MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/01/2013

O AGORA É MUITAS VEZES: “Estranhos no Aquário” e o percurso ficcional de Adriana Armony


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“Afetos, afecções: aquilo que vem de fora e prova uma alteração no nosso corpo e, ao mesmo tempo, na nossa alma. Pois corpo e alma são duas dimensões simultâneas da existência que não se opõem, mas se correspondem ponto a ponto, dois registros diferentes de uma e mesma coisa. Aquilo que nos afeta pode gerar em nós alegria e tristeza, bem como uma miríade de afetos derivados: ciúme, inveja, orgulho, piedade, toda essa fauna riquíssima sobre a qual Benedictus se debruçou com rigor de matemático e naturalista.” (trecho de Espinosa se deita, de Adriana Armony)

(a resenha abaixo foi publicada, sem as notas de rodapé e o trecho selecionado, em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de janeiro de 2013)

“Sucedeu uma coisa e não realizo o que foi. Eu devia viajar pro ano-novo mas tô nessa geografia com você… O agora é muitas vezes.”

Sim, o agora é muitas vezes para Ben, o marcante protagonista de Estranhos no Aquário: após sofrer um acidente no réveillon da virada do milênio (estava numa pousada em Búzios com amigos e a garota por quem sempre foi apaixonado, Maíra), entre as sequelas de uma lesão cerebral, começou a manifestar uma insólita linguagem “poética” que, aliada à perda da memória recente, faz com que todo o ritmo de vida e as pessoas à sua volta adquiram uma qualidade desfocada, quase fantasmagórica[1].

É como se Ben levasse ao extremo o episódio que testemunhou na piscina da pousada e que o levou ao acidente: “em breve estarão os corpos inconscientes do seu olhar, braços que se atravessarão de repente, pernas feito caudas de sereia, bustos em câmera lenta, lenta como o sono que o invade, o penetra, lento como a própria água, e ele vê a cauda de um vestido, uma causa de rabo de peixe, ou talvez um véu de casamento, tênue, branco, e lá está a fresta de novo, ou a fímbria, o azul tremulando, ele se sente sorrindo, quente—mas agora há realmente algo no recorte, algo que penetra o retângulo de vidro. Tudo acontece tão rápido que mesmo se lembrasse de tudo, nunca teria certeza do que realmente ocorreu; ele se força a fechar os olhos por algum tempo, e quando volta a abri-los, o retângulo voltou a ser um vidro azulado, as águas apenas ondulando levemente, sopradas pelo vento…”

Além desse tatear de Ben em meio às palavras e afetos, que por si só já sublinha o diferencial de Estranhos no Aquário na atual ficção brasileira, o terceiro romance de Adriana Armony ainda investe num caminho curiosamente raro por aqui, apesar de comum na literatura norte-americana: o denso drama familiar concentrado num momento de doença ou limitação da capacidade física ou mental, o que pode resultar tanto no novelão, o telefilme lacrimoso,  quanto numa sondagem mais ampla e complexa da realidade dos afetos.

Ao focalizar as estratégias conflitantes dos pais, Júlia e Roberto, para lidar com a situação do filho, a autora carioca optou, claro, pelo segundo caminho, contudo algo desandou: enquanto “estranhos no aquário” através da ótica de Ben, sentimos que a narrativa é brilhante e perturbadora; enquanto personagens realistas que lidam com uma questão pessoal tão espinhosa e dramática, que coloca todas as relações familiares em xeque, ao mesmo tempo enfrentando o huis clos, o entre-quatro-paredes da sua própria história amorosa, Roberto e Júlia não conseguem tornar-se suficientemente convincentes para nós, assim como Maíra, a amada de Ben. E há o problema adicional de André, o melhor amigo, com uma inserção ambígua e perigosa na dinâmica familiar (ele é o amigo pobre e agregado, todavia mais parecido com Roberto do que o próprio Ben[2]), e que parece  fascinante ao leitor, mas cuja presença é simplesmente obliterada quando o romance se aproxima do desenlace e ela seria (a meu ver) crucial.

