MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/02/2013

OS DESCENDENTES: acertos e erros de um livro de estreia


kauios-descendentes-capa

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de fevereiro de 2012)

Assim como as novas capas de Precisamos falar sobre o Kevin e O espião que sabia demais, a de Os descendentes (The descendants, EUA-2007, em tradução de Cássio de Arantes Leite) reproduz o cartaz do filme e representa uma decisão bem mais deletéria porque, ao contrário dos demais, o romance de  estreia de Kaui Hart Hemmings é mais frágil literariamente e pode ser facilmente engolido  pelo prestígio (superestimado, a meu ver) da versão cinematográfica de Alexander Payne (que já fez coisa melhor), a qual, aliás, é bastante fiel às linhas gerais da trama.

Quem narra é Matt King: ele e sua numerosa família (em termos de primos dos mais diversos graus) são descendentes de uma princesa havaiana nativa e um missionário americano e possuem uma quantidade apreciável de terras cobiçadas pela especulação imobiliária. Matt detém o poder de bater o martelo a respeito do comprador adequado.

Esse lado da história, com raízes na própria história do Havaí, é o que  mais me interessou, mas não é suficientemente desenvolvido nem pela autora nem pelo roteiro do filme (no qual ela faz uma participação rápida), tanto que a resolução final de Matt King não convence e parece uma solução de compromisso politicamente correta.

A trama se volta mais para a perplexidade dele em cuidar das filhas problemáticas com a esposa em coma, após um acidente de barco (“Olho para minhas filhas, completos mistérios, e por um breve momento tenho a horrível sensação de que não quero ficar sozinho no mundo com essas duas meninas. Estou aliviado por não terem me perguntado do que eu mais gosto nelas), que se complica com o veredicto médico: ela não recuperará a consciência e deixou instruções explícitas para não ser mantida viva por aparelhos. Pior ainda: descobre que Joanie (no filme, Elizabeth) estava apaixonada por outro e pretendia deixá-lo.

Resolve, então, procurar o amante, e aí parte em viagem com as filhas e o amigo/namorado/ficante, sabe-se lá o quê (de qualquer forma, um tipo meio Débi & Lóide) da mais velha, o que dá ao desenrolar da narrativa um ar de Pequena Miss Sunshine mesclado com A família Savage ou Laços de Ternura. O que é difícil de acreditar é que, em meio a uma negociação tão complexa, importante e badalada, as empresas que fizeram ofertas deixem Matt tão livre, leve e solto para confrontar seus fantasmas pessoais, sem pressão de qualquer tipo.

clooneyos descendentes 1

Mesmo assim, apesar de deixar a desejar neste e em vários aspectos e ficar próximo da banalidade em seu terço final (“Deixo que ele se vá junto com os meus antigos costumes. Todos nós deixamos que ele se vá, bem como o que éramos antes disso, e agora somos só nós três, para valer…), o romance é bem melhor que o filme e Matt é um narrador que apresenta lampejos e percepções que valem o investimento de tempo na leitura (“É absurdo quanta coisa se espera que os pais de hoje saibam. Venho de uma escola de pensamento onde a ausência do pai é algo com que se pode contar. Hoje em dia, vejo todos os homens com bolsas camufladas para troca de fraldas e os bebês pendurados em seus peitos como pequenas figuras de proa de um navio. Quando eu era um pai novo, lembro que minhas filhas meio que me incomodavam, por serem bebês, e todo mundo em volta correndo para atender suas necessidades”), o que me permite afirmar que George Clooney (eu sei, eu sei que ele é bonito, carismático, charmoso e engajado nas boas causas) esvazia o personagem de qualquer traço marcante com sua inexpressividade (diga-se de passagem, só o veterano Robert Forster consegue realizar algo memorável no elenco, como o sogro truculento).

Tirando essa limitação intransponível de ator, quem no entanto acredita seriamente que alguma esposa vá traí-lo com Matthew Lillard, o Salsicha dos filmes do ScoobyDoo, que ressurge em versão marombada?!!! Aí, já não estamos mais no Havaí e sim no território do país das maravilhas e do chapeleiro louco.

VER AQUI NO BLOG TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/22/leituras-em-espelho-o-livro-do-pai-os-descendentes-e-o-livro-da-mae-precisamos-falar-sobre-o-kevin/

clooney2lillarddescendants

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