MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/03/2013

O abismo das impossíveis reconstituições e os resignados habitantes do Inferno


graham-greene-600fim-de-caso-graham-greene_MLB-O-144957275_8425

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/globalizacao-literaria-a-obra-de-graham-greene/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-estrangeiros-no-territorio-da-condicao-humana-o-poder-e-a-gloria/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2000)

Os freqüentadores de cinema já estão assistindo ao trailer da adaptação que Neil Jordan fez de Fim de Caso. O que está reservado a essa que é uma das melhores obras do escritor inglês só Deus sabe, após Jordan ter perpetrado o horrível In Dreams- Premonição, onde a maravilhosa Anette Benning enfrentava uma bizarra e constrangedora mistura de O sexto sentido comPsicose.

Seja qual for o resultado cinematográfico, versão ou aversão, pelo menos servirá para colocar o livro em evidência novamente.

O narrador-protagonista de Fim de Caso é o escritor Maurice Bendrix, que reencontra Henry Miles, marido de sua ex-amante, Sarah. A essa altura da narrativa, Bendrix faz questão de informar ao leitor várias vezes o ódio que sente por ela, após tê-la amado durante os anos de guerra.

Henry (que não desconfia que Sarah e Bendrix enganavam-no) confessa ter dúvidas a respeito da esposa. Pensou até em procurar uma agência de detetives, desistindo por medo de se expor. Insidiosamente, Bendrix sugere tomar seu lugar na ida à agência, “passando-se por amante de Sarah”. Henry recusa a oferta, mas o outro, tomado pelo ciúme e pelo ressentimento, resolve de fato contrata um detetive para segui-la.

Entre as muitas qualidades desse romance de 1951, o primeiro exercício de Greene com a 1ª. pessoa, seu agudo e arguto estudo do sentimento inquisitorial, para usar uma expressão de Proust, que é o ciúme, irmana-o a duas outras obras-primas supremas a respeito do tema, Dom Casmurro  e Em busca do tempo perdido. É bem de Greene transformar uma questão passional numa investigação detetivesca, um território profanando o outro. Pois Parkis, o detetive, desenvolve uma admiração romântica por Sarah, enquanto Bendrix deixa que o lado sórdido da investigação deforme o passado, para descobrir, ao fim e ao cabo, que nem de posse das palavras mais íntimas de Sarah (Parkis furta seu diário) consegue “saber tudo”: “Então ela ainda tinha segredos, pensei. Ela não colocou isto em seu diário, assim como não tinha escrito sobre sua doença. Quanta coisa mais haveria a descobrir? Essa idéia era desesperadora”.

graham_green_the_end_of_the_affair_cover.3eu3qjhlac2ss88go8w44scgk.d28e1p3urvkkosc8o0okcc0sg.thThe-End-of-the-Affair---Graham-Green_317

Nessa “corrida para o abismo das impossíveis reconstituições”, para mais uma vez usar palavras do mestre do assunto, Proust, Bendrix certamente concordaria com a seguinte passagem de A Prisioneira (quinto volume de Em busca do tempo perdido), assim como também subscreveria embaixo o seu outro colega, Bentinho Santiago: “Interminável é o ciúme, pois mesmo se o ser amado, tendo morrido, não o pode mais provocar pelos seus atos, acontece que reminiscências posteriores a qualquer fato se comportam de repente em nossa memória como outros tantos fatos, reminiscências que não havíamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes e às quais basta que reflitamos sobre elas para lhe darmos um sentido novo e terrível… basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela esteja morta. Por isso não se deve temer no amor tão somente o futuro, mas também o passado, o qual se realiza para nós muitas vezes depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas também daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler”.

A originalidade de Fim de Caso é o Outro que emerge da investigação das idas e vindas de Sarah, Outro que determinou a separação entre ela e Bendrix, devido a um episódio que não convém contar. Quem é esse Outro, esse mr. X ? Greene assume o risco do ridículo e nos dá nada mais nada menos do que Deus. O descrente e ressentido Bendrix é obrigado a acompanhar, na sua corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, passo a passo, o processo de conversão de Sarah, e obrigado, além disso, a encarar (aceitar já seria dizer muito) a possibilidade de existência do inaceitável, o milagre: após a morte de Sarah, alguns atos podem ou não configurar eventos milagrosos e Bendrix terá que se manter na corda bamba da dúvida. Se alguém tiver dúvida da intensidade a que se chega nesse triângulo em que Deus é um dos vértices, basta ler a cena inacreditavelmente (para usar um termo apropriado à trama) linda em que Bendrix encontra (e é a última vez em que a vê com vida) Sarah numa igreja.

juliannemoore-ralphfiennesversao-antiga-do-filme

E haveria tanta coisa a mais a dizer sobre o livro: como Sarah é uma personagem incrível (o capítulo em que se conhece o teor do seu diário é um grande tour-de-force); como é emocionante a relação de amizade que se estabelece entre Bendrix e Henry (um dos achados de Fim de Caso é fazer com que eles, no final, acabem vivendo juntos, na esteira da “presença” de Sarah na existência de ambos); como o detetive Parkis e seu filho poderiam fazer parte do mundo de Samuel Beckett (o de Molloy, por exemplo, publicado no mesmo ano), com seu comportamento a um só tempo pateta e patético. Ou, ainda, a maneira como a trama é construída, com brilhantes ziguezagues temporais que permitem ao leitor conhecer passado (o tempo do “affair”) e presente (a partir do reencontro com Henry), ao mesmo tempo, e sem que ele quase se dê conta do deslizar de um para o outro.

É sempre assim com o autor de O poder e a glória e The heart of the matter- O cerne da questão: tem-se a ilusão de que se vai ler algo simples e linear e, de repente, somos assombrados por tramas mágicas e inquietantes. Ele aprendeu muito bem os feitiços de seu mestre, Henry James, o qual já foi chamado (por Borges) de habitante resignado do Inferno. Alguém que escreveu Fim de Caso só pode estar residindo na mesma localidade. Deve ser uma área do Além extremamente valorizada.

fim-de-casoendoftheaffairra2end_of_the_affair!!!!!!!-graham-book

o-crepusculo-de-um-romance-graham-greene-frete-r-600_MLB-F-3069284239_082012

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: