda a sua mala de truques de escritor.

(resenha publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em  26 de outubro de 2004)

VER TAMBÉM O TEXTO ACIMA NUM CONTEXTO MAIS AMPLO EM:

https://armonte.wordpress.com/2010/05/17/doctorow-rushdie-delillo-e-a-virada-do-milenio/

Writing-Tips-E.L.-Doctorow

24/03/2013

O MÁGICO OZ

 

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“Quando tinha dezesseis, dezessete anos, o escritor costumava se sentar sozinho numa despensa abandonada e despejar no papel confusos trechos de histórias. Ele os escrevia mais ou menos da mesma maneira que sonhava e da mesma maneira que se masturbava: num torvelinho de coerção e de entusiasmo, e desespero e náusea e infelicidade. E também uma infatigável curiosidade de tentar entender por que as pessoas o tempo todo infligem umas às outras, e a si mesmas, coisas que nunca tiveram intenção de infligir.

    Ele agora também gostaria de entender, mas com os anos nele se acumulara uma espécie de pavor corporal de contato físico com estranhos… E no entanto ele continua a olhar para eles e a escrever sobre eles para assim tocar neles sem tocá-los, e para que eles toquem nele sem tocar de verdade.

    Talvez seja assim: você escreve sobre eles como um fotógrafo dos tempos das fotografias sépia, um fotógrafo de reuniões familiares. Anda de um lado para outro entre os figurantes, bate um papo com todos, faz amizades, graceja, pede que finalmente se arrumem em seus lugares, vai e planta seus personagens em semicírculo, como um anfiteatro… passa duas-três vezes entre as fileiras e com um leve toque endireita aqui e ali um colarinho, a fralda de uma camisa, dobras de mangas, fitas de tranças, e volta para trás de sua câmera apoiada num tripé, enfia sua cabeça embaixo do pano preto, fecha um olho, conta em voz alta até três, finalmente aperta o disparador e com isso faz todos virarem assombrações…

    Mas por que escrever sobre o que existe também sem você? Para quê descrever com palavras o que não são palavras?… Ele se enche de vergonha e de constrangimento por olhar para todos de longe, de lado, como se todos só existissem para que deles fizesse uso em suas histórias. E com essa vergonha vem também uma angustiante aflição por sua estranheza constante, por sua incapacidade de tocar e ser tocado, por estar sua cabeça, durante todos os dias de sua vida, enfiada no pano preto da velha máquina fotográfica. Como a mulher de Lot: para escrever você tem de olhar para trás. E com isso o seu olhar transforma você e eles em blocos de sal.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de janeiro de 2009)

   Tenho tanta antipatia pelo estado de Israel  que demorei a dar atenção a Amós Oz. Estupidamente, só fui conhecer a obra-prima A Caixa Preta (que coloco sem hesitar entre os dez maiores romances dos últimos 25 anos) porque fazia parte de uma série de banca que eu colecionava. Aproveitando a forma epistolar, a partir do pedido de uma mais-que-dúbia mãe ao pai biológico de um adolescente para que se interessasse pelo futuro do filho problemático, Oz nos envolvia numa teia de manipulações, mentiras, dogmatismos e insanidades, que faria qualquer pessoa ter mais cuidado com seus auto-enganos, dogmatismos e insanidades. Porém, nem um livro desse porte me tirou a cisma com Israel (e a ladainha conveniente do Holocausto, que fez com que se considerasse “grande” até o modesto A Lista de Schindler, filme aliás tão mediano quanto o próprio livro que o originou e que me parece uma visão Frank Capra do evento) e, por isso, ao contrário da minha inclinação natural nesses casos, após descobrir um belo texto de um autor, fiquei anos sem adquirir ou me interessar em ler outro título do israelense. Não fui seduzido nem por sua autobiografia ficcional, De Amor e Trevas.

Pois a leitura de Rimas da Vida e da Morte me livrou dessa burrice persistente. É impossível não ler Amós Oz. Ele é um fabulista consumado, um narrador admirável e tem o toque de Midas que nos faz fruir na ficção a suprema bênção da leitura: mais vida em um tempo ilimitado.

Nesse pequeno texto, cujo título nos remete à obra de um escritor popular, naif, Tsefania Beit-Halachmi, que trabalha basicamente o proverbial (portanto, o fatalístico), ele nos apresenta um escritor que participará de um evento num obscuro centro cultural, no qual será discutida uma de suas obras, da qual farão, inclusive, algumas leituras (o organizador é que dá o mote para o título, citando um provérbio de Beit-Halachmi). Já no café onde faz um lanche antes do evento, esse escritor permite ao moinho de sua imaginação funcionar incessantemente, apropriando-se da figura da garçonete e de dois frequentadores, dando-lhes nomes e moldando-lhes trajetórias biográficas a seu bel prazer (e para o nosso deleite).

Essa gatunagem da vida alheia continua em pleno evento e depois, proporcionando-nos páginas deliciosas, sobretudo na vinheta mais desenvolvida, em torno da figura que ele cria a partir da leitora dos textos, Ruchale Reznik. Pois o que se passa entre ela e o escritor poderia ter acontecido na realidade (mas como, se estamos lendo uma narrativa?), pode ser um prolongamento da fantasia do escritor, e ainda comporta variantes.

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Parece já a desgastada metalinguagem? Experimente ler Rimas da Vida e da Morte, leitor, para ver que até as variantes transmitem um imponderável elemento vital, como se reproduzissem as hesitações das ações na vida real. O livro é um triunfo da ficção, da verdade das mentiras. E se torna mais importante ainda quando acabou recentemente, após meses, outro exemplar de um dos maiores representantes do apocalipse da imaginação da nossa era atual, o Big Brother Brasil (BBB). Tem gente que não gosta pela apelação, pela baixaria, pelo nível dos participantes; tem gente que não gosta por achar tudo armado e arranjado. Minha bronca é mais primitiva e primária (e é similar a que tenho contra filmes e livros “baseados em fatos reais”, como se isso os legitimasse): é contra a idéia de que a “vida real” é interessante. Ora, meus amigos (e não estou afirmando nada de novo), é tudo que ela não é, por um simples motivo: a vida não tem forma, não tem como agarrá-la com qualificativos e predicados, e mesmo que a coloquemos num certo ritmo (horário de trabalho, etc), apenas lhe impomos rotinas, e por mais entusiasmo que tenhamos e momentos bons, é aí nessas pseudo-formas que vemos o que ela tem de empatação e lastro de tédio. A vida só é interessante sob a forma de narrativa, e aí ela já não é mais vida, é relato, é o terreno de Amós Oz, apropriação indébita por um lado, ganho para nós por outro. Questionado sobre a “identidade real” de Emma Bovary, Flaubert colocou as cartas na mesa, mas até agora parece que poucos se aperceberam: Madame Bovary sou eu.

Em tempo: o narrador afirma na citação que abre este artigo que o escritor, emulando o fotógrafo de reuniões familiares, faz todos virarem assombrações. Pura modéstia. Não há ninguém mais vivo do que as “assombrações” de Rimas da Vida e da Morte.

22/03/2013

O LIVRO VERMELHO de Jung: “Assim falou Zaratustra”, “Imitação de Cristo”, “Divina Comédia” e “Interpretação dos sonhos” num mesmo pacote

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(o texto abaixo é uma versão resumida e alternativa à que eu propus à TRIBUNA de Santos e que foi publicada em 07 de junho de 2011; há, portanto, três versões: uma, bastante extensa, e que pode ser encontrada no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/22/forever-jung-o-cinquentenario-da-sua-morte-e-o-livro-vermelho/; uma intermediária, a que saiu em página inteira no referido jornal; e esta, no formato de uma resenha usual — preparada, caso A TRIBUNA não topasse minha proposta. Como foi lançada uma versão “light” pela Vozes do volume original, resolvi fazer o mesmo):

Em 6 de junho de 1961, morreu Carl Gustav Jung, o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas, às vésperas dos seus 86 anos. Para marcar o evento, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa , mas  o evento memorável desse cinqüentenário é a publicação de O Livro Vermelho, inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente. Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigante que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si mesmo, a sombra, os tipos psicológicos), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana. Por essa época, passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Jung, então, desenvolveu um método chamado “imaginação ativa” , no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado  num caprichado volume, o Liber Novus, cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos). Esse livro pessoal se tornou mítico, com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

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Jung produziu uma mistura torva e inclassificável de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo, A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico. Num processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, sua alma  vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar… O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através Dele mesmo…” Assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

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Serviço: O Livro Vermelho- Liber Novus (2009), de C.G. Jung (1875-1961). Tradução de Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos, revista por Walter Boechat. Editora Vozes.

