MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/03/2013

A LIÇÃO DO MESTRE: “Cidadezinhas”, de John Updike


cn_image.size.john_updikecidadezinhas-john-updike_MLB-O-3533105114_122012

https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/o-mestre-da-mesmice-fosca-do-cotidiano-updike-flaubert-up-to-date/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/uma-luminosa-reflexao-sobre-a-diluicao-da-fe/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/20/coelho-continuara-ou-o-outro-de-philip-roth-john-updike-1932-2009/

Pouco antes da morte de John Updike (1932-2009), a Companhia das Letras lançou um dos seus derradeiros romances, Cidadezinhas (Villages, 2004, em tradução de Paulo Henriques Britto), ótima introdução ao seu universo. Na verdade, parece que estamos vendo a já clássica tetralogia do Coelho em “ponto pequeno”, condensada, eivada de um tom menos ácido e cáustico, mais voltado para o elegíaco, para reiterar sua obsessão com o materialismo e a prosperidade (que se traduz em consumismo exacerbado e crise de valores) de certa parcela provinciana ou suburbana da classe média, ligando-os a uma perda de inocência da civilização norte-americana (ele acreditava realmente nisso, e quem não aceitar essa noção de inocência embasando o sonho americano nunca apreciará as obras desse escritor-ícone dos EUA).

Cidadezinhas percorre um espectro temporal muito similar ao da vida de seu autor (nascido em 1932) e alterna dois tempos narrativos: num deles, na atualidade, Owen Mackenzie é um septuagenário que vive na cidadezinha de Haskells Crossing com sua segunda esposa; despertares, sonhos, a relação do casal vista através dos sinais de declínio físico, fazem com que o relato escorre para o outro tempo e então acompanhamos Owen desde a sua infância numa cidadezinha decadente da Pensilvânia, seu envolvimento com a incipiente informática nos anos 50 (sua próspera carreira será atrelada ao desenvolvimento do mundo virtual), suas primeiras experiências sexuais numa sociedade basicamente puritana, seu primeiro casamento, sua instalação na cidadezinha de Middle Falls (não era nenhum lugar em particular, o que a tornava triunfantemente americana”.), onde transcorre a maior parte da ação, seu primeiro adultério e daí adiante seu mergulho no carnal knowledge (o título original do famoso filme de Mike Nichols, Ânsia de Amar), através das mais diversas mulheres.

book-villages_300upd0-006a

Updike use vale da fórmula clássica do  romance de formação (que Goethe consagrou com seu Wilhelm Meister), dotando seu protagonista de uma “ingenuidade”, às vezes exasperante, mas que permite encarar cada contato e experiência como uma iniciação (no amplo sentido da palavra). No final, ficamos conhecendo Owen Mackenzie (e a sociedade à sua volta) de uma forma mais real e completa do que qualquer pessoa que possamos encontrar na vida. É preciso dizer também que o amor pelos detalhes do autor de Casais Trocados faz com que certas páginas (felizmente, poucas) sejam cansativas (ainda mais porque ele quer fixar cada ato sexual de Owen como o maravilhamento de alguém expandindo seu imaginário, como ritos verdadeiramente iniciáticos, pormenorizando-os à exaustão), ainda que não haja uma sequer em que não encontremos uma formulação luminosa, um exemplo da melhor prosa de ficção que se pode escrever, pelo menos no meu entender.

Assim, mesmo para o apreciador da obra de Updike e para o qual não apresenta surpresas (a não ser as estilísticas), Cidadezinhas funciona como uma síntese desse eterno ir e vir entre graça, tentação e queda. Sexo, sexo, sexo: “algo tão arriscado, com tamanho potencial de vergonha e humilhação. A humilhação fazia parte do êxtase, talvez: era ser abaixado como um balde dentro do poço negro da biologia, sabendo o tempo todo que a corda continuava no lugar, o dia claro da sociedade aguardando lá no alto”.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de fevereiro de 2009]

Juniper Books

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: