MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/12/2012

Dr. Fortunato e o Sr. Valdemar: o médico e a cobaia

PREÂMBULO BREVE- O texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: “O médico e o monstro”, “Bartleby”, “Memórias do Subsolo”, “A morte de Ivan Ilitch”, “O alienista”, “O mandarim”, “O coração das trevas” & “A volta do parafuso”; na órbita de cada um deles, analisei outros: “William Wilson”, “O homem invisível”, “O duplo”, “O capote”, “A tumba dos ancestrais”, “O horla”, “O homem da areia”, “A vida privada”, etc.

MOTE

“Quando o homem mata em si o Minotauro, o que nele resta é a razão. Um ser esvaziado de sentido, cadáver do mito.”

(Autran Dourado, Novas proposições sobre Labirinto e Mito, 1976)

PRIMEIRA VOLTA

Examinarei, aqui, dois grandes textos curtos: um, de Machado de Assis, muito próximo da época de Jekyll e Hyde, perto do fim do século, A causa secreta; o outro, mais para meados do século Os fatos do caso do Sr. Valdemar, de Poe.

A causa secreta é mais um dos casos estranhos da genialidade de Machado, pois foi escrito antes de O médico e o monstro: sua publicação original foi na “Gazeta de Notícias”, em agosto de 1885. Onze anos mais tarde ele foi incluído na coletânea Várias histórias. É um dos raros textos em que Machado é “cru”, não-dissimulado, na narração de perversidades e violências psíquicas.

O relato (em 3ª. pessoa) começa, em 1862, com uma cena doméstica, quase pose para uma fotografia ou um retrato: “Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, do Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço”.  Para a “pose” do retrato ou da moldura narrativa, reuniu-se um trio típico de Machado e da ficção oitocentista: marido, esposa e amigo.

Por trás da “pose” houve um assunto grave, “feio”, tão aflitivo que deixou os dedos de Maria Luísa trêmulos, e daí que há cinco minutos ninguém falasse nada. O narrador anuncia que remontará à origem da situação.

Garcia é o médico da história. Quando se encontraram pela primeira vez, ele ainda era estudante e o capitalista Fortunato causou-lhe forte impressão. Poucos dias depois, eles se reencontram no afastado teatro de S. Januário: “a peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ele e saiu; Garcia saiu atrás dele”.  Através da descrição (como sempre, irônica; Machado adora resumir enredos melodramáticos ou folhetinescos) da peça, Fortunato se revela um pouco para nós: um interesse pelo espetáculo violento, de fortes emoções. Seguindo o conhecido, Garcia viu a seguinte cena: “ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando”. Um Hyde à solta pelo Rio?

Semanas depois, um incidente: alguns homens trazem um sujeito todo ensangüentado (foi atacado por um grupo de capoeiristas e um deles meteu-lhe o punhal); como García diz que é preciso chamar um verdadeiro médico. Alguém replica que isso já foi feito. Esse alguém é Fortunato. Ambos permanecem para auxiliar o médico:  “A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo, ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito… Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria… Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acera do ferido, mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado  como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios [1]. Realmente, o coração humano é um poço de mistérios, mas a água que ali estagna é bem diferente do que pensava Garcia. Aliás, nós, que estamos treinados no olhar de suspeita pós-freudiano podemos desconfiar da perversidade e sadismo ocultos no “ato de rara dedicação” testemunhado pelo perplexo estudante; não esqueçamos como Machado escrevia numa época em que o que nos é “normal” como leitores e espectadores chocava, e muito. Aliás, o leitor que estivesse nessa altura do relato nem imaginaria, creio eu, o desenvolvimento que ele tomaria, pensaria decerto que há um “segredo” tão melodramático e folhetinesco na vida de Fortunato como o enredo da peça que assistiram (e Machado brinca com essa expectativa ingênua ao afirmar que o estudante suspeitou haver nela reminiscências pessoais). Acho que o leitor da época passava batido pelas bengaladas no cachorro ou no olhar frio e desapaixonado para o ferido.

Fortunato continua visitando o ferido por dias; quando este melhora, desaparece, “sem dizer ao obsequiado onde morava”.  Ele e Garcia só se reencontram tempos depois, e Fortunato casara nesse entreato; por esse motivo, convida o rapaz, que já se formara, para jantar na casa dele no primeiro domingo. Observando o casal, Garcia constata novamente a “frieza” que emana da pessoa do capitalista, embora obsequioso: “Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoas e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove”. Na segunda visita, Garcia percebe a dissonância entre o casal, a falta de “afinidade moral”. Um dia, ele conta a ela em que circunstâncias conheceu-lhe o marido (“uma bonita ação”) e ela se comove e se desconsola quando o ouve zombar do caso. O resultado dessa conversa é prático: Fortunato convida Garcia a fundarem uma casa de saúde, que seria ótima para alavancar a carreira de um médico iniciante. Dias depois, após certa hesitação, Garcia aceita e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele próprio o administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas”.

Medicina e quotidiano, essa é a grande época em que eles se aproximam. Podemos ver o lado “da luz” de Fortunato nessa empresa: o capitalista esperto que percebe onde sopra o vento, o que dará dinheiro, numa sociedade em transformação; por outro lado, há a sua fachada obsequiosa (apesar da frieza), a capacidade de enfrentar o sofrimento sem firulas, de agir quando necessário, o humanitarismo no capitalismo (não se criou nesse tempo o termo benemérito ?): “Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua de D. Manuel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza desse homem  [e onde Garcia encaixa as bengaladas nos cachorros? Ele e o leitor da época devem já ter esquecido rapidamente]. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações e nenhum outro curava os cáusticos. Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.

Enquanto isso, seu jovem amigo se torna familiar na casa, jantando ali todos os dias, e assim observando a “solidão moral” de Maria Luísa. Solidão que lhe duplica o encanto e, claro, ele se apaixona e ela, claro, percebe, e eles não ousam dar o próximo passo: “Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar cães e gatos. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa; e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer”.  Eis o cientista que surge como um poder social que substitui o pai de família, o patriarca. E eis as malfadadas cobaias que ainda assombram a nossa época, por mais que se grite e proteste. Não é à toa que a figura meio sinistra meio caricata do “cientista louco” correu mundo. A ciência como campo para o id e a pulsão da morte é um dos avatares do umheimlich.

Maria Luísa pede a Garcia, já que o marido não a ouviria se ela mesma o fizesse, que fale com Fortunato para acabar com esses “estudos” terríveis dentro de casa: “Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim”. Na cena em que agradece a García, ela tosse intermitentemente. Garcia fica apreensivo.

Dali a dois dias chega o momento em que os vimos no primeiro parágrafo, a pose, agora já convenientemente vista pelo avesso. Garcia chega para jantar e encaminha-se para o gabinete de Fortunato. De lá sai uma consternada e aflita Maria Luísa: “O rato! o rato! exclamou a moça sufocada”. Numa cena doméstica, poderia se pensar que um rato assustou-a, como é comum, mas o terror é de uma espécie que a visão de um bicho nojento jamais poderia causar. Eu geralmente pulo esse trecho, que me aflige também, e só o escrúpulo profissional me obriga a transcrevê-lo: “No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo; e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado. Garcia estacou horrorizado. Mate-o logo!, disse-lhe. Já vai. E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez até a chama deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. Essa é uma das descrições de sadismo mais exatas e por isso mesmo esse relato é um dos textos mais terríveis que já li. Imaginemos o pacato Machado, sempre homem de meios-tons, sentado, escrevendo cada frase dessa cena horripilante. O que o obsedou para fazer com que ele criasse uma história tão diferente no tom da grande maioria das suas narrativas, e tão premonitória? Fortunato, o Kurtz brasileiro, o Jekyll que não precisa se dividir em Hyde: o médico é o monstro, afinal: “Garcia, defronte, conseguiu dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio, tão somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estéticaA chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue”  (ufa, espero que seja a última vez que leio linha por linha essa parte).

Fortunato finge ter se enraivecido com o rato porque ele lhe comera um documento importante, mas Garcia percebe a simulação. E formula o segredo, a causa secreta, do comportamento do sócio: sua “necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar”. E ainda acham que nossos tempos são violentos, há gente que se impressiona com os serial killers cinematográficos?

Fortunato ainda zomba dos nervos de Maria Luísa e aí os vemos na cena que abriu o relato: Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três… Pouco depois foram jantar… Maria Luísa cismava e tossia, o médico indagava a si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível, mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza, temeu por ela e cuidou de os vigiar. Será que ela realmente não é vítima de um dos “estudos” do marido? Ou é a saúde frágil, típica da época? Nunca saberemos. O certo é que Maria Luísa se revela tísica e Fortunato se revela, surpreendentemente, um marido dedicado, mas conforme a doença avança, sua “índole” subjuga a afeição: “Não a deixou mais, fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente… Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia”.  Essa fome de sensações só termina, e o deixa aturdido, quando ela morre.

À noite, Fortunato e Garcia velam o cadáver. Garcia manda que o sócio vá repousar por umas horinhas. Fortunato sai, deita-se no sofá da saleta contígua, e adormece por vinte minutos, não consegue mais conciliar o sono, se levanta e retorna à sala, caminhando na ponta dos pés (seu lado obsequioso) para não incomodar ninguém. E testemunha a seguinte cena: “Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lençol e contemplara por alguns instantes as feições defuntas[esse romantismo mórbido! Mas Henry James amaria essa reação]… como a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-o na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta… não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúme, note-se, a natureza compô-lo de maneira que não lhe deu ciúme nem inveja, mas dera-lhe a vaidade, que na é menos cativa ao ressentimento… Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longo, deliciosamente longa. Volto a perguntar: esse homem existia?  Machado já era Nélson Rodrigues antes deste pensar em nascer e escrever suas suburbanas tragédias cariocas e míticas. Freud estudou Hoffmann, o que não faria então com esse texto?

SEGUNDA VOLTA

Recuemos agora para 1845 e ao caso do Sr. Valdemar. O narrador começa dizendo que não se espanta em que o referido caso tenha sido muito discutido: “Torna-se necessário agora que eu exponha os fatos, até onde alcança minha compreensão dos mesmos”  [2]. Ele nos fala então do seu interesse, já de alguns anos, pelo fenômeno do magnetismo (portanto, temos o termo “caso” quase indicando a esfera policial, e o termo “magnetismo” nos levando para o domínio da ciência). Em todas as experiências do gênero havia uma lacuna: nunca nenhum moribundo fora submetido ao magnetismo, para verificar “até que ponto ou por quanto tempo a invasão da morte poderia ser impedida pelo processo magnético. O sonho da ciência: deter a morte. O  lado monstruoso da ciência: servir-se de cobaias.

O escolhido é Ernest Valdemar, a quem já submetera ao mesmerismo e ao hipnotismo, mas sem sucesso devido ou ao seu temperamento muito nervoso ou ao seu precário estado de saúde (“em período algum sua vontade ficava inteira ou positivamente submetida à minha influência”).Valdemar é declarado tísico: “tinha ele o hábito de falar sobre a aproximação de seu fim como de uma questão que não devia ser lastimada nem se podia evitar”. E mostra-se interessado na experiência que o narrador lhe propõe. Combinam que 24 horas antes do prazo marcado pelos médicos para o falecimento, ele será chamado pelo moribundo para efetuá-la. Segundo o narrador, isso acontece sete meses antes do início do relato. Quando chega ao quarto do doente, espanta-se com seu declínio físico (“sua magreza era tão extrema que os ossos da face quase lhe rompiam a pele”), embora conservando a lucidez da mente. Quando os médicos que o tratam se retiram, “falei francamente com o Sr. Valdemar sobre o assunto de sua morte vindoura, bem como , mais particularmente, sobre a experiência vindoura. Ele mostrou-se ainda completamente de acordo e mesmo ansioso por sua realização, e insistiu comigo que a começasse imediatamente”. O narrador o faz a partir das oito da noite do dia seguinte. Ele começa os “passes” para influenciar o moribundo, que horas depois, já tem o pulso quase imperceptível e a respiração estertorosa. Até que ele solta um suspiro que parece o último alento antes da morte: “Cinco minutos antes das onze[a experiência, é evidente, está sendo toda anotada e registrada]percebi sinais inequívocos da influência magnética. O movimento vítreo do olho mudara-se naquela expressão de inquietante exame interior que só se vê em casos de sonambulismo. Os médicos concluem que o homem que acabava de morrer se acha num estado de “sono mesmérico”.  Ele deixa sua cobaia “tranqüila” por algum tempo até que se decide a fazer com que ele execute movimentos: “fiz um esforço para influenciar seu braço direito a acompanhar o meu, que passava levemente para lá  e para cá, por cima de sua pessoa. Em tais experiências com esse paciente, nunca antes eu conseguiria êxito completo… para espanto meu, seu braço bem pronta, embora fracamente, acompanhou todos os movimentos que o meu fazia”.

Ele decide-se então a “conversar” com o Sr. Valdemar: todo seu corpo se agitou em um leve calafrio, as pestanas abriram-se, permitindo que se visse a faixa branca do olho; os lábios moveram-se lentamente e dentre eles, num sussurro, mal audível, brotaram as palavras: Deixe-me morrer assim!” Todos os médicos acreditam que é melhor deixá-lo nesse estado sonolento até advir a morte. O narrador resolve conversar de novo com ele e perguntar-lhe o que quer de fato: “Enquanto eu falava, ocorreu sensível mudança no magnetizado. Os olhos se abriram devagar, desaparecendo as pupilas para cima; toda a pele tomou um ar cadavérico… as manchas héticas, circulares, que até então se assinalavam fortemente no centro de cada face, apagaram-se imediatamente… Ao mesmo tempo, o lábio superior retraiu-se acima dos dentes que até então cobria por completo, enquanto o maxilar inferior caía com movimento audível, deixando a boca escancarada e mostrando a língua inchada e enegrecida. Suponho que ninguém do grupo ali presente estava desacostumado aos horrores dos leitos mortuários, mas tão inconcebivelmente horrenda era a aparência do Sr. Valdemar que houve recuo geral de todos da proximidade da cama.”

Como se vê, Poe se esmera nos detalhes fisiológicos. É o horror a olhos vistos.

Mas o Sr. Valdemar não morreu: “irrompeu dos queixos distendidos uma voz, uma voz tal que seria loucura tentar descrever… parecia alcançar nossos ouvidos, pelo menos os meus, de uma vasta distância ou de alguma profunda caverna dentro da terra… dava-me a impressão que as coisas gelatinosas e pegajosas dão ao sentido do tato”. O  Sr. Valdemar está respondendo ao narrador (lembrem-se que este tentara conversar com ele novamente: “… estava adormecido… e agora… agora… estou morto”. Quase todos abandonam correndo o quarto. O narrador testa a respiração da cobaia no espelho: não há. Tentativas de extrair sangue falham. Movimentos não mais: A única e real demonstração da influência magnética achava-se, então, de fato, no movimento da língua quando eu dirigia uma pergunta ao Sr. Valdemar”. Isso é que é ouvir voz do além! “Era evidente que, até ali, a morte (ou o que se chama usualmente morte) fora detida pela ação magnética. Parecia claro a nós todos que despertar o Sr. Valdemar seria simplesmente assegurar sua morte atual, ou, pelo menos, apressar-lhe a decomposição”. Será que em nenhum momento ele se sente mal por essa experiência horrenda? Não há remorso ou sentimento de interdito: isso não é permitido (mas o quê ou quem não permite, esse é um problema também). Ele faz visitas diárias, durante sete meses, à casa do Sr. Valdemar.  Até que se decidem a despertar o pobre coitado (e segundo o narrador foi o resultado desse despertar que causou toda a celeuma referida no início).

Ele utiliza seus passes para libertar o Sr. Valdemar da influência magnética anterior. Lentamente são obtidos alguns resultados: a íris desce (acompanhada de uma profusão ejaculatória de um pus amarelento, sob a pálpebra, com um odor acre e repugnante), os círculos héticos voltam às faces. O narrador pergunta: Sr. Valdemar, pode explicar-me quais são os seus sentimentos ou desejos agora?” O  Sr. Valdemar: “Pelo amor de Deus… depressa… depressa… faça-me dormir… ou então, depressa… acorde-me… depressa… afirmo que estou morto” . Perplexo, o narrador não sabe o que fazer; na dúvida, tenta despertar o paciente: E estou certo de que todos no quarto se achavam preparados para ver o paciente acordar  [já que mesmo com as horríveis aparências, qualquer simulação de vida nos parece vida, e é preferível à morte]. Para o que realmente ocorreu, porém, é completamente impossível que qualquer ser humano pudesse estar preparado. Enquanto eu fazia rapidamente os passes magnéticos… todo seu corpo, de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se…. desintegrou-se, absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência”.

Eis aí o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance. Mas a experiência toda é o lado Hyde do médico: não respeitando os limites, não respeitando a pessoa, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético avanço: como se vê no conto, a morte foi vencida, e o resultado foi um cadáver vivo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

 


[1] O narrador diz que Garcia acreditava ter “a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo.  O homem de ciência-detetive, personagem padrão da época.

[2] Uso a tradução constante na Ficção completa, poesias & ensaios da Aguilar, de Oscar Mendes.

15/12/2012

Assunto ou forma: a velha questão em “Precisamos falar sobre o Kevin”

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“Portanto, meu receio não era apenas de virar minha mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a abordagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta—desmazelada, meio gorda—que acena adeuses e manda beijos quando uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído (…) Eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho… Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ´virar da página´, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia…” (Precisamos falar sobre o Kevin)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de fevereiro de 2012)

Quando Lionel Shriver veio em 2010 ao Brasil, para a FLIP, Precisamos falar sobre o Kevin (a ótima tradução de Beth Vieira & Vera Ribeiro para We need to talk about Kevin, 2003) já tivera cerca de 15 mil exemplares vendidos por aqui. Eu me pergunto, todavia, quantos compradores ficaram de fato satisfeitos com a leitura dessa obra-prima da ficção (provavelmente o mais importante romance da primeira década deste século), uma vez que se faz de tudo para vinculá-la a uma temática específica: o fenômeno das matanças em escolas (é o que faz o Kevin do romance, doze dias antes do massacre de Columbine).

Em geral, os livros são exaltados ou por seu aspecto formal ou por seu assunto. A ênfase sempre recai sobre um ou outro polo. Da minha parte, acho esse vezo lamentável, especialmente no caso de uma autora como Shriver, por razões que, espero, ficarão claras ao longo do meu texto.

A narrativa é estruturada através das cartas que a mãe de Kevin, Eva Khatchadourian (descendente de armênios), redige para o marido, durante aquele período profundamente desmoralizador da recontagem de votos na eleição norte-americana de 2000. E nelas não encontraremos qualquer vestígio daquelas irritantes e hipócritas “histórias de superação” que nos mostram reis que superam sua gagueira ou adolescentes afro-americanas que sofrem abuso sexual e doméstico, além de bullying na escola, e mesmo assim conseguem sucesso na vida, preciosas enfim.

Não há nenhuma lição positiva, nenhuma “mensagem” a tirar de Precisamos falar sobre o Kevin. Pelo contrário, através da voz peculiaríssima de Eva[1], Shriver lança um terrível anátema contra a civilização norte-americana e o os chamados “valores familiares”.

