MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/12/2012

Enquanto a América for o Império: GORE VIDAL (1925-2012)

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de agosto de 2012)

“A América, presa pela superstição da democracia, não se decide a ser um império.  A frase, de um dos contos do Livro de areia, de Jorge Luis Borges,  nos ajuda a entender o ambicioso projeto a que se propôs o recém-falecido Gore Vidal: além de ensaios, pronunciamentos de grande repercussão (e candidaturas fracassadas a cargos políticos), um painel romanesco que abrange o período em que, mesmo presa pela “superstição da democracia”, a América se tornou a maior potência mundial, para o bem e para o mal.

Tudo começou em 1967, com Washington D.C. (cuja atmosfera amplifica a da peça The Best Man, filmada como Vassalos da ambição, de 1964, grande trabalho de Franklin J. Schaffner). Em época de julgamento do mensalão e do escândalo Demóstenes Torres/Carlos Cachoeira, essas intrigas entre congressistas são uma leitura utilíssima. Inicialmente projetada como uma trilogia (completada por Burr, de 1973, & 1876, de 1976), a série se estendeu ainda com Império (1987), Hollywood (1990) e Os anos dourados (2000). Só Império chega perto de alcançar o nível do livro inaugural. Todos os outros alternam bons momentos com ninharias, e são arrastados e cansativos.

Lincoln (1984) é excelente em seu tratamento surpreendentemente sóbrio da figura do célebre presidente, sem irreverências ou desmistificações agressivas, opinião não compartilhada pela maioria dos leitores. Uns, por acharem o livro excessivamente longo e monótono, como considero aqueles já citados; outros, por acharem aquilo tudo muito distante de um leitor não-estadunidense (de qualquer forma, o presidente ali retratado ganhou vida numa interpretação magnífica do grandioso Sam Waterston).

VASSALOS DA AMBIÇÃOwaterstonlincolnvote em vidal

Além desse mergulho na história da sua pátria, duas outras vertentes se destacam na prolífica produção de Vidal (cujo primeiro romance, Williwaw, é de 1946; mas ele ficou famoso mesmo foi com o terceiro, A cidade e o pilar, de 1948, por tratar abertamente do assunto, então tabu, da homossexualidade, embora hoje se constate tratar-se de um livro fraco): os textos que abordam os problemas da nossa época de forma satírica e os que transcorrem em civilizações antigas.

Dentro da primeira vertente, Vidal publicou o seu romance mais famoso, explorando a liberação sexual dos anos 1960, Myra Breckenridge (sempre achei que seu insucesso como candidato se deve a ter publicado esse livro de 1968), que teve uma sequência, Myron (1974). Na mesma dicção  afrontosa, ele arrasou a jequice norte-americana que vemos cristalizada em cerimônias como o Oscar, em Duluth (1983). São trabalhos brilhantes, embora nessa linha meu predileto sempre tenha sido Kalki (1978), no qual uma conspiração para acabar com a raça humana (salvando-se uns poucos escolhidos) é baseada na mitologia hindu, nos ciclos de criação e destruição do mundo por Vishnu.

Além do maravilhoso Kalki, os livros de Vidal que considero mais notáveis pertencem à outra vertente (mergulhos em tempos históricos remotos), caso de Juliano (1964), no qual aborda a figura do imperador que tentou deter o avanço do cristianismo, e o insuperável Criação (um modelo no gênero), de 1981, em que um persa radicado em Atenas, revoltando-se contra as “besteiras” que ouve de Heródoto, relata suas viagens pelo mundo e o contato direto com as concepções de Confúcio, Buda (e mais Sócrates e o zoroastrismo).

Portanto, temos uma série de títulos que eu não cansaria de recomendar ao meu leitor: Washington D.C, Império, Lincoln, Kalki, Juliano, Criação. Nada mal. E então vem a espinhosa questão: Gore Vidal foi um grande escritor?

criação

Impressionou-me muito sua célebre entrevista para a “Paris-Review” nos anos 1970, porque —entre várias outras observações acuradas, às vezes cruéis— ele falava da sua admiração irrestrita pelo extraordinário William Golding (o qual, embora mais velho, começara a publicar bem depois dele). Num meio tão competitivo e cheio de vaidade, e com uma personalidade do tipo “língua afiada” como Vidal, foi um cumprimento de um colega de profissão a outro absolutamente admirável. Mais ainda, a meu ver: um exercício de modéstia (que ninguém esperaria dele) ao reconhecer a existência de um escritor verdadeiramente grande, genial. Vidal não foi esse escritor verdadeiramente grande, genial.

Quando abordou a vida de Aaron Burr, o lendário vice que nunca conseguiu se tornar presidente, num de seus romances sobre a construção do império americano, ele de certa forma dramatizou sua própria condição de escritor: maravilhosamente dotado de talento, verve, perícia narrativa, mas que ficou no “quase”. Num “quase” de altíssimo nível, diga-se de passagem, especialmente naqueles momentos citados. Agora: mesmo com seu carisma, não foi páreo para nenhum dos companheiros-rivais de geração (uma das maiores que a ficção dos EUA conheceu): Norman Mailer, Truman Capote, Ralph Ellison, William Styron e, sobretudo, Saul Bellow. De qualquer forma, a conta ainda está por fechar.

E Gore Vidal, grande ou “quase”, nunca deixou (e ouso dizer que nunca deixará) de ser interessante e necessário. Pelo menos enquanto a América for o Império.

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