MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/03/2013

O MÁGICO OZ


 

 amos oz

“Quando tinha dezesseis, dezessete anos, o escritor costumava se sentar sozinho numa despensa abandonada e despejar no papel confusos trechos de histórias. Ele os escrevia mais ou menos da mesma maneira que sonhava e da mesma maneira que se masturbava: num torvelinho de coerção e de entusiasmo, e desespero e náusea e infelicidade. E também uma infatigável curiosidade de tentar entender por que as pessoas o tempo todo infligem umas às outras, e a si mesmas, coisas que nunca tiveram intenção de infligir.

    Ele agora também gostaria de entender, mas com os anos nele se acumulara uma espécie de pavor corporal de contato físico com estranhos… E no entanto ele continua a olhar para eles e a escrever sobre eles para assim tocar neles sem tocá-los, e para que eles toquem nele sem tocar de verdade.

    Talvez seja assim: você escreve sobre eles como um fotógrafo dos tempos das fotografias sépia, um fotógrafo de reuniões familiares. Anda de um lado para outro entre os figurantes, bate um papo com todos, faz amizades, graceja, pede que finalmente se arrumem em seus lugares, vai e planta seus personagens em semicírculo, como um anfiteatro… passa duas-três vezes entre as fileiras e com um leve toque endireita aqui e ali um colarinho, a fralda de uma camisa, dobras de mangas, fitas de tranças, e volta para trás de sua câmera apoiada num tripé, enfia sua cabeça embaixo do pano preto, fecha um olho, conta em voz alta até três, finalmente aperta o disparador e com isso faz todos virarem assombrações…

    Mas por que escrever sobre o que existe também sem você? Para quê descrever com palavras o que não são palavras?… Ele se enche de vergonha e de constrangimento por olhar para todos de longe, de lado, como se todos só existissem para que deles fizesse uso em suas histórias. E com essa vergonha vem também uma angustiante aflição por sua estranheza constante, por sua incapacidade de tocar e ser tocado, por estar sua cabeça, durante todos os dias de sua vida, enfiada no pano preto da velha máquina fotográfica. Como a mulher de Lot: para escrever você tem de olhar para trás. E com isso o seu olhar transforma você e eles em blocos de sal.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de janeiro de 2009)

   Tenho tanta antipatia pelo estado de Israel  que demorei a dar atenção a Amós Oz. Estupidamente, só fui conhecer a obra-prima A Caixa Preta (que coloco sem hesitar entre os dez maiores romances dos últimos 25 anos) porque fazia parte de uma série de banca que eu colecionava. Aproveitando a forma epistolar, a partir do pedido de uma mais-que-dúbia mãe ao pai biológico de um adolescente para que se interessasse pelo futuro do filho problemático, Oz nos envolvia numa teia de manipulações, mentiras, dogmatismos e insanidades, que faria qualquer pessoa ter mais cuidado com seus auto-enganos, dogmatismos e insanidades. Porém, nem um livro desse porte me tirou a cisma com Israel (e a ladainha conveniente do Holocausto, que fez com que se considerasse “grande” até o modesto A Lista de Schindler, filme aliás tão mediano quanto o próprio livro que o originou e que me parece uma visão Frank Capra do evento) e, por isso, ao contrário da minha inclinação natural nesses casos, após descobrir um belo texto de um autor, fiquei anos sem adquirir ou me interessar em ler outro título do israelense. Não fui seduzido nem por sua autobiografia ficcional, De Amor e Trevas.

Pois a leitura de Rimas da Vida e da Morte me livrou dessa burrice persistente. É impossível não ler Amós Oz. Ele é um fabulista consumado, um narrador admirável e tem o toque de Midas que nos faz fruir na ficção a suprema bênção da leitura: mais vida em um tempo ilimitado.

Nesse pequeno texto, cujo título nos remete à obra de um escritor popular, naif, Tsefania Beit-Halachmi, que trabalha basicamente o proverbial (portanto, o fatalístico), ele nos apresenta um escritor que participará de um evento num obscuro centro cultural, no qual será discutida uma de suas obras, da qual farão, inclusive, algumas leituras (o organizador é que dá o mote para o título, citando um provérbio de Beit-Halachmi). Já no café onde faz um lanche antes do evento, esse escritor permite ao moinho de sua imaginação funcionar incessantemente, apropriando-se da figura da garçonete e de dois frequentadores, dando-lhes nomes e moldando-lhes trajetórias biográficas a seu bel prazer (e para o nosso deleite).

Essa gatunagem da vida alheia continua em pleno evento e depois, proporcionando-nos páginas deliciosas, sobretudo na vinheta mais desenvolvida, em torno da figura que ele cria a partir da leitora dos textos, Ruchale Reznik. Pois o que se passa entre ela e o escritor poderia ter acontecido na realidade (mas como, se estamos lendo uma narrativa?), pode ser um prolongamento da fantasia do escritor, e ainda comporta variantes.