 

FOREVER JUNG: o cinqüentenário da sua morte e O LIVRO VERMELHO

“Todo tipo de coisas me desviam para longe de minha ciência à qual eu acreditava estar dedicado firmemente. Através dela, queria servir à humanidade, e agora, minha alma, tu me levas para essas coisas novas. Sim, o mundo do meio, intransitável, multiplamente cintilante. Esqueci que cheguei a um mundo novo, que antes me era estranho. Não vejo caminho nem trilha. Aqui deverá tornar-se verdade o que acreditei sobre a alma, que ela sabia melhor seu próprio caminho e que nenhum desígnio lhe poderia prescrever um caminho melhor. Sinto que é tirado um grande pedaço da ciência. Deve estar certo, por amor à alma e por amor à sua vida. Dolorosa é apenas a idéia de que isto só aconteceu para mim e que talvez ninguém  consiga tirar alguma luz daquilo que eu produzo. Mas minha alma exige esta produção. Devo poder dizê-lo também só para mim sem esperança—por amor a Deus. Deveras um caminho duro. Contudo, aqueles eremitas dos primeiros séculos cristãos—o que faziam de diferente? E eram, por acaso,as piores e mais imprestáveis pessoas que viviam naqueles tempos? De modo nenhum, pois eram aqueles que tiravam a mais inexorável conseqüência da necessidade psicológica de seu tempo. Eles deixavam mulher e filhos, riqueza, fama, ciência—e se dirigiam ao deserto—por amor a Deus. Assim seja.” (Carl Gustav Jung, Livro Negro 3)

(uma versão condensada do texto abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 07 de junho de 2011)

INTRODUÇÃO

Em O terceiro homem, de Carol Reed, o personagem de Orson Welles diz ao herói (Joseph Cotten) que as intrigas turbulentas e sanguinárias dos Bórgias e dos Médicis foram o pano-de-fundo  da Renascença, enquanto séculos de paz  na Suíça  criaram o quê? O relógio-cuco.

Em 6 de junho de 1961, às vésperas dos seus 86 anos (nasceu em 26 de julho de 1875) morreu Carl Gustav Jung, a maior refutação da pitoresca (embora divertida) hipótese ético-civilizatória do “terceiro homem”. O mais eminente suíço certamente não veio à Terra nem a passeio nem para espanar a poeira do relógio-cuco: foi o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas e práticas meditativas como a ioga.

Eu, que sou um freudiano convicto, nunca tive prevenção contra Jung porque, depois de alguns livros que hoje sei serem “duvidosos” (porque na verdade não são de sua autoria), O homem e seus símbolos e Memórias, Sonhos, Reflexões[1], ainda muito novo “descobri” um precioso volume que, se formos rigorosos, também é uma contrafação, mas que conquista qualquer um para o universo das idéias junguianas. Para mim, durante um bom tempo, Jung foi O homem à descoberta de sua alma (com o subtítulo Estrutura e Funcionamento do Inconsciente). Por que se pode dizer que é uma contrafação como os outros dois? Trata-se de uma tradução portuguesa (da Tavares Martins, Porto, 1975)  de uma edição francesa organizada por Roland Cahen. Portanto, é café coado duas vezes. Mesmo assim, desafio qualquer um a dizer que não se trata de um livro fundamental para se descobrir por que Jung não se limitou a aperfeiçoar o relógio-cuco e a “paz” suíça. A leitura de James Hillman (que anda fora de moda ultimamente) também ajudou a estabelecer uma certa cristalização das idéias de Jung (hoje sei que Hillman representa apenas uma das inúmeras vertentes que foram adotadas a partir dessas idéias, mas quem tem noção dessas coisas quando se é um leitor onívoro de 20 anos?).

Também tive sorte no rol de obras de fato escritas por Jung. Comecei com o maravilhoso e apaixonante Tipos Psicológicos [2]. Eu não sou a pessoa mais sistemática do mundo e decerto o modo junguiano de expor suas idéias é uma loucura, mas acho que o leitor ganha muito com isso e o livro não é menos sólido por causa desse enviesamento teórico: por exemplo, ao invés de definir de vez não só os tipos psicológicos, como as funções a ele relacionadas (o pensar, o sentir, o intuir e o perceber), ele analisa vários personagens históricos e obras filosóficas e literárias (Jung seria um esplêndido teórico literário). Perde-se a clareza didática, mas é um ganho ao fim e ao cabo. E dali saiu um dos motes da minha vida:”…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará o seu meio ambiente, a chamada vida real”[3]

O LIVRO VERMELHO

Neste ano do cinqüentenário da morte de Jung, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa (18 volumes subdivididos em 35[4]) Mas o evento memorável, de fato, é a publicação de O Livro Vermelho, o inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente[5].

Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com  o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigantesco que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem sérios riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho iniciático nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, apesar do prestígio e da estabilidade financeira (casara-se com uma mulher rica), o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si-mesmo, a sombra, os tipos psicológicos, a função transcendente, a sincronicidade), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana e representarão na prática clínica o mesmo que a Reforma significou para o cristianismo (todo mundo conhece a cisão entre psicanálise freudiana e psicanálise junguiana)[6].

Jung sempre tivera obsessão por fenômenos ocultistas e por manifestações do sobrenatural, e por essa época passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Desenvolveu, então, um método chamado imaginação ativa (embora tenha chamado essa fase de sua vida de “doença criativa”), no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado em cadernos denominados Livros Negros e depois fez uma destilação, incluindo sua interpretação pessoal do que vivera, num caprichado volume, o Liber Novus,  cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos), que foi muito trabalhado durante os anos seguintes, até que o interesse pela alquimia  o levou para outras direções. Esse livro pessoal se tornou mítico (tido como o manancial de onde brotaram os principais conceitos junguianos), com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

Muitos consideram Jung um mistificador. Que imagem sai desse exercício de “imaginação ativa”?  Jung produziu uma mistura de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo (no final, porém, ele condena a imitação porque ela anula a idéia de renovação, e o texto é basicamente anti-cristão), A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos  e ópera wagneriana, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico, e também do bom e do mau gosto[7].

Nesse processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, a alma de Jung vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar. .. O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através dele mesmo…O heróico em  ti é que és comandado pelo pensamento de que isso ou aquilo seja o bem, que esta ou aquela obra seja indispensável, que esta ou aquela coisa seja rejeitável, que este ou aquele objetivo deve ser alcançado pelo trabalho ambicionado lá adiante, que este ou aquele prazer deva ser reprimido por todos os meios e inexoravelmente.  Com isso pecas contra o não-poder…”

E assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes. E também vai se aclarando o “processo de individuação”, tão caro à psicologia junguiana. Devo dizer, contudo, que os embates da alma de Jung e o imaginário que daí emerge em O Livro Vermelho fornecem munição à visão crítica de Richard Noll, cujo O Culto de Jung é uma abordagem negativa do mestre suíço como liderança carismática e representante da mentalidade völkisch (culto aos antepassados teutônicos, insistência na supremacia germânica, fornecida pelas noções de geografia e raça)[8], que foi um componente psíquico que estimulou o desenvolvimento de uma mentalidade nazista.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por  meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

Contudo, para encerrar esse meu breve passeio pelos bosques junguianos, escolho citar—até para provocar o escândalo do eu freudiano—uma reveladora passagem de O homem à descoberta de sua alma:

“Seria lastimável considerar como ilusório esse sistema imenso de experiências da psique inconsciente. O nosso corpo visível e tangível é também um sistema de experiências inteiramente comparável, que encerra ainda os traços dos desenvolvimentos das primeiras idades e forma, incontestavelmente, um conjunto sujeito a um fim: a vida, que, de outro modo, seria impossível.

   A ninguém ocorreria negar o grande valor da anatomia comparada ou da fisiologia. O estudo do inconsciente coletivo e a sua utilização como fonte de conhecimento não pode ser visto como ilusão. Sob um ponto de vista superficial, a alma parece-nos ser essencialmente o reflexo de processos exteriores, que dela seriam não somente as causas ocasionais, como sua origem primária. Do mesmo modo, o inconsciente, de início, não parece explicável senão do exterior, a partir do consciente. Sabemos que Freud, na sua psicologia, fez essa tentativa. Mas ela só poderia ter triunfado se o inconsciente fosse, de fato, um produto da existência individual e do consciente.  Todavia, o inconsciente preexiste sempre, sendo a disposição funcional herdada de idade em idade. A consciência é um rebento tardio da alma inconsciente… A velha psicologia, presciente do inestimável tesouro de experiências obscuras ocultas sob o limiar da consciência individual e efêmera, não considerou a alma do indivíduo senão na dependência de um sistema cósmico espiritual. Para ela, não era apenas uma hipótese, mas uma evidência manifesta que esse sistema representava uma entidade dotada de vontade e de consciência, até mesmo um ser, um ser a que chamou Deus e que se tornou a quintessência de toda a realidade. Deus era o ser mais real, a prima causa, graças à qual somente a alma podia ser explicada. Essa hipótese tem a sua razão de ser psicológica: qualificar de divino, em relação ao homem, um ser imortal, dotado de uma experiência eterna, não é totalmente injustificado. Assim se esboça a problemática de uma psicologia fundada não sobre a ordem física, como princípio explicativo, mas sobre um sistema espiritual, cujo primus movens não é nem ma matéria e as suas qualidades, nem um estado energético, mas Deus…

  …O estudo desse dilema e o desejo de o resolver conduziram-me à seguinte conclusão: o conflito entre a natureza e o espírito nada mais é do que a tradução da essência paradoxal da alma, a qual possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que não parecem contradizer-se porque, em última análise, não lhe apreendemos a essência. Sempre que o entendimento humano quer apreender qualquer coisa que no fim das contas não compreende e não pode compreender, para captar alguns aspectos, submete-a a uma contradição e cinde-a em suas aparências opostas.