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Quando estreou com A Fome de Nelson (2005), Adriana Armony revelou-se uma escritora de estilo preciso, ao retratar Nelson Rodrigues enfrentando a pobreza e a tuberculose num sanatório que era uma Casa dos Mortos dostoievskiana; em contrapartida, notava-se certa timidez narrativa, como se ela quisesse permanecer numa zona de conforto, mesmo lidando com temas tão portentosos. Assim, foi uma grata surpresa Judite no País do Futuro (2008), um dos mais belos romances recentes: escapando dos clichês do “romance de gerações”, ela conseguia movimentar com mão segura um tempo narrativo mais dilatado (desde 1916), na história de uma imigrante judia e sua família, com um rol enorme de personagens, um escopo mais ousado e alargado de discussões étnico-éticas. E sempre a fluidez e a limpidez.

As qualidades de Adriana Armony como escritora se mantêm em Estranhos no Aquário. Arrisco-me até a dizer que o livro é uma evolução na sua obra em construção, ao voltar-se para uma situação narrativa mais concentrada, após o voo épico de Judite, mas sem a postura cautelosa em demasia de Nelson. Além disso, nunca é demais apontar que ela nunca cai nas armadilhas de uma suposta “escrita feminina”. Não, é uma autora em que o forte intimismo é encampado pelo gosto de narrar, de contar uma história.

No entanto é, entre os três, o texto que mais parece um primeiro romance de um autor talentoso: cheio de garra e achados,  mas ainda desequilibrado, não lapidado o suficiente[3]. Talvez o problema básico esteja na sua dicção híbrida: por um lado, temos algo do tipo Anne Tyler (O Turista Acidental), autora realista por excelência, que escava a inesgotável mina das relações familiares e afetivas de uma forma aguda, muito presa a detalhes; por outro, algo do tipo Joan Didion (Democracia), que usa as relações familiares e afetivas para enfatizar,  numa narrativa desfocada, rarefazendo o ar da mina,  a liquidez e insubstancialidade, tipicamente pós-modernas.

Seria até um feito notável se Adriana Armony tivesse conseguido uma fusão dessas duas perspectivas naturalmente antípodas. Não foi dessa vez, mas quem sabe ela não o consiga, na sua produção futura? Pois ela já provou que tudo o que vier da sua pena será, no mínimo, regido por um padrão de qualidade que se nota, de saída, na escolha dos títulos e das capas. E entre as minhas frases favoritas constará doravante: “O agora é muitas vezes”.

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TRECHO DE ‘ESTRANHOS NO AQUÁRIO”:

“Às vezes esqueço de onde vim, para onde vou. Mas me lembro bastante de algumas coisas. Lembro desse balcão, da cara do moço do balcão quando eu assinei o cheque. Sei também que à direita tem a piscina, e mais adiante uma rampa que leva ao nosso quarto. Daqui a pouco estaremos lá, Roberto e eu.

Chegam ao saguão. Irresistivelmente, ambos erguem a cabeça e fitam o alto pórtico, de uma imponência  meio deslocada para uma pousada de balneário. No topo, volteios meio barrocos se confundem com a escuridão. Do outro lado da recepção, um jovem uniformizado tecla alguma coisa no computador. Roberto para junto ao balcão e aguarda.

__ Boa noite. Posso ajudar em alguma coisa?

O rapaz olha alternadamente para Ben e o pai. Não é o mesmo de quando haviam chegado: este é mais jovem e expansivo. É provável que por baixo do uniforme estampe alguma tatuagem.

__ Vamos embora amanhã cedo. Como faço para fechar a conta?

__ Se o senhor quiser, podemos fechar agora mesmo. Se amanhã tiver alguma diferença, acertamos no check-out. Está aqui, se preferir o  senhor pode levar para conferir e trazer mais tarde.