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Eva reconhece no filho logo cedo a sociopatia. Mas como toda a cultura à sua volta é regida por estereótipos, que vão do amor materno inato ao desejo de etiquetar e rotular cada distúrbio, como se a infelicidade pudesse ser domada e virar um atributo social com nomes como “depressão pós-parto”, “transtorno do déficit de atenção”, “bipolaridade” etc, enfim toda essa a enxurrada de modismos (e bobajadas), psiquiátricos e pedagógicos que enfrentamos na atualidade, ela se vê isolada no seu diagnóstico íntimo e implacável do filho, entrando em rota de colisão com o próprio marido, que nada vê de anormal em Kevin, e o cria com toda a complacência que caracteriza a relação pais e filhos na sociedade de consumo (e depois as pessoas se surpreendem que os afetos tradicionais tenham ficado cada vez mais esgarçados): “Não que Kevin não tivesse tudo em abundância, já que você o enchia de brinquedos (…)Talvez a sua generosidade tenha saído pela culatra ao forrar o salão de jogos com o que devia parecer um mar de plástico; e talvez ele soubesse que presentes comprados em lojas eram fáceis para nós, que éramos ricos, e portanto, por mais caras que essas tranqueiras fossem, continuavam sendo baratas…”

E é uma pena que a rara combinação de altíssima realização estética com o que só posso chamar de autoridade moral[2] não tenha sido captada pela versão cinematográfica de Lynne Ramsay: optando por uma narrativa não-linear, ela passa longe do registro impiedosamente cirúrgico do original e transforma tudo numa espécie de tormento psicológico expressionista, numa atmosfera que sacrifica, em primeiro lugar, a descrição da dinâmica familiar e reduz todos que não são Eva e Kevin a caricaturas grotescas (o que não acontece no romance, com certeza). Além disso, apesar de tanto Jasper Newell quanto Ezra Miller serem perfeitos como Kevin em diferentes fases, precisamos falar sobre o que há de discutível na caracterização de Tilda Swinton: atriz de presença magnética em cena, ela peca pela falta de sutileza, está sempre tão intensa em todos os momentos, é tudo tão dramático no seu olhar, que se tem a intuição de que não precisava dos feitos de Kevin para carregar a mesma dramaticidade exagerada. Como não há progressão na história, tal como contada no filme, quem não leu o romance nunca percebe quando se cristaliza o processo implacável que a torna “mãe do ignóbil Kevin Khatchadourian é quem sou agora, uma identidade que significa mais uma das vitórias de nosso filho…”

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E, por falar em Kevin, não deixa de ser cômico que as pessoas achem amedrontador o filmeco recente chamado Filha do Mal. Pois o terror que esse menino, cuja vida conhecemos até os 18 anos, carrega consigo é infinitamente mais devastador: “É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho, e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribuí a rejeição—talvez ele fosse 15 vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego quase a admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antagonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe. Porque, depois de quase dezoito anos, faltando apenas três dias, posso finalmente anunciar que estou exausta demais e confusa demais e sozinha demais para continuar brigando, e, nem que seja por desespero, ou até por preguiça, eu amo meu filho. Ele tem cinco anos para cumprir numa penitenciária de adultos, e não posso botar minha mão no fogo pelo que sairá de lá no final. Mas, enquanto isso, tenho um segundo quarto em meu apartamento funcional. A colcha é lisa. Há um exemplar de ´Robin Hood´ na estante. E os lençóis estão limpos…”

Em tempo: quem na Intrínseca teve a infausta ideia de trocar a capa brasileira original, que chamava a atenção para o livro de forma tão inquietante, para uma reprodução do cartaz do filme? É a proverbial ideia de jerico.

Veja também no blog:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/22/leituras-em-espelho-o-livro-do-pai-os-descendentes-e-o-livro-da-mae-precisamos-falar-sobre-o-kevin/

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[1] Que pode, sem favor algum, se irmanar a outras vozes inigualáveis como a de Riobaldo de Grande sertão: veredas, Humbert Humbert de Lolita ou Holden Caufield de O apanhador no campo de centeio, só para citar algumas; e é absolutamente inusitado que o alicerce dreiseriano, de combatividade e admoestação, que admiro em Zola, Tolstói, Lawrence ou Doris Lessing tenha se plasmado na voz de um personagem, o que dá uma característica original à autora de Precisamos falar sobre o Kevin dentro dessa linhagem: talvez por ter adotado a persona da Mãe ela pôde realizar esse feito único.

[2] E é por isso que não me lembro de nenhum romance contemporâneo ter me abalado tanto, com a exceção de Desonra, de J. M. Coetzee. Às vezes me desagradam bastante algumas entrevistas de Lionel Shriver, acho-a meio posuda, mas que talento enorme!

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13/12/2012

Não acredito em duendes, juro… mas amo “O Hobbit”

120-years-Tolkien-To-the-Professor-jrr-tolkien-28028991-500-570O hobbit

“__ Vitória, afinal de contas, acho eu!—disse ele, sentindo a cabeça dolorida.—Bom, parece uma coisa muito melancólica.”

“… e mesmo os dragões chegam ao fim…”

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  11 de dezembro de 2012)

Antes da estreia do filme (e torcendo para que Peter Jackson recupere a inspiração, após os horrorosos e revoltantes King Kong e Um olhar do paraíso), quis nostalgicamente reler O Hobbit (The Hobbit,
or There and Back Again
)  pela última vez como livro desvinculado de outra linguagem.

Não me considero (espero) um exemplar da fauna representada, de forma deliciosa, por Sheldon Cooper & Cia (The Big Bang Theory), fetichizando de forma ridícula as histórias de fantasia e ficção científica, porém o livro de J.R.R. Tolkien (1892-1973)  mantém há exatamente 30 anos fascínio e charme sobre mim (desde que o li na antiga tradução da Artenova,feita por Luiz Roberto Monjardim; a atual, editada pela Martins Fontes, é de Lenita Maria Rimoli Esteves, com a colaboração de Almiro Pisetta). Nem por isso acredito em duendes, juro. Só continuo a acreditar, relido o romance, que se trata de uma maravilhosa introdução a um dos universos ficcionais mais notáveis já criados.

A versão de O Hobbit que atualmente lemos é um tanto diferente da original, publicada em 1937, e isso é revelado por algumas discrepâncias no tecido narrativo. Alguns episódios foram bem alterados (a maneira como Bilbo se torna portador do Anel, antes em poder do Gollum, por exemplo) em função da trilogia O Senhor dos Anéis, entretanto o principal reflexo dessa ressignificação do texto inaugural por causa da expansão posterior das aventuras da Terra Média é que Tolkien ora adota um tom de bonomia, que parece ter sido seu impulso inicial ao escrever a história de Bilbo e dos anões em busca de um tesouro, uma coisa bem infanto-juvenil, ora dá ao relato  uma  ressonância sombria e desoladora, muito adulta,  com aqueles ambientes e seres primordiais, longevos e ameaçadores, que fornecem a tônica de boa parte dos livros que tratam de Frodo Bolseiro.

Como nos volumes da sua obra-prima, trata-se de um épico geográfico, atravessando territórios imensos. Só que não está em jogo o destino das civilizações e dos seres. A princípio, tudo até parece gratuito, uma brincadeira anedótica, o modo como Bilbo, pacato e sensato hobbit, se incorpora a uma confraria de anões que almeja reaver o tesouro do seu povo na Montanha Solitária, dominada pelo dragão Smaug. Nessa expedição, o mago Gandalf confere a Bilbo o avatar de ladrão, o que nos remete a um Ali Babá que fosse um pouco Sancho Pança. Há as características típicas dos contos populares de todos os tempos: além do tesouro (a recompensa), há um mapa, uma chave, uma porta secreta, um objeto mágico (o anel), a jornada, e muitos obstáculos…

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Como já disse, há um tom mais leve de conversa à beira da fogueira (ou da lareira), em que Tolkien se dirige frequentemente aos leitores, aliás com nítida influência kiplinguiana (pois o autor de Kim era mestre nisso) inclusive para antecipar fatos e criar expectativa: “De qualquer modo, eu não gostaria de estar no lugar do Sr. Bolseiro”; “O que teria pensado seu pai, Bungo, não me atrevo a pensar” (Tolkien brinca muito com a diferença de postura diante da vida dos dois clãs ancestrais do seu protagonista: os acomodados Bolseiros e os cabeças-de-vento e aventureiros Tûk):  “Agora estamos nos aproximando do fim da viagem, e chegando à última e maior aventura; por isso devemos nos apressar”; “por causa de uma guerra da qual vocês ouviram falar, mas que não entra nesta história”; “Vocês podem perceber que haviam mudado muito depois da opinião sobre o Sr. Bolseiro e passado a sentir um grande respeito por ele”; “por causa de uma guerra da qual vocês ouviram falsr, mas que não entra nesta história”.

    No entanto, eu (que acho absurdo alguém catalogar O Senhor dos Anéis como livro juvenil),  sinto nitidamente esse tom desafinar, porque a natureza em Tolkien, esse mundo ainda não diminuído à medida da humanidade (“Não sobraram palavras para expressar a sua vertigem desde que os Homens mudaram a língua que aprenderam dos elfos, no tempo em que todo o mundo era maravilhoso”), nada tem daquela coisa dançante e benigna, de passarinhos e bichinhos saltitantes à nossa volta, à la Branca de Neve versão Disney.

Nada disso chega a atrapalhar o aficionado. O defeito do livro é que, tirando Bilbo, e ao contrário da luta contra Sauron, não há um único personagem particularmente interessante, nem mesmo Gandalf (que cresce tanto em O Senhor dos Anéis). Ainda bem que o hobbit é tão marcante que consegue suprir sozinho essa carência. Aliás, exatamente no meio do romance, ele se torna o herói, e o que era uma jornada meio aleatória passa a ser um conjunto de etapas para que esse seu novo papel se torne mais e mais convincente, no equilíbrio da inteligência e da sorte (e com a ajuda do anel mágico, claro): “na verdade sabia fazer um monte de coisas, além de soprar anéis de fumaça, propor adivinhas e cozinhar, que eu ainda não tive tempo de lhes contar. Não há tempo agora”.

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Como depois Frodo descobrirá, os hobbits são os seres inesperados, os que não constam das profecias ou lendas: “e  não se fez nenhuma pergunta sobre como ele entrava na história—nenhuma canção aludira a ele, nem sequer de modo mais obscuro”. Gandalf alerta aos companheiros de empreitada: “…estou mandando o Sr. Bolseiro com vocês. Já lhes disse antes que ele é mais do que imaginam, e logo descobrirão isso.” Acho que o mago só não imaginava que Bilbo teria a valiosa ajuda do Anel, pois a princípio o hobbit oculta tê-lo em seu poder. Mas mesmo sem ser informado do fato, lança uns olhares inquiridores e perscrutantes ao descendente dos Bolseiros-Tûks que antecipam os que Dumbledore dirigirá à turma de Harry Potter décadas mais tarde.

No meio da jornada, perdido dos outros, ele enfrenta um ser terrível e então lemos: “De alguma forma, ter matado a aranha gigante, sozinho na escuridão, sem a ajuda do mago ou dos anões ou de qualquer outra pessoa, fez uma grande diferença para o Sr. Bolseiro. Sentiu-se uma nova pessoa”. Mais adiante: “Já era um hobbit muito diferente daquele que saíra do Bolsão, muito tempo atrás, sem um lenço no bolso.

O mais importante é que o heroísmo de Bilbo é pé no chão, calcado no bom senso, no equilíbrio, pois descobriremos que  o conflito mais dramático da trama não é tanto a ameaça do dragão, e sim a ganância, o desprezo e desconfiança entre espécies diferentes de seres. E acrescentando-se à aura do protagonista, o humor do genial escritor inglês, cujas aventuras são sobretudo amargas e melancólicas; mas cujo maior defeito, na filosofia do hobbit, é fazer “com que você se atrase para o jantar”.

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TRECHOS SELECIONADO:

“Ficaram ali deitados por algum tempo, bufando e ofegando. Mas logo começaram a fazer perguntas. Exigiam detalhadamente explicado todo o negócio do desaparecimento, e o achado do anel interessou-os tanto que por alguns instantes esqueceram seus problemas. Balin, em particular,  insistia em ouvir outra vez a história do Gollum, com adivinhas e tudo, com o anel no lugar adequado. Mas, depois de algum tempo, a luz começou a diminuir, e então outras perguntas foram feitas. Onde estavam, onde estava a trilha, onde havia comida e o que iriam fazer? Fizeram essas perguntas vezes e vezes, e era do pequeno Bilbo que pareciam esperar as respostas (…) Na verdade, esperavam realmente que ele pensasse em algum plano maravilhoso para ajudá-los, e não estavam apenas resmungando. Sabiam muito bem que, não fosse pelo hobbit, logo teriam sido mortos, e agradeceram-lhe muitas vezes. Alguns até se levantaram e se curvaram ao chão diante dele, embora caíssem devido ao esforço e não conseguissem pôr-se em pé de novo por algum tempo. Saber a verdade sobre o desaparecimento na alterou de modo algum a opinião deles sobre Bilbo, pois perceberam que o hobbit tinha certa inteligência, além de sorte e um anel mágico—e todas as três coisas são posses muito úteis. Na verdade, elogiaram-no tanto que Bilbo começou a sentir que, afinal de contas, realmente havia nele algo de aventureiro destemido, mas teria se sentido bem mais destemido se houvesse algo para comer.”

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“Foi uma batalha terrível, a mais apavorante de todas as experiências de Bilbo, e que naquele tempo mais odiou—o que quer dizer que, muitos anos depois, tornou-se a aventura de que mais se orgulhava e a que mais gostava de recordar, embora sua presença tivesse sido totalmente irrelevante.”

Veja, também, no MONTE DE LEITURAS: https://armonte.wordpress.com/2012/12/10/o-senhor-da-ficcao/

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Leituras em espelho: MAX E OS FELINOS e VIDA DE PI

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de julho de 2012)

Há dez anos, uma controvérsia cercou a premiação de A vida de Pi (Life of Pi, 2001) com o Booker Prize, o mais prestigiado da língua inglesa: o livro de Yann Martel plagiara  Max e os felinos (1981), de Moacyr Scliar? Em ambos, o jovem sobrevivente (um alemão fugindo do nazismo rumo ao Brasil, em Scliar; um indiano, cuja família administrava um zoológico e que resolve emigrar para o Canadá, em Martel) de um naufrágio, protagonista do relato,  tinha de conviver num bote salva-vidas com um felino imponente (um jaguar, no autor brasileiro; um tigre-de-Bengala, no canadense).

Scliar procurou afastar a embaraçosa acusação de plágio e revelou-se melindrado mais porque Martel o citara entre as pessoas a quem agradecia numa nota (“a centelha de inspiração devo-a ao sr. Moacyr Scliar”), sem explicar o porquê e nem citar Max e os felinos (aliás, Martel, demostrando uma inabilidade campeã, para não dizer desagradável, afirmava nem ter lido o texto e apenas  conhecer seu enredo através de uma resenha negativa, considerando um desperdício ideia tão boa e tão mal aproveitada).

Bem, passou-se uma década, Scliar faleceu em 2011 e mesmo sob suspeita, A vida de Pi ganhou não apenas uma, mas duas traduções brasileiras: a primeira pela Rocco, e uma recente, feita por Maria Helena Rouanet para a Nova Fronteira (embora, no geral, esta nova versão seja mais bem-acabada, prefiro várias soluções da anterior,  mais crua e objetiva, de Alda Porto, mas é questão de gosto). E podemos verificar com mais serenidade as duas questões principais levantadas pelo incidente: se há de fato plágio, e qual dos dois é mais interessante —ou  haveria uma equivalência de qualidade?

Acho que, não obstante a deselegância de Martel ao se referir a Scliar e à maneira como aproveitou a “centelha de inspiração”, não há plágio algum porque a situação do náufrago no bote com um animal feroz não é o ponto central de Max e os felinos. Scliar narra a trajetória de vida de Max Schmidt, na qual vários representantes felinos desde a sua infância simbolizam e exteriorizam forças contra as quais ele tem de se haver (o autoritarismo do pai, o nazismo, a adaptação ao solo brasileiro). Trata-se de um texto correto e simpático, com essa boa sacada do jaguar a bordo, contudo sem grandes voos. De certa forma, sim, um desperdício (como tantos outros que Scliar cometeu em sua carreira).

Em compensação, A vida de Pi é  fora do comum. E é Martel quem aproveita integralmente as possibilidades que a convivência entre um ser humano e uma “fera” num espaço exíguo comporta.

Para começar, ele criou uma voz narrativa irresistível, a de Pi Patel (seu apelido é uma alusão ao famoso número representado pela letra grega  ,do qual ele se apropriou para que não ridicularizassem seu nome) e, a partir dela, construiu um romance filosófico poderoso. Recordando sua existência e suas pesquisas espirituais (queria ser ao mesmo tempo devoto do hinduísmo, cristão e muçulmano) e, após o naufrágio,  convivendo com Richard Parker (o nome dado ao tigre), ele faz o leitor enfrentar pesadas questões teológicas, as quais, em última instância, colocam em xeque a existência de uma Providência Divina, a questão da indiferença da natureza ao nosso destino individual, a irredutível diferença dos animais com relação a nós, que tentamos tanto antropomorfizá-los, torná-los parecidos conosco, e a questão-limite da sobrevivência: como ficam nossos valores éticos e nossas regras e rituais diante do bruto fato de que temos de viver dia a dia. Estamos longe, aqui, das águas rasas de Max e os felinos.

Pi alega ter convivido “duzentos e vinte e sete dias” com Richard Parker (há episódios que nos remetem aos romances juvenis de aventura, a Robinson Crusoé, que “recheiam”, é claro, esses dias narrados com minúcia e uma beleza atordoante, como a caracterização do “tráfego” sob a água: “Eu contemplava aquele tumulto urbano como alguém observando uma cidade de um balão de ar quente. Era um espetáculo maravilhoso, que inspirava reverente admiração. Com certeza é o que deve parecer Tóquio na hora do rush” ).

Colocado contra a parede por profissionais que apuram  o naufrágio, ele acaba narrando uma outra versão, mais realista, mais sórdida, talvez mais terrível porque envolve o território humano tão somente.

Mas A vida de Pi não se reduz a uma alegoria, em que os animais representam determinadas atitudes e qualidades, num disfarce habilidoso. A originalidade desse romance extraordinário é conseguir que acreditemos inteiramente na versão que Pi construiu para si, para sobreviver (no sentido psíquico) à sua experiência-limite, de tal maneira ela é eficaz em todos os seus componente narrativos. Talvez porque seja mais saudável acreditar em fábulas. Com elas pelo menos aprendemos algo.

