MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/12/2012

POR DETRÁS DAS PALAVRAS DESENCONTRADAS: a estreia memorável de Maria Valéria Rezende


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(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 8 de maio de 2001)

Numa conferência sobre o papel da literatura na formação do homem, Antônio Cândido se refere à importância do regionalismo para a ficção brasileira e a seu processo de democratização: da tirania do pitoresco e do exótico, executada por um escritor representante da norma culta, o qual se diverte e diverte o leitor imitando e caricaturando uma linguagem inculta e dialetal, para uma assimilação do falar inculto e dialetal dentro da própria linguagem do narrador. Um dos grandes precursores dessa atitude mediadora, por assim dizer, que atenua o choque hierárquico entre a norma culta e a fala regional, foi João Simões Lopes Neto (dos Contos Gauchescos), que trouxe o universo do homem “rústico” para a esfera do “civilizado”. Como diz Cândido, “o leitor nivelado ao personagem pela comunidade do meio expressivo, se sente participante de uma humanidade que é a sua e, deste modo, pronto para incorporar à sua experiência humana mais profunda o que o escritor lhe oferece como visão da realidade”.

É no extremo desse processo democratizante e solidário que se encontram os contos de Vasto Mundo, de Maria Valéria Rezende. Todos se passam no povoado de Farinhada, na Paraíba, que nem está no mapa (mas que, ora em diante, constará de toda a cartografia literária que se preze), e nos seus arredores (o sítio Ventania, Itapagi, Cataventos, onde fica o Rabo da Gata, a zona das prostitutas), e quase todos praticam o chamado discurso indireto livre, isto é, não se deixa muito claro o que pertence ao narrador e o que pertence ao personagem, portanto não há um distanciamento nítido entre culto e inculto, entre literário e popular.

O único conto em primeira pessoa é Morte Certa, no qual a narradora conta como o pacato Chico Quinta-Feira foi misteriosamente assassinado na sua frente, mas mesmo o narrador em terceira pessoa nunca se afasta muito do ângulo de visão das personagens, seja daqueles simplórios que se iludem com um possível amor, como Preá no conto-título, que sobe na ponta da torre da igreja para locar um beijo à moça forasteira (e assim inaugura a brecha entre o cafundó e o vasto mundo); ou como Mocinha, de Olhares (um dos melhores momentos de uma coletânea que prima pela unidade e coesão), que mal existia no mundo e que passa a se arrumar e valorizar porque um forasteiro pisca incessantemente para ela (mas é um problema fisiológico); ou como Josineide, de Um amor de Outro Mundo, que espera o homem certo, o príncipe encantado, e que acredita ter engravidado de um E.T.; ou como aqueles que abraçam uma causa política, como o sapateiro (e depois o seu filho) de O azul e o encarnado, o padre Franz de Não se vende jumento velho ou a freira de Aurora dos Prazeres; ou como aquelas mulheres que jamais pensariam em entrar em alguma causa política e, no entanto, acabam envolvendo-se por força das circunstâncias e da compaixão, como a mulher do latifundiário em O tempo que Dona Eulália foi feliz, ou como a mulher que lidera uma cantoria religiosa (e também de protesto) pela prisão de um posseiro em A guerra de Maria Raimunda; ou ainda como a mulher que nada tem a ver com política, mas quer recuperar a virilidade do marido, contratando uma prostituta em A obrigação; ou até como um matador que se angustia numa cafua em Medo. É como a própria autora (que não se assemelha em nada a uma escritora “estreante”), assumindo a “voz” da  Vila,  afirma de início: “Creio ter compreendido que nisto consiste o serem humanos, em poderem ser narrados, cada um deles, como uma história”.

antonio candidoantonio_candido_literatura_sociedade

E por meio dessa penetração nos corações e mentes dos personagens é que se executa a mágica dialética entre o mundinho de Farinhada & arredores  e o tal “vasto mundo”: são forasteiros que chegam (como o jogador o qual, através de artimanhas, consegue a mão da moça mais bonita do lugar “e talvez do mundo inteiro”, em Sorte no jogo), são migrantes que vem aqui para o sudeste, é o E.T. que supostamente aparece no lugar, é o Iraque que aparece na tela da única televisão a que o zé povinho tem acesso (“Deve ser bem longe, que aqui ninguém nem ouve a zoada os tiros”, olha que genial), é o violento latifundiário, marido de dona Eulália (aquela que tem seu “tempo de felicidade”), que vai para Houston, após ser acometido por uma doença que o torna fétido.

O que importa, no entanto, é que “mundo, mundo, vasto mundo”, mesmo nesse mundinho onde-judas-perdeu-as-botas da Paraíba, os dramas humanos são aqueles mesmos de sempre, não muito diferentes do sudeste onde tantos familiares do povo de Farinhada se perdeu e da própria Houston.

Toda a empatia democrática demonstrada à exaustão por Maria Valéria e sua arte narrativa corria o risco de hipertrofiar-se numa idealização do povo, e às vezes certas soluções “coletivas” (como em Aurora dos Prazeres & A guerra de Maria Raimunda) parecem de fato idealizantes demais no seu exagero entusiástico pela força dos movimentos populares. Dois outros textos, porém, encarregam-se de fornecer a poética que norteia Vasto Mundo: a crença no socialismo democrático muitas vezes se transforma no exercício utópico, o que é um vezo da literatura latino-americana em geral, e que anda meio esquecido. São eles Boas notícias & Vou-me embora, os mais esclarecedores e emblemáticos da coletânea (embora o melhor, a meu ver, seja o maravilhoso Não se vende jumento velho).

Em Vou-me embora no anseio do professor Paulo Afonso em saber a localização da Pasárgada de Manuel Bandeira vemos a transfiguração do cotidiano pelo apelo poético e utópico, que também aparece em outros momentos de Vasto Mundo, como as representações de cenas bíblicas em A ressurreição ou o uso das fitas azuis e vermelhas no pulso, em brincadeiras pastorais e namoradeiras, representando a luta contra o poder em O azul e o encarnado.

E no belo Boas notícias (que tem um enganoso parentesco com o argumento de Central do Brasil), a mulher que lê as cartas de parentes para o pessoal do sítio Ventania e reinventa os fatos, afastando ou suavizando os detalhes ruins representa um pouco do projeto transfigurador da própria Maria Valéria Rezende, ao transformar seres humanas em vidas narradas, impulsionando seu texto muito além da mera denúncia factual (estamos aqui em outro nível de participação social e aproveitamento do regionalismo, de um raro quilate): “Era bom fazer um mundo melhor e aos poucos passou a viver como se o que inventava fosse a verdade, como se as notícias funestas é que fossem invenções de alguma alma maldosa que se apossara do correio. Já não se sentia mentindo, apenas interpretando a verdade que se escondia por trás de palavras desencontradas”.

a releitura de vasto mundo para neoleitores

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TRECHOS DOS CONTOS

Nota de 2012Relendo os contos da coletânea, me dei conta de que gostei ainda mais desta vez, e de todos em geral (não há um único conto fraco ou titubeante em Vasto Mundo, até Ressurreição, para o qual eu tinha torcido um pouco o nariz na primeira leitura, me agradou muito nessa revisão).  Algum dia, discutirei a classificação dada pela Beca ao livro como “romance”. Dadas várias experiências literárias, entre as mais recentes a do Inferno Provisário de Luiz Ruffato, em que histórias “soltas” são amarradas com a etiqueta de “romance”, e dado que o mundo de Farinhada preenche esse requisito de forma muito mais convincente e orgânico, até poderia ser tentado a aceitar essa classificação. Mas deixo para depois essa discussão.

Fiz as citações não pela ordem do índice, mas por essa preferência pessoal:

“Desistindo aos poucos de fazer retornar o padre à sobriedade permanente, a gente de Farinhada foi se conformando e passou a tratá-lo com maior carinho, como mãe que privilegia o filho mais fraco ou mais malandro. Encarregavam-se, por turnos, de levá-lo de volta para casa a cada entardecer. Limpavam-lhe a casa, lavavam-lhe a roupa, zelando para que não andasse sujo e nem caísse pelas calçadas. Com incansável paciência, as mães da vila faziam-no comer  empregando os estratagemas com as crianças de colo.

   Farinhada já se acostumava com os novos modos do padre. De qualquer jeito, era seu padre, o único que jamais tinha tido e que a libertara do medo do deus castigador, revelando-lhe o Deus maternal que se preocupa até mesmo com a situação da safra de feijão dos pobres ou com a diarreia dos meninos. As atividades religiosas e sociais retomaram seu ritmo, com os leigos cuidando de tudo. Até o dia em que as moças voltaram da reunião das catequistas em Itapagi, com a notícia que, por obra da gente de Assis Tenório, o bispo já sabia de tudo e vinha no sábado para levar embora o padre Franz…” (trecho de Não se vende jumento velho; se eu tivesse de fazer uma antologia dos meus contos prediletos, escolheria esse para representar o mundo de Farinhada)