__ Pai, minha barriga tá pulando.

__ Certo, vou conferir e passo aqui na volta do restaurante, assim já pago o consumo da janta.

Volta a empurrar Ben, que intensifica o batuque nos braços da cadeira. Embora aquilo o irrite difusamente, Roberto não reclama. Empurra a cadeira com velocidade crescente e num minuto chegam ao restaurante.

   Vamos para outro lado, o lado da carranca. Minha barriga pula e se alegra. Por que ela se alegra tanto? Será que Maíra estará lá? Roberto parece uma espiga de milho atrás de mim. Quero perguntar a ele sobre Maíra, mas me detenho. Sei que ele não vai me dizer. Que não sabe de nada, e, se soubesse, mentiria. Como o André. Não sei por quê, mas tenho ódio dele. Preciso consultar o caderno em cima do meu colo.

No alto da escada, a carranca parece fitá-lo com ar escarninho enquanto dois garçons transportam a cadeira de rodas. Como no almoço, pega o grande prato branco e serve Ben, que aguarda na mesa. Roberto deposita com cuidado o prato em frente ao filho.

__ Essa é a mesa da mulher barriguda. Os filhos se penduravam nela.

__ Quando foi isso, Ben?

__ No almoço. Nós sentamos ao lado dela.

Ben deve estar se lembrando de um almoço anterior, quando estava com os amigos na pousada. Pelo menos Roberto não se lembrava de nenhuma mulher gorda com filhos. Na maioria, os hóspedes eram casais ou grupos de jovens solteiros.

[…]

Finalmente, voltam à recepção para pegar a folha impressa com as despesas da estada e retornam pelo caminho ensombrado pelas trepadeiras, sob a luz artificial […]

Aqui fora é bom e fresco. O ar cheira ao véu de uma noiva. Entramos por um caminho cortado pela espada de um muro. Não se vê o que existe do outro lado, só que o verde o abraça e consola. O som dos ruídos da minha cadeira cresce e morre como a música de uma máquina de costura.

No quarto, a televisão emite uma luz semelhante. Roberto acomoda Ben na cama e se senta ao lado dele, quase tocando na sua coxa. Puxa delicadamente o caderno das mãos do filho e o coloca de lado.

__ Benjamin?

__ Roberto?

__ Você lembra o que aconteceu entre a Maíra e o André?”

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[1] “__ Está com fome?

__ Uma indústria de fome.

   O acidente também atingira a fala, fazendo com que às vezes ele se expressasse de forma esquisita, erudita ou metafórica demais. Agora estava bem melhor, mas no início chegava a ser difícil saber do que ele estava falando.

   Delicadamente, ela envolve com um braço os ombros do filho, com o outro os joelhos e o coloca na cadeira de rodas, enquanto ele assobia acompanhando a música (…)

__ Vou trazer o seu lanche, espera só um minutinho.

    Júlia vai até a cozinha, pega o mate, o sanduíche de atum que estava preparado há uma hora, esperando que o filho acordasse, e os bombons Sonho de Valsa. Pergunta-se o que o filho dirá quando ela estiver de volta,  Oi, mãe, o que eu estou fazendo aqui? Ou Por que não consigo mexer minhas pernas? O ar perplexo. Mas talvez ele diga simplesmente: Minha castelã, enfim, trazes uma taça de mate e… como é mesmo o nome desse edifício de pães? Sanduíche, ela dirá com um sorriso triste…”

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[2] “Ben sempre invejara a habilidade de André com a bola. Aos 11 anos, naquela idade em que o futebol era parte inseparável da identidade de um garoto, Benjamin engolia livros de mistério um depois do outro, inventava histórias de aventuras com todo tipo de duendes e falava sem parar, enquanto André era caladão e popular. Ele mesmo, Roberto, pensara algumas vezes que gostaria de ter um filho como André, um garoto com uma energia nata e uma inteligência prática que certamente o levariam longe.”

