MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/01/2013

A RATIFICAÇÃO DO ABSURDO: A morte de Albert Camus


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Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de fevereiro de 2010, em função do cinqüentenário da morte de Camus

“Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”

Há 50 anos, o absurdo que tanto ocupou o pensamento de Albert Camus se fez evidência inegável: o genial escritor franco-argelino (nascido em 1913) morreu, aos 46 anos, num acidente de carro. Para ele, existir essa era condição paradoxal: nada solicita ou justifica nossa presença no mundo, no entanto, como Sísifo em sua tarefa interminável, carregando sua mítica pedra, nós temos de esgotar o “campo do possível”, essa realidade contingente que é nosso único horizonte.

Essa visão camusiana das coisas e do humano dominou toda a minha adolescência. Atualmente, posso até ter idéias muito diferentes (a biologia prova que quem não muda, estaciona e morre), entretanto o que nunca mudou é a convicção de que ele foi um dos maiores escritores do século passado, com a sua linguagem precisa, lapidar, mais francesa do que a dos próprios franceses, na sua pureza clássica, que parece muito simples e fácil, muito solar, no entanto carrega consigo um lado oculto e permanentemente desafiador:

“Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.

Na década de 30, quando começou a publicar, Camus misturava a forma do ensaio com pequenas e preciosas anedotas sobre o cotidiano e a paisagem argelinos, nos  belos textos que compõem O avesso e o direito e Núpcias.

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Foi na França, durante a guerra e a ocupação alemã (contra a qual ele lutou como membro muito ativo da Resistência), no início dos anos 40, que vieram a lume seus dois livros paradigmáticos (após ele ter abandonado a escritura de A morte feliz, um romance fascinante publicado postumamente): O estrangeiro & O mito de Sísifo. O primeiro é um dos romances mais significativos da modernidade, descrevendo o que é a vida absurda. Para nós, que estamos vivendo dias infernalmente “ensolarados”, é fácil compreender por que o protagonista mata um árabe desconhecido: “por excesso de sol” na cabeça. No seu julgamento, ele é condenado não tanto pelo assassinato, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O segundo é o ensaio que justifica as idéias que movimentam o imaginário camusiano, escrito, aliás, num estilo magnífico e irretocável.

Tornando-se amigo de Sartre, Simone de Beauvoir, numa relação que ficará cada vez mais conturbada até um rompimento célebre (por conta da polarização política pós-guerra), Camus se dedicará ao teatro (deixando pelo menos uma peça clássica, Calígula, e notáveis adaptações de Dostoievski e Faulkner), publicará ainda dois romances inesquecíveis e impressionantes ,  A peste e A queda, os quais, infelizmente, se encontram um pouco eclipsados pela fama de O estrangeiro. Provando sua versatilidade, ainda exercitou várias técnicas no contos de O exílio e o reino (publicado no ano em que ganhou o Nobel, em 1957), voltou ao ensaio anedótico da juventude  no lindíssimo O verão, e sacudiu a intelectualidade francesa esquerdista com o corajoso, brilhante e irregular O homem revoltado, no qual o conceito de revolta (contraposto ao de revolução, no sentido marxista-leninista) veio complementar o de absurdo, que informava as suas primeiras obras.

Ao morrer, ele escrevia sua provável obra-prima suprema, O primeiro homem, publicada apenas em 1994, e que, ao narrar, de uma forma que só se pode caracterizar de mágica, suas origens familiares, mostra que o fatídico acidente de1960 foi absurdo até no sentido de nos privar de um autor no auge da sua forma.

A. Camus. Le 1ºH.

2 Comentários »

  1. O primeiro homem foi o meu encontro com Camus… Já o conhecia, nunca havia lido nada dele, mas conhecia suas obras, num daqueles mistérios que só me foi revelado quando este livro veio parar em minhas mãos. Descobri que tínhamos algo em comum… somos “irmãos”, somos filhos de mãe surda, ele mais filho do que eu porque tinha um tio surdo também, mas em contrapartida, meu pai era surdo e o dele não… Ele morreu sem saber que era um C.O.D.A. (Children of Deaf Adult, sigla de uma associação com mais ou menos trinta anos de existência, de filhos de pais surdos). Hoje, já li O Estrangeiro e tudo o que se refere a ele vou buscando, porque gosto das coisas que compunham seu universo. A começar pela França, pela sua origem argelina, pelo seu pensar o absurdo… A resistência, a filosofia, seu ensaio com a fenomenologia, embora não oficial, mas nos autores que ele baseia seus pensamentos, enfim… O fato de sermos do mesmo mês de nascimento, tudo nele e dele me surpreende fascinantemente.

    Comentário por Laura Jane Messias Belém — 28/12/2013 @ 7:15 | Responder

    • Obrigado pelo seu comentário. Feliz 2014.

      Comentário por alfredomonte — 28/12/2013 @ 12:00 | Responder


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