“Aquele homem enorme, que jamais se vira por aqui, sabia bem para o que viera. Estacionou o caminhão vazio no pátio do posto e atravessou a rua com passo lento e seguro em direção a Maria Laura. Não foi preciso que dissesse nada para que a multidão dos basbaques ali postados lhe fosse abrindo o caminho, até que parou na primeira fila a menos de dois metros da janela. Plantou firmemente no chão aquelas pernas que pareciam troncos, cruzou os braços que pareciam pernas sobre o peito de touro e fixou na mulher olhos grandes e doces como os de uma vaca. Não se moveu mais até a madrugada. Foi assim por mais três dias, desde que se abria a janela, ao sol das duas da tarde, até que se fechasse aos primeiros sinais do amanhecer: ele olhava a mulher e ela o olhava. Ninguém sabe o conteúdo da muda conversa que se teceu entre os dois, mas os mais próximos e atentos acreditaram perceber uma sutil mudança em Maria Laura, como se sua beleza chegasse enfim à perfeição final. Alguns já nem puderam mais mirá-la, ofuscados.” (trecho de Sorte no jogo, que mostra que Maria Valéria leu muito atenta e proficuamente García Márquez)

“De volta ao Rio de Janeiro, esgotados os recursos médicos modernos, nos meses que se seguiram, apelou-se para o sobrenatural, o alternativo, o que fosse. Procuraram u famoso médium, que incorporava um doutor alemão, para que se operasse espiritualmente o fazendeiro mas foram informados de que aquele mal ultrapassava os poderes normais de cura espiritual. Mandaram vir os mais famosos babalaôs e babalorixás, pais, mães, filhas e filhos-de-santo, astrólogos, adeptos dos florais de Bach e da neurolinguística, numerólogos e videntes, ciganas, exorcistas e frades milagreiros, grafólogos, tarólogos, ufólogos, bruxas modernas, dançarinas do ventre, entendidos de I-ching, de tai-chi-chuan e de tae-kuon-do, terapeutas de vidas passadas, psicanalistas de todas as correntes, cabalistas, pajés de várias tribos, massagistas japoneses, acupunturistas chineses, bailarinas tailandesas, um chef de cozinha francês, hipnotizadores, faquires, ecologistas, encantadores de serpentes, professores de aeróbica e hidroginástica, padres e pastores de todas as igrejas que operavam curas, representantes do reverendo Moon, o preparados físico da seleção brasileira de futebol, rastafáris, roqueiros e funkeiros, gueixas e marafonas, mandaram buscar um pergaminho iluminado com uma bênção especial do Papa, uma fotografia autografada da Princesa Diana…” (trecho de O tempo em que dona Eulália foi feliz)

“A vida correu, por mais de sete anos, Maria do Socorro feliz, Cicinho crescendo, Pedro silencioso: nem á mulher contou o que se havia passado durante os anos em que desaparecera da vila. Assim teria continuado, que já se iam esquecendo dos tempos de ausência e doença do sapateiro, mas o rebuliço que andava acontecendo pelo país afora foi bater em Farinhada na pessoa de um jornalista e mudou uma vez mais a vida de Pedro de Antonino. Veio primeiro o repórter sozinho, perguntando por um tal Pedro Lima, filho dali de Farinhada. Só havia um. Durante quatro dias perguntou, o senhor foi estivador em Santos, esteve na Espanha, esteve na França, sem resposta, sem cessar, até que Pedro de Antonino olhou-o como quem volta de muito longe e disse: sou eu. Daí em diante aconteceram, em pouco tempo, coisas que agitaram toda a vila e encheram de orgulho os farinhenses, ainda que não entendessem completamente o que aquilo significava.” (trecho de um dos contos mais ricos sob o ponto de vista da técnica narrativa: O azul e o encarnado)

“A cada dia um novo passo a caminho da felicidade: terça-feira dobrou a cintura da saia para  encurtá-la, quarta-feira soltou os cabelos, quinta-feira foi á casa de Seu Feliciano e arranjou um serviço para distribuir camisetas do candidato de Assis Tenório e recolher os títulos dos eleitores beneficiados. Pagaram bem, bendita política! Sexta-feira foi ao Bazar Duas Irmãs e comprou um par de brincos dourados. Sábado, o lotação de Itapagi chegou e ele não veio. Logo hoje que estava se sentindo tão bonita! Dedicou o sábado e o domingo a aperfeiçoar as cenas de seu futuro com Roberto Carlos, sonhando acordada. À tardinha, quando todos os jovens da vila se concentravam na praça, ajeitou-se toda, botou os brincos e também foi. Seria impressão ou aquele rapaz do novo posto do correio estava olhando para ela de um jeito diferente? Não é que estava mesmo! E ali adiante, aquele  outro. Enxeridos…” (fui um pouco obtuso na primeira avaliação desse conto, Olhares, pois se o adorei, prestei mais atenção na crueldade patética da situação dos “olhares”, sem perceber que ao mesmo tempo havia um desabrochar da moça para além desse núcleo meio Cabíria ou Macabéa, lembremos de Machado de Assis: “O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”.)