   O conflito entre o aspecto físico e o aspecto espiritual apenas prova que o psíquico é, na essência, qualquer coisa de inapreensível, e essa é a única experiência imediata. Tudo aquilo de faço experiência é psíquico, até a dor física, de que apenas experimento o reflexo psíquico. Todas as percepções dos meus sentidos, que me impõem um mundo de objetos espaciais e impenetráveis, são imagens psíquicas que representam a minha única experiência imediata, sendo essas imagens os únicos dados imediatos da minha consciência. A minha psique transforma e falsifica a realidade em proporções tais que é preciso recorrer a expedientes para verificar o que as coisas são fora de mim… Achamo-nos de tal modo envolvidos nas nossas imagens psíquicas que não podemos penetrar a natureza das coisas exteriores. Tudo aquilo de que adquirimos conhecimento é feito de materiais psíquicos. A psique é a entidade real no supremo grau…”


[1] O homem e seus símbolos apresenta uma série de ensaios e apenas o introdutório é de autoria de Jung, que o escreveu pouco antes de morrer; é hoje indiscutível que Jung está por trás do projeto mi(s)tificatório de Memórias, Sonhos, Reflexões, porém o texto final, afora a colher que editores e herdeiros meteram, é de responsabilidade da discípula Aniela Jaffé.

Ainda assim, os dois livros provavelmente vendem mais do que a obra junguiana propriamente dita.

Estabelecido esse ponto,  não dá para descartar nenhum dos dois. O ensaio de Jung em O homem e seus símbolos é uma ótima introdução às suas idéias, e quem negará o fascínio de Memórias, Sonhos, Reflexões, apesar dos seus aspectos irritantes e da sua dubiedade autoral?

[2]  Não na tradução publicada nas Obras Completas: eu trabalhei durante um ano, de 1984 a 1985, numa contabilidade, e ali, por sorte, havia uma biblioteca excelente, onde encontrei a tradução de Álvaro Cabral, editada pela Zahar. Li há pouco tempo a tradução das Obras Completas e a de Cabral ganha longe em expressividade e ao mesmo tempo clareza, apesar dos inúmeros erros de impressão. Mas isso é assunto para outro post.

[3] O leitor encontrará essa citação na pág. 207 da edição da Zahar, de 1974, e está no extraordinário capítulo em que ele analisa o Prometeu e Epimeteu  do nobelizado Carl Spitteler, comparando-o com os fragmentos do Prometeu goethiano. Antes, ele estudara as Cartas de Schiller onde este propugnava uma educação estética do homem, e também A Origem da Tragédia e os tipos apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, sem contar as inúmeras referências às doutrinas e textos sagrados hindus e chineses.

[4] Na verdade, o correto seria Obras Reunidas, pois apesar de sua pretensão elas estão longe de ser “completas”.

[5] A edição original é de 2009. Os textos do volume foram traduzidos por Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos. A revisão da tradução é de Walter Boechat.

O editor de O livro vermelho, Sonu Shamdasani, escreveu uma ótima, objetiva e nada partidária introdução.

O preço é salgado: o valor pode chegar a mais de quinhentos reais, é preciso pesquisar em vários lugares, pois há muitas ofertas.

[6] Meu texto simplifica muito as coisas, evidentemente: esses conceitos tenham sido elaborados em épocas diversas e sofrido ajustes. Além  desse fato cronológico básico, vertentes diversas privilegiaram certos aspectos e deixaram à parte outros. E para ser franco eu nem sei como seria a prática clínica de um analista ou psiquiatra junguiano, uma vez que jamais escolheria essa linha para ser analisado ou diagnosticado. Se fizesse análise, teria o maior cuidado de escolher um analista da linha freudiana. O que não invalida Jung como pensador da cultura.

Para entender as vertentes pós-junguianas, uma boa opção, apesar de já meio antiga (é de 1985, e a edição brasileira é de 1989) é Jung e os pós-junguianos, de Andrew Samuels. Foi nele que descobri que James Hillman era representante da “escola arquetípica”.

[7] Há até elementos metalingüísticos auto-críticos e bem-humorados. Jung, numa dessas visões, chega a um castelo onde há um velho com seus livros, que não lhe dá pelota. Passando a noite ali, ele sofre de insônia. Veja-se o divertido relato:

“Parece que não havia mais ninguém casa, a não ser o servo, que morava acolá na torre. Um modo de vida ideal, mas solitário o desse velho com seus livros, pensei eu.  E nisso se demoraram por longo tempo meus pensamentos, até que percebi que um outro pensamento não me abandonava, isto é, que o velho mantinha escondida aqui sua bela filha—idéia romântica absurda—um tema sem graça e já explorado—mas o romântico está em todas as juntas de cada pessoa. Uma idéia genuinamente romântica: um castelo  na floresta—solitário, crepuscular—um velho mumificado em seus livros, que guarda um tesouro valioso e o esconde ciosamente de todo o mundo—que idéias ridículas me chegam! É inferno ou purgatório que preciso conceber em minha viagem errada à semelhança dos sonhos infantis? Mas sinto-me incapaz  de elevar meus pensamentos a algo mais forte ou mais bonito. Devo consentir nesses pensamentos. O que adiantaria repeli-los? Eles voltam… Como será que ela se parece, essa heroína aborrecida? Certamente loura, pálida—olhos azuis—ansiosamente esperando de cada caminhante extraviado o salvador de sua prisão paterna. Ah, eu  conheço este absurdo trivial—prefiro dormir—por que, diabos, deixo atormentar-me com essas fantasias ocas?

    O sono não quer nada. Viro-de de um lado para outro, o sono não vem, devo eu ter em mim mesmo afinal esta alma não resgatada? Será que é ela que não me deixa dormir? Terei eu uma alma tão romântica? Só faltava isto—seria dolorosamente ridículoÉ simplesmente macabro para onde a insônia pode levar uma pessoa, inclusive para as teorias mais disparatadas e mais supersticiosas. Parece fazer frio, eu estou com frio, talvez não durma por causa disso, aqui é realmente sinistro. Deus sabe o que acontece aqui, não escutei passos há pouco? … A porta está se abrindo? Meu Deus, alguém está aí? Estou vendo bem? Uma moça esguia, pálida como a morte, está à porta? Céus, o que é isto? Ela se aproxima!

   Chegaste finalmente, perguntou baixinho. Impossível, é um engano pavoroso, o  romance quer tornar-se real, quer transformar-se em história estúpida de fantasmas? A que disparate estou condenado?  È minha alma que alberga tais glórias românticas? Isto também deve acontecer comigo? Estou realmente no inferno—o pior despertar do leitor de romances de biblioteca pública! Desprezei as pessoas de minha época e seu gosto, tanto assim que devo viver e escrever no inferno os romances sobre os quais cuspi há muito tempo? Será que a metade inferior do gosto médio da humanidade também tem direito à santidade e inviolabilidade, de modo que não possamos dizer nenhuma palavra desairosa sobre isso sem termos de pagar o pecado no inferno?

   Ela fala: Ah, tu também pensas o trivial de mim? Também tu te deixas seduzir pela malfadada ilusão de que eu pertenço a um romance? Também tu, de quem esperava que tivesse abandonado as aparências e se esforçasse para atingir a essência das coisas?

   Eu: Perdão, mas existes realmente? É uma semelhança por demais infeliz com aquelas cenas de romances, desgastadas até a parvoíce, que eu pudesse aceitar que não fosses apenas um produto de meu cérebro insone. Minha dúvida não está realmente justificada, quando uma situação coincide de tal forma com o tipo de romance sentimental?

  Ela: Infeliz, como podes duvidar da minha realidade? (…)

  Eu: Mas, dize-me, por amor de Deus, tu és real? Devo levar-te a sério como realidade?

    Ela chorava e nada respondia.

    Eu: Quem és então?

    Ela: Eu sou a filha do velho. Ele me mantém aqui numa prisão insuportável, não por ciúme ou ódio, pois sou sua única filha e o retrato vivo de minha mãe, falecida muito jovem.

  Recorri à minha razão: isto não é uma estupidez infernal? Palavra por palavra, o romance de uma biblioteca pública! Ó Deuses, para onde me levastes? É para rir, para chorar, é duro ser um belo sofredor, um destroçado tragicamente, mas tornar-se um macaco, vós belos e grandes? O banal e eternamente ridículo, o indizivelmente gasto e usado nunca vos foi depositado nas mãos

   Ela continuava sentada ali chorando—e se fosse real?… Se for uma moça decente, o que não lhe deve ter custado  entrar no quarto de dormir de um homem desconhecido!”

(os grifos na cena são todos meus).    

[8] Mais uma vez, sou obrigado a simplificar em demasia, no caso, o rico, complexo e ambíguo panorama traçado por Noll em seu livro. Mas acompanhemos alguns trechos: “Muitos grupos völkisch transformaram as noções de pureza racial em ideais quase de ciência e religião… O historiador Ekkehard Hieronimus fez um levantamento do fascínio pela religião germânica… No século XIX, grupos neopagãos dedicados a reviver os mistérios germânicos  assumiram a pesquisa sobre o passado alemão. E, de fato, o retorno à Idade de Ouro e à vida ´natural´ dos teutos foi freqüentemente invocado por grupos alemães em busca de renovação ou renascimento… À secularização de conceitos burgueses/protestantes como a família, a comunidade e a idéia de morte sacrificial, correspondia nesses grupos um patriotismo cada vez maior, que traçava paralelos entre o martírio de Cristo e o martírio de heróis nacionais como Siegfried… A morte sacrificial e a identificação do deus cristão com o deus teutônico eram temas que em 1912 reapareceriam com destaque numa obra extraordinária, Metamorfoses e símbolos da libido, de Jung”  [esse é provavelmente o primeiro livro importante do ex-discípulo de Freud, e atualmente é editado com o titulo da sua ampla revisão posterior, Símbolos da Transformação, volume 5 das Obras Completas). Noll fala de um importante editor de obras de tendência völkisch, Eugen Diederichs: várias de suas edições foram encontradas na biblioteca de Jung, o qual “citava essas obras, sobretudo em Metamorfoses e símbolos da libido, um livro que repudiava a ortodoxia cristã e promovia o misticismo völkisch do culto ao sol. Na década de 1890, muitos indivíduos völkisch acreditavam que o sol era  o único Deus dos verdadeiros alemães… A suástica, um antigo símbolo indiano para a contínua regeneração da vida foi colocada  num círculo que representava o sol… A suástica nesse disco branco  simbolizava as energias ressurgentes da vida… Graças à influência de figuras destacas como Diederichs e os autores que publicava, o interesse no simbolismo das mandalas dos antigos arianos começou a se espalhar pela Europa germânica. Jung, por exemplo, traçou sua primeira mandala em 1916 e mais tarde comentou sua importância como símbolo do ´self´ou do ´deus-imagem interior´   (todo esse imaginário pode ser encontrado nas páginas de O livro vermelho e a edição reproduz as mandalas criadas por Jung).

O livro de Noll (que é de 1994) foi traduzido no Brasil (por Mário Vilela) e lançado pela Ática em 1996.

21/03/2013

A LIÇÃO DO MESTRE: “Cidadezinhas”, de John Updike

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/o-mestre-da-mesmice-fosca-do-cotidiano-updike-flaubert-up-to-date/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/uma-luminosa-reflexao-sobre-a-diluicao-da-fe/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/20/coelho-continuara-ou-o-outro-de-philip-roth-john-updike-1932-2009/

Pouco antes da morte de John Updike (1932-2009), a Companhia das Letras lançou um dos seus derradeiros romances, Cidadezinhas (Villages, 2004, em tradução de Paulo Henriques Britto), ótima introdução ao seu universo. Na verdade, parece que estamos vendo a já clássica tetralogia do Coelho em “ponto pequeno”, condensada, eivada de um tom menos ácido e cáustico, mais voltado para o elegíaco, para reiterar sua obsessão com o materialismo e a prosperidade (que se traduz em consumismo exacerbado e crise de valores) de certa parcela provinciana ou suburbana da classe média, ligando-os a uma perda de inocência da civilização norte-americana (ele acreditava realmente nisso, e quem não aceitar essa noção de inocência embasando o sonho americano nunca apreciará as obras desse escritor-ícone dos EUA).

Cidadezinhas percorre um espectro temporal muito similar ao da vida de seu autor (nascido em 1932) e alterna dois tempos narrativos: num deles, na atualidade, Owen Mackenzie é um septuagenário que vive na cidadezinha de Haskells Crossing com sua segunda esposa; despertares, sonhos, a relação do casal vista através dos sinais de declínio físico, fazem com que o relato escorre para o outro tempo e então acompanhamos Owen desde a sua infância numa cidadezinha decadente da Pensilvânia, seu envolvimento com a incipiente informática nos anos 50 (sua próspera carreira será atrelada ao desenvolvimento do mundo virtual), suas primeiras experiências sexuais numa sociedade basicamente puritana, seu primeiro casamento, sua instalação na cidadezinha de Middle Falls (não era nenhum lugar em particular, o que a tornava triunfantemente americana”.), onde transcorre a maior parte da ação, seu primeiro adultério e daí adiante seu mergulho no carnal knowledge (o título original do famoso filme de Mike Nichols, Ânsia de Amar), através das mais diversas mulheres.

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Updike use vale da fórmula clássica do  romance de formação (que Goethe consagrou com seu Wilhelm Meister), dotando seu protagonista de uma “ingenuidade”, às vezes exasperante, mas que permite encarar cada contato e experiência como uma iniciação (no amplo sentido da palavra). No final, ficamos conhecendo Owen Mackenzie (e a sociedade à sua volta) de uma forma mais real e completa do que qualquer pessoa que possamos encontrar na vida. É preciso dizer também que o amor pelos detalhes do autor de Casais Trocados faz com que certas páginas (felizmente, poucas) sejam cansativas (ainda mais porque ele quer fixar cada ato sexual de Owen como o maravilhamento de alguém expandindo seu imaginário, como ritos verdadeiramente iniciáticos, pormenorizando-os à exaustão), ainda que não haja uma sequer em que não encontremos uma formulação luminosa, um exemplo da melhor prosa de ficção que se pode escrever, pelo menos no meu entender.

Assim, mesmo para o apreciador da obra de Updike e para o qual não apresenta surpresas (a não ser as estilísticas), Cidadezinhas funciona como uma síntese desse eterno ir e vir entre graça, tentação e queda. Sexo, sexo, sexo: “algo tão arriscado, com tamanho potencial de vergonha e humilhação. A humilhação fazia parte do êxtase, talvez: era ser abaixado como um balde dentro do poço negro da biologia, sabendo o tempo todo que a corda continuava no lugar, o dia claro da sociedade aguardando lá no alto”.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de fevereiro de 2009]

Juniper Books

O MESTRE DA MESMICE FOSCA DO COTIDIANO: Updike: Flaubert Up to date

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[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de julho de 2007]

Em 1960, uma obra-prima, Coelho corre, deu largada à famosa série de romances que a princípio interrompeu-se em 1990, com Coelho cai, ganhando há pouco tempo seu epílogo definitivo: Coelho se cala. Paralelamente a essa monumental realização, a cada década, John Updike apresentava uma memorável reflexão ficcional sobre a perda de transcendência (seu grande tema) no contexto da sociedade norte-americana: nos anos 70 foi Um mês só de domingos; nos 80, Roger´s version (aqui no Brasil, Pai-Nosso Computador, dá para acreditar?); nos 90, Na beleza dos lírios. Parece que na década em curso o lugar será preenchido por Terrorista (“Terrorist”, 2006, em tradução de Paulo Henriques Britto).

Nele, aos 74 anos, um dos mais sérios candidatos ao disputadíssimo título de maior escritor em atividade nos EUA, ousa entrar na pele de um rapaz de 18 anos, com ascendência árabe por parte do pai (e irlandesa, pela mãe) e ver sua pátria pelos olhos dele, ao contrário dos vovôs que descreve no livro, os quais “tendo renunciado a qualquer pretensão à dignidade, se expõem ao ridículo com roupas justas de muitas cores e estampados diferentes… Já próximos da morte, esses idosos americanos abrem mão do decoro e se vestem como crianças de colo”.

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É uma paisagem espiritual desoladora aquela na qual se movimenta Ahmad Ashmawy, em New Prospect, arredores do Coração de Satã, a metrópole que perdeu suas torres. E é uma pena que Updike tenha escolhido um título tão infeliz, já que o predestinou ao reducionismo temático (e por certo à desconfiança: quem esse wasp pensa que é, propondo-se a discutir e, pior, representar em palavras, a fé islâmica, pensarão alguns) que o termo “terrorista” suscita. De fato, Terrorista conta como Ahmad, possuído pelo conceito de jihad, aceita conduzir um caminhão cheio de explosivos a serem detonados no Lincoln Tunnel. Não obstante, é muito mais o vácuo da vida contemporânea, a falta de perspectiva, o materialismo grosseiro que parece ter se tornado o ar que respiramos, a onipresença da televisão, da propaganda, do consumo, a solidão e indiferença mútuas até de membros da mesma família (vivendo como ovos que se tocam de leve, mas cada um contendo sua própria vida; aliás, esse último aspecto permite a Updike uma das cenas mais lindas do romance: a última conversa entre o mártir voluntário e sua mãe), o que escancaramos ao acompanhar Ahmad: a civilização ocidental que perdeu o decoro.