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Parece já a desgastada metalinguagem? Experimente ler Rimas da Vida e da Morte, leitor, para ver que até as variantes transmitem um imponderável elemento vital, como se reproduzissem as hesitações das ações na vida real. O livro é um triunfo da ficção, da verdade das mentiras. E se torna mais importante ainda quando acabou recentemente, após meses, outro exemplar de um dos maiores representantes do apocalipse da imaginação da nossa era atual, o Big Brother Brasil (BBB). Tem gente que não gosta pela apelação, pela baixaria, pelo nível dos participantes; tem gente que não gosta por achar tudo armado e arranjado. Minha bronca é mais primitiva e primária (e é similar a que tenho contra filmes e livros “baseados em fatos reais”, como se isso os legitimasse): é contra a idéia de que a “vida real” é interessante. Ora, meus amigos (e não estou afirmando nada de novo), é tudo que ela não é, por um simples motivo: a vida não tem forma, não tem como agarrá-la com qualificativos e predicados, e mesmo que a coloquemos num certo ritmo (horário de trabalho, etc), apenas lhe impomos rotinas, e por mais entusiasmo que tenhamos e momentos bons, é aí nessas pseudo-formas que vemos o que ela tem de empatação e lastro de tédio. A vida só é interessante sob a forma de narrativa, e aí ela já não é mais vida, é relato, é o terreno de Amós Oz, apropriação indébita por um lado, ganho para nós por outro. Questionado sobre a “identidade real” de Emma Bovary, Flaubert colocou as cartas na mesa, mas até agora parece que poucos se aperceberam: Madame Bovary sou eu.

Em tempo: o narrador afirma na citação que abre este artigo que o escritor, emulando o fotógrafo de reuniões familiares, faz todos virarem assombrações. Pura modéstia. Não há ninguém mais vivo do que as “assombrações” de Rimas da Vida e da Morte.

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4 Comentários »

  1. Há poucos dias que escutei na Globo News sobre novo livro Amós Oz, chamou minha atenção a luta dele por Israel bem como sua intensidade no escrever. Não o conhecia, sou leitora assídua, no momento mais devagar, gosto de experimentar autores e sobre ele estou curiosa, em dificuldade de escolher um primeiro livro para ler, quero o mais recomendado, procurando na internet estou descobrindo a diversidade de temas sobre os quais ele já escreveu, sinto que perdi muito tempo mas vou recuperar. Que o que voce acha do Não diga noite?

    Comentário por Mara Ney Andrade — 28/11/2011 @ 13:52 | Responder

    • Cara Mara, infelizmente não li “Não diga noite” (belo título), por pura falta de tempo, mas com esse título e sendo de quem é, não há riscos. Caso você queira uma sugestão minha, eu recomendo a obra-prima “A caixa preta” e o ótimo “Meu Michel”, ótimas introduções ao universo do grande escritor israelense.
      Um forte abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 28/11/2011 @ 14:06 | Responder

  2. Prezado Prfessor Alfredo Monte, tome conhecimento do blog leitura através da Folha de São Pauo, quando o senhor avalou o trabalho de Jose Luiz Passos (O sonambulo amador). Li o livro , gostei muito. Em varios momentos da leitura minha respiração chegou a ficar suspensa, tal a expectativa que o autor cria a cada pagina.
    Eu escrevi o Livro” Trilogias do Poemoa do Aqui” que ainda nã foi publicado e contem 158 paginas.
    Nas “Trilogias” faço distinção entre as expressões (Os outros e Os Demais ). Os Outros são para mim aqueles que eu não sou e que podem atém mesmo a mim se opor. Os Demais são para mim aqueles que a mim se assemelham e com os quais construo projetos, sonhos, etc.
    Há anda a objetividade do mundo frente às verdades de cada um e onte cada um busca marcar sua presença , fazer-se valer, contar, decidir.

    A sintese de tudo isso é o querer vir a ser o que sempre se foi, apesar do passado e do futuro. É luta com o tempo e contra os tempos.
    As “Trilogias ” comtemplam todos esses momentos. São obra de ficção, mas misturadas a realidades dos ultimos 40 anos.
    A quem se interessar em lê-las peço que me envie um e-mail apra que eu possa envia-las.

    Aceito de bom grado críticas e sugestões, e se me ajudarem a publicá-las agradeço também.

    meu nome e Mario Mendes raucci, tenho 66 anos. Sou pai de tres filhos, avó de tr/~es netos e vivo apaixonado por minha esposa. Aposentei-me em 2002, mas elaboro projetos para a area social. Em 1975 concluí meu bacharelato em Ciencias Sociais pela USP, e em 2004 defendi dissertação de mestrado “Meninos de rua em São Paulo, socialização e sobrevivencia”.
    Algumas partes das “Trilogias” estão musicadas por piano, essa obra foi escrita entre 1993 e 2013, e se dirtribui em cninco itens : Do Destino, Do Canto, Do Amor, Dos Encontros e Da Vida. Num dows trechos “Da Vida” esta escrito:

    Não fui escravo do meu próprio futuro,
    Nem ao passado fiz-me acorrentar.
    A cada dia há sempre algo de novo
    A cada dia a um algo se concebe,
    A força do presente arrasta ao já.

    Eu tenho lutas, aprendi nas lutas
    E a própria luta pôde acrescentar
    Que há o momento que é belo e é sem luta,
    Quando, nem tudo, só ganha sentido
    Pelo confronto ao mesquinho inimigo,
    Que ele não mede o que eu possa alcançar,
    Que o meu desejo nasceu antes dele
    E, apesar dele, já tem um lugar.

    Esse momento a tudo enuncia,
    Que esse momento encerra à própria vida
    E é quando o não não nos pode atrelar
    E é quando o Homem se encontra consigo,
    Sem aflição, sem dor, sem ser traído
    E cria o nós e nós vem desatar.

    É quando a liberdade tem seu nome,
    É quando o espelho não nos vem negar,
    É quando as coisas dormem esquecidas,
    É quando a Liberdade é o Homem.

    A Liberdade é o Homem. Esse é o tino.

    Comentário por Mario Mendes Raucci — 29/03/2013 @ 16:35 | Responder

    • Bacana sua distinção entre Outros e Demais, Mario. Sucesso no seu trabalho e grato pelo comentário. Uma grande Páscoa. Abraço, Alfredo Monte.

      Comentário por alfredomonte — 29/03/2013 @ 17:53 | Responder


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