“Desde então, Zefinha Lima tornou-se guardiã da alegria tranquila do sítio Ventania. Nunca mais emprestaria sua voz para uma notícia ruim. Quando as cartas eram boas, lia ou escrevia com a maior fidelidade, sem omitir uma palavra. Não mentia á toa, pelo gosto de mentir. Continuava a ser uma mulher verdadeira, mas a verdade maior era que aquele povo precisava viver. Que podiam eles fazer diante das desgraças já acontecidas, tão longe? Já bastava o peso cotidiano das duras tarefas do roçado e da casa, do sol quente e dos mosquitos, do medo das mordidas de cobras e das truculências de Assis Tenório que os explorava até arrancar o couro, do esforço sem descanso para sobreviver na pobreza. Bastavam as desgraças, doenças, mortes e malfeitorias que aconteciam ali mesmo, aos olhos de todos, que ela não podia mudar.

   Para a professora do sítio Ventania, impedir que as más notícias andassem daqui para lá e de lá para cá, espalhando tristeza e agonia, tornou-se uma missão. Quando era impossível esconder de todo um fato triste, pelo menos retirava-lhe a violência.” (trecho de Boas Notícias, que pode ser tomado como uma “poética de Farinhada”)

“E foi daí que Maria Raimunda, que tinha ficado só espiando a confusão, que não tinha nada a ver com isso, segura lá no sítio dela que ninguém podia tomar, entrou na história.

    Maria de Zuza não aguentou mais, vendo o marido, pai de seus filhos, homem de bem que nunca tinha pisado em delegacia nem por bebedeira, assim preso e maltratado feito malfeitor. Foi falar com Padre Franz e ele lhe disse que Deus olhava pelos pobres, aguentasse, tivesse paciência, tivesse coragem. Ela não tinha mais, não podia. Foi buscar força na casa da tia que para tudo tinha saída. Maria Raimunda viu Maria de Zuza chorando, olhou a penca de crianças agarradas nela, chorando todas, o bucho grande já em ponto de parir mais um, afastou a pena que vinha vindo e deixou crescer a raiva. Banhou-se, vestiu-se, agarrou num terço, saiu de casa e foi passando pelos sítios vizinhos chamando as mulheres que estavam na hora de rezar e foram todas atrás dela, no sol da uma da tarde, hora mais estranha para rezar!, porque é difícil resistir à autoridade de Maria Raimunda.” (trecho de A guerra de Maria Raimunda)

“Nos dias que se seguiram, muita gente jurou ter visto coisas estranhas, mas nenhum sinal concreto da presença do extraterrestre foi encontrado. Farinhada, o povoado mais perto da famosa curva, encheu-se de jornalistas, equipes de televisão e curiosos. Só o pessoal da NASA não apareceu. A pensão de Dona Inácia fez bons lucros, as meninas namoraram os fotógrafos, Erlinda vendeu mais de seiscentas empadinhas na praça, Padre Franz passou horas tomando cana e conversando de política com os jornalistas, enfim, uma semana de festa e distração. Passados sete dias sem sinal do viajante astral, a imprensa volúvel foi-se embora e as águas da rotina farinhense voltaram ao seu leito.

    Farinhada já começava a esquecer o episódio do disco voador. O extraterrestre, se é que existia, com certeza não havia mesmo de ficar num lugarzinho chinfrim como Farinhada e devia ter ido para uma cidade importante. Apenas Josineide não podia esquecê-lo: desde o dia da notícia alguma coisa mudara  em seus sonhos premonitórios…” (o delicioso Um amor de outro mundo; alguns anos mais tarde, Maria Valéria narraria outra visita de E.T. ao Nordeste no belo e divertido O arqueólogo do futuro)