Em 2007, o paradigma dos romances modernos, Madame Bovary, completa 150 anos. Não poderia haver melhor homenagem a ele do que comentar o mais legítimo seguidor de Flaubert na atualidade, tanto da sua capacidade de criar com pormenores extremos o mundo chapado da mediocridade quotidiana, quanto do impulso (e talento genial), paradoxalmente inverso, de atingir o poético com esse material tão desprovido de Graça (no amplo sentido da palavra). E é por  isso que um romance que coloca o dedo na ferida da hora, a ameaça terrorista e a severidade fundamentalista como resposta ao capitalismo, deserto versus mercado, atinge seu ponto alto numa cena de amor, quem diria, entre adolescentes contemporâneos, e quem diria que eles poderiam ainda gerar lirismo e mesmo assim parecer tão reais para o leitor, inclusive na sua linguagem limitada?

Charlie Chehab, o homem que aproxima Ahmad do seu destino, quer que ele perca a virgindade antes da missão que lhe cabe, e o presenteia com os serviços de uma jovem puta, que é ninguém mais ninguém menos do que Joryleen, paixão do candidato a terrorista durante a high school. O que se passa entre eles (“Você pode acabar sendo a coisa mais próxima de uma noiva que eu vou ter na vida), o desalento que nos dá quanto ao futuro de ambos e dos jovens em geral, porém a intensidade da beleza do encontro deles, já faz valer a leitura de Terrorista.

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UMA LUMINOSA REFLEXÃO SOBRE A DILUIÇÃO DA FÉ

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em primeiro de julho de 1997)

Uma dos privilégios da boa ficção realista é o de poder trabalhar com matéria histórica já muito conhecida e digerida e personagens já explorados muitas vezes, e mesmo assim extrair deles nova substância e colorido. É o que acontece com o mais recente romance de John Updike, Na beleza dos lírios [In the beauty of the lilies, 1996, tradução de Paulo Henriques Britto]. Repassando a história norte-americana neste século (a trama começa em 1910), o autor de As bruxas de Eastwick faz uma luminosa reflexão ficcional sobre a diluição da fé nos EUA.

Na primeira parte, o pastor presbiteriano Clarence Wilmor descobre não ter mais fé e desiste do sacerdócio. Enfrentando “a realidade inexorável do desaparecimento de Deus”, ele lança sua família na desgraça e na pobreza da cidade industrial de Paterson, agitada por intermináveis greves, como um Jó às avessas, que sofre não por causa da sua fé,mas justamente pelo motivo contrário (é engraçado como no livro fé e sucesso são equacionados o tempo todo): “Para ele, a vida com seus riscos e com a derrota final, estava nas verdades tranqüilas, implacáveis e impessoais que homens sem fé estavam a cada dia descobrindo no vasto mundo que se estendia fora dos muros apodrecidos daquele castelo em ruína. Para Clarence, os domínios do cristianismo haviam se transformado num castelo tão enclausurado, escuro e bolorento que mais parecia pertencer ao Demônio”.

Após sua morte, sua família se muda para uma cidade bem provinciana, Basingstoke, onde a narrativa vai se concentrar no filho caçula, Teddy, que rejeita toda a ideologia norte-americana de ter sucesso e se destacar em alguma coisa, resolvendo levar a vida mais apagada possível. Teddy desconfia tanto da fé quanto do cinema, que fora a última paixão de seu pai, e que está começando a se impor para a sociedade estadunidense avassalada pela Depressão e pela Segunda Guerra: “Esses astros levavam na tela uma vida sempre renovada, a cada filme, sem sofrer algum mal que deixasse marcas permanentes, mas Teddy sabia que o mal deixava marcas permanentes. O filme da sua vida era projetado uma única vez”.

Ironicamente, sua filha Essie se torna uma grande estrela do cinema nos anos 50. Possivelmente, esse é o momento em que o materialismo parece mais triunfante na narrativa, e a espiritualidade mais recalcitrante e deformada, pois é a grande magia do cinema que se encarrega de suprir as necessidades espirituais dos personagens em cena. Também é o momento em que Na beleza dos lírios roça o mundo dos best sellers da fórmula sexo-dinheiro-poder, porque é impossível fugir à vulgaridade do mundo descrito (o próprio esquema do romance, apresentando uma saga familiar, já o predispõe a isso): “Penteada, maquiada, caracterizada, sentia-se envolta numa armadura sutil, flexível e ao mesmo tempo impenetrável; aquela ilha iluminada de faz-de-conta, cercada de andaimes e fios e silhuetas de técnicos às voltas com equipamentos, era um receptáculo maior, uma espaçonave luminosa que a transportava, junto com os outros atores, a uma esfera de segurança imortal, onde nada mudava, nada era perigoso. Uma atenção cósmica pulsava em sua pele, tal como no tempo em que, ainda pequena, Deus observava cada movimento seu, registrava cada prece e cada anseio, sem deixar passar nada, cada fio de cabelo seu era contado”.

     A perícia de Updike faz com que Na beleza dos lírios escape dos clichês e do estilo best seller, mantendo a narrativa sempre como uma exteriorização dos pensamentos e das sensibilidades dos personagens, o que faz com que a primeira parte, a de Clarence, seja nitidamente a mais requintada, enquanto as outras progressivamente vão incorporando o entulho do empobrecimento espiritual e cultural.

O cinema às vezes aparece como uma potência mefistotélica, propondo a troca da alma por uma ilusão de sucesso, e às vezes aparece como um mero peão (tanto que Essie já se torna estrela em plena decadência da velha Hollywood, ameaçada pela televisão) no jogo da perda da transcendência em função da transitoriedade ilusória.

Na última parte, o filho de Essie, Clark, tenta recuperar a fé que o avô perdera, entrando para daquelas seitas doidas e apocalípticas que se recusam a pagar impostos e acabam sitiadas pela polícia e pelas câmeras de tevê: “Sua barba estava maior, e nas fotos que a AP tirou à distância ele parecia uma figura messiânica e sinistra, a barba e os cabelos longos soprados para o lado pelo vento hibernal. Não acreditava em tudo o que estava dizendo, mas adorava a sensação de estar falando naquele pequeno telefone, sabendo que suas palavras estavam sendo ouvidas com atenção por um mundo ávido de informações”.

Quem triunfa no final é o mundo do espetáculo, que gerou o cinema e a televisão e consumiu qualquer autenticidade da vida real, Tudo isso se concentra numa bela passagem, em que Essie recebe pelo rádio a notícia da morte do filho: “Seu coração subiu até a boca quando ouviu a notícia, mas ela própria não sabia se sua reação era sincera; olhou para seu próprio rosto no retrovisor para ver se era uma expressão de atriz. Não; aquela súbita cara de sofrimento era genuína. Seu rosto estava pálido como cera, um efeito que era impossível falsificar”.

John Updike se redime, com Na beleza dos lírios, da chatice do seu romance anterior, Memórias em branco. Pensando bem, o autor de Um mês só de domingos  e Roger´s version parece oscilar entre a contínua demonstração de exuberância e fôlego narrativo e uma tendência à aridez que aparece como sinal de perigo de quando em quando.

Mas seja qual for o saldo da obra de Updike, o que se impõe após uma primeira leitura das quinhentas páginas de Na beleza dos lírios é a certeza de que se trata de um livro importante, que preenche as qualidades essenciais da ficção realista: é abrangente, absorvente, contundente. Multiplica em reflexão o que tem em emoção. Achei o máximo.

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20/03/2013

COELHO CONTINUARÁ ou O “Outro” de Philip Roth: JOHN UPDIKE (1932-2009)

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/a-licao-do-mestre-cidadezinhas-de-john-updike/

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2009)

Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike esta semana, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).

Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…

Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este provavelmente seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo…

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De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava.

Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.

E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?

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19/03/2013

Philip Roth e seu retrato do artista quando jovem: Fantasma entra em cena

retrato do artista quando quase jovem

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“A coisa não é fácil lá no alto, na egosfera…”

“Não é culpa sua que você não saiba  o que os gentios pensam quando leem uma coisa assim. Mas eu sei e lhe digo. Para eles pouco importa se o que têm nas mãos é uma grande obra de arte. Eles não entendem nada de arte. Pode ser que eu mesmo não entenda. Talvez ninguém em nossa família entenda, não da maneira como você entende. Mas esta é a questão. Quando as pessoas leem um livro, não se interessam pelo que há de arte ali—querem é saber das pessoas que aparecem na história. E é como pessoas que as julgam. E como você acha que julgarão as pessoas que aparecem no seu conto, que conclusões acha que tirarão? Você pensou nisso?”