ANEXO- Cenas de Naufrágio:

“Uma noite Max acordou com a sensação de que algo anormal ocorria a bordo. Os animais estavam mais agitados do que de costume. Sentou na cama. Sim, alguma coisa estranha estava acontecendo: ouvia o ruído de passos apressados, um confuso vozerio. Vestiu-se rapidamente, saiu—e neste momento as luzes se apagaram. Na semi-obscuridade via vultos correndo de um lado para outro. O que está acontecendo? –perguntou, mas ninguém lhe respondia. Dirigiu-se para o convés—e só então notou que o navio estava adernado, e que continuava adernando rapidamente (…) o navio estava afundando. Os barcos  desciam rapidamente, e logo não havia mais ninguém a bordo. Assustado, Max correu para a amurada:

__ Não me deixem aqui.

   Inútil: os barcos s afastavam rapidamente. Ah, traidores, berrou Max. De repente percebia tudo. O Germania jamais deveria chegar a seu destino, aquele naufrágio estava planejado desde o início (…) Canalhas, rosnou Max—mas agora não podia perder tempo, o Germania afundaria em minutos. Correu à popa e ali—milagre—encontrou um pequeno escaler (…)

    Ao clarear do dia viu-se sozinho na vastidão do oceano. Enorme angústia apossou-se dele; pôs-se a chorar desabaladamente. Que triste situação. Que triste vida. Infância não de todo feliz; adolescência atormentada; fuga precipitada da pátria e agora isso, o naufrágio! Era demais. Chorava, sim, chorava e se maldizia também: por que tivera de se meter com uma mulher casada? Com um esquerdista maluco? Não sabia ele que na certa as coisas terminariam mal? (…)

   Teve então uma ideia: improvisar uma espécie de cabana com os destroços do Germania que flutuavam a seu redor. Uma grande caixa de madeira, boiando a pequena distância, parecia  adequada para isto. Com muito esforço, remou até lá.

   Puxou a caixa para junto do barco. Examinou-a e constatou que tinha, na parte superior, uma tampa fechada por um cadeado que agora, quebrado, pendia frouxo. Max retirou-o.

   Alguma coisa pulou de dentro da caixa, arremessando-o com força inaudita contra o chão do escaler. Max bateu com a cabeça, perdeu os sentidos.

   Aos poucos foi se recuperando. Abriu os olhos.

    O berro que soltou atroou os ares. Diante dele, sentado sobre o banco do escaler, estava um jaguar.” (MAX E OS FELINOS)[1]

“O navio afundou. Fez um som que parecia um monstruoso arroto metálico. As coisas ficaram borbulhando na água e, depois, desapareceram. Tudo gritava: o mar, o vento, o meu coração. Do bote salva-vidas, vi algo na água.

–Richard Parker, é você?—gritei.—Está tão difícil enxergar. Ah, se essa chuva parasse… Richard Parker? Richard Parker? É você mesmo!

   Só dava para ver a cabeça dele, que lutava para se manter na superfície.

__ Jesus, Maria, Maomé e Vishnu, que bom ver voc~e, Richard Parker! Não desista, por favor. Venha para o bote. Está ouvindo esse apito? Triiiiii! Triiiiii! Triiiiii! É isso mesmo. Nade, nade! Você é um ótimo nadador. Não são nem trinta metros.

   Ele tinha me visto. Parecia em pânico. Começou a nadar na minha direção. Ao meu redor, a água se movia furiosamente. Ali, ele parecia pequeno e indefeso.

__ Dá para acreditar no que nos aconteceu, Richard Parker? Diga que é um pesadelo. Diga que não é verdade. Diga que ainda estou na minha cabine no Tsimtsum, me virando e me debatendo, e que logo vou acordar desse pesadelo. Diga que continuo a ser feliz (…) Que Vishnu me preserve, que Allah me proteja, que Cristo me salve, não aguento isso! (…) Todas as coisas de que eu gostava na vida foram destruídas. E não mereço uma explicação? Vou ter de sofrer o diabo sem que o céu me dê qualquer justificativa? Nesse caso, de que serve a razão, Richard Parker? Ela só vale para brilhar com relação a coisas práticas: conseguir comida, roupas e um abrigo? Por que a razão não é capaz de dar respostas maiores? Por que não podemos lançar uma pergunta mais longe do que podemos alcançar uma resposta? Por que uma rede tão grande se há tão pouco peixe para pescar?” (VIDA DE PI)[2]


[1] Note-se que Scliar tem o cuidado de fazer com que Max bata a cabeça e desmaie antes de constatar a presença do jaguar no escaler, pois sempre se pode atribuir todos os episódios seguintes a uma alucinação.

[2] Assim está na tradução de Maria Helena Rouanet.A título de curiosidade, veja-se como o trecho final ficou na versão de Alda Porto:

“…Cada pequena coisa que eu valorizava na vida foi destruída. E não me dão explicação alguma? Vou sofrer o diabo sem nenhuma explicação do céu?Nesse caso, qual o propósito da razão, Richard Parker? Não é mais que brilhar nas coisas práticas da vida…a obtenção de comida, roupa e abrigo? Por que a razão não sabe dar as grandes respostas? Por que podemos lançar uma pergunta muito mais longe do que podemos receber uma resposta? Por que uma rede tão imensa, se há tão pouco peixe para pegar?”

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/01/08/a-shoah-e-a-fabulacao-beatriz-virgilio-de-yann-martel/

 

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11/12/2012

Destaque do Blog: duas vezes O CÉU DOS SUICIDAS

“…o júbilo de uma dor tão íntima e aguda…” (Henry James, Os embaixadores)

( abaixo resenha publicada, sem a nota de rodapé, originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de abril de 2012)

I

Assim como os portugueses José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, Ricardo Lísias é um escritor ainda relativamente jovem (nasceu em 1975), cuja ficção pode ser considerada  uma das melhores no cenário contemporâneo mundial.

Para isso, a principal contribuição foi a de O Livro dos Mandarins (2009), contudo já no seu livro de estreia, quase no umbral do século XXI, Cobertor de Estrelas (1999),  mostrava a que veio: ao relatar o cotidiano de um garoto que vive na rua, ele criou uma linguagem toda peculiar, de forma que o leitor ao mesmo sentisse o nível de consciência (ou mesmo inconsciência) do menino da sua própria condição e a barra “real”, muito além da mera situação individual[1]. Diga-se de passagem, essa preocupação social distinguia Lísias do “chorus line” dos jovens ficcionistas brasileiros da atualidade, em sua maior parte engajados em tediosos jogos metalinguísticos, em desconstruções do sujeito e do foco narrativo, quando não impregnados pela influência de Rubem Fonseca e da linguagem cinematográfica.

Para cada um dos textos posteriores, como aqueles reunidos em Anna O. e outras novelas (2007), o romance Duas praças (2005), além do já mencionado e maravilhoso Livro dos Mandarins, o talentoso autor paulista forjou uma linguagem própria, na qual víamos o embate entre a racionalização e a loucura, entre a expressão e a inarticulação, de uma feição que o aproxima mais, entre os dois lusitanos citados acima, e apesar das diferenças, de Gonçalo M. Tavares, também um mestre em pôr em cena as velhas dicotomias da mentalidade ocidental regida pelo mercado: produção, eficácia, planejamento, lógica versus loucura, insubmissão, acaso, caos.

II

“Logo avistei meu parente. Por trás de uma mesa, ele acenou e depois me chamou pelo nome —Ricardo Lísias.

   Levantou-se e veio me abraçar. Tentei parecer feliz, mas continuava com muito sono. O jeito foi dizer a verdade: não estou conseguindo ficar acordado direito. Quando me respondeu que superar o fuso é mesmo difícil, senti que talvez tivesse na minha frente um amigo. Contei toda a história do André, inclusive que ele tinha pedido ajuda e eu, assustado, batido o telefone. Senti vontade de chorar e meu parente percebeu. Por isso, pediu água com açúcar.

__ Mas não estou nervoso —expliquei. Desde que cheguei a Beirute,não consigo me livrar do sono. Para me distrair, amigável e compreensivelmente, resolveu mudar de assunto e conversar sobre a família. Decidi ser direto e falei que descobrira fortes indícios de um que um tio-avô tinha ligações, a partir do Brasil, com o terrorismo no Oriente Médio. Meu parente ficou branco.”

O protagonista (chamado Ricardo Lísias) do recém-lançado O Céu dos Suicidas  só  começa a fazer essas investigações inquietantes, que o levam a se indispor com a família toda e a sofrer ameaças no Líbano (há um momento em que ele é quase executado), como se já não bastasse andar aos gritos pelas ruas e  ofender a todos os conhecidos, porque seu melhor amigo enforcou-se.

Até então, após ter abdicado de suas coleções pessoais, sua grande paixão como adolescente, Ricardo acomodara-se  confortavelmente como um “especialista em coleções”. Ou seja, um expert em formas de ordenar o mundo. O pirado André traz o caos à sua casa, quebra todos os aparelhos domésticos, começa a se cortar com um canivete, e  obriga o anfitrião a expulsá-lo. Com sua morte, a culpa pessoal vai cruzar com a proverbial e antiga exclusão dos suicidas da salvação, comum a várias religiões. E aí então o mundo “ordenável” se esfacela, o passado e suas possibilidades perdidas avulta (Ricardo tem “saudades de tudo”) e nosso herói tenta, através de investigações irrisórias e truncadas, além de buscas espirituais (que esbarram sempre no impedimento dos suicidas ao “céu”, seja católico, protestante ou espírita) descobrir um fio de ordem no caos, enquanto vai perdendo a linguagem “dos outros”, sentindo-se incapaz de se comunicar ou se fazer entender…

Aguardado intensamente, após o virtuosismo e brilho de O Livro dos Mandarins, o novo livro, mais comedido e tão rigoroso quanto suas novelas, prova que Ricardo Lísias, o escritor, pode fazer com que seus personagens se percam, mas se mantém no controle e tem ainda muito a oferecer. Como o aspirante a campeão  mundial de xadrez da novela Dos Nervos, já é um rematado mestre, mesmo com as tensões que move no tabuleiro.


[1] Um trecho: “Ruim mesmo é quando, bem no meio da noite, os meninos grandões seguram o braço dos outros e fazem aquela  coisa que dói demais. Teve um dia que até saiu sangue, mas os outros ficaram rindo e jogando o calção do menino de um lado para outro e ficaram falando que ele é mulherzinha. Depois, ele pegou o calção e foi deitar lá do outro lado, só que, mesmo assim, não conseguiu dormir direito, porque ficou com medo de que os meninos grandões voltassem e quisessem tirar o calção e fazer aquela coisa de novo.

    Teve uma vez que o padre gordão ficou sabendo daquilo, quando o menino que caiu da estátua contou que eles ficavam tirando a calça de noite. Foi o pior, porque o padre gordão ficou muito vermelho e falou que isso é uma coisa muito feia de se fazer e que o menino \Jesus está vendo tudo e fica tão bravo que até pode dar um castigo para eles e falou que só gente grande é  que pode fazer besteira e, além de tudo, alguém pode passar e ver.

   O menino não gosta de fazer besteira, mas os outros seguram e depois não dá para ir embora, porque, se não, tem que dormir sozinho lá na praça, e quando isso acontece, é a pior coisa do mundo, porque as luzes ficam piscando e as mulheres que vestem roupa branca e cantam uma música muito baixinho podem vir e puxar o pé. O problema é que os outros ficam gritando e falando que ele é mulherzinha e aí, de vez em quando, dá vontade de chorar, igual no dia que saiu sangue e ficou doendo até muito depois…”

 

(abaixo resenha publicada, de forma ligeiramente mais condensada, na Folha de São Paulo de 14 de abril de 2012

VER http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/36901-livro-faz-leitor-sentir-no-na-garganta.shtml)

I

Na nota de agradecimentos que fecha O Livro dos Mandarins, Ricardo Lísias menciona o suicídio de um grande amigo, André Silva.

Em O Céu dos Suicidas, um personagem (também narrador) chamado Ricardo Lísias desmorona emocionalmente após o amigo André enforcar-se, resvalando num surto no qual se misturam insônia, raiva (grita pelas ruas, insulta  todos os conhecidos) a angústia que explica o título (motivada pelo destino final dos suicidas), por conta da culpa (expulsou o amigo de casa, que a transformara num caos de utensílios domésticos quebrados e depois começara a se cortar com um canivete) e o sentimento difuso de “saudade de tudo”, de sua vida anterior à condição de um “especialista em coleções” (suas coleções pessoais haviam sido descartadas e só restara essa expertise).

Durante a crise, ele tenta refazer passos da vida de André, solucionar um mistério familiar indo ao Líbano, experiência depois da qual procura autoridades religiosas e se submete, por pressão dos parentes. a um tratamento psiquiátrico.:

“Ainda chorando, veio-me à cabeça muito do que eu tinha feito junto com o meu amigo. As duas vezes em que ele cheirou cocaína comigo por causa de um amor bobo, a casa de massagem onde a gente ia, eu atrás de ninguém e ele de Aline, o jeito que ele me abraçou depois da defesa de doutorado. Tudo o que nós dois, os grandes amigos, fizemos de bom e de ruim. Eu chorava porque não esquecia a voz do meu amigo para passar o fim de semana em casa, depois o rosto dele deformado pelos remédios, me ajuda, Ricardo, mas eu estava esgotado, amigão… e foi para o hospício, meu grande amigo, mas eu chorava sobretudo porque sozinho, muito sozinho, com a sujeira escorrendo pelo ralo do banheiro de um hotel do Líbano, tinha acabado de descobrir quem eu sou de verdade, um bosta, deixei meu grande amigo André se enforcar.”

II

Do final de O Livro dos Mandarins, um dos raros romances contemporâneos que poderíamos qualificar de fabulosos, ficou também a expectativa que pesa sobre O Céu dos Suicidas enquanto livro imediatamente seguinte: depois de tanta exuberância narrativa, o que viria?

Dir-se-ia que Lísias voltou ao estilo econômico, em que contenção e uma linguagem no limite conviviam, de suas novelas (reunidas em Anna O.) e de seus pequenos romances Cobertor de Estrelas & Duas Praças.

Não. Apesar da moldura que adotou —88 capítulos curtíssimos, praticamente no mesmo formato— e de se voltar para os mesmos impasses de racionalização extrema (mesmo em situações intoleráveis, como em Capuz) e desagregação, até mesmo da linguagem (embora Lísias, o personagem, não chegue ao ponto da Maria de Duas Praças ou da professora de Dos Nervos), O Céu dos Suicidas não é uma novela disfarçada de romance.

Ele expande uma tendência do universo de Lísias, o escritor, o qual sempre gostou de desdobrar suas histórias e criar pequenos incidentes que pareciam não ter nada a ver com o relato central. No novo livro, o episódico (as picuinhas familiares, a viagem ao Líbano, os confrontos com colecionadores) ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades mesmo que truncadas, resistindo a fechar a conta, a formar uma totalidade narrativa que dê sentido à busca de Lísias, o personagem, atravessando a corda bamba entre o caos (um mundo que grita à sua volta e você grita para o mundo, numa algaravia incompreensível) e uma vida domesticada.

O leitor talvez esteja se perguntando, como hoje é inevitável, o que pode ter O Céu dos Suicidas de biográfico. Eu não sei e não me importa. Pois a dor que deveras sente Lísias, o escritor, foi virtuosisticamente resolvida no “chega a fingir que é dor”: um romance tão elegante, tão irônico, e que faz ainda assim o leitor sentir o proverbial nó na garganta. Só por isso, não importa como venha a morrer um dia (que seja em data distante), ele merece o céu dos escritores.

São Paulo, sábado, 14 de abril de 2012Ilustrada
Ilustrada

CRÍTICA

ROMANCE

Livro faz leitor sentir nó na garganta

No romance “O Céu dos Suicidas”, Ricardo Lísias expande tendência de desdobrar histórias

O episódico ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades, mesmo que truncadas

ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Na nota de agradecimentos que fecha “O Livro dos Mandarins”, Ricardo Lísias menciona o suicídio de um grande amigo, André.

Em “O Céu dos Suicidas”, o narrador chamado Ricardo Lísias desmorona após o amigo André enforcar-se, resvalando num surto no qual se misturam insônia, raiva, angústia, culpa (expulsou de casa o amigo, que começara a se cortar com um canivete) e uma “saudade de tudo”, de sua vida anterior à condição de um “especialista em coleções” (suas coleções pessoais haviam sido descartadas e só restara essa expertise).

Durante a crise, ele tenta refazer passos da vida de André, solucionar um mistério familiar indo ao Líbano, experiência depois da qual procura religiosos e se submete a tratamento psiquiátrico…

Do final de “O Livro dos Mandarins”, um dos raros romances contemporâneos que podemos qualificar de fabulosos, ficou também a expectativa que pesa sobre “O Céu dos Suicidas” enquanto livro imediatamente seguinte: depois de tanta exuberância narrativa, o que viria?

Dir-se-ia que Lísias voltou ao estilo econômico, em que contenção e uma linguagem no limite conviviam, de suas novelas (reunidas em “Anna O.”) e de seus pequenos romances “Cobertor de Estrelas” e “Duas Praças”.

Não. Apesar da moldura que adotou -88 micro-capítulos, praticamente no mesmo formato- e de se voltar para os mesmos impasses entre racionalização extrema e desagregação, até mesmo da linguagem, “O Céu dos Suicidas” não é uma novela disfarçada de romance.

Ele expande uma tendência do universo de Lísias, o escritor, o qual sempre gostou de desdobrar suas histórias e criar incidentes que pareciam nada ter a ver com o relato central.

No novo livro, o episódico (picuinhas familiares, viagem ao Líbano) ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades, mesmo que truncadas, resistindo a fechar a conta, a formar uma totalidade narrativa que dê sentido à busca de Lísias, o personagem, atravessando a corda bamba entre o caos e uma vida domesticada.

O leitor talvez esteja se perguntando, como hoje é inevitável, o que pode ter “O Céu dos Suicidas” de biográfico. Eu não sei e não me importa.

Pois a dor que deveras sente Lísias, o escritor, foi virtuosisticamente resolvida no “chega a fingir que é dor”: um romance tão elegante, tão irônico, que faz o leitor sentir o proverbial nó na garganta.

Só por isso, não importa como venha a morrer (que seja em data distante), ele merece o céu dos escritores.

O CÉU DOS SUICIDAS
AUTOR Ricardo Lísias
EDITORA Alfaguara
QUANTO R$ 34,90 (192 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Leia trecho do livro em
folha.com/no1075312

A terceira margem do riverrun joyceano: uma nova tradução de “Ulysses”

“Há o terrível risco da solenidade, que transforma tanto leitores quanto escritores em grandes carrancudos. Joyce escreveu Ulysses para entreter, para realçar a vida, para dar júbilo. É fácil demais destruir a vida alada, não tanto prendendo-a quanto ruminando-a.”(Anthony Burgess, Homem Comum Enfim)

I

Não pensei que viveria para ver uma terceira tradução de Ulysses e pouquíssimos anos após a segunda (a de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada em 2005, passados 40 anos da primeira, a de Antônio Houaiss). O autor dessa façanha, que acontece no 90º. aniversário do romance de James Joyce (1882-1941), é um jovem curitibano (nasceu em 1973), Caetano W. Galindo, que consegue transpor para a nossa língua um livro exigente sem torná-lo quase intragável (como fez Houaiss, respeitando-se o seu tour-de-force) nem enfraquecê-lo fugindo das soluções mais difíceis (como fez Bernardina, idem). A meu ver, finalmente Ulysses e o leitor brasileiro encontram-se de fato.