“Oxente, então não é estranho esse caso? Pois se Raimundo Balbino, que qualquer um conhecia aqui na vila, que nunca saiu de Farinhada para nada além de Itapagi, já tinha morrido fazia para mais de três anos, de um caroço que lhe deu no espinhaço, foi se acabando bem devagarinho, para morrer na rede pendurada na sala da frente, de porta e janela aberta por mor de todo o mundo ver, de vela na mão, com Padre Franz de estola roxa ungindo o home, a prefeitura já avisada para emprestar o caixão, a cachaça já comprada e o café já feito na  cozinha para a sentinela, tudo normal como tem de ser a morte de um cristão! E Risoleta que nem gritou de desespero, nem se agarrou com a tampa do caixão de Chico pra não deixar fechar, ficou só ali parada  e calada a noite toda, olhando para o marido, quase que sorrindo…” (trecho de Morte Certa)

“Saíram da vila e do tempo, viveram por duas horas na Palestina, envolvidos em profundas emoções. Nem repararam que a rainha Herodíades era banguela, que a donzela Salomé estava buchuda de sete meses, que a cabeleira de Madalena escorregava para um lado e que se tocava o nosso velho baião na corte do rei Herodes. As palavras desconhecidas que pontilhavam os versos alexandrinos em que se desfiavam as falas em nada diminuíam sua capacidade de comover.” (trecho de Ressurreição, que agora só me desagrada um tantinho pelo seu ar “clube de conto”—Maria Valéria vai me entender)

“Um dia ouviu a Irmã Odete explicando a um grupo de moças mais velhas a beleza da vida religiosa e que qualquer uma delas podia estar sendo chamada. Aurora entendeu tudo e tomou sua decisão.

   Aos dezoito anos, quando o irmão mais velho casou-se e trouxe a mulher para dentro da casa. Aurora esperou que o irmão menor se curasse de uma catapora, enrolou numa toalha as poucas roupas que tinha, o velho livro de rezas da mãe, deixou recado com a cunhada: Diga a Pai que fui viver com as freiras na casa de Deus.” (trecho de Aurora dos Prazeres)

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“Três vezes se confessara com Frei Damião. Dissera tudo: que se deitara com mulher-dama e com mulher casada, que embuchara uma moça e depois a abandonara na zona, que chamara nomes, que jurara o Santo Nome em vão, que pensara em fazer acordo com o Cão… As mortes não disse, que não entravam no rol dos pecados. Recebera a bênção e tomara a Santa Comunhão das mãos do frade santo.

   E agora? Descobrira que era medo aquela mão gelada e dura esmagando-lhe o peito, o tremor no corpo inteiro, o suor frio, as tripas se retorcendo cada noite. Medo do Cão, porque se desviara de seu caminho: sem mandado de ninguém, matava com raiva um inocente.”  (trecho de Medo)

“Paulo Afonso esquadrinhara os atlas do velho padre, a enciclopédia amarelada e rota, começando pelas regiões mais longínquas, onde talvez ainda houvesse reis. Nunca pudera encontrar Pasárgada e acabara por voltar sempre, esmorecido, a Itapagi… a Farinhada não podia voltar porque não aparecia em nenhum mapa. Com o tempo, já nem buscava mais precisamente aquela terra, simplesmente vagava ao léu, por caminhos imaginários, enquanto Padre Joaquim cochilava na cadeira de balanço. Ia escolhendo e colecionando nomes de lugares encantados que copiava num caderninho e escondia como um tesouro:  Karakoran, Bangalore, Anatólia, Bucaramanga… muito longe, para além de oceanos e cordilheiras…ou Almenara, Parintins…. até Alhandra, Sirinhaém, logo ali, a apenas alguns milímetros de distância. Dos nomes terrestres passou aos nomes das estrelas: Sirius, Canopus, Antares, Aldebarã…” (trechos de Vou-me embora)

“Não adianta, o padre não entende essas coisas. Como é que pode dizer que não é obrigação, se foi Nosso Senhor que mandou e ele ainda mais fez promessa?  O padre diz que hoje é diferente. Como é que se pode mudar as coisas de Deus assim? Ai, bem que ficava aliviada… mas como é que ainda vou juntar pecado meu com o pecado dele se eu deixar tudo de banda e contente de não fazer mais o sacrifício como sempre fiz? Minha Nossa Senhora da Conceição, tenha pena, e me dê um ensinamento de como trazer a força desse homem de volta. Prometo que nunca mais vou ficar ali pensando que bom que era que não tivesse de aguentar aquilo, prometo que não vou me queixar do bucho grande, das varizes, da canseira e de aperreio de menino.” (trecho de A obrigação)

“Farinhada toda já sabe do amor de Preá e da exigência da moça. Apostam que ele sobe, que ele não sobe. A torre da igreja é alta e fina como uma agulha, como as da terra do Padre Franz, que a mandou fazer. Dona Inácia diz