“Todavia, esse era o ponto—era isso que dava a seu diário o poder de tornar real o pesadelo. Esperar que este mundo tão vasto e insensível se importasse com a filha de um pai devoto, barbudo, a viver sob a forte influência de rabinos e rituais—isso seria pura estupidez. Para o homem comum, sem nenhum grande dom para tolerar sequer as diferenças mais ínfimas, o infortúnio de tal família não significaria nada. Para as pessoas comuns provavelmente pareceria que eles mesmos tinham atraído a desgraça ao teimar em repelir tudo o que era moderno e europeu—para não dizer cristão. Porém, com a família de Otto Frank a coisa mudava de figura! Nem mesmo o mais obtuso dos indivíduos poderia ignorar o que os judeus haviam sofrido simplesmente por serem judeus, nem mesmo o mais chucro dos gentios teria como não perceber a monstruosidade da coisa ao ler… que uma vez por ano os Frank entoavam uma inofensiva canção de Hanucá, diziam algumas palavras em hebraico, acendiam algumas velas, trocavam alguns presentes—uma cerimônia que durava cerca de dez minutos—e que só foi preciso isso para fazer deles o inimigo. Não, não foi preciso nem isso. Não foi preciso nada—esse era o horror. E essa, a verdade. E esse, o poder do seu livro…”

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(resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé ou anexo, em A TRIBUNA de Santos, em 19 de março de 2013)

Em 19 de março de 1933 nascia Philip Roth. A princípio, pensei em homenagear os 80 anos desse admirável ficcionista norte-americano com uma visão panorâmica da sua prolífica obra; preferi, no entanto, limitar-me a um de seus romances mais característicos, O Escritor Fantasma (The Ghost Writer traduzido anteriormente como Diário de uma ilusão[1]).

Ao lançá-lo em 1979, embora já contasse com 20 anos de carreira (estreou em 1959 com a coletânea Adeus, Columbus, ganhando seu primeiro National Book Award ), com certos picos de sucesso infelizmente enfronhados em escândalo (O Complexo de Portnoy, 1969; O Professor do Desejo, 1977), Roth não contava com a aura reverente que o cerca agora. A meu ver, foi O Escritor Fantasma a largada para sua consagração até que ele se tornasse o mais contumaz entre os favoritos ao Nobel; ali também surgia o mais emblemático de seus personagens, recorrente em diversos textos: Nathan Zuckerman (mesmo num livro mais tardio, Exit Ghost-Fantasma sai de cena, de 2007, ele continuava na ativa).

O nascimento literário de Zuckerman divide-se em quatro partes muito intensas e concentradas (é um romance curto), a partir da visita que ele faz a  E.I. Lonoff, em 9 de dezembro de 1956 (aos 23 anos) e que se prolonga até a manhã seguinte. Reunidos 4 caracteres na erma morada (além dos dois escritores, a mulher de Lonoff, Hope, e  uma “menina-mulher” ou “moça em flor”: Amy Bellette) as tensões que se estabelecem e que dizem respeito não apenas ao casamento dos Lonoff como também às expectativas sexuais do imaturo Nathan com relação à Amy, presumível (ou pelo menos candidata a) amante do seu ídolo literário, poderiam fazer com que se pensasse numa estrutura teatral, num Quem tem medo de Virginia Woolf? judaico[2]:

“Contudo, eu já não conseguia pensar nela como Amy. Era incessantemente devolvido à ficção que criara sobre ela e os Lonoff enquanto jazia às escuras no escritório, ainda em êxtase por causa dos elogios que recebera do escritor e latejando de ressentimento devido à reprovação de meu pai—e, é claro, sob o domínio do que se passara entre o meu ídolo e a moça maravilhosa antes que ele, com muita hombridade, fosse se deitar na cama ao lado da mulher.”[3]

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O leitor habitual de Roth sabe como ele já tirou vantagem de situações desse feitio, atmosferas tragicômicas nas quais, camuflada ou explosiva, a sexualidade perturba e dilacera interações sociais supostamente “decorosas” Por outro lado, desde o princípio do relato, Zuckerman nos diz que está evocando um “retrato do artista quando jovem”, sua formação (indo em busca de Lonoff como um mentor, um pai espiritual): “Faltava uma hora para escurecer naquela tarde de dezembro de mais de vinte anos atrás—eu tinha 23 anos, estava escrevendo e publicando meus primeiros contos e, à maneira de muitos protagonistas de Bildungsroman antes de mim, já sonhava com o meu próprio e monumental Bildungsroman…”[4]

E em menos de 24 horas, ele se defrontará— na figura do venerado Lonoff— com a árida cristalização da dedicação obsessiva à carreira literária: uma espécie de “morte em vida”, de existência sumamente tediosa, um tormento de Sísifo ou Prometeu (não à toa, as primeiras histórias em que Zuckerman aparece foram arroladas com o título geral de ZUCKERMAN BOUND-ZUCKERMAN ACORRENTADO), em que tudo é consumido, inclusive as relações pessoais (os diálogos entre Lonoff e Hope são, nesse sentido, extraordinários). Decerto também temos uma lição da paciência e disciplina, mas o aspecto de “egosfera” parece predominar.[5]

Este seria um aspecto ainda mais notável de O Escritor Fantasma, justificando, outrossim, o título: o ghost writer aqui não é aquele que de fato escreve um livro assinado por outro (como era o protagonista do filme homônimo de Roman Polanski), e sim, aquele que, mergulhando na escrita, se torna um “fantasma” em vida. aqui não é aquele que de fato escreve um livro assinado por outro, e sim aquele que, mergulhando na escrita, se torna um “fantasma” em vida. Nesse sentido, a obra-prima de Roth vem se associar a duas marcantes investigações dos anos 1970 a respeito da entrega ao “sacerdócio da literatura”: Tia Júlia e o Escrevinhador, de Vargas Llosa, e A Escolha de Sofia, de William Styron.

Por incrível que pareça, ainda não é o ponto crucial do romance. Quando Nathan visita Lonoff, está brigado com o pai porque usara antigas dissensões familiares no seu conto mais ambicioso. Para o Sr. Zuckerman, os episódios narrados, com suas mesquinharias e ridículos, fomentariam os estereótipos sobre os judeus. Ele movimenta uma verdadeira campanha entre parentes e conhecidos para conscientizar o filho de que sua conduta pode ser tomada como antissemita; portanto, Nathan vê sua vocação embaraçada por atavismos étnicos; em sua visita aos Lonoff, fascinado por Amy, ele – numa longa jornada noite adentro—faz o leitor desconfiar de que ela é Anne Frank, cujos diários causaram comoção mundial. Amy teria de esconder sua identidade, fazer com que se acreditasse que Anne estaria morta, para que seus escritos tivessem mais “autoridade”; sua própria evolução criativa, seu talento, permaneceriam presos dentro do círculo da fatalidade trágica. Ou seja, o destino do povo judeu representa um fardo a ser enfrentado pelos escritores, mesmo nas confortáveis paragens da Nova Inglaterra ou dos círculos literários nova-iorquinos.

Ao apresentar Amy/Anne como uma escritora-irmã, Roth amplia vertiginosamente o âmbito de O Escritor Fantasma. E se prepara para os romances da sua maturidade em que a vertigem da fabricação de uma realidade alternativa pela literatura e o peso dos fatos históricos são os grandes movimentos pendulares: O Avesso da Vida (1986), Operação Shylock (1993), a trilogia formada por Pastoral Americana, Casei com um Comunista, A Marca Humana (1997-2000), Complô contra a América (2004) e sua possível obra-prima suprema, O Teatro de Sabbath (1995). E Nathan Zuckerman ali no meio.

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AMOSTRAS DAS DUAS TRADUÇÕES

Negrito- Alexandre Hubner  Itálico- Luís Horácio da Matta

“Pois, veja, eu fora até lá para apresentar-me como candidato a nada menos que filho espiritual de E. I. Lonoff, para rogar seu patrocínio moral e, se possível, granjear a proteção mágica de seu apoio e afeição. Claro que eu já tinha um pai que me amava, a quem podia pedir este mundo e o outro, porém mais pai era calista, não artista, e ultimamente andávamos tendo problemas sérios na família por causa de um conto que eu havia escrito…”

“Deve-se compreender que eu viera candidatar-me a nada menos que filho espiritual de E. I. Lonoff, implorar seu patrocínio moral e, se possível, conseguir a proteção mágica de seu amparo e amor. Naturalmente, eu tinha um pai ao qual poderia pedir tudo neste mundo, a qualquer momento. Todavia, meu pai era pedicuro, e não artista, e ultimamente haviam surgido graves problemas familiares por causa de um novo conto que eu escrevera…”

“__ Faz trinta anos que escrevo ficção. Não acontece nada comigo.

    Foi então que a extraordinária menina-mulher apareceu diante de mim—Lonoff, num tom que traía certo sentimento de aversão por si próprio, acabara de dar vazão àquele lamento incrível e eu tentava  me haver com seu significado. Não acontecia nada com ele? Pois sim. E a genialidade? E a arte? Não tinham acontecido com ele? O sujeito era um visionário!”

“__ Há trinta anos escrevo ficção. Nada acontece comigo.

    Nesse ponto, uma linda jovem surgiu diante de mim—exatamente quando Lonoff, num leve tom de autocomiseração, acabava de pronunciar aquele incrível lamento e eu me esforçava para compreendê-lo. Nada acontecia a ele? Ora, acontecera-lhe o gênio, a arte—ele era um visionário!”

“__ Com uma mulher, claro.

    Respondeu isso sem pestanejar, como se eu fosse um homem adulto.

    De modo que, como se eu fosse realmente um homem adulto, fui em frente e perguntei: Que idade ela teria, essa mulher?

    Lonoff sorriu para mim: Acho que bebemos demais.”

“__ Com uma mulher, é claro—disse ele, como se eu fosse um adulto amadurecido.

    Portanto, como se o fosse, perguntei:

__ Que idade teria essa mulher?

    Ele sorriu: Ambos já bebemos demais.”

“__Você não se encaixa no estereótipo do cinquentão careca. Ir para a Itália com você não seria a mesma coisa que ir para a Itália com qualquer um.

__ Como assim? Agora vou aproveitar os sete livros que escrevi para arrumar uma bocetinha gostosa?”

“__ Você não é um careca de cinquenta e seis anos estereotipado. Estar na Itália com você não seria  estar na Itália com qualquer um.

__ Que quer dizer com isso? Devo negociar meus sete livros em troca de um rabo-de-saia?”

“O fato é que havia mais alguém que eu queria que entendesse aquilo, pois logo me esqueci da provação que tinha pela frente com Heidegger e Wittgenstein e me vi sentado à escrivaninha de Lonoff, bloco de anotações em punho, entando explicar a meu pai—o pai calista, o primeiro dos meus pais—a voz que, de acordo com o grande vocalista E. I. Lonoff, começava atrás dos meus joelhos e ia subindo até chegar bem acima da minha cabeça. Eu estava devendo aquela carta. Fazia três semanas que meu pai esperava de mim um sinal iluminado de contrição pelas ofensas que eu passara a dirigir às pessoas que mais me haviam apoiado. E por três semanas eu o deixara arrancando os cabelos, se é assim que alguém descreve sua própria dificuldade em pensar em outra coisa ao acordar com pesadelos horríveis às quatro da madrugada.”

“Dei-me conta de que desejava ver também outra pessoa, pois logo esqueci o iminente encontro desagradável com Heidegger e Wittgenstein, e sentei-me com meu bloco à mesa de trabalho de Lonoff, esforçando-me por explicar a meu pai—o pedicuro, o primeiro de meus pais—a fala que, segundo uma autoridade da importância de E.I. Lonoff, brotava de meus membros inferiores e ia muito além de minha cabeça. A carta estava atrasada três semanas: durante esse tempo meu pai aguardava algum sinal de iluminada contrição pelas ofensas que eu começara a cometer contra meus principais sustentáculos. E, durante três semanas, eu o cozinhara em seu próprio molho—se esta é a expressão correta para descrever a incapacidade de pensar em outra coisa ao despertar de um pesadelo às quatro da manhã.”

“… do lugar onde eu me achava ajoelhado, junto à porta do escritório, ouvi Amy entrar pela porta da frente. Ela passou pelo corredor e subiu os degraus atapetados da escada—e isso foi tudo o que eu soube dela até aproximadamente uma hora mais tarde, quando tive o privilégio de assistir como ouvinte  a outro curso atordoante, este ministrado pelo Departamento de Matérias Noturnas e Adultas da escola  Lonoff de Artes. Quanto ao resto daquilo que me mantivera acordado até então, isso eu obviamente tive de imaginar. O que, todavia, é tarefa bem mais fácil do que ficar inventado coisas à máquina de escrever…”

“…ajoelhado junto à porta do escritório, escutei a jovem entrar na casa. Atravessou o vestíbulo atapetado e subiu a escada forrada por uma passadeira. Foi a última coisa que vi ou ouvi dela até cerca de uma hora mais tarde, quando tive o privilégio de fazer mais um curso—desta feita, na divisão de adultos da Escola de Artes de Lonoff. Naturalmente, fui obrigado a imaginar o resto das coisas pelas quais esperara acordado, mas isso foi tarefa muito mais fácil que tentar escrever ficção numa máquina portátil…”

“Nenhum de nós dois tinha dormido à noite: Amy pensando em quem ela poderia ser, vivendo em Florença com Lonoff; eu pensando em quem ela poderia ter sido. Quando a manga de seu casaco subiu um pouco, revelando o antebraço, obviamente vi que não havia nenhuma cicatriz ali. Nenhuma cicatriz, nenhum livro, nenhum Pim. Não, o pai amoroso a quem era preciso renunciar em favor da arte da criança não era o dela; era o meu.”

“Nenhum de nós dormira na noite passada: ela pensando em quem se tornaria caso morasse em Florença com Lonoff; eu, imaginando quem seria ela. Quando levou a mão à testa, a manga de seu casaco desceu. Naturalmente, vi que não existia cicatriz no antebraço. Nem cicatriz, nem livro, nem Pim. Não, o pai amoroso precisava ser abandonado porque a arte da filha não era dela; o pai era meu.”

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Às vezes a discrepância é grande como nos casos abaixo:

“Lidos em sequência, os trechos grifados formavam um resumo perfeito de cada matéria e teriam servido como excelente preparação para um colegial que precisasse falar a respeito daqueles assuntos em sua aula de atualidades.”

“Lidos em sequência, os trechos sublinhados constituíam um resumo preciso de cada artigo e serviriam como excelente preparação para uma aula do curso de atualidades que Lonoff ministrava na faculdade.”

“A Saturday Review publicara uma matéria sobre jovens escritores americanos ainda não conhecidos do público, com notas biográficas e fotos dos DEZ TALENTOS EM QUE VALE A PENA FICAR DE OLHO, selecionados pelos editores dos principais periódicos literários do país.”

“A Saturday Review publicara um artigo sobre jovens escritores americanos desconhecidos do público, com fotografias e breves biografias dos DOZE A SEREM OBSERVADOS, selecionados pelos editores das mais importantes revistas literárias.”

“Meu conto, intitulado FORMAÇÃO SUPERIOR, terminava com Essie morando a mão do fulano.

__ Bom, você não deixou mesmo nada de fora, deixou?

   Assim meu pai deu início a sua crítica…”

“Meu conto, intitulado EDUCAÇÃO SUPERIOR, terminava com Essie, de martelo em punho, perguntando: Você certamente não deixou mais nada de fora, não?”

   E foi assim, também, que começou a crítica de meu pai…”

“Na primeira leitura, dobrara o canto da página; na segunda, usando uma caneta tirada da bolsa, traçou uma linha significativa na margem e escreveu ao lado—em inglês, claro—sinistro (tudo o que ela marcava, marcava para ele ou, no fundo, marcava imaginando ser ele).”

“Ao lê-lo pela primeira vez, dobrou o canto superior da página; na segunda vez, tirou uma caneta da bolsa, traçou uma significativa linha na margem e escreveu ao lado, em inglês: Fantástico (tudo o que anotava era para ele; ou, pelo menos, fazia as anotações imaginando que fossem realmente para ele).”

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[1] Essa versão, lançada pela Francisco Alves, em 1980, e depois pelo Círculo do \Livro, foi feita por Luís Horácio da Matta.

A tradução de que me ocupo na resenha acima  é da autoria de Alexandre Hubner e faz parte do volume ZUCKERMAN ACORRENTADO-3 ROMANCES E 1 EPÍLOGO, do qual constam também Zuckerman Libertado; Lição de Anatomia & A Orgia de Praga.

[2] Devo salientar que O Escritor Fantasma é um texto saturado de literatura, não apenas por ser a ocupação dos personagens, mas porque há um diálogo explícito entre Roth e o James Joyce de Um retrato do artista quando jovem e seu protagonista Stephen Dedalus: não só uma das partes tem como título “Nathan Dedalus” (o que se perde um pouco na tradução de Luís Horácio da Matta:”O dédalo de Nathan”),como—assim como seu antecessor—Nathan se debate em meio a uma teia pegajoso de atavismos (no caso de Dedalus, o catolicismo, mais precisamente o jesuítico e o tomista; no caso de Zuckerman, o judaísmo), além de—como no Ulysses—afastar-se do pai real em busca de um pai simbólico.

Mas, longe de ser apenas o “retrato do artista quando jovem” versão Roth (que o publicou aos 46 anos), o romance também é impregnado de Henry James e suas visões do artista maduro e insatisfeito. A referência explícita (com citações textuais) é Os anos médios (na versão de Hubner; eu prefiro a solução do outro tradutor: A Idade Madura), mas há trechos inteiros da primeira parte (“Maestro”), muito evocativos do estilo jamesiano, como também podemos lembrar de outras histórias do “maestro”, como A Lição do Mestre, entre outros exemplos de artistas maduros e candidatos a artista que se envolvem em jogos equívocos (há um momento também que evoca O Desenho do Tapete).

E, por fim, o livro utiliza surpreendentemente o impacto imaginativo e moral do Diário de Anne Frank, e também suas estratégias literárias e quanto do seu simbolismo depende da não-sobrevivência da escritora Anne Frank (e nem preciso dizer que há a sombra de Kafka em tudo, a questão dos pais, do destino judaico, da imersão na literatura em detrimento de tudo o mais…).

[3] Na tradução de Luís Horácio da Matta: “Contudo, eu já não conseguia pensar nela como sendo Amy. Em vez disso, sentia-me constantemente arrastado de volta à ficção que tecera em torno dela e dos Lonoff enquanto permanecia deitado no sofá-cama, eufórico com os elogios de Lonoff e furioso com o ressentimento de meu pai reprovador—bem como, é claro, arrasado pelo que se passara entre meu ídolo e a maravilhosa jovem de vinte e seis anos antes que ele, com grande dignidade masculina, voltasse à cama da esposa.”

