MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/02/2013

O LADO BOM DA VIDA (THE SILVER LININGS PLAYBOOK): O macho da espécie vs. o desespero visionário


Capa_LadoBomDaVida_WEBmatthew_quick2

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de fevereiro de 2013, sem notas de rodapé ou anexos)

Entre as pretensões de O Lado Bom da Vida [EUA, 2008, em tradução de Alexandre Raposo[1]], ambicioso romance no qual se baseou o filme de David O. Russell indicado a todas as categorias principais do Oscar, está a crítica daquele  pungente pessimismo observável na grande literatura norte-americana. O narrador, Pat Peoples, preocupa-se com a influência devastadora que a “falta de finais felizes” pode incutir no jovem estudante: lendo as obras utilizadas nos cursos secundários por sua ex-esposa, Nikki, (na esperança de compreendê-la melhor),  fica estarrecido[2].

Nascido em 1973, Matthew Quick, o autor, quer ir na contracorrente do que Harold Bloom denominou desespero visionário, que seria um traço fundamental da melhor ficção do seu país. Mesmo lidando com colapsos mentais,  perdas, violência doméstica e o sentimento de disfuncionalidade, já pelo título (no original,  The Silver Linings Playbook), seu livro destila otimismo e anuncia a possibilidade de um final feliz, mesmo equilibrando precariedades existenciais e questões mal-resolvidas.

Pat sai de uma instituição psiquiátrica (ele a chama de “lugar ruim”), onde passou quatro anos, e é acolhido na casa dos pais. A mãe montou-lhe uma espécie de academia, pois ele tem a obsessão de ficar sarado. Enquanto se recusa a aceitar que tenha perdido tanto tempo,  tem de conviver com o truculento mutismo do pai (quando o Eagles —time  pelo qual a família é fanática— perde, as relações azedam-se até o próximo jogo) e com a infantilização da sua condição (um marmanjão de 34 anos, dependente e tutelado judicialmente). Sua estratégia principal é o chamado Pensamento Mágico: através de certos mantras cognitivos (cujo aproveitamento no texto mostra o escritor que Quick pode vir a ser)[3],  acha que conseguirá se reerguer e reconquistar Nikki  (a quem está impedido de procurar por uma ordem de restrição).

silver linings playbook

Um detalhe perversamente delicioso: o gatilho para qualquer crise mais séria de Pat, em que ele se mostra realmente pirado, é a aparição de Kenny G. ou a referência às suas performances instrumentais (como eu mesmo não suporto o, digamos, músico, compreendo perfeitamente os surtos do personagem[4]). Pat teve até que desenvolver uma técnica para evitar esses picos demenciais. Nem sempre, ela é bem-sucedida: há um momento forte em que o pai o agride brutalmente por conta de um deles —e  não sabemos se é para contê-lo ou como demonstração da própria boçalidade (Ver ANEXO)

Para completar o quadro, ele envolve-se com Tiffany. Após ficar precocemente viúva (no romance, ela é mais velha que Pat; no filme, é interpretada pela muito mais jovem —e talentosa— Jennifer Lawrence, possivelmente a vencedora na disputa do Oscar de atriz), constrangeu a família com surtos de ninfomania, tendo que se submeter também à terapia intensiva. Através de um ardil, que não convém revelar, Tiffany faz com que Pat seja seu parceiro numa apresentação de dança, o que acirra seus conflitos com a família, uma vez que, no período de ensaios, ela o força a dissociar-se da torcida permanente pelos Eagles que a mobiliza.