Ao publicá-lo em 1922, aos 40 anos, Joyce e a Europa tinham passado por uma guerra mundial e seus efeitos desagregadores estão presentes, mesmo que anacronicamente, na narração do dia 16 de junho de 1904, o bloomsday (que virou uma data comemorativa): não são poucas as alusões, no texto, denegrindo as práticas bélicas, a destruição de uma geração, e também o enfraquecimento do Império Britânico.

Tomando como modelo para seu esquema narrativo, a Odisseia de Homero (todos os dezoito episódios do livro são calcados em incidentes das aventuras de Ulisses em retorno ao lar após a Guerra de Troia), Ulysses contraria e parodia o figurino épico e seus arquétipos de virilidade agressiva e rivalidades guerreiras.

Joyce radicaliza o registro da experiência humana ao vislumbrar que somos feitos não só de ação e decisão (mesmo que no romance realista-naturalista normalmente elas sejam obstadas), mas nossa mente circunavega Poe associações, auto-lembretes pueris (como coisas que temos de comprar, uma dívida que alguém tenha com a gente etc), lembranças involuntárias, trechos de músicas, impacto de sensações, enfim, um mosaico fragmentário e muito particular (e é por isso que ele mexe nas palavras, na sua composição; um dos aspectos mais elogiáveis da versão de Galindo é não forçar a barra, como Houaiss tanto fez ao criar palavras horrorosas, e se basear na supressão do hífen e na junção cacofônica normal dos vocábulos, por exemplos olhão  destemanho). E é assim que ele nos convida para entrar na mente dos três protagonistas, o casal Bloom (ele em perambulações pela cidade, ela recebendo um amante), já não tão mais jovem (pelos padrões da época, no romance, aliás, se reitera bastsnte uma perspectiva de vida de 70 anos mais ou menos), embora ela seja uma mulher desejável, e Stephen Dedalus, que aos 22 anos, luta contra a paralisia da vontade, e do futuro, que se estende, aliás, à nação e a língua irlandesas, dominadas pelos ingleses. Stephen tem de se haver com seu lado Hamlet, embora o mundo de Joyce, assim como é antiépico  (embora Bloom, seu Ulisses moderno não deixe de apresentar as qualidades de astúcia e prudência do herói clássico) também é antitrágico por natureza. Ele confia muito no fluxo da vida, e não é por acaso que instituiu como recurso modernista essencial o fluxo de consciência dos personagens. Nosso dia a dia é feito pelos nossos movimentos pelas ruas, pelo espaço-tempo, mas também pelas viagens da nossa mente.

E sua proeza maior foi ter amarrado essa característica proteica a uma rigorosíssima estrutura narrativa. Sem contar a teia de alusões atordoantes que fazem do texto de Joyce um palimpsesto semelhante à Divina Comédia, de Dante (vale a pena ler a extraordinária biografia de Richard Ellmann, uma obra-prima do gênero, mas eu sinceramente acho que o leitor comum que queira apenas ler o romance, sem se aprofundar nessas veredas alusivas, não só culturais, mas de cidadãos e figuras históricas de Dublin e da Irlanda, bem como de personagens dos livros anteriores, como Dublinenses, pode fazê-lo tranquilamente e entender mesmo assim o plano geral do romance[1]), a paródia de vários estilos literários, a escolha de um léxico apropriado para  evocar cada episódio da Odisseia, cada momento do livro traz aconecimentos e encontros que serão completados adiante, nada é jogado fora ou acidental.

Quando Molly Bloom no célebre episódio final está na sua cama e ao mesmo tempo recapitula sua vida, rumina os vestígios do dia, fantasia, ressente-se do marido,  ainda que com inequívoca admiração pela sua peculiaridade, todas as peças do quebra-cabeça colocaram-se em seus devidos lugares (“toda a galáxia de eventos, tudo contribuía para constituir um camafeu miniaturizado do mundo em que vivemos”, lemos na pág. 915) e demos a volta ao dia em oitenta mundos (“algo que escapasse do soído e costumeiro”). E Caetano W. Galindo nos propiciou o equivalente brasileiro mais pertinente, até hoje, dessa viagem fascinante.

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 12 de junho de 2012) 

II

Transcrevo abaixo um dos trechos de que eu mais gosto em Ulysses, que está no episódio das “Sereias”, que transcorre lá pelas 4 da tarde. É o momento em que Leopold Bloom, junto com Richie Goulding, ouve o pai de Stephen, o decadente e beberrão Simon Dedalus, cantando (pensando nas possibilidades perdidas dessa vida, e também nas possibilidades perdidas da sua vida, e também na mulher recebendo o amante e o que eles devem estar fazendo):

Na tradução de Galindo ficou assim:

“… Bloom curvava leopolda orelha,  virando  uma franja de toalhete para embaixo do vaso. Ordem. Sim, eu lembro. Ária linda. Dormindo ela foi até ele. Inocência à luz da lua. Detê-la ainda. Coragem, não sabem do perigo. Chamar o nome. Tocar água. Tine ginga. Tarde demais. Ela desejava ir. É por isso. Mulher.  Mais fácil deter o mar. Sim: está tudo perdido.

__Uma bela ária, disse Bloom perdido Leopold. Conheço bem.

    Nunca em toda sua vida havia Richie Goulding.

    Ele conhece bem também. Ou sente. Ainda matraqueando sobre a filha. Sábia criança que conhece o próprio pai, o Dedalus disse. Eu?

   Bloom de esguelha sobre desfigadado via. Rosto de tudo está perdido. Um dia foi Richie risonho. Piadas velhas agora rançosas (…)

   Piano de novo. Soando melhor que da última vez que ouvi. Afinado provavelmente. Parou de novo.

   Dollard e Cowley ainda incitavam o cantor recalcitrante a andar com aquilo.

__Anda com isso, Simon.

__ Anda, Simon.

__ Senhoras e senhores, fico-lhes profundamente grato por seus gentis pedidos.

__ Anda, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se me cederem um momento de sua atenção eu tentarei cantar a estória de um coração curvado em reverência (…)

(…) Quando primeiro vi aquela forma cativante.

   Richie se virou.

__ A voz do Si Dedalus, ele disse.

   Cerebrêbados, bochechas tocadas de chama, eles ouviam sentindo aquele fluxo cativante fluxo sobre pele membros peito humano e alma espinha. Bloom sinalizou a Pat, calvo Pat é um garçom ruim de ouvido, para entreabrir a porta do bar. A porta do bar. Assim. Está ótimo. Pat, garçom à espera, esperava, esperando ouvir, pois era ruim de ouvido junto à porta.

__ A mágoa de mim vi partir.

   Pela placidez do canto uma voz lhes cantava, grave, não chuva, não folhas em murmúrio, em nada como voz de cordas ou palhetas ou comèquechama saltérios, tocando seus ouvidos poucos com palavras, pouco o coração de cada um sua vida relembrada. Bom, bom de ouvir: a mágoa de cada um parecia de ambos partir quando primeiro ouviram. Quando primeiro viram, Richie perdido Poldy, mercê da beleza, ouviram de uma pessoa que não poderiam jamais esperar, a jura inteira  e pura primeira maduramor.

   É o amor que está cantando: a velha e doce canção do amor. Bloom desenrolou lento o elástico de seu pacote. A velha e doce sonnez la ouro de amor. Bloom enrolou uma meada em quatro dedosgarfos, esticou, afrouxou, e enrolou seu duplo confuso, em quatro, in oitava, embaraçando bem.

__ Pleno de esperança e deleitoso…

Os tenores ganham mulher sem precisar nem cantada. Aumenta o fluxo. Jogam flores aos pés deles quando a gente pode se encontrar? Minha cabeça toda. Tine todo deleitoso. Ele não pode cantar pras cartolas. Sua cabeça ela toda rroda. Perfumada pra ele. Que tipo de perfume que a sua esposa? Eu quero saber. Tin. Para. Bate. Última olhada no espelho sempre antes de ela abrir a porta. A sala. Lá? Como vai? Eu vou bem. Lá? O quê? Ou? Balinhas de menta, beijos doces, na bolsa. Sim? Mãos buscavam suas opulentas.

   Ai de mim! A voz subia, um suspiro, mudada: alta,c heia, clara, orgulhosa.

__ Mas, ai de mim!, era um sonho vão…

   Um timbre esplendoroso ele tem ainda. Ar de Cork mais suave e o sotaque deles também. Sujeitinho bobo! Podia ter ganhado oceanos de dinheiro. Cantando a letra errada. Consumiu a esposa: agora canta. Mas difícil de dizer. Somente os dois. Se ele não desmonta. Manter um trote pro desfile. As mãos e os pés dele cantam também. Bebia. Nervos tensos como corda de violino. Tem que ser abstêmio pra cantar. Sopa Jenny Lind: brodo, sálvia, ovo cru, uma xícara de creme. Para o lírico onírico.

   Em ternura acrescia: lenta, crescente. Cheia latejava. Isso é que é. Ah, dá! Toma! Lateja, um latejo, um orgulho pulsando ereto.

   Letra? Música? Não: é o que está por trás…”

No original (utilizo o texto da edição da The Modern Libary, 1992):

“…Leopold  bent leopold ear, turning a fringe of doyley down under the vase. Order. Yes, I remember. Lovely air. In sleep she went to him. Innocence in the moon. Still hold her back. Brave, don´t know their danger. Call name. Touch water. Jingle jaunty. Too late. She longed to go. That´s why. Woman. As easy stop the sea. Yes: all is lost.

__ A beautiful air, said Bloom lost Leopold. I know it well.

   Never in all his life has Richie Goulding.

    He knows it well too. Or the feels.  Still harping on his daughter. Wise child that knows her father, Dedalus said. Me?

   Bloom askance over liverless saw. Face of the all is lost. Rollicking Richie once. Jokes old stale now (…)

   Piano again.  Sounds better than last time I heard. Tuned probably. Stopped again.

   Dollard and Cowley still urged the lingering singer out with it.

__ With it, Simon.

__ It, Simon.

__ Ladies and gentlemen, I am most deeply obliged by your kind solicitations.

__ It, Simon.

__ I have no money but if you will lend me your attention I shall endeavour to sing to you of a heart bowed down (…)

(…)When first I saw that form endearing.

   Richie turned.

__ Si Dedalus´s voice, he said.

    Braintipped, cheek touched with flame, they listened feeling that flow endearing flow over skin limbs human heart soul spine. Bloom signed to Pat, bald Pat is a waiter hard of hearing, to set ajar the door of the bar. The door of the bar. So. That will do. Pat, waiter, waited, waiting to hear, for he was hard of hear by the door.

__ Sorrow from me seemed to depart.

   Through the hush of air a voice sang to them, low, not rain, not leaves in murmur, like no voice of strings of reeds or whatdoyoucallthem dulcimers, touching their still ears with words,  still hearts of their each his remembered lives.  Good, good to hear: sorrow from them each seemed to from both depart when first they heard. When first they saw, lost Richie, Poldy, mercy of beauty, heard from a person wouldn´t expect it in the least, her first merciful lovesoft oftloved word.

   Love that is singing: love´s old sweet song. Bloom unwound slowly the elastic band of his packet. Love´s old sweet sonnez la gold. Bloom wound a skein round four forkfingers, stretched it, relaxed, and wound it round his troubled double, fourfold, in octave, gyved the fast.

__Full of hope and all delighted…

   Tenors get women  by the score. Increase their flow. Throw flower at his feet when will we meet? My head it simply. Jingle all delighted. He can´t sing for tall hats. Your head it simply swurls. Perfumed to him. What perfume does your wife? I want to know. Jing. Stop. Knock. Last look at mirror always before she answers the door. The hall. There? How do you? I do well. There? What? Or? Phila of  cachous, kissing comfits, in her satchel. Yes?  Hnds felts for the opulent.

   Alas! The voice rose, sighing, changed: loud, full, shining, proud.

__But alas, ´twas idle dreaming…

   Glorious tone he has still. Cork air softer also their brogue. Silly man! Could have made oceans of money. Singing wrong words. Wore out his wife: now sings. But hard to tell. Only the two themselves. If he doesn´t break down. Keep a trot for the avenue. His hands and feet sing too. Drink. Nerves overstrung. Must be abstemious to sing. Jenny lind soup: stock, sage, raw eggs, half pint of cream. For creamy dreamy.

   Tenderness it welled: slow, swelling. Full it throbbed. That´s the chat. Ha, give! Take! Throb, a throb, a pulsing proud erect.

   Words? Music? No: it´s what´s behind…”

Na versão de Antônio Houaiss (utilizo a edição da Civilização Brasileira, 1982) ficou assim:

“…Bloom inclinava leopold orelha, dobrando uma franja do paninho para debaixo da floreira. Ordem. Sim, eu me lembro. Adorável ária. Em sono ela se fora para ele. Inocência na lua. Deixá-la ainda por longe. Bravos, não sabem do perigo. Xinga nomes. Toca na água. Sege ginga. Muito tarde. Ela ansiava por ir-se. É por isso. Mulher. Tão fácil como parar o mar. Sim: tudo é perdido.

 __ Uma bela melodia—disse Bloom perdido Leopold.—Conheço-a bem.

   Nunca em sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele a conhece também. Ou ele pensa. Ainda assim harpejando a filha. Garota sabida que conhece o pai, disse Dedalus. Eu?

   Bloom de esguelha sobre o desfigadado via. Cara de tudo é perdido. Folgazão Richie outrora. Pilhérias de velho estilo agora (…)

   Piano de novo. Soa melhor que da última vez.  Afinado provavelmente. Parou de novo.

   Dollard e Cowley urgiam ainda o tardo cantor vamos com isso.

__ Com isso, Simon.

__ Isso, Simon.

__ Senhores e senhores, estou mui fundamente obrigado por suas gentis solicitações.

__ Isso, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se me emprestarem atenção eu me esforçarei para cantar-lhes sobre um coração em pena (…)

__ Ao ver primeiro a forma tão querida.

   Richie voltou-se.

__ Voz do Si Dedalus—disse ele.

   Cerebrespicaçados, faxes tocadas de flama, eles ouviam sentindo um fluir querido fluir sobre pele membros coração humano alma espinha. Bloom fazia sinal a Pat, o calvo Pat é um garçom duro de ouvido, para deixar entreaberta a porta do bar. A porta do bar. Assim. É bastante. Pat, o garçom, esgarçava-se, engonçando-se por ouvir, pois ele era de ouvir perto da porta.

__ Pareceu-me fugir toda a tristeza.

  Na caluda do ambiente uma voz cantava-lhes, baixo, nem chuva, nem folhas múrmuras, nem como a voz d cordas de junquilho ou comoé quechama dulcímeros, tocando-lhes as orelhas-quedas com palavras, os corações quedos deles cada um com vidas revividas. Bom, bom de ouvir: a tristeza deles cada um parecia de ambos partir quando logo ouviram, perdidos, Richie, Poldy, a misericórdia da beleza, ouvida de alguém de quem menos se esperaria, a primeira misericordiosa suavemente palavra dela sempreamada.

   Amor que é canto: a velha doce canção do amor. Bloom destacava, lento, a fita elástica do seu embrulho. Velha, doce, sonnez la ouro do amor.  Bloom atacava a fita à volta de quatro dedos em garfo, esticava-a, relaxava-a, e atacava-a, turvado em volta em duplo, quádruplo, em oitavo, agrilhoando-a rápido.

__ Esperança e delícias me acenavam.

Tenores conseguem mulheres em penca. Aumenta-lhes o fôlego. Jogam flores aos pés deles quando nos encontraremos? Minha cabeça, isso simplesmente.  Zum-zum que é delícia. Ele não pode cantar para cartolas. Tua cabeça simplesmente gera. Perfumada para ele. Que perfume é que sua mulher?  Eu quero saber. Tlim. Parada. Toque-toque.  Ultima olhadela ao espelho antes sempre que atende à porta. A sala de entrada. Está aí? Como vai? Vou bem? Está aí?  O quê? Ou? Caixinha do  tsén-tsén,  confeitos para beijinhos, na bolsinha dela. Sim? Mãos a sentir a opulência.

   Ai-ai! A voz  se erguia, suspirava, modulava: forte, cheia, brilhante, audaz.

__Mas era um sonho apenas essa vida.

  Timbre soberbo ele tem ainda. O ar de Cork suaviza também seu sotaque. Sujeito idiota! Podia ter feito montanhas de dinheiro. Pregou em freguesia errada. Arrebentou a mulher: canta agora. Mas quem pode saber? Somente eles dois mesmos. Mantém as aparências. Suas mãos e pés cantam também. Bebe. Nervos mais que estirados. Deve-se ser abstêmio para cantar. Dieta de Jenny Lind:  caldo, sálvia, ovos crus, meia pinta de creme. Para sonhos risinhos.

    Ternura e canto derramava: lento , esparramava. Cheio, ele pulsava. Isto é tizio. Ah, tira! Dá! Pulsa, um impulso, claro erguido latejando.

   Palavras? Música? Não: é o que é por trás…”   

Na versão portuguesa de João Palma-Ferreira (utilizo a edição da Livros do Brasil, 1984) fica assim:

“… Bloom aprestou o ouvido de Leopold, a dobrar uma franja da toalha sob o vaso das flores. Ordem. Sim, recordo. Bela ária. Era no sono que ela se chegava a ele. Inocência na lua. Valentes. Não conhecem o perigo. Contudo, ainda a mantém. Chamar por nomes. Tocar na água. O tilintar da tipoia. Demasiadamente tarde. Ela queria partir.É por isso. Mulher. Tão fácil deter o mar. Sim, está tudo perdido.

    Nunca na sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele também sabe. Ou sente. A maçar a filha. Sábia criança que conhece o pai, disse Dedalus. A mim?

    Bloom de soslaio, sobre sem fígado, viu. O rosto de tudo está perdido. Outrora o exuberante Richie. Agora anedotas e velhos ditos (…)

   Outra vez o piano. Soa melhor do que última vez que ouvi. Afinado, provavelmente.  Parou de novo.

   Dollard e Cowley continuavam a instar para que o arrastado cantor se soltasse.

__ Vamos com isso, Simon.

__ A isso, Simon.

__ Senhoras e cavalheiros, sinto-me profundamente agradecido pelas vossas amáveis solicitações.

__ Vamos, Simon.

__ Não tenho dinheiro, mas se me emprestardes a vossa atenção, tentarei cantar-vos acerca de um coração destroçado (…)

(…)Quando a primeira vez eu vi essa forma sedutora.

    Richie voltou-se.

__ A voz de Si Dedalus—disse ele.

   Miolos excitados, rosto tocado pelo rubor, escutaram sentindo essa torrente sedutora, torrente sobre a pele, membros, coração humano, alma, espinha.  Bloom acenou a Pat, o careca Pat é um criado duro de ouvido, para entreabrir a porta do bar. Isso. Assim serve.  Pat, criado, esperou, esperando para ouvir pois era duro de ouvido, junto à porta.

__ A tristeza pareceu partir de mim.

       Através da quietude do ar uma voz cantava para eles, baixa, não chuva, não murmúrio de folhas,  como voz alguma de juncos ou junquilhos ou como se chamam saltérios atingindo-lhes os ouvidos com palavras,  tranquilos corações das  suas vidas recordadas. Bom, bom de ouvir: a tristeza pareceu afastar-se  de ambos quando primeiro ouviram. A primeira vez que viram, o perdido Richie, Poldy, misericórdia da beleza ouvida de uma pessoa de quem jamais se esperaria, a sua primeira palavra misericordiosa, suave de amor, palavra tão amada.