[4] Em Diário de uma ilusão: “Foi na última hora de luz do final de uma tarde de dezembro, há mais de vinte anos—na época, eu tinha 23 anos, escrevendo e publicando meus primeiros contos, e, como tantos heróis Bildungsroman anteriores a mim, já contemplava meu volumoso Bildungsroman…”

[5] Na mesma época em que li o livro na sua versão Diário de uma ilusão, me impressionei muito com certas afirmações de Autran Dourado, em Uma poética de romance: matéria de carpintaria em que ele dizia que a vida que o escritor vivia era à custa da sua obra, e vice-versa. E aqui cabe lembrar outra reminiscência literária, tanto de Dourado quanto de Roth: o torturado Aschenbach de Morte em Veneza, que nas suas únicas férias do exaustivo labor artístico, é traído por Eros e morre.

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16/03/2013

Resenhas ROTHarianas (2): FANTASMA SAI DE CENA. Mas não o escritor

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“Tenho a sensação habitual de que minha vida verdadeira já terminou e que estou vivendo uma existência póstuma”.

                              (Keats)

“Isso que o senhor está fazendo não é uma descrição, é uma caricatura, senhor Zuckerman (…) O senhor é um pessoa mais velha que andou afastada de tudo, e o senhor não sabe o que é ser jovem agora. O senhor é dos anos 50 e ele é de agora. O senhor é Nathan Zuckerman. Imagino que há muito tempo o senhor não tem contato com pessoas que ainda não se estabeleceram na vida profissional”.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/11/o-leite-derramado-nada-e-desperdicado-em-o-teatro-de-sabbath/

 https://armonte.wordpress.com/2011/07/11/destaque-do-blog-adeus-columbus-de-philip-roth

ENQUANTO AGONIZO ( Parte Final) 

Não deixa de ser engraçado eu ter comentado na semana passada (ver https://armonte.wordpress.com/2013/03/16/resenhas-rotharianas-1-o-animal-agonizante-e-o-escritor-tambem/)  meu mal estar diante de uma certa desconexão de Philip Roth com a atualidade e a rarefação da sua ficção decorrente disso, e logo na seqüência da leitura de O Animal Agonizante, que motivou meu comentário (que espero não ser entendido como uma depreciação total dessa novela), dar de cara com   Fantasma Sai de Cena, romance no qual outro personagem constante na obra de Roth (já aparecera, por exemplo, nos maravilhosos The Ghost Writer-Diário de uma Ilusão & O Avesso da Vida), Nathan Zuckerman, tematiza essa desconexão e rarefação. Escritor famoso e polêmico, ele isolou por onze anos no interior, devido a ameaças de morte e à impotência sexual causada pelo tratamento de câncer na próstata (e, levando-se em conta o imaginário rothiano, imagine-se o efeito dessa condição).

Na semana em que Bush obtém sua reeleição (em 2004), ele retorna a Nova Iorque para tentar uma intervenção cirúrgica que minimizaria a incontinência urinária que o obriga a usar cuecas de plástico e absorventes. Entra em contato com três jovens candidatos a escritor: um casal, Billy e Jamie, e um amigo (só isto?) deles, Richard Kliman, o qual pretende escrever a biografia do ídolo literário da juventude de Zuckerman, E. I. Lonoff, meio esquecido atualmente e que supostamente seria resgatado pelo trabalho de Kliman. O que revolta o narrador é que parece interessar mais a Kliman construir uma carreira literária através de revelações escandalosas (um suposto incesto cometido por Lonoff) do que resgatar uma obra de valor (além disso, apesar de ser um “fantasma” de si mesmo, Zuckerman deseja Jamie e tem ciúme de Kliman, seu possível amante). O que revolta o leitor é que os “jovens” de Fantasma Sai de Cena não saem do nível da caricatura, e é bem justa a censura de Jamie que serve de epígrafe a este artigo.

Outra personagem importante do romance é Amy Bellette, judia sobrevivente da Segunda Guerra (poderia faltar?), um “fantasma” que se recusa a sair de cena: amante de Lonoff, enquanto ele escrevia seu último livro (nunca publicado), ela é assediada por Kliman, que extorquiu (ou roubou) os originais, e nunca tem certeza do que acontece ou não devido a um tumor no cérebro. Para ela, sua vida se resume aos anos que viveu com o escritor-guru. Zuckerman pergunta a ela: “Como é que uma pessoa vive tanto tempo só de lembranças?” Mas, segundo a própria Amy, Lonoff fala com ela o tempo todo: “Nós conseguimos resolver muito bem o problema dele ter morrido. Agora somos diferentes de todo mundo e muito parecidos um com o outro.

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Fica claro então nessas “sobrevidas” patéticas e erráticas, o que Fantasma Sai de Cena está colocando em cena mais uma vez: o animal agonizante: O fato de eu haver permitido que esse encontro ocorresse me fazia sentir tão desprotegido quanto Amy, poroso, diluído, mentalmente enfraquecido a um ponto que me parecia inimaginável (…) Eu não estava à altura das exigências daquele conflito, não queria vivenciar a perplexidade que ele causava…”

Assim como os setores mais avançados e liberais foram incapazes de deter Bush (derrota ainda mais amarga dessa segunda vez), a impotência derivativa da condição clínica estendeu-se a todos os aspectos da vida de Zuckerman: nessa semana de retorno, se vê incapaz de transformar o rumo dos acontecimentos, nem que seja em escala ínfima e pessoal. Sua própria memória começa a apresentar falhas e lacunas, ameaçando seu único vínculo forte aos 71 anos: com sua própria escrita. E soma-se a isso o sentimento de alienação geral quanto ao mundo que reencontra: “No momento em que levantei a vista, todos estavam falando em seus celulares. Por que motivo aqueles telefones eram para mim a encarnação de tudo de que eu precisava fugir? Eles representavam um progresso tecnológico inevitável, e no entanto, em sua abundância, eu via o quanto eu me afastara da comunidade de meus contemporâneos. Isto aqui não é mais o meu lugar, pensei. Minha carteira de sócio havia expirado. Vá embora (…) Toda aquela confusão em Nova Iorque havia tomado pouco mais de uma semana. Não há lugar mais mundano, mais aqui e agora, do que Nova Iorque, cheia de gente falando ao celular e indo a restaurantes, tendo casos amorosos, procurando emprego, lendo as notícias, sendo consumida por emoções políticas, e eu havia pensado em voltar do lugar onde me refugiara para retornar a vida urbana reencarnado, reassumindo todas as coisas de que havia decidido abrir mão —amor, desejo, brigas, conflitos profissionais, todo o confuso legado do passado— e, em vez disso, como num filme mudo em ritmo acelerado, passei pela cidade por um rápido momento e mais que depressa voltei para casa. Tudo que acontecera fora que algumas coisas quase haviam acontecido, e no entanto retornei como se coisas imensas tivessem acontecido. Na verdade, eu não havia tentado fazer nada, apenas permaneci imobilizado por alguns dias, cheio de frustração, como um joguete num conflito implacável entre os já-era e os ainda-não [isto é, entre os velhos e os novos].

Aniquilado em seu “papel de macho”, assombrado pela ameaça de perder o último reduto (já seu último romance fora uma luta contra a deterioração mental), Zuckerman opta por uma estratégia pungente: reduz sua escrita a cenas esquemáticas, um diálogo entre um Ele e uma Ela (Jamie, mas também a Mulher em geral), em que diz tudo o que está interdito nos compromissos sociais. Um verdadeiro grito de agonia que deixa o leitor perplexo diante da ruindade das cenas, em contraste com o cuidado e apuro com que o resto do texto é construído (sempre um dos encantos da leitura de Roth). Antes, ele discutira a guinada de Lonoff de contos exatos e burilados para o romance que acabara com sua existência: “Ele começou a escrever de uma maneira totalmente diferente da habitual. Antes ele tentava omitir o máximo possível. Agora ele queria incluir o máximo. Achava que o estilo lacônico era uma barreira e no entanto odiava a nova maneira de escrever que adotara. Dizia: é chato, não acaba mais, não tem forma, não tem plano. O triste recurso do diálogo esquemático e interminável, chato, não acabando nunca, sem forma e sem plano, é como se Zuckerman/Roth estivesse nos dizendo que está amarrado à roda de suplício da literatura. Assim como os últimos filmes de Scorsese se retiraram da vida real e se reduziram ao culto do cinema, a literatura se tornou o único referencial em Roth. A carne é triste, e li todos os livros, já se disse. A carne é triste na impotência, nos diz Zuckerman, e só tenho os livros para escrever, mesmo que se tenha perdido  a “mala de truques de escritor” (roubei esta expressão de outro grande judeu americano, E. L. Doctorow), mesmo que as palavras  se reduzam a um monólogo disfarçado em diálogo, a um balbucio, a um estertor.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, 15 de novembro de 2008 com o título “O escritor agonizante?”)

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