Apesar de algumas passagens que parecem saídas de receitinhas de oficinas literárias (“saboreando as gotas salgadas de suor que escorrem para dentro de minha boca”), O Lado Bom da Vida consegue se sustentar até a apresentação de Pat e Tiffany. Depois, a narrativa —em seu terço final— decai terrivelmente: não funcionam muito bem as pinceladas milagreiras de otimismo e felicidade possível. De fato, por mais que eu simpatize com o projeto de Quick e o Pensamento Mágico de Pat (seu grande achado), há muitos senões. Toda a interferência de Tiffany na trama é forçada demais, além de terrivelmente previsível, e ela é basicamente uma personagem desagradável, a meu ver (nem todo o carisma da sua intérprete no filme consegue reverter isso; ela estava melhor em Jogos Vorazes, para não ser cruel, e lembrar de Inverno da alma);  e essa love story entre disfuncionais banaliza toda a narrativa (seria mais bonito se eles continuassem amigos).

Ainda por cima, é revoltante que, apesar de toda a carga de violência sugerida pelo autor, ele trate com tanta simpatia, como se fossem rituais muito bacanas, as babaquices e truculências dos torcedores do Eagles; diga-se de passagem, a inclusão do terapeuta de Pat (o folclórico dr. Cliff) nessas cenas de torcida chegou a me chocar —que psiquiatra “do doce”  é esse??!! E a mulherada do livro, todas elas caracterizadas como manipuladoras e castradoras, em diferentes graus?[5]

jennifer lawrence

Acontece com Matthew Quick um fenômeno parecido com o de Daniel Galera, cujo mais recente (e cultuado) romance, Barba Ensopada de Sangue também mostra um “macho sensível” que não escapa dos códigos de conduta atávica masculina, aos quais os autores se mostram complacentes. É a “testosterona fiction”, exaltada, aliás, com entusiasmo reverente por um crítico. A diferença é que, lá nos EUA, Quick fez muito sucesso, mas não é tomado como um gênio da literatura, ou como “o” caminho  a ser seguido pelos escritores mais jovens. Talvez porque aqui ainda não seja um país sério.

De todo modo, O Lado Bom da Vida me fez querer mais ainda a leitura de coisas desesperadas.

cooper de niro

ANEXO

Selecionei o trecho em que Pat tem um surto porque Kenny G lhe aparece à noite, com as consequências abaixo:

“__ Como? Como você me encontrou?, pergunto.

    Kenny G pisca para mim e depois leva seu brilhante sax soprano aos lábios.

    Eu estremeço, mesmo estando encharcado de suor.

__ Por favor, imploro, me deixe em paz!

    Mas ele inspira profundamente e seu sax-soprano começa a tocar as notas brilhantes de Songbird e logo eu estou de pé no meu saco de dormir, batendo repetidas vezes com o punho de minha mão direita na pequena cicatriz branca acima da minha sobrancelha direita, tentando fazer aquela música parar… Os quadris de Kenny G estão balançando bem diante de meus olhos… E a cada solavanco no cérebro eu grito. Pare!Pare!Pare!Pare! A extremidade de seu instrumento está bem na minha cara, agredindo-me com jazz suave… Eu sinto o sangue subindo a minha testa… O solo de Kenny G atinge o clímax… Bum, bum, bum, bum…

   Então minha mãe e meu pai estão tentando conter meus braços, mas eu continuo gritando:

__ Parem de tocar essa música! Apenas parem! Por favor!

    Quando minha mãe cai no chão, meu pai me chuta forte na barriga—o que faz Kenny G desaparecer e a música parar—e no instante em que eu recuo com falta de ar, papai pula no meu peito e me dá um soco no rosto, e de repente minha mãe está tentando tirar papai de cima de mim e eu estou chorando como um bebê, minha mãe está gritando com meu pai, dizendo para ele parar de me bater, e então ele me larga e ela me diz que vai ficar tudo bem, mesmo depois de meu pai ter me dado um soco na cara com toda a força.”

silver linings

 


[1] Excelente, só percebi um pequeno vacilo, quando ele utiliza “dormitório”, numa passagem (referindo ao quarto dos pais)—quem usa esse termo para casas de família?

[2] Os livros comentados por Pat Peoples são O Grande Gatsby, Adeus às armas, A Letra Escarlate A redoma de vidro, As aventuras de Huckleberry Finn & O apanhador no campo de centeio (só os dois escapam um pouco do avassalador pessimismo dos finais infelizes).