   Amor que canta: velha e suave canção de amor. Bloom desfez lentamente a fita elástica do embrulho. Suave e velha sonnez la ouro. Bloom enrolou uma meada em torno de quatro dentes do garfo, estirou-a, relaxou, atou em torno do seu perturbado duplo, quádruplo, em oitavo, atou-a fortemente.

__ Cheio de esperança e de todo o encanto.

   Os tenores conseguem mulheres ás dúzias. Aumenta-lhes o fluxo. Atiram-lhes flores aos pés. Quando é que nos encontramos? A minha cabeça, simplesmente. Retinir todo deliciado. Não pode cantar para chapéus altos. A tua cabeça gira simplesmente. Perfumada para ele.  Qual é o perfume que a sua mulher? Quero saber. Retine. Acabou. Bate à porta. O último olhar ao espelho antes que ela responda. O vestíbulo. Ali? Como passou? Vou bem. Ali? O quê? Ou? Um frasquinho de pastilhas, confeitos de beijos, no bolso dela. Sim? As mãos procuravam-lhe as opulências.

   Ah, a voz subiu, suspirando, alterou-se: alta, cheia, brilhante, orgulhosa.

__Mas, ah, era sonhar em vão…

   Ainda tem um tom glorioso. O ar de Cork é mais suave e também o seu acento. Estúpido homem!  Podia ter feito oceanos de dinheiro. Cantando letras erradas. Consumiu a mulher: agora canta. Mas custa dizer. Só eles, os dois. Se não se for abaixo. A trote para o cemitério. As mãos e os pés também cantam. Bebida. Os nervos sensíveis. Para se cantar deve ser-se abstêmio. A sopa de Jenny Lind: caldo, infusão de sálvia, ovos crus, meio quartilho de creme. Para sonhos em creme.

    Ternura a transbordar,  lenta, dilatante, cheia, latejava. A conversa é esta. Ah, dá! Toma! Pulsar, uma pulsação, pulsar orgulhoso e erecto.

  Palavras? Música? Não, é o que está atrás…”

Por fim, a versão de Bernardina da Silveira Pinheiro (utilizo a edição da Objetiva, de 2005):

“… Bloom inclinou o ouvido de Leopoldo, dobrando uma fímbria do guardanapo debaixo do vaso. Ordem.  Sim, eu me lembro. Uma bela canção. Dormindo ela ia para ele. Inocência sob a lua. Corajosas. Desconhecem o perigo. Ainda assim detê-la. Chamá-la pelo nome. Tocar a água. Tilintar lépido. Tarde demais. Ela ansiava ir. Eis por quê. Mulher. Tão fácil quanto reter o mar. Sim: está tudo perdido.

__ Uma linda canção—disse Bloom perdido Leopoldo.—Eu a conheço bem.

   \nunca em toda a sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele também a conhece bem. Ou a sente. Ainda repisando o assunto de sua filha. Filha sábia que conhece o próprio pai, disse Dedalus. Eu?

    Bloom o olhou de soslaio por sobre sua ausênciadefígado. Rosto de tudo está perdido. O Richie brincalhão de antigamente. Velhas piadas batidas agora (…)

    Piano novamente. Soa melhor do que na última vez em que ouvi. Provavelmente afinado.  Parou de novo.

    Dollard e Cowley a instar com o vagaroso cantar para que cantasse logo.

__ Vamos, Simon.

__ Vamos com isso, Simon.

 __ Senhoras e senhores, estou profundamente agradecido por sua generosa solicitação.

__ Vamos com isso, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se vocês me emprestarem sua atenção eu vou tentar cantar para vocês sobre um coração oprimido (…)

(…)Quando primeiro vi aquela figura cativante…

    Com o cérebro tinindo de excitação, as faces atingidas pela flama, eles escutavam sentindo aquela torrente cativante fluir sobre a pele os membros o coração humano a alma a espinha dorsal. Bloom fez sinal para Pat, o calvo Pat que é um garçom que ouve mal, para que deixasse entreaberta a porta do bar. A  porta do bar. Assim. Basta. Pat, previdente, pacientou, pacientando para ouvir, pois ele era meio surdo, junto da porta.

__ …A tristeza parecia me abandonar.

   Através da quietude do ar uma voz cantava para eles, baixo, não era chuva, não eram folhas em murmúrio, como nenhuma voz de instrumentos de corda ou de sopro ou comovocêaschama cítaras, enternecendo seus ouvidos serenos com palavras, os corações serenos de cada um as suas vidas relembradas.  Bom, bom de ouvir: a tristeza de cada um deles parecia abandonar os dois assim que começaram a ouvir. Quando eles viram pela primeira vez, Richie e Poldy perdidos, a clemência da beleza, ouviram de alguém  de quem nem um pouco esperavam, sua primeira palavra misericordiosa tãoamada de ternoamor.

    Amor que canta: a antiga e doce canção de amor.  Bloom lentamente desenrolou a tira elástica de seu pacote.  A antiga e doce de amor sonnez la ouro.  Bloom enrolou uma meada em volta de quatro dedos bifurcados, esticou-a, relaxou,  e enrolou-a em  volta dos duplos, quádruplos dedos tensos, em óctuplo, e os atou firmemente.

__ Cheio de esperança e todo encantamento…

     Tenores conseguem mulheres aos montes.  Aumentam o desejo delas. Atire flores aos pés dele. Quando vamos nos encontrar? Minha cabeça ela simplesmente. Tilintar todo encantamento. Ele não pode cantar para cartolas. Sua cabeça ela simplesmente rodopia. Perfumada para ele.  Que perfume sua mulher? Eu quero saber. Tilint. Parar. Bater na porta. Último olhar para o espelho antes que ela abra a porta. O saguão. Lá? Como vai? Vou bem. Ali? O quê? Ou? Frasco de cachu, bals que favorecem o beijo, na sua bolsa. Mãos para apalpar os opulentos.

    Ai de mim elevou-se a voz, suspirando, alterada: sonora, vibrante, esplendorosa, gloriosa.

__ Mas, ai de mim, era um sonho vão…

   Como ainda é magnífico o seu timbre. A cantiga de Cork mais suave o sotaque dele também. Homem tolo! Podia ter ganho rios de dinheiro. Cantando palavras erradas. Consumiu sua mulher: agora canta. Mas difícil de dizer. Apenas os dois eles próprios.  Se ele não sucumbir. Mantém-se em forma apesar dos pesares. Seus pés e mãos também cantam. Bebida. Nervos hipersensíveis.  É preciso ser abstêmio para cantar. Sopa de Jenny Lind: caldo de carne ou peixe, salva, ovos crus, meia xícara de creme. Para um sonhar cremoso.

   Ternura ela se derramou: lentamente, se inflando, tremulou plenamente. Essa é a coisa certa. Há, teste! Tome! Trema, um tremor, um pulsar orgulhoso ereto.

   Palavras? Música? Não é o que está por trás….”


[1] “A verossimilhança no Ulysses é tão forte que Joyce tem sido ridicularizado como mais um mímico do que um criador, acusação que, sendo falsa, é o maior de todos os elogios. Depois da sua morte, quando a BBC estava preparando um longo programa a seu respeito,  emissários foram a Dublin e abordaram o dr. Richard Best para participar de uma entrevista. Por que vieram me procurar, questionou ele, todo truculento, o que os faz pensar que tenho qualquer coisa a ver com esse cara aí, Joyce? Mas o senhor não pode negar sua ligação, replicaram os enviados da BBC, afinal o senhor é um personagem do Ulysses.

   Esse incidente é útil. Até com um roman à clef, o que o Ulysses é em larga medida, não há chave que se adapte direito…” (James Joyce, de Richard Ellmann. Há uma tradução brasileira, publicada pela Globo, em 1989, e realizada por Lya Luft).

10/12/2012

O SENHOR DA FICÇÃO

I   

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de março de 2002)

Cultuado há quase meio-século, O Senhor dos Anéis não depende de nenhum modismo e nem dos Oscars vencidos por Peter Jackson, embora sua versão cinematográfica seja uma empolgante síntese, evitando tanto o ritmo frenético de videoclipe que governa produções como Armagedon quanto as lutas coreográficas com piruetas voadoras (a coqueluche do momento, uma espécie de redução da ação cinematográfica ao Cirque du Soleil), do tipo O tigre e o dragão, e dando surpreendente espaço aos intérpretes: quem poderá dissociar agora Gandalf de Ian McKellen, Bilbo de Ian Holm, Galadriel de Cate Blanchett ou Sam do estupendo Sean Astin, só para citar os mais admiráveis?

Ainda assim, o grande público, que se contentar com o filme, não terá a chance de se deliciar com as idiossincrasias de cada região do Condado (onde vivem os Hobbits), de forma que cada um acha o vizinho esquisito e suspeito (e isso é tão inglês!). Os fãs do livro lamentam também a ausência das intrigas e fofocas que envolvem a herança de Bilbo, os Sacola-Bolseiros e sua matriarca, Lobélia, que ficam muito felizes quando Frodo (o herdeiro oficial) tem de “cair no mundo” alguns anos após tornar-se o “portador do anel”, procurado por Sauron, o Senhor do Escuro.

O anel contém o Mal e é preciso destruí-lo. Frodo tem de atravessar a Terra Média, na qual convivem (conflituosamente) elfos, anões, magos, homens (e também criaturas malévolas como os orcs, os espectros do anel, os trolls, os balrogs), formando com um representante de cada “raça” a Comitiva do Anel (ou fraternidade, ou Confraria, mas nunca o chocho “Sociedade” do título nacional), fadada a se desfazer pelo que vem do exterior (há vários ataques inimigos, num dos quais, nas minas de Moria, sucumbe – aparentemente—o mago Gandalf, aquele que alertou Frodo do perigo do anel e era o líder espiritual do grupo) e pelo que vem do interior (a forma maléfica como o anel age sobre Boromir, por exemplo).

No final, apenas Frodo e seu inseparável Sancho Pança, o maravilhoso Sam (na verdade, evocativos também da dupla clássica de Charles Dickens, o sr. Pickwick e seu criado “cockney” Sam Weller), prosseguem a jornada para a destruição do símbolo do poder de Sauron. Diga-se de passagem, o filme não aclarou muito bem a relação senhor-serviçal, a diferença social (e de idade) que existe entre os dois, e como ela é eliminada pela dedicação e companheirismo de Sam.

O Senhor dos Anéis é uma aventura geográfica: saindo do seu mundo tranqüilo, os hobbits (além de Frodo e Sam, os arrumadores-de-confusão Merry e Pippin, que parecem ter fugido do mundo das comédias de Shakespeare, e que terão suas próprias aventuras no resto da trilogia) conhecem novas terras, povos das quais tinham uma noção errada ou imprecisa, costumes e valores diferentes. Tolkien não nos poupa de abundantes descrições. Felizmente. Elas são essenciais para penetrar no espírito de alteridade, de estar em outro lugar e penetrar em outra forma de vida e de ver a vida (uma concepção que será utilizada em larga escala por Star Trek e todos os seus “filhotes”).

Também é uma aventura lingüística: a salvação da Terra Média depende da memória (ou da união de vários fragmentos de memórias), dos conhecimentos acumulados por gerações e transmitidos por canções (a sobrevivência de povos inteiros muitas vezes acontece através delas). Gandalf consegue abrir o portal de Moria por lembrar-se de uma palavra antiga e informações preciosas acham seu lugar no momento presente através das canções e lendas comentadas pelos personagens.

Nos dois planos (o geográfico e o lingüístico), assim como a Rainha Galadriel com a Comitiva do Anel, Tolkien nos prende numa teia de encanto e inquietação, colocando-nos num ritmo diferente do quotidiano. Ele deve ter escrito O Senhor dos Anéis seguindo a filosofia dos elfos: “colocamos o pensamento de tudo que amamos nas coisas que fazemos”.

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de abril de 2002)

As Duas Torres, segundo volume de O Senhor dos Anéis, consegue ser mais fascinante ainda que o primeiro, chegando a um ponto de tensão, nos seus últimos capítulos, que não permite mais ao leitor parar a leitura, sem contar que o final nos arremessa para a leitura do terceiro, sem fôlego.

Como os outros, é dividido em duas partes. Na primeira, Gandalf reaparece e se reúne a Legolas, Gimli e Aragorn (sobre o qual insinuações sutis vão delineando uma posição-chave na resolução da trama), três membros que sobraram da dissolução da Comitiva do Anel, envolvendo-se na guerra dos Cavaleiros de Rohan contra  Saruman; por outro lado, os hobbits Merry e Pippin, que haviam sido capturados pelos orcs, escapam e conhecem o singularíssimo povo dos ents, seres meio-árvores (alguns dos momentos mais inesquecíveis do romance de Tolkien pertencem a eles), também engajados contra o mago traidor, e que o deixam aprisionado na torre de Orthanc. Como esquecer a batalha do Abismo de Helm?

Na segunda, reaparecem Frodo e Sam Gamgi, que conseguem penetrar em Mordor (a terra do Mal), tendo como guia o antigo possuidor do anel (perdeu-o para Bilbo), o patético e repulsivo Gollum. Este os atrai para uma armadilha (pois é obcecado em tomar de volta o anel, que o consumiu e colocou-o na condição miserável na qual se encontra, mas que o mantém sob uma espécie de “quebranto” esquizofrênico) e os deixa à mercê de Laracna, a senhora de um túnel que seria a única passagem viável dentro de Mordor para que se efetivasse a missão de destruir o malfadado anel.

Só para o leitor ter uma idéia da enrascada: Sam Gamgi torna-se o portador do anel! Mais ainda: torna-se um personagem cada vez mais maravilhoso (e isso é um feito num romance onde não faltam personagens fortes), que por si só mereceria uma resenha.

As imagens do livro também vão ficando mais demoníacas (no sentido de Northrop Frye, em que a realidade contraria os desejos humanos e a paisagem se torna ameaçadora) e inquietantes, com seres primordiais emergindo das sombras, como os ents e Laracna (que são simétricos, assim como vários outros elementos de O Senhor dos Anéis. Aliás, o estilo vai ficando mais e mais sombrio e é inimaginável que alguém possa confundi-lo, como tantos fazem, com uma história juvenil. Veja-se a caracterização de Laracna: “só desejava a morte para todos os outros, mentes e corpos, e para si uma fartação de vida, solitária, inchada até que as montanhas não mais conseguissem abrigá-la, até que a escuridão não a pudesse conter”.

Como resgate majestoso das “estórias romanescas” (o equivalente profano—por exemplo, o ciclo dos cavaleiros da távola redonda—do  mito, o qual é basicamente religioso, como nos ensinou Frye, que curiosamente não era muito apreciador da obra de Tolkien), O Senhor dos Anéis utiliza uma de suas táticas básicas: os heróis vão descendo a um “inframundo”, ao lado negro da realidade, a única forma de realcançar a unidade perdida, a estabilidade cíclica do mundo (regida pela mudança das estações), quebrada pela intervenção do Mal, que também condena os seres à extinção (é o que sentem os elfos e os ents) ou à diminuição de estatura (como sente Faramir, representante do legendário povo de Gondor: “Nós nos tornamos homens médios, do crepúsculo, mas com a memória de outra realidade, parece que estamos escutando o discurso de um Riobaldo). Os burgueses e até então acomodados hobbits surgem como a grande novidade (tanto que na lista de povo dos ents eles nem aparecem) e por isso sua intervenção é decisiva.

O próprio corpo do herói deve sofrer nessa travessia. Já vimos o ferimento que o rei dos Nâzgul infligiu a Frodo em A Sociedade do Anel. Agora ele é envenenado por Laracna de uma forma que se assemelha à morte. O herói, neste momento, é como o mundo: está envenenado, conspurcado, e precisa restaurar-se. Mas ainda temos um volume inteiro pela frente.

III

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de abril de 2002)

Terceiro e último volume de O Senhor dos Anéis, com quase oitocentas páginas atrás de si, O Retorno do Rei corria o risco do anticlímax, após o fôlego épico inaugurado pelo primeiro (A Sociedade do Anel) e a intensidade alcançada pelo segundo (As Duas Torres), principalmente porque os dois fatos centrais do enredo, a destruição do anel por Frodo e o reconhecimento de Aragorn como legítimo rei da Terra Média, acontecem bem antes do verdadeiro final.

Mas é aí que J.R.R. Tolkien se mostra O Senhor da Ficção, demonstrando controle total sobre o universo que criou e centralizando a narrativa em duas situações desesperadoras:

1) As forças que se opõem a Sauron, o Senhor de Mordor, acabam sitiadas em Gondor. Nesse sítio, perecem Théoden, rei de Rohan (um personagem portentosamente shakesperiano), e ficam gravemente feridos Faramir (irmão de Boromir), Éowyn, a sobrinha de Théoden, que é apaixonada por Aragorn e que se disfarçou de homem para lutar (um recurso bastante comum no gênero épico, a figura da “donzela guerreira”, resgatada também por Guimarães Rosa em Grande Sertão : Veredas, aliás contemporâneo de O Senhor dos Anéis ), alem de Merry, um dos quatro hobbits que se “lançaram no mundo”.

Confirmando a impressionante unidade do enredo (que em nenhum momento se dispersa no episódico), a espada que o hobbit trouxe da sua experiência de ser enterrado vivo na Colina dos Túmulos (um capítulo de O Senhor dos Anéis que não aparece na versão de Peter Jackson) é justamente aquela que tem o poder de ferir o líder dos Espectros do Anel, o mais ameaçador dos subordinados de Sauron;

2) Frodo e Sam juntam-se novamente e tentam alcançar a Montanha da Perdição, apesar do desgaste físico, mental e espiritual de Frodo, causado pelo anel. Não somos poupados de nenhum quilômetro, quase que do mínimo passo nessa árdua jornada, para a dupla e para os leitores, e seria difícil imaginar que fosse reproduzida pelo filme (mas é; é bom que se diga que no cinema atual só uma obra-prima como o primeiro Matrix pode se comparar ao empreendimento de materializar em imagens o mundo de Tolkien).

E, de repente, o desenlace dos acontecimentos parece levar o livro a um tom triunfalista, no mesmo estilo que estragou as últimas cenas da bela fantasia O feitiço de Áquila, onde a vitória dos “bons” é tão apoteótica e ruidosa que acaba irritando. Só que isso é só um alívio passageiro. E precário. As últimas páginas de O Senhor dos Anéis (após a deliciosa mistura de aventura e comédia, bem cervantina, que marca a volta dos quatro hobbits à sua terra natal, o Condado, atando as pontas da narrativa) são a culminação de um tom que já se pressentia nos outros volumes e que já rendera um dos casais românticos mais melancólicos da literatura (Faramir e Éowyn): o de profunda tristeza.

Uma nova era começou no mundo, algo acabou, a  aventura foi apenas o lado colorido da grande melancolia que envolve quem sobreviveu ou ficou (como a rainha Arwen, amada de Aragorn) e os que partem desse admirável mundo novo, como os elfos, Gandalf, e até a dupla dos portadores do anel, Bilbo e Frodo, que, num momento pungente de despedida, explica a necessidade de partir da seguinte forma para o seu fiel (e inesquecível) Sam Gamgi: “Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las”. Felizmente, há  o seu fiel Sancho Pança (não é à toa que ele é chamado de “hobbit gorducho”), Samwise Gamgi, aquele que no final da saga será o sal da terra e herdará como presente o futuro.

