MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/03/2013

Entre a “tabula rasa” e o desembocar em outras histórias: NOITE DO ORÁCULO, de Paul Auster


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oráculo

Num dos textos da Trilogia de Nova York ficamos sabendo que, para o protagonista, “o que interessava nas histórias que escrevia não era a sua relação com o mundo, mas a sua relação com outras histórias”. É o que acontece a princípio com Sidney Orr, em Noite do Oráculo [Oracle Night, 2003, tradução de José Rubem Siqueira, Companhia das Letras], o mais recente Paul Auster, e talvez o melhor lançamento literário do ano até agora: após um período de inatividade devido a um estranho acidente que lhe deixou seqüelas neurológicas, ele compra um caderno azul numa papelaria que surgiu de repente no Brooklyn (e também desaparecerá de repente) e começa a trabalhar numa história cuja pedra-de-toque é a parábola contada por Sam Spade em O falcão maltês, de Dashiell Hammet (um livro medíocre que tem uma injustificada notoriedade), a respeito de Flitcraft, bem sucedido empresário, casado e com filhos, o qual quase foi morto pela queda de um andaime, e que resolve largar a sua vida porque “ficou então sabendo que se podia morrer assim por acaso, e viver apenas enquanto a sorte cega me poupasse”, desaparecendo e criando nova existência.

Autor de títulos tais como Tabula Rasa, Orr embarca em tramas que mostram pessoas abandonando suas existências, mudando suas referências. Multiplicam-se histórias-dentro-de-histórias. O herói da narrativa que Orr escreve no caderno azul (mais um caderno austeriano), Nick Bowen, recebe um romance chamado Noite do Oráculo, no qual um cego pode prever o futuro e se suicida porque não suporta conviver com uma virtual traição da esposa.

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Enquanto isso, incidentes desestabilizam o casamento de Orr. Também temos (coisa muito comum em Auster) um segundo escritor, John Trause, amigo do pai de Grace Orr, que se estabeleceu como a companhia mais íntima do casal e que possui igualmente um caderno azul para escrever suas histórias. É ele quem aconselha Orr a seguir a trilha da parábola de Flitcraft: Quando Orr afirma que “tudo começava e terminava com Trause”, o leitor pode entender melhor uma atmosfera sintetizada pelo trecho seguinte: “Tinha de haver uma história por trás das perturbadoras mudanças de humor de Grace, suas lágrimas e frases enigmáticas, seu desaparecimento na noite de quarta-feira, sua batalha para tomar uma decisão quanto ao bebê”.

Trause diz a Orr: “Vivemos no presente, mas o futuro está dentro de nós a todo momento”. É quase no final do romance,  só que Orr diz que a verdadeira história de Noite do Oráculo vai começar. E lemos: : “… me arrastei por aqueles nove dias de setembro de 1982 como alguém dentro de uma nuvem. Tentei escrever um conto e cheguei a um impasse. Tentei vender uma idéia de filme e fui rejeitado. Perdi o manuscrito de um amigo. Quase perdi minha esposa e, por mais que a amasse, não hesitei em baixar a calça na penumbra de um clube e me enfiar na boca de uma estranha. Era um homem perdido, um homem doente, um homem batalhando para retomar o pé (…) Desconfio que esse estado foi que levou ao nascimento de Lemmel Flogg, o herói cego de Noite do Oráculo, um homem tão sensível às vibrações à sua volta que sabia o que ia acontecer antes de os próprios eventos ocorrerem. Eu não sabia, mas cada idéia que entrava na minha cabeça me colocava nessa direção (…) O futuro já estava dentro de mim, e eu me preparava para os desastres que estavam por vir”(não esqueçamos que a “verdadeira” carreira literária de Auster começou em 1982, ao publicar A invenção da solidão).

O clima ameaçador que vinha do uso do caderno azul é importante e liga-se ao universo explorado pela Trilogia de Nova York, um universo onde a tabula rasa e o acaso desestabilizam o conformismo e a acomodação. Só que a verdadeira ameaça vem da vida irrevogável, dos laços que criamos e simplesmente não podemos anular. Não há solução Flitcraft. Por exemplo, John Trause tem um filho. Não se falará mais nada aqui, para não revelar muito mais do enredo, mas preste atenção nessa informação, leitor. Ela é crucial para a verdadeira história que começa em Noite do Oráculo e que representa uma das reversões mais sombrias da ficção que eu já tive oportunidade de ler.

O que emociona no livro é que mesmo assim seu último parágrafo representa um exercício de esperança e de positividade. E ele obriga a reler o primeiro parágrafo por representar passo a passo sua refutação. E aí o leitor se vê diante de outro problema: relido o primeiro parágrafo, é quase impossível não mergulhar no resto novamente.

(a resenha acima foi publicada originalmente  n’ A TRIBUNA de Santos,  em treze de julho de 2004)

VER NO BLOG TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/03/a-austeridade-do-acaso-quatro-resenhas-sobre-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/12/o-nada-e-a-imagem-o-livro-das-ilusoes-de-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/13/o-palco-do-acaso-a-trilogia-de-nova-york-de-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/09/11/o-outono-do-imperio-americano-segundo-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2010/09/27/fumo-e-fascismo-quando-sancionarao-uma-lei-anti-borboletas-da-alma/

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