“Quando André tinha 11 anos e sua mãe precisava sair para visitar clientes ou regatear tecidos, ele esperava alguns minutos para se esgueirar até o quaro onde ele passava as horas costurando, Não mexe em nada, André, eu volto logo, e pegava a bolsa grande de plástico, ajeitava os cabelos endurecidos de laquê barato e encostava a porta do quartinho—nesse ponto ela suspirava, e cada gesto seu parecia lamentar a falta de um pai para o menino. Ele ouvia os passos apressados da mãe por trás da porta do apartamento, enquanto a via em pensamento atravessando o corredor estreito ao longo de inúmeras portas até o elevador; podia senti-lo chegando como uma golfada, abrindo a porta pantográfica que engolia a mãe rumo ao burburinho das ruas. Mas lá, no apartamento do Catete, o que reinava era o silêncio. Devagar, jogando consigo mesmo, ele ia até a porta do quartinho, entreabria uma fresta e respirava o cheiro bem conhecido de costura e de mulher,; pois enquanto a mãe trabalhava cortando, franzindo, alinhavando um vestido numa cliente, ele fingia que estava lendo um livro, enquanto, atento, anotava o perímetro de uma cintura, um sutiã que voava para aterrissar num monte farfalhante de filó, e colhia as conversas, os sussurros, os risos (…) Com 11 anos, ele já podia ficar sozinho em casa, e com que delícia cruel ele fazia a si mesmo esperar enquanto o elevador levava a mãe, deixando apenas os aromas e o silêncio; ele abria a porta do quartinho bem devagar, tocava a máquina de costura, apertava o pedal negro e fosco, enrolava no dedo um pedaço de linha branca até deixá-lo bem vermelho; e depois testava a consistência do tecido que esperava embaixo da agulha insistente agora imóvel, alisando e esfregando, até finalmente se lançar nas saias, nos véus, na imensa espuma branca derramada sobre o chão…”

   Em alguns capítulos, a narrativa se reporta à relação de Roberto com o pai, e assim temos uma certa analogia bíblica (avô-pai-filho, com as dissonâncias entre cada geração), contudo não creio que ela é explorada de forma muito forte ou consistente, que justifique a inclusão deles.

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[3]  Por exemplo, há todo um envolvimento intelectual de Júlia com o pensamento de Espinoza, que é compartilhado por Maíra, que se mantém em embrião, sem a chance de entremear de fato, como deveria, a tessitura das relações (até pela resistência de Roberto). Fica,portanto, como um “enfeite” na narrativa.

O curioso é que Adriana poderia dar perfeitamente conta desse substrato mais conceitual, digamos assim, já que na coletânea Primos (2010), que ela co-organizou (com Tatiana Salem Levy), o conto de sua autoria aborda, mesmo que obliquamente,  a figura do grande pensador: Espinoza se deita. São cinco seções narrativas, nas quais a cama do filósofo (que tem uma trajetória picaresca, levada de lá para cá, e chegando ao Brasil, como a Judite do segundo romance) constrói um longo devaneio de reminiscências: “Espinosa me ensinou que não existe uma vontade de Deus, e que se não conhecemos algo inteiramente é porque não temos, e não podemos ter, o conhecimento completo de todos os elementos envolvidos e suas leis: A vontade de Deus é o asilo da ignorância, dizia. Que se o homem acredita que Deus tem uma vontade, é porque projeta nele seus próprios atributos. E se um triângulo, ou um móvel qualquer de uma casa, pudessem pensar, diriam que a soma dos ângulos de Deus é 180 graus, ou que Ele tem pernas feitas de madeira e não se move. Mas o que somos todos nós senão essências individuais com um conhecimento sempre inadequado da realidade, arrastados pela cadeia infinita de causas necessárias que é Deus?

   Então, onde estaria a liberdade?”

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/11/16/o-autor-como-personagem-a-fome-de-nelson/

https://armonte.wordpress.com/2013/02/28/destaque-do-blog-judite-no-pais-do-futuro-de-adriana-armony/

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