Entretanto, ao cabo de mil e tantas páginas, mesmo com toda a tristeza (“que apesar disso era abençoada e sem amargura), cumpriu-se à risca o que é prometido pelo título completo do livro: “Aqui está contada a história da guerra do anel e do retorno do rei, conforme visto pelos hobbits. A sorte é que após diversas edições anódinas, quando não decepcionantes, em brochura, a Martins Fontes lançou uma incrivelmente bonita edição dos três tomos (mais O Hobbit) em capa flexível, na qual todo o projeto gráfico faz enfim justiça à criatividade do grande autor inglês. Pode parecer frivolidade, mas também em livro a parte visual de O Senhor dos Anéis é muito importante.

08/12/2012

A VERDADEIRA SENHORA DO DESTINO: o mundo cada vez mais vasto de Maria Valéria Rezende

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A Valentina, que sem saber me deu um presente tanto para o leitor quanto para o homem, em termos de literatura, amizade e aprendizado de vida. Aqui vai meu agradecimento tardio.

Já contei essa história algumas vezes, mas nunca por escrito:

Um dia, em 2001, encontrei na minha caixa de correio o exemplar de um livro. Nunca ouvira falar da autora ou da editora. Uma carta o acompanhava:

Prezado Senhor,

   Tomei a liberdade de pedir seu endereço para a ***********[o nome da pessoa não vem ao caso].

   Maria Valéria Rezende é minha irmã.  Sua história de vida, um tanto quanto movimentada e rica, aliada a sua sensibilidade, fez dela uma escritora, conforme atesta Frei Betto no prefácio de “Vasto Mundo”.

   É com muito orgulho que me envolvo pessoalmente no lançamento de seu primeiro livro de ficção.

Etc etc. Fiquei muito bravo. Que folga! Que petulância! Imediatamente liguei para A TRIBUNA solicitando encarecidamente que não fornecessem mais meu endereço em situações similares, em hipótese alguma. Já pensou? Devia de ser uma senhorinha, como tantas as há, que transitam entre a coluna social e o exercício do beletrismo (o nome todo indicava isso: Maria Valéria Vasconcelos Rezende). Como moro na Baixada Santista, sempre fugi de um certo tipo de lançamento bem provinciano, sempre evitei fazer resenhas que só serviriam para vivificar a fogueira das vaidades locais.

Verificando o volume com mais atenção,pensei: não me faltava mais nada: uma freira, de uma tal Congregação  de Nossa Senhora-Cônegas de Santo Agostinho. Danou-se! Provavelmente eram histórias edificantes e piegas.

Então, caí vítima da dengue. E foi bravo. Fiquei umas duas semanas em estado de prostração, e nem tenho a certeza de ter me recuperado totalmente (acho que conheci o que era a depressão, no sentido orgânico). Fui me recuperar na casa dos meus pais, que depois, como sempre  faziam (e ainda fazem), viajaram para o sítio, me deixando ali. Até hoje não sei bem o porquê de ter levado o exemplar de Vasto Mundo comigo. Deve ter sido uma ação sorrateira do destino. Só sei, que após duas semanas sem a menor vontade de ler, devido aos enjoos e ao mal-estar geral, o livro que me fisgou, ao contrário dos outros que havia levado, foi o de Maria Valéria Rezende.

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Afora seus indiscutíveis méritos literários, o talento pronto e acabado da autora, nada titubeante ou inseguro, sua capacidade de envolver o leitor com suas histórias, a coletânea (ou romance?,pois —na trilha de Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, Vidas Secas, de Graciliano,  O povoado, de Faulkner— poderíamos até avaliá-la nessa categoria) me fascinou porque, à época,  estava mergulhado no mundo de Duas Pontes, a mítica cidade criada por Autran Dourado, por conta da minha tese de doutorado. Como resultado das minhas leituras e encafifações, duas características muito relevantes e evidentes em Vasto Mundo me obcecavam: o uso do discurso indireto livre e a relação entre uma narrativa específica de um determinado autor com uma macro-narrativa. No mundo parabaiano-cósmico de Farinhada delineado por Maria Valéria, cada texto era uma peça autônoma, mas tanbém se juntando ao quebra-cabeças do conjunto ganhava em perspectiva e densidade. Valia para os dezesseis relatos ali reunidos a afirmação tão bela de Faulkner sobre a criação de Yoknapatawpha (imagine-se a minha empolgação quando descobri, muito mais tarde, que esse território literário fascinava a autora estreante tanto quanto a mim):

“Substituindo a realidade pelo apócrifo teria eu possibilidade de utilizar ao máximo o talento existente. Essa descoberta abriu uma mina de ouro em forma de pessoas e assim criei um cosmos próprio. Posso movimentar essa gente como se fosse Deus, não apenas no espaço como também no tempo… Gosto de pensar que o mundo que criei é uma pedra fundamental no universo, a qual, embora pequena, causaria o seu colapso se fosse removida.”

Não sei bem por que, também, do saldo da primeira leitura de Vasto Mundo fiquei com a ideia, ou melhor, com o “pensamento mágico”, de que Farinhada era a seara de Maria Valéria Rezende e que ela iria explorar continuamente esse universo, como Faulkner fizera com Yoknapatawpha, Autran Dourado com Duas Pontes, Onetti com Santa María… Talvez porque Farinhada, seus habitantes e suas histórias se imprimiram tão fortemente na minha cabeça, como mais tarde a Papaconha de Pedro Salgueiro, em outro livro maravilhoso, a transitar entre conto e romance: Inimigos (2007).

Devo acrescentar que, mesmo havendo futuras edições de Vasto Mundo, sempre terei apreço pela edição da Beca. Creio que foi o seu capricho, mais do que os encômios de Frei Betto (um autor pelo qual não tenho muita admiração), que me levou à leitura efetiva do livro.

De qualquer forma, interessados em saber a minha reação inicial ao livro, podem acessar: https://armonte.wordpress.com/2012/12/06/por-detras-das-palavras-desencontradas-a-estreia-memoravel-de-maria-valeria-rezende/. Só fiz ligeiras e insubstanciais mudanças no texto originalmente publicado em A TRIBUNA, em maio de 2001.

a releitura de vasto mundo para neoleitores

Fiquei, então, alguns anos sem saber nada de Maria Valéria (a quem não cheguei a encontrar pessoalmente em 2001), mas esperando que alguma hora aparecesse mais de Farinhada e sua macro-narrativa.

Saltando para 2005: recebi notícias de que a Objetiva lançaria um romance dela, e recebi em casa (agora sem escândalo ou chilique) um exemplar de O voo da guará vermelha. É claro que, como sou muito chato, tinha que implicar com alguma coisa. Dessa vez, com o título, que me parecia folclórico e perigoso. E é lógico que caí do cavalo, pois a leitura do primeiro capítulo já me fez perceber que todas as qualidades que apreciara no primeiro livro, ali estavam agudizadas e ampliadas: a frase lapidar, o ritmo perfeito, sem contar a técnica de encaixes narrativos que permitia que a história se desse em vários planos, literária e pedagogicamente criativos. Explico-me novamente: contra certas concepções pós-modernas, creio que há uma função pedagógica para a literatura, e procuro uma autoridade moral nos autores; enfim, não tem jeito,  sou um anacrônico. Quero crer que a humanidade aprende com a experiência, quero crer que haja uma função, ainda que imponderável, para o ato de escrever, de contar histórias, e para o ato de ler, de compartilhar histórias. Creio que para o leitor que persegue esse objetivo, mesmo que inconscientemente, O voo da guará vermelha é uma das grandes leituras que a arte do romance reservou para o leitor do século XXI.

Relendo-o agora, em 2012, mais uma vez me emocionou profundamente a compaixão entre os personagens, não no sentido de uma comiseração mútua, mas daquele envolvimento e engajamento solidário entre as pessoas para além  da degradação que a realidade e o cotidiano brutalizado podem oferecer. Maria Valéria Rezende renega totalmente aquele dito de Eugene O´Neill de que  “a vida é, para cada homem, uma cela cujas paredes são espelhos”.

Todavia, o mais bonito das minhas releituras atuais, tanto de Vasto Mundo quanto de O voo da guará vermelha, além de confirmar que eles só ganharam com  a passagem do tempo, e se mostraram mais densos e belos do que na leitura inicial, foi que —conhecendo pessoalmente Maria Valéria, como agora conheço— pude como que ouvir a sua voz narrando seus próprios livros, pois ela é uma contadora de histórias da própria vida digna de uma Sherazade. Já disse que ela entreteria qualquer sultão por mil e uma noites, e repito, porque o que não falta na sua vida é aventura e anedota, lugares, pessoas, línguas e experiências. Ela é a encarnação do narrador-viajante (em oposição ao sedentário), o narrador-marinheiro (em oposição ao narrador-camponês), caracterizado por Walter Benjamin. Esse foi outro ganho para a minha vida, eu que sou, por constituição psíquica, camponês-sedentário.

Então, reler esses livros ao “som” (mental) da fala de Maria Valéria foi uma prova da força da sua presença na minha vida.

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Antes de passar para a próxima etapa, aconselho aos que queiram saber mais sobre O voo da guará vermelha a acessar: https://armonte.wordpress.com/2012/12/04/a-linguagem-contra-o-esquecimento-do-ser-num-dos-grandes-romances-brasileiros/. Também só fiz alterações leves no texto original, de 2005.

Diga-se de passagem, a essa altura já achava natural, no comentário a outros autores, fazer comparações e aproximações com as narrativas de Maria Valéria. Um exemplo, tirado de uma resenha que escrevi sobre O morto certo, de Jorge Semprún:

“Esse morto do qual se necessita é, além de representante dos “dispensáveis” num modo de pensar em que só os fins contam, também representante dos “desamparados”, daqueles que desistem de viver na situação-limite, aqueles cujo olhar já abandonou o corpo e que não conseguem sustentar uma atitude positiva similar à do narrador: Assim, mesmo sentado sobre a viga das latrinas do Pequeno Campo; ou acordado no tumulto dos gemidos do dormitório; ou alinhado na fileira de detentos diante de um soboficial da SS fazendo a chamada; ou esperando que o serviço de alojamento cortasse com o fio de aço o derrisório pedaço de margarina cotidiana; em qualquer circunstância era possível se abstrair do imediatismo hostil do mundo para se isolar na música de um poema.

Esse morto tão útil, pelo menos enquanto morto, perece por não suportar o dilema retratado por Rosálio, protagonista de O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende, quando fica numa situação-limite bem atual, e que não tem guerra nem nazismo para justificá-la, o trabalho rural escravo: Um corpo de homem agüenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outras coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança”.

Também a essa altura, já começara a trocar e-mails com ela, e finalmente nos encontramos (aqui em Santos, ainda faltavam alguns anos para as memoráveis viagem a João Pessoa). Não que isso fosse inevitável ou necessário, pelo menos para a apreciação de sua obra (será que é preciso, de fato, enfatizar isso?). No entanto, pelas razões aludidas mais acima, foi um grande ganho na minha vida. Aliás, retomando o fio deste meu texto, penso que ele fala até mais de mim quanto da autora de que deveria me ocupar essencialmente. Deixo como está. Espero ter enriquecido a vida dela pelo menos ¼ do que enriqueceu a minha.

Aí veio sua participação na FLIP, o infarto em plena festa literária,  justamente quando ela alcançava seu momento mais midiático. E também veio  a coletânea que mostrava seu lado mais urbano, cosmopolita, também  um mundo da memória de gerações mais antigas, um recuo no tempo (recuo que dá o tom de várias narrativas), tanto quanto Vasto Mundo era um mundo regido pelo espaço: Modo de apanhar pássaros à mão, assim como o lançamento anterior, editado pela Objetiva.

Sempre penso nesse livro como uma paleta diversificada e caleidoscópica em que o pintor pôde exibir todas as suas cores, ou seja, como a prova—se é que era necessária—de que não havia recurso literário ou técnica  narrativa que Maria Valéria não dominasse, e que circunscrevê-la ao mundo rural, ao regionalismo, a um determinado contorno, enfim, era vã tarefa. Ela seria como Rosálio, seu protagonista tão carismático, de O voo da guará vermelha: sua sina era ganhar o mundo.

modo

Eu até tinha certa nostalgia de Farinhada, mas fiquei fascinado com a paleta que me era exibida (por isso, durante muito tempo, na minha cabeça, Modo de apanhar pássaros à mão se me afigurava meu livro predileto dela; relendo os dois primeiros constato que, malgrado sua alta qualidade, eu gosto muito, muito, muito deles, para que outro figure como um suposto “predileto”); e a partir daí, através de textos que infelizmente continuam inéditos, por razões editoriais, por razões do jogo da vida (uma existência muito ocupada com os outros, com os fatos, com os projetos, com o vasto mundo), percebi que esse universo estava mesmo em expansão.

Cf. a fusão que fiz de duas resenhas em:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/07/universo-em-expansao-o-exodo-do-rural-para-o-urbano-de-maria-valeria-rezende/

Um universo tão voraz que me transformou até em personagem de um conto: ao participar de uma das inúmeras coletâneas que homenagearam Machado de Assis em seu centenário, em 2008, Capitu mandou flores (organizada por Rinaldo de Fernandes para a Geração Editorial), com o conto (que enceta o diálogo intertextual com A causa secreta) “Da Lapa ao Cosme Velho”, a marota da autora começa assim (já que eu lhe dera a sugestão de como abordar o relato machadiano):

“Sei da história toda porque me foi contada pelo próprio Machado de Assis. Hoje, lembrei-me dela, depois de muitos anos, e ocorreu-me escrevê-la porque alguém, o Monte, jovem colega de redação, na hora do café, comentou comigo que, entre os inúmeros contos de Machado que já lera, havia um que lhe parecia destoar dos demais, um conto estranho na sua crueza, sem aquela piscadela maliciosa, sem o sorriso do próprio escritor que acreditamos vislumbrar, por detrás das linhas, na maioria de suas histórias.”

Pois bem, ainda aguardo a publicação dos textos maravilhosos que li nestes últimos anos, tanto os acabados como os “work in progress”, um dos quais surgido com a estadia da intrépida autora, que não sossega (quando me dou conta, ela está alhures e acolá), durante um mês, em Porto Alegre, explorando as brechas na superfície aparentemente monolítica do mundo capitalista pós-industrial, pós-tudo.

Até por razões econômicas (devido aos programas do MEC de incentivo à distribuição de livros nas escolas), mas fundamentalmente  movida por sua preocupação com a formação de novos leitores (inclusive aquela fatia tão desprezada, a dos alunos do EJA, o antigo supletivo), Maria Valéria iniciou a partir de 2007 uma intensa produção na área infanto-juvenil, que vem se estendendo desde poemas e haicais (adoro o premiado Conversa de passarinhos, em co-autoria com Alice Ruiz, e No risco do caracol) até um delicioso livro infantil chamado O problema do pato (em que mostra, através da técnica consagrada pela tradição, de fazer um grupo de crianças viajar por diversos países e costumes, a preocupação das civlizações com a morte e as pompas fúnebres), passando por um conjunto de quatro relatos que compõem um livro eu considero uma obra-prima no gênero: O arqueólogo do futuro. Um pouco do meu entusiasmo pelo livro acho que transparece na resenha publicada em: https://armonte.wordpress.com/2012/12/07/um-momento-de-alegria-purinha-a-historia-sem-fim-de-o-arqueologo-do-futuro/

capitumandouflores

Mais recentemente, ela enveredou pela tradução (neste 2012, por exemplo, a Autêntica publicou sua versão do maravilhoso Micrômegas, de Voltaire, e agora a incansável trabalhadora das letras finalizou a nova versão de Kim; quando ela me disse que estava traduzindo o romance de Kipling, mais uma vez senti o sopro do destino, da “coisa feita lá no céu”: pois não é que esse livro é um dos pilares da minha infância, na versão clássica de Monteiro Lobato?  Kim foi quem eu sempre quis ser, quando garoto, tendo como o único rival à altura, Tom Sawyer).

Os “work in progress” e o volume de contos acabado, polido, depurado, quintessencializado, ainda não vieram a lume. Mas em 2012, ela que, três anos atrás, surpreendera com a reescrita de algumas de suas histórias em dicção mais popular (no sentido de acessível ao neoleitor), na coletânea Histórias daqui e d´acolá (que marcou o início de sua colaboração com o admirável ilustrador Diogo Droschi, um achado), utilizou as aventuras de Rosálio, de O voo da guará vermelha, rebatizado como Marílio, para nos dar um livro que deveria aparecer em todas as listas de destaque do ano: Ouro dentro da cabeça, com o qual minha coluna em A TRIBUNA reencontrou sua obra, após cinco anos de ausência, como se pode ver em: https://armonte.wordpress.com/2012/12/04/a-voz-do-povo-ouro-dentro-da-cabeca/

Maria Valéria Rezende gosta de descortinar e desbravar territórios novos (ela nos levou até a China, em um dos relatos de O arqueólogo do futuro). Foi assim que transformou o conto-título de Vasto Mundo (rebatizado em Histórias daqui e d´acolá em “O mundo visto do alto”) numa espécie de paradigma da sua visão-de-mundo, ao mostrar seu personagem subindo na ponta da torre da igreja:

“Preá  respira todo o ar do mundo e olha: lá embaixo o carro preto, a mala, a moça acenando. Só quando o carro que leva a moça desaparece ao longe, numa nuvem de poeira, é que o olhar de Preá, liberto, encontra o horizonte. Lá de cima, passeia, vaga, vê. E Preá descobre que vasto é o mundo.”[1]

Uma das anedotas biográficas de Rosálio em O voo da guará vermelha é retomada no capítulo “Um voo por cima do mundo”, em Ouro dentro da cabeça. Fugindo do mundo de obsessão doentia, ganância e, paradoxalmente, penúria, que é o da mineração de ouro, graças a compaixão (pois é, é uma palavra recorrente nesse universo autoral) da dona da pensão onde vive, o herói vive a experiência de ser passageiro de avião pela primeira vez (reproduzo a forma tipográfica peculiar e altamente expressiva do mais recente livro de Maria Valéria):

“Até hoje ainda não sei qual foi o maior benefício

que aquela mulher me fez, se me livrar dos perigos

da vida de garimpeiro ou se me dar de presente

um voo por cima do mundo. Eu subi no avião (…)

(…) Meu coração foi inchando

de uma emoção sem tamanho, e as palavras de alegria

querendo sair da boca. Olhei e não vi mais ninguém

que se importasse comigo nem com aquela maravilha

que eu via de lá de cima (…)

(…) Mas o avião subia, subia cada vez mais,

e de repente o mundo lá embaixo foi sumindo,

e eu me vi boiando dentro de um capucho de algodão.

Compreendi que era uma nuvem. Aí o susto foi grande!

Pensei:

__Com mais um pouquinho ele vai bater no céu,

o avião se despedaça, e eu vou chover na mata (…)

(…) até que vi, assombrado, que as nuvens foram passando,

e eu estava acima delas. Embaixo um colchão macio

como de penas de ganso, mais acima o céu azul,

azul de doer a vista. O avião, bem tranquilo, subindo,

subindo mais.

