MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/12/2012

SOLIDÃO EM FAMÍLIA À MODA ANNE TYLER


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 22 de julho de 1997)

 Com A Passagem de Morgan, publicado em 1980, Anne Tyler começou sua grande fase como romancista. Logo depois veio sua obra-prima, Diner at the homesick restaurant (1982), título que se presta a péssimas traduções; em seguida, seu romance mais conhecido, O turista acidental (ainda mais devido ao belo filme de Lawrence Kasdan, um dos raros casos em que o resultado da adaptação é tão bom quanto o da fonte original), finalmente, o Pulitzer por Lições de vida.

Agora em 1997, A Passagem de Morgan é publicado no Brasil (com tradução de Pinheiro de Lemos) com uma capa que nos mostra um sujeito que parece ter fugido de Muito além do jardim, aquela sátira onde Peter Sellers fazia um idiota viciado em tevê que era confundido com um sábio. Esse é o grande perigo com relação ao personagem central do livro, Morgan: tomá-lo como uma caricatura apenas. Como ele é muito esquisito e idiossincrático, assim como o professor Pnin do romance de Vladimir Nabokov, a tentação é vê-lo como uma figura folclórica, que serviria tranquilamente para overacting de algum ator hiper-histriônico tipo Robin Williams (o Malcolm de O turista acidental, que também é muito esquisito, ganhou a sorte de William Hurt tê-lo interpretado com todo o requinte do seu bom senso e genialidade de ator).

Morgan é um pai de família (esposa e SETE filhas) de Baltimore (cidade que está para Anne Tyler como Curitiba para Dalton Trevisan), gerente de uma loja de ferragens, que procura escapar da petrificação do cotidiano fingindo ser outra pessoa de vez em quando (além de usar roupas e chapéus estranhos). Um dia, quando uma moça entra em trabalho de parto numa apresentação de teatro de fantoches, ele se passa por médico e faz  o parto dela. A partir daí, ele passa a seguir o casal em questão, Emily e Leon (os quais trabalham justamente com fantoches), que para ele representam uma “família pura”, sem excesso de objetos, eletrodomésticos e emoções das famílias em geral.

Como nada pode permanecer “em estado puro”, Morgan acaba entrando na intimidade de Emily e Leon e eles na intimidade da família dele. Pior ainda, ele e Emily têm um caso. Isso permite a Morgan fazer a sua passagem, isto é, assumir o papel que era de Leon na sua concepção extremamente idealizado do casamento (despojado puro)  de Emily . Ele leva para a casa dela a mãe desmemoriada, a irmã neurótica, o cachorro e milhares de bugigangas. Até que um dia surge a oportunidade de realmente começar uma vida nova, em outro lugar…

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Alguns críticos acusam Anne Tyler de permanecer numa espécie de limbo agridoce, sentimentalista. Ou seja, ela escreve bem, só que não consegue ultrapassar a trivialidade ao tentar imitar o cotidiano, a vida comum de família comuns (ou nem tanto).

Quando se lê A Passagem de Morgan percebe-se o quanto essa visão crítica é equivocada. Poucos autores são tão perversos e cruéis quanto Anne Tyler, sem que ela precise chegar ao nível de taras e loucuras das peças de, por exemplo, Nélson Rodrigues. Embora se movimente pelo espinhoso emaranhado dos sentimentos familiares, a impressão que se tem é que muitos desses sentimentos são forjados e confundidos com hábitos neuróticos, com referências, com  uma idéia de realidade que as pessoas vão construindo à sua volta como uma gaiola (o que o protagonista de O turista acidental manifestava ter plena consciência, ao escrever manuais que ensinavam a pessoa a reproduzir seus hábitos cotidianos mesmo em viagem).

Para se perceber bem como, para a grande escritora de Baltimore, os sentimentos são gaiolas pré-fabricadas, muito confortáveis e cômodas, mesmo quando a pessoa parece estar vivendo num  inferno, basta ver a facilidade com que, nos seus romances, as pessoas de repente abandonam suas famílias, seus seres amados. Só que para Anne Tyler tal facilidade em abandonar vínculos não redunda em liberdade. Rapidamente somos compelidos a criar outras gaiolas, outro engradado de referências, hábitos e sentimentos.

Independentemente das questões mais incômodas que sua obra pode levantar, sempre é um prazer ver como ela consegue dar vida às famílias, às pessoas, aos ambientes. Após algumas páginas de A Passagem de Morgan é como se o leitor sempre tivesse vivido a vida da família de Morgan, ou como se tivesse sido desde a infância amigo de Emily, essa personagem admirável, cujo foco de visão sobre o mundo parece refletir, em certa medida, o pensamento da autora norte-americana. De fato, é através de Emily que Morgan (e o leitor) tem um lampejo do que é realmente a solidão em família: Morgan está passando férias na praia, com sua esposa, sua mãe, sua filha caçula. Aparece sua irmã. Ela convida Emily, seu marido, e a filha (que Morgan ajudou a trazer para o mundo). Estão todos juntos, sufocantemente juntos, mas Emily, que é quem tira as fotografias, mostra cada um deles isolado, sozinho, preso na sua gaiola de gestos, manias e trejeitos adquiridos…

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/08/05/enforcando-se-nos-lacos-de-ternura/

capa em inglês

 

     

2 Comentários »

  1. Sou fã da Anne desde que li há uns 10 anos atrás “Um jantar no restaurante da saudade”… Achei maravilhosa a forma como você falou dela… é isso… é assim que ela é!!!

    Comentário por Pandora — 13/06/2013 @ 16:17 | Responder

    • Obrigado, fico muito feliz de encontrar outros leitores de Anne Tyler. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 13/06/2013 @ 17:07 | Responder


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