[3] “… o que eu andei fazendo desde que começou o tempo separados”

 “Sim, realmente acredito no lado bom das coisas”

“agora estou praticando ser gentil”

“agora estou assistindo ao filme da minha própria vida enquanto a vivo”

São leitmotivs motivacionais que se repetem várias e várias vezes ao longo do livro. Com relação a esse recurso utilizado por Quick, a aplicação mais notável é um dos melhores capítulos de O lado bom da vida, intitulado A montagem do meu filme.

[4] “Depois que voltei para Nova Jersey, pensei que estava em segurança porque eu não achava que Kenny G pudesse deixar o lugar ruim, o que agora percebo que é bobagem, porque Kenny G é extremamente talentoso, cheio de recursos e uma força poderosa a ser considerada.”  Atente-se para o fato de que, no filme de Russell, a função de atormentar Pat é delegada a Stevie Wonder, o que era, aliás, a intenção original do romancista, pelo que pude averiguar (contudo, houve problema com o direito de uso).

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[5] Um exemplo: Pat queixa-se ao seu hilário (no mau-sentido) terapeuta de que Tiffany insiste em segui-lo quando ele sai para correr. Então dr. Cliff diz:

“__ Minha mulher adora filmes estrangeiros. Você gosta de filmes estrangeiros?

__ Com legendas?

__ Sim.

__ Odeio esse tipo de filme.

__ Eu também, admite Cliff, principalmente porque…

__ Não têm finais felizes.

__ Exato (…), em geral são tão deprimentes (…) Minha mulher vivia implorando para que eu a levasse para ver esses filmes estrangeiros com legendas, explica Cliff, até que eu cedi e comecei a levá-la. Toda quarta-feira íamos ao Ritz para assistir a algum filme deprimente. E você sabe o que aconteceu?

__ O quê?

__ Depois de um ano, simplesmente paramos de ir.

__ Por quê?

__ Ela parou de pedir.

__ Por quê?

__ Não sei. Mas talvez se você der atenção a Tiffany, se chamá-la para correr com você e, talvez, para jantar fora algumas vezes… talvez, depois de algumas semanas, ela se canse de segui-lo e o deixe em paz. Permita que ela consiga o que quer, e talvez depois de um tempo ela não queira mais…”

Ou seja, as mulheres —nessa ótica— estão sempre tentando impor costumes e hábitos que vão contra a tendência natural do macho, e é preciso aprender a lidar com essa pentelhação, característica do sexo, com habilidade.

    quickDavid-O_-Russell

 

2 Comentários »

  1. Vi o filme, mas ainda não o li o romance. Talvez vá lê-lo, talvez não. Gostei do filme. Eu e minha esposa nos divertimos muitos. Mas o final realmente poderia ter sido menos óbvio. Sua ideia de eles continuarem amigos é boa. Gosto de ler esse tipo de literatura indie norte-americana, ao mesmo tempo despretensiosa e séria.

    Agora quero lhe dar parabéns pelo blog. Cara, muito bom. Ele é fácil de navegar e tem um visual limpo, gostoso de ler. A mistura de fotos, imagens, seus textos e trechos dos livros é bastante atraente. Instiga o leitor a realmente ir em busca dos autores citados. E seus textos são muitos bons. Você fala com muita propriedade, escrevendo sobre clássicos e contemporâneos. Aqui e ali você trás uma coisa nova sobre determinado autor. E principalmente não tem receio em falar sobre o muitas vezes melindroso universo da literatura brasileira atual.

    Continue o trabalho. Seu blog agora está no meu Favoritos.

    Abraço

    Ricardo

    Comentário por ricardo — 07/03/2013 @ 10:18 | Responder

    • Valeu, Ricardo, fico muito agradecido e até emocionado com seu gentil comentário. Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 07/03/2013 @ 12:08 | Responder


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