   Daí clareou-se a mente, conheci o meu engano,

porque eu pensava que nuvens, sol, lua e estrelas

viajavam agarrados num teto azul que era o céu

girando devagarinho como se fosse um moinho

carregando aquilo tudo.

   Agora eu via que o céu era um azul sem fim

e que as nuvens e os astros viajam livres e soltos.

Como? Eu ainda não sei, mas sei que é assim porque vi.

Há de ser arte de Deus.”

CONVERSA

   Portanto, resumindo o mote, o vasto mundo está sempre aí, para ser descortinado. Por isso, sempre penso no conto “O muro” como uma poética, e mesmo uma alegoria, do universo de Maria Valéria Rezende, das suas escolhas pessoais e das suas opções como escritora. Nele, uma narradora enfrenta, a princípio involuntariamente,  o descenso (no nível social, enquanto bandeação para o lado excluído e degradado, no caso, uma favela apartada do resto da cidade, através de um muro), que é, simbolicamente, uma ascensão (para  uma percepção diferente do Outro, a uma identificação com ele, a um encontro consigo mesma e com a ideia mais humana, demasiada humana, do que é o Divino; e, mais uma vez, a compaixão):

O MURO

…la resistencia absurda de un mundo resquebrajado que sigue defendiendo rabiosamente sus formas más caducas…

Julio Cortazar

Hoje fecharão a última brecha do muro. Já não haverá mais passagem alguma, nem um buraco para espiar de um lado para outro, nem uma frincha sequer por onde possa minar algum fluído, já nada nem ninguém poderá entrar nem sair. Há que escolher agora de que lado permanecer. Quem ficar lá dentro será para sempre, dizem eles, para sempre. A altura do muro, cuja beirada chega ao mesmo nível que o topo do morro que ele cerca, foi calculada para que ninguém possa ultrapassá-lo, já que eles têm certeza de que nenhum dos que ali se encerrarão é capaz de voar.

Não há hipótese de que os de dentro possam, como sempre fizeram, cavar túneis e, como ratos, escapar pelos esgotos da cidade. O grande império do norte cedeu imensos blocos de um novo material cuja fórmula é secreta, sabemos apenas que é produzido com substâncias de asteróides e poeira de cauda de cometas, fruto de um fantástico esforço de desenvolvimento tecnológico para a paz, explicaram, blocos impenetráveis, assentados desde profundidades insuportáveis para seres humanos e mesmo para ex-humanos. Este é o primeiro muro desse projeto. Os planos incluem mais de uma centena deles. Serão a solução, dizem, haverá paz no mundo, afinal.

Resta uma única brecha, estreita e vertical, sobre a boca de um fosso que desce até à porta do inferno. Uma ponte de tábuas mal pregadas atravessa o fosso neste último trecho ainda vazio. A ossada de um descomunal dinossauro de ferro retém nos dentes um dos últimos blocos, sobre as nossas cabeças. Eu aqui estou, a poucos metros da abertura, tenho medo, tento compreender por que vim parar aqui, ainda espero voltar para trás, talvez. Meus olhos e meu cérebro registram tudo, com a frieza de uma câmara digital, mas tenho medo, devo ter muito medo e confusão.

Desde o início acompanhei da minha varanda o movimento das obras, ao longe. Quando assentaram a fileira superior de blocos e o espantoso projeto revelou-se por inteiro, deve ter-me deixado boquiaberta pois, um dia, há cerca de uma semana, sem que eu percebesse o perigo, o anzol de Deus fisgou-me no céu da boca e desde então Ele vem puxando a linha, devagarzinho, incansável. Não me pude libertar do anzol e, debatendo-me, fui arrastada até aqui.

Deus é um pescador surdo e eu já mal posso gritar, com este anzol fincado na boca. Nem me mover posso, estendida assim, no chão, sob o corpo de um menino incrivelmente pesado, tão magro! Caímos aqui, os dois, embolados, bem no meio do rego de águas imundas que desce do morro e desaparece no sumidouro sob a ponte de tábuas. Estou do lado de dentro do muro. Nem percebi que entrava. Eu estava ainda lá fora, resistindo como podia à força da linha, quando vi um menino traçando, com um jato de tinta vermelha, sua marca tribal na superfície virgem do muro, bem ao lado da brecha, antes que os homens armados que vigiam a entrada o pudessem impedir. Mal vi quando o agarraram e lhe torceram o braço, porque a linha de Deus, como se passasse entre os corpos dos guardas e o da sua presa, num último puxão, atraiu-me contra eles com tal violência que os separou, atirando-nos, o menino e eu, através da abertura.

Devo ter batido a cabeça com muita força, ao cair, porque me dói e ainda estou um pouco tonta. Demorei-me estirada no chão, mesmo depois que o menino se refez, saltou de pé, libertando-me, e o vi correr em direção a uma das subidas do morro, levando na mão seu spray de tinta, na ponta do braço elevado, como se carregasse uma tocha. Tive vontade de simplesmente ficar ali deitada, numa espécie de paz que me veio quando deixei de sentir a dor do anzol no céu da boca, mas à minha volta formava-se uma multidão que se adensava rapidamente, acotovelando-se, afunilando-se em direção à precária ponte de madeira sobre o fosso. Temi ser pisoteada, levantei-me com esforço, tonta, empurraram-me, para dentro, mais para dentro até que me vi junto ao ângulo de um dos becos que se enrosca morro acima.

arqueólogoproblema do patonoriscoouro

Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas.

Afastei-me cada vez mais da saída para o mundo de fora, pouco a pouco os ruídos do tumulto lá de baixo foram-se apagando de meus ouvidos e pude perceber outros sons, muito mais próximos, por detrás das paredes lodosas que me cercavam, ruídos de vida, alguém que escarrava, alguém que gemia, sem que eu distinguisse se de dor ou de prazer, uma porta que rangia, e então comecei a vê-los, por toda parte, acima de minha cabeça, a mulher velha debruçando-se perigosamente da beirada de uma laje torta, mais adiante, um pequeno pé, calçado em borracha gasta, de alguém que virava apressadamente uma esquina, um olho congestionado, entre as duas folhas desencontradas de uma janela, uma cabeça de menina projetando-se de uma porta para logo esconder-se de novo. Espiavam-me, fugiam de mim como bichos ariscos, pensei, para em seguida perguntar-me se não teria, eu mesma, um aspecto amedrontador para eles. Mas as mal traçadas linhas vermelhas se repetiam a intervalos regulares, aparecendo sempre diante de mim quando o caminho parecia findar num ângulo abrupto, atraindo-me para cima, como antes me havia puxado a linha de Deus, e eu segui adiante porque nada mais podia fazer.

Segui, sem deter-me, sem reagir a nada, nem mesmo quando a subida tornou-se mais íngreme e custosa, nem quando as ruelas começaram a encher-se  de viventes que me olhavam descaradamente, já sem espanto, como a me desafiar, quando seu cheiro me agrediu as narinas e suas vozes me soaram duras, esganiçadas ou fanhosas, quando vi bocas que riam de mim, que estropiavam as palavras, caras escuras que eu não podia reconhecer, feios, talvez maus, imaginei, como disseram que eles são.

Compreendo agora porque já parecem ter-me esquecido. Eles continuam por aí, há milhares deles, milhares, amontoados, pelos becos, pelas vielas, nos cantos, por detrás das portas tortas, mas nem se importam mais comigo. Há pouco percebi que já não me vêem porque me estou tornando parecida com eles. Ao virar a esquina de uma ruela deparei-me com o vulto de uma mulher envelhecida, desgrenhada, escura, como todas as outras, mas vagamente familiar. Hesitei, surpresa, creio que esbocei um gesto qualquer, interrompido pela descoberta de que diante de mim, apoiada contra uma parede, o que havia era a porta arrancada de um guarda-roupa com  um resto de espelho.

Sinto-me invisível agora e por isso, talvez, segura. Continuo subindo. Irei até ao alto.

Vou chegando ao topo do morro, olho para baixo e contemplo o que desde agora será tudo. O mundo condenado. Ouço gritos, o som exasperante de uma sirene, vão concluir a clausura, meu olhar alcança ainda uma nesga do outro, o lá de fora, o que será preservado, dizem. O último imenso bloco cinzento encaixa-se no seu lugar com estrondo. Escurece e já não tenho mais para onde ir.

Estou só, aqui em cima, onde não há construções humanas, apenas um imenso ovo de pedra bruta para o qual me volto e no qual me absorvo até ensurdecer, sem saber se tudo o que vi ainda existe ou se o mundo ainda está por nascer.

De repente, entre eu e a pedra, o menino do spray de tinta, o gesto rápido, sua inscrição rupestre. “Quer pichar também, tia?”

Obrigado por tudo, Maria Valéria.

(escrito para o blog, em dezembro de 2012)

Nota- Este post era constituído, a princípio,  por alguns dos textos cujo link foi fornecido ao longo dessa minha homenagem aos 70 anos de Maria Valéria Rezende; portanto, todos os comentários com data anterior a dezembro de 2012 referem-se a eles.

cuoremicromegas[3]


[1] Em Histórias daqui e d´acolá, transformado em Tatuzinho o personagem, lemos:

“Tatuzinho respira todo o ar do mundo e olha: lá embaixo vê o carro preto, a mala, a moça dando adeus ao povo na praça. Tatuzinho vê tudo tão pequeno, lá longe.

   Só quando o carro que leva a moça desaparece na curva, numa nuvem de poeira, é que o olhar de Tatuzinho se liberta, encontra o horizonte.

  Lá de cima, a vista do menino passeia, vaga, vê campos, estradas, povoados e serras. E Tatuzinho descobre que vasto é o mundo.”

Valéria1

07/12/2012

Um momento de alegria purinha: a história sem fim de “O arqueólogo do futuro”

autográfoarqueólogo

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2007)

Num país em que os professores têm de lidar com uma literatura juvenil em geral de baixa qualidade, é motivo de alegria uma autora do naipe de Maria Valéria Rezende se voltar para esse gênero de produção nas quatro histórias que compõem O Arqueólogo do Futuro, cujo título é uma brincadeira com as teorias que insistem a respeito do Fim da História.

Novamente chama a atenção o jogo entre os mundinhos pequenos perdidos no mapa e o vasto mundo globalizado, presente desde sua coletânea de estréia, Vasto Mundo. Das cidadezinhas onde nascem os misteriosos digiolhos, de lugarejos ermos como Itacoatiara do Ingá (palco do texto-título), mesmo do âmbito quase doméstico de Milagre de celular, para a China abrindo-se para o capitalismo na história mais carismática, Orelhão em Pequim, na qual o narrador adolescente envia um longo e-mail para seu camarada Beiçola, mostrando sua descoberta da China, das meninas chinesas, a língua e seus ideogramas, descobrindo como a diversidade das falas pode gerar a escrita e a literatura.

Como todo garoto que se preze na tradição da ficção, Orelhão tem necessidade de aventura. Segue o mapa, mas gostaria de não seguir: “embora eu tivesse uma certa vontade de me perder naquele outro mundo, pois afinal, “estou na China, estou no mundo, estou na vida”.

É como garoto (até usando o indefectível boné) também que o alienígena de O Arqueólogo do Futuro vai viver seus dias de extraviado no nosso planeta e nosso tempo, aprendendo a se sentir vivo (e até aprendendo o que é o cansaço, após horas de curtição), ao cair no forró, enquanto espera a crucial data de 24 de junho.

A menina de Milagre de celular se sente invisível por não possuir um aparelho, e depois que o consegue, sofre a angústia de não ter quem ligue para ela (“eu estava achando que tinham feito só uma pequena alteração da tal praga contra mim). Como é bom uma autora que conheça realmente a garotada, que não crie uma ficção juvenil de laboratório ou para incutir parâmetros curriculares disfarçados!

Quanto ao Caso do Digiolho, talvez seja a narrativa mais complexa do livro, com sua fábula praticamente nascendo do proverbial, do popular, da idéia de que “apontar estrelas” faz nascerem verrugas. No caso, o menino que aprende o nome dos astros e que desenvolve um olho no dedo, fenômeno que se espalha, até que se crie uma “digimoda” (digirroupas) e as possibilidades desses novos apêndices são atrofiadas, pois eles caem em desuso (como se a humanidade não estivesse preparada para aumentar sua percepção das coisas, e evoluir).

Como saldo final dessas quatro histórias deliciosas (e ilustradas de forma inspirada,  por Clóvis Dias Júnior), as quais proporcionaram ao responsável por esta coluna um “um momento de alegria purinha (tal como Orelhão com as chinesinhas), o que fica mais evidente é a vitalidade, a simpatia que os narradores transmitem (e como isso é importante para fisgar o leitor em formação), simpatia da escritora por seus personagens, simpatia pela vida e pela História que nunca acaba…

os destinatários

TRECHOS SELECIONADOS:

“Ninguém me ligava e, com ele calado, ninguém notava que eu tinha um celular. Todo mundo tem, já virou coisa invisível, a menos que perturbe, tocando uma musiquinha daquelas. Daí sim, todos notam. Mas o meu não tocava. Eu é que não ia ligar pra ninguém porque meus créditos grátis tinham que durar três meses. Pior ainda, não encontrei mais nenhum carinha que pedisse o número do meu celular.  Eu já estava achando que tinham feito só uma pequena alteração da tal praga contra mim.

   Até que, segunda-feira passada, aconteceu o milagre. Eu estava sozinha na lanchonete em frente ao colégio, o celular espremido entre o prato do hambúrguer e o copo de guaraná e, de repente, tirintintim tirintintim. Era ele tocando.

   Fiquei nervosa, quase derrubei o prato e o copo, dei uma cotovelada no garoto desconhecido que estava ao lado, não achava o botãozinho que tinha de apertar, daí o carinha disse, com uma voz linda, bem grossa, parecendo de um rapaz mais velho:

__ Aperta o verdinho.

   Apertei e ouvi alguém gritar no meu ouvido:

__ Ô Murilinho, onde é que tu tá?” (trecho de Milagre de celular)

“Finalmente, ontem à noite, tomei uma decisão radical: resolvi fugir pra rua de qualquer jeito antes dos outros acordarem. Preparei um bloquinho e um lápis na minha mochila, pus meu despertador para as quatro e meia da manhã, debaixo do travesseiro pra não acordar meu pai.

   Pouco antes das cinco horas e do sol nascer, passei pela portaria do hotel, que já estava aberta. O porteiro se postou diante de mim com um olhar de dúvida e falou qualquer coisa naquele  inglês dele. Gele: não vai dar pé. Mas então tive uma inspiração, taquei meu  ´ni hau´, que quer dizer mais ou menos ´como vai´, que o Valdomiro tinha me ensinado, e fiz um gesto meio desajeitado, tentando imitar o tai chi chuan. A cara do chinês se abriu no maior sorriso, ele saiu na minha frente, esticou o braço pra direção da porta, e eu soltei meu ´xié, xié´, que é ´obrigado´. Saí tranquilamente pela rua. Fiquei feliz: tinha conseguido resolver um problema por meio do diálogo, com as duas únicas expressões que sei em mandarim (…)

    Daí a pouco virei uma esquina, cheguei numa avenida mais larga, com espaços bem amplos e ajardinados, no meio, e comecei a me espantar: vinha chegando gente de todo lado, de todas as idades, velhinhos e velhinhas velhíssimos, adultos, jovens da nossa idade e criancinhas, cada um escolhendo seu lugar, concentrando-se, respirando e começando seus exercícios preferidos, numa variedade enorme de estilos, uns parecendo cegonha se equilibrando num  pé só, outros dando saltos acrobáticos incríveis, daqueles de filme. Maior silêncio. Cada um na sua. Um não perturba o outro, um não invade o espaço do outro. A maior concentração, e tudo naquele sol  da manhãzinha começando a passar pelos ramos das árvores. Nem parecia que a gente estava no meio de uma cidade de milhões de pessoas!

   (…) E também me senti monstruosamente alto, gordo e desajeitado no meio daquela gente tão leve, como se eu fosse um baobá—lembra os desenhos daquele livro do Pequeno Príncipe que a professora da quarta série fazia a gente ler?—no meio de um bambuzal. Ali, eu senti que finalmente tinha chegado à China dos chineses.  (trecho de Orelhão em Pequim)

cuidado

“o digiolho era uma atrapalhação pras lavadeiras, porque ardia com sabão e água sanitária; pras costureiras, que precisavam das duas mãos pra puxar o pano na máquina ou pra costurar à mão. Morriam de medo de enfiar a agulha no tal do olhinho. O serviço delas ficou  bem mais difícil e vagaroso. O mesmo se pode dizer dos marceneiros, dos pedreiros, de quem tinha que tirar leite das vacas, dos mecânicos, das cozinheiras… Já pensou o perigo de cair pimenta no olho do dedo?

    Era um problemão pra quem gostava de jogar vôlei, sinuca, plantar bananeira, tirar meleca do nariz sem largar o que estava fazendo com a mão mais esperta, empinar pipa, tocar piano, violão, cavaquinho e assim por diante, praticamente pra todo mundo.

   Logo que a agitação da novidade passou e os problemas se apresentaram, a gente foi chegando à conclusão de que não podia ficar usando três olhos ao mesmo tempo. Melhor usar mesmo, no dia-a-dia, os dois velhos olhos da cara. Daí começamos a enrolar o dedo com uma tira de pano pra proteger o digiolho quando não estivesse em uso. Então, alguém teve a ideia de fazer uma roupinha, como um dedal de pano, mais bacaninha, e aquilo virou assunto de moda.

   Em poucas semanas, a digirroupa virou uma mania…” (trecho de O caso do digiolho)

“Tranquilo quanto à missão, enquanto a Clarinha me puxava pela mão, olhei á volta pra ver como era, afinal, a vida na Terra. A Terra era uma praça enorme, cercada de faixas nas quais estava escrito O MAIOR SÃO JOÃO DO MUNDO, cheia de barraquinhas, um cheiro delicioso de comidas desconhecidas, terráqueos de todas as categorias chegando aos milhares, uma música em alto volume que dava uma vontade irresistível de agarrar uma garota, apertar bem e sacudir o corpo todo, que era o que eu via um monte de nativos fazendo. Meu sistema informou: Forró, forró, forró. Dança, dança, dança.

   Bom, amigo, o resto você sabe, porque você estava lá com a galera da Clarinha. Puxa, que noite! Que experiência! Aprendi a dançar, a comer pamonha, comi e bebi tudo o que a Clarinha me deu, aprendi a beijar, a ficar, a namorar, percebi que aquilo entre as minhas pernas não era uma perna a mais, enquanto meu sistema interno quase enlouquecia de tanto piscar (…) Depois de horas de curtição, aprendi o que é cansaço. A Clarinha sentou no chão, encostou-se na parede de uma barraca, fez eu me deitar com a cabeça em seu colo, tirou meu boné e começou a coçar mina cabeça. Meu sistema piscou alucinado: Cafuné, cafuné, cafuné! Boné, boné, boné! Antena, antena, antena! Nem liguei, nem entendi direito o que ele queria…”  (trecho de O arqueólogo do futuro)

o que ela diz

UNIVERSO EM EXPANSÃO: O êxodo do rural para o urbano de Maria Valéria Rezende

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de agosto de 2006)

Vasto mundo, coletânea que marcou a estréia de Maria Valéria Rezende, extraía seu cerne do meio rural paraibano. No seu livro seguinte, O voo da guará vermelha, ela aproveitava a amplidão que o romance oferece para fazer com que a origem agrária das personagens não se perdesse totalmente no cinzento espaço urbano onde transcorre a trama principal, resgatando a trajetória do protagonista.

Sobrou pouco espaço para o rural nos dezesseis textos de Modo de apanhar pássaros à mão, embora o leitor que se tenha tomado de apreço por Farinhada (Vasto Mundo) e pelo casal Rosálio-Irene (O Vôo da Guará Vermelha) os reencontre em dois momentos: em Sagüi, vemos a prostituta Irene, apesar de aidética, relutar em aceitar clientes sem camisinha, não que a tentação não surja, e lutar contra uma lembrança simultaneamente dolorosa e alentadora; Maurílio, de A Bicicleta, pensa em voltar para Farinhada, devido à confusão em que se meteu movido por sua paixão pela bicicleta do título: “Parece que eu estava adivinhando quando vi você lá na loja, linda, roxinha, tão diferente das outras”.

Irmã de destino de Maurílio é a paraibana grávida que pede ao marido, o narrador de Desejo, que lhe arranje romãs em plena São Paulo. Pois sejam bicicletas roxas, sejam romãs, a vida nunca é apenas sobrevivência e luta. Mesmo com a perda do emprego e uma desesperadora fila de banco para retirada do fundo de garantia, há a possibilidade de reinventar a vida alheia (Ficção). Há até a possibilidade de se oferecer a própria miséria em espetáculo (Viaduto).

Essa brecha num cotidiano idiotizado e desmoralizador é explorada de forma poderosa num dos mais longos (e o melhor entre eles, junto com o conto-título) relatos do livro, Dilema: em meio a um universo de elevadores quebrados, subidas penosas até o andar em que se mora, emprego frustrante e vocação fracassada, Alicia descobre que o romanesco mora ao lado, encarnado na frágil vizinha, refugiada do Leste Europeu, dona Romana, com seu foulard cor de maravilha e quem sabe do que mais?”, com seu rosto rosado, “onde veinhas azuis desenham um craquelê de louça antiga”, com lágrimas das quais uma escorre e fica inteira, como um cabochon de cristal”, em cujo apartamento há “um relógio rococó, exposto sobre uma credência de bela marchetaria, enfim, da escolha das palavras que a autora tece caprichosamente em torno dela até o papel que ocupará no destino de Alicia, toda a aparentemente inocente figura da velhinha se destina a ser um modo de apanhar o leitor a laço, numa atmosfera que nada fica a dever a um Paul Auster.

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II

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de agosto de 2006)

Comentando Modo de apanhar pássaros à mão, destaquei na seção anterior o conto Dilema, no qual ao naufrágio da existência (revelado por meio de arruinados e petrificados objetos) de uma refugiada do Leste Europeu contrapunha-se uma reviravolta romanesca, eixo transfigurador do relato.

O cruel O sonho e o tempo não permite tal redenção à protagonista, a qual tenta, através da diáfana harpa que lhe coube de herança, emergir da decadência da sua família e dos interditos da vida como mulher. Tocar algum dia a harpa era o seu heroísmo para enfrentar o mergulho na pobreza. Esse é o sonho. O que o tempo faz com ele, é melhor nem contar, embora quando Maria Valéria Rezende conte até o cruel possa ser hipnótico.

A harpa também é a jaula etérea construída em torno da tia da narradora de Lamento para Harpa e Tuba (conto admiravelmente construído, um dos exemplos máximos do virtuosismo que Modo de apanhar pássaros à mão desvela, mais que exibe) condenada ao papel da solteirona da família, uma das “meninas”, seja em que geração estiver, até que um abençoado passo em falso a empurre para a turbulenta, chã e plebéia tuba.

Afirmei acima que a coletânea mais desvela do que exibe o virtuosismo da autora. É uma diferença fundamental, e nenhum relato a demonstra mais cabalmente do que o conto-título. Nos últimos anos, tivemos alguns autores que aliaram a exploração da violência urbana e a irrealidade contemporânea com os rescaldos de uma erudição, exibicionista e fútil, que caía meio de pára-quedas, caso de Rubem Fonseca (por exemplo, em Bufo & Spallanzani ou Vastas emoções e pensamentos imperfeitos) ou Patrícia Melo (Acqua Toffana).

É contundente a maneira como Modo de apanhar pássaros à mão utiliza a receita de um manual do século XVIII para que o narrador a coloque em prática no terreno mais artificioso e falso da civilização capitalista, o mais preocupado com o aparente e o efêmero: o universo da alta moda, aquele que desperta o desejo sendo apenas uma fantasmagoria, e aquele em que a mulher é imobilizada em imagens tão petrificantes quanto as dos contos de fada: bela adormecida, branca-de-neve. E, ao fim e ao cabo, o olho do fotógrafo obcecado pela mulher-imagem denuncia um abissal antierotismo (não só no sentido do sexo, quanto de Eros como sinônimo de pulsão de viver), característico desse universo, a sua tanatização, por assim dizer.

Trata-se de um ponto alto na nossa ficção atual. A autora ainda se permite fantasias caprichosas como a do irmão de Drácula que descobre os prazeres dos trópicos e dos rodízios de churrascaria (Metamorfose) ou da mulher que manda uma manifesto delicioso pela Internet antes de fechar de vez sua conta (Manifesto ou como antigamente), após um embate com uma feia realidade nada virtual, ainda menos virtuosa: “Agora vem esse gordão nojento, com o microfone sem fio na mão esquerda e já metendo a direita entre a calcinha e a bunda da menina… sem parar de berrar essa porcaria de mentira eleitoral, metendo a mão, a menina não quer, se retorce, se vira tentando escapar, me olha, ela também tem uma falha nos dentes, foi um segundo mas eu sei que ela me olhou suplicante, pedindo socorro, meto a mão na buzina, grito, xingo e ninguém me ouve…”

No seu êxodo do campo para a cidade, Maria Valéria Rezende parece ter mantido sua faca só lâmina, afiada e precisa.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Há meses que o reumatismo de Dona Romana vai passar logo e que Alícia assume o papel de enfermeira, companhia e, afinal, dona da casa. Sua literatura teve de ser posta entre parênteses mas isto vai passar logo, tanto quanto os achaques da velhinha. Alícia não confessa mas, no fundo, está gostando, sobretudo pela oportunidade que tem tido de xeretar nos misteriosos guardados da outra, atendendo aos constantes pedidos de Dona Romana para que procura uma coisa ou outra nos armários e gavetas, muitas vezes um mimo, um pequeno camafeu, um finíssimo binóculo para ópera, um livro, uma caixinha de lenços de renda de Bruxelas que quer dar a Alícia como forma de agradecer-lhe os cuidados. Até agora a bisbilhotice da escritora só lhe tinha rendido mais perplexidade sobre a verdadeira personalidade e a intrigante biografia da vizinha, além de algumas sugestões interessantes para algum trecho descritivo de um personagem que ela um dia há de criar. Mas nesta tarde de sábado, enquanto a outra dorme sua sesta, Alícia se aventura a esquadrinhar mais profundamente o estranho armário, que enche um terço da sala, cheio de gavetas e desvãos sugerindo compartimentos secretos e, abrindo uma gaveta quase invisível, perfeitamente encaixada e disfarçada em complicadas folhagens entalhadas, encontra três grosos cadernos de capa dura, atados com uma fina desbotada e cobertos de ponta a ponta pela fina escritura de Dona Romana, a mesma que, apenas mais trêmula, ela lê todas as semanas nas listas de compras a fazer. Impossível resistir…” (trecho de Dilema, a meu ver uma das obras-primas de Maria Valéria Rezende).

“Irene, cansada, cansada, como custa esforço não pensar em nada!, como custa afastar do pensamento a criança nos braços encarquilhados da velha naquele barraco fincado na lama, o papel amarelo com o resultado do exame, o médico falando, falando, falando, o tempo passando, passando, passando numa correria, quase todo dia já é segunda-feira, ir levar um dinheiro para a velha, ir saber se o  remédio prometido chegou, pegar o pacote de camisinhas e ouvir a assistente social lhe dizer que mude de vida…” (trecho de Sagui, fragmento belíssimo de O voo da guará vermelha)

“… minha mão se estende leve e firme ajeita melhor com um ligeiro toque uma das dobras do lençol de seda encobre revelando esta esplêndida nudez foi preciso ajudá-la a despir-se estava um pouco tonta mas ela consentiu claramente consentiu consentiu queria também  foi a bênção a consagração esse consentimento o desejo dela a entrega porque eu não quero só o corpo só a luz a cor a maciez o calor do corpo quero a alma de Íbis a alma que se entrevê agora que ela entreabre os olhos e sorri os lábios formando um silencioso vem! mas não não!  volto a sentar-me na poltrona imóvel meditativo não é a hora qualquer precipitação estragaria tudo tenho de conter-me…” (trecho de Modo de apanhar pássaros à mão, coitadinha da Patrícia Melo)

“… ei, bróder, porteiro, por favor, onde vende romã?, o quê?, essa planta aí é romã? um pé disso vivo em São Paulo?, no meio do cimento?, vejo nada, no escuro, nem conheço, por favor, chego aqui, abre essa grade, dá uma romã que eu tiro a morto, louco não, é minha mulher grávida com desejo, só quero uma romã, uma só, é romã?…” (um Cântico de Salomão degradado no asfalto da cidade grande, um dos melhores momentos da coletânea: Romã)

“…uma penteadeira fantástica, que Tia Lucinda chamava de psichê, com o enorme espelho oval cercado de anjinhos dourados, gordinhos, cada um diferente dos outros. Sobre o tampo de mármore rosado do psichê, misturavam-se uma infinidade de frascos de perfume das formas mais estranhas, batons e caixinhas de ruge, com que podíamos pintar-nos, aquelas caixas de porcelana para o pó-de-arroz, com tampas que eram bibelôs de damas antigas em poses lânguidas e saias de mil babados de tule, cofres com bailarinas rodopiando sobre espelhos, cheios de broches, pulseiras, anéis, colares que ela nos deixava revirar e experimentar o quanto quiséssemos. Felizes, acreditávamos que era tudo ouro e pedras preciosas, um tesouro riquíssimo em nossas mãos. Só no quarto de Tia Lucinda podíamos nós,  pobres injustiçadas no mundo dos grandes, mexer nas coisas, e vê-las à vontade com os olhinhos invisíveis que tínhamos nas pontas dos dedos…”  (trecho de Lamento para harpa e tuba)

“Todas as tardes lá íamos nós, em bando, para o cinema Pathé, ver o seriado do Homem Invisível, que eu não via mesmo, cega pela aflição de saber que ele ali estava, sua mão a poucos centímetros da minha, desejando o mesmo que eu, e uma prima sempre ao meu lado, que tampouco via o Homem Invisível porque não desgrudava os olhos de meu colo, tentando ver por ali, entre as duas poltronas, o excitante acontecimento do encontro das mãos…” (trecho de O Homem Invisível, que me lembrou o tipo de relato desenvolvido com tanta felicidade por Lygia Fagundes Telles em Invenção e Memória)

“Cresci, a lembrança de Polixena misturou-se com outras histórias de princesas, dragões, castelos e mistérios, que ficaram guardadas, envoltas em algodão num canto da memória, enquanto eu entrava no mundo imediato da adolescência com seus prementes desejos, medos, sensações e descobertas, mas, de algum modo, sabia que Polixena estava no centro daquele sentimento de privilégio e proteção com que eu atravessava a vida. Eu gostava das meninas e elas de mim, a namorada do momento consolou-me quando meu pai morreu, eu quase não via meu irmão e nem sentia sua falta, sentia-me amado, tivera um pai perfeito, tinha uma mão linda e amorosa, eu era feliz. Meu irmão era infeliz…” (trecho de A Princesa de Tróia, que ganha com a inserção no conjunto, mas é o momento mais fraco do livro)

“Já te contei, não foi?, como é que eu consegui comprar você com o dinheiro mais duro de ganhar da minha vida, o maior medo que eu já passei e até agora, pensando naquilo, eu me tremo todo. Eu que sempre passei longe do Bitola e da galera dele, eu, hein! Aquilo lá não presta, é droga, é assalto, é tudo o que há de ruim, e eu não quero nada com uma gente assim, me guardo dessas coisas que eu quero é ter o coração em paz, mas pra qualquer um pode chegar  uma hora como aquela, eles me cercando, a galera toda junto, e dali só se escapa pra morte. Morrer eu não queria não, que sou novo demais e, depois, o desespero de minha mãe seu eu morresse, já pensou?” (outro dos meus favoritos, A bicicleta)

“É hora de começar a investir, meu querido irmão, e que melhor investimento poderia haver para nós do que uma grande cadeia de churrascarias rodízio, abertas vinte e quatro horas, hein? Que me dizes? Negócio promissor e seguríssimo, já que a última coisa que as pessoas deixam de fazer, quando lhes faltamos meios, é comer! Já tenho todos os planos feitos  para a mais grandiosa dessas cadeias e pensei até em ligar as várias unidades  com um sistema de túneis que lhes acrescentaria encanto e praticidade para nossa administração. Exagerei nos planos mas não quero renunciar a nada e portanto falta-me um sócio que traga um bom capital. Que melhor sócio poderia eu desejar do que meu próprio irmão, o único que pode compreender profundamente o que tudo isto significa para mim?” (trecho de Metamorfose, o meu favorito pessoal, apesar de não ser necessariamente o melhor)

“Fico olhando o bumbum da garota se requebrando lá em cima, na beirada do caminhão, balançando a bandeirinha do candidato com uma mão mole, cansada. Não há mais nada pra eu olhar, o caminhão tapa tudo. Grande merda!, a menina não tem nem catorze anos, basta começar a tomar formas de mulher pra eles começarem a explorar, é só vestir minissaia, um exíguo top e sacudir a bunda, debaixo desse sol de duas da tarde, por dois cachorros quentes de carrocinha e dez reais no fim do dia.” (trecho de Manifesto ou Como antigamente)

“Reivindicou outra vez as aulas de harpa, mostrando as mãos agora magras e compridas. Não havia mais professores desse instrumento na cidade. Contentou-se, provisoriamente, com dois discos de música de harpa, para tocar na vitrolinha da irmã, quando esta permitisse. Fazia baixezas para obter tais permissões, inclusive acompanhar a irmã nas festinhas de quinze anos, nas tardes dançantes do clube, onde, segundo o pai, ou vão as duas ou não vai nenhuma…” (trecho de O sonho e o tempo)

“Acabou. Este pacotinho de notas é o ponto final, acabou-se, isto agora não volta mais pra trás, eu ainda com uma esperancinha até receber este dinheiro, está aqui a prova de que estou mesmo desempregada, nunca fui desempregada, antes era só ainda não empregada, pra que lado eu vou, meu Deus, nesse calor, nessa rua cheia de desempregados?, só pode ser, essa gente toda andando de um lado pro outro, desamparada, menos o rapaz feliz, solta ele ali, sabe muito bem pra onde vai, e por que é que eu estou indo atrás dele?, ai, não ande muito depressa, não vê que eu tenho as pernas curtas?, pra que correr tanto?, onde é que ele vai?, ai, graças a Deus, pro shopping… pelo menos tem ar condicionado!, espera, meu filho, eu estou de salto alto…”  (trecho de Ficção)

“Que nada!, na frente dele se juntando aquelas sombras impassíveis, muito mais gente do que ele viu no começo, velhos, adultos, multidão de crianças, olhando pra ele espantados, mas ninguém dá um passo pra fora do viaduto. Albérico tenta gritar ainda, convencer as vítimas a salvar-se, mas a voz não sai mais, acabou-se de vez. Tem um rádio qualquer ligado  nesse mundo: dezesseis horas e cinquenta e três minutos, chove a cântaros na capital paulista, e a chuva deve aumentar nas próximas horas. Aquela gente  toda ali parada, braços cruzados, não, não vai acontecer nada. Albérico sente a alma cair-lhe aos pés como um pedaço de papel molhado de lágrimas, antes disfarçadas pela chuva, agora denunciadas pelos soluços que já não dá mais pra segura: Vem pra cá, rapaz, sai dessa chuva, o homem magro com a barba enorme puxa Albérico pra debaixo do viaduto, o moço tá passando mal, gente, traz um caixote aí pra ele sentar. Aí, senta, moço, senta, rapaz. O viaduto não vai cair não, não tem perigo, esse é o melhor de São Paulo…”(trecho de outro ponto alto, Viaduto)

“Nunca fiz isto antes, mas o teu olhar dolorido desatou meu silêncio. Só eu vi, só eu sei, sei a profundidade, a altura e a amplitude da tua dor. Eu, sim, a velha tia silenciosa e apagada, tranquila como uma poça d´água que, não, nunca sofreu sua própria dor de amor, nem ardor de paixão, nunca sentiu punhal de ciúme, só sentimentos muito tênues, ínfimos encantos, pequenos dolorimentos em surdina, dos que nem arranham a pele da alma. Por isso mesmo meus olhos sempre foram claros, completamente videntes, porque nunca houve em mim sentimento soberano que os turvasse, nem desejos prementes que distorcessem os objetos e os fatos, nem expectativa ou ambição que me perturbassem a  intenção do olhar; pude permanecer sempre  atenta ao mundo fora de mim e por isso sempre vi os pequenos sinais, os detalhes que ninguém mais vê, laivos, leves traços, eflúvios, indícios, alusões, sutilezas, segredos…” (trecho de Toda dor tem fim)

“Não, vomitar agora, não! Eu prometo que se eu escapar desta eu nunca mais bebo, eu me conformo com minha vida, não penso mais em plástica, envelheço numa boa, eu troco este carrão por um fusca velho e dou o dinheiro pros pobres, vou ser voluntária no hospital do câncer, vou visitar a vovó todo dia, eu juro, meu Deus, me salva que eu tiro aquele Buda do meu altarzinho, está me ouvindo?, quem está me ouvindo?, Buda?, se você me salvar eu tiro a Nossa Senhora Aparecida, viu? Está me ouvindo, Nossa Senhora?, Iemanjá?, eu jogo aqueles duendes todos no lixo…” (trecho de É do cinema americano)

“Aurélia sabe apenas que este ano Rita é o primeiro destaque da escola, vai passar logo depois da comissão de frente, lá embaixo, no asfalto, a fantasia de Noiva da Noite, um esplendor que só mesmo o Alemão pode pagar. É hoje o desfile, o morro ferve, Aurélia pregou a última pluma na última fantasia minutos antes do sol nascer e correu pra pedra lá no alto, lá ficou todo o dia que não foi pra ela mais do que um momento, o longo e único momento da espera entre a partida e a volta, momento que terminou de repente, ao fim da tarde, quando viu entrar o navio na baía e soube que Orestes voltava nele, que não voltava para ela, que vinha apenas para a Noiva da Noite…” (trecho de Melodrama ou A Noiva da Noite)

Éramos, somos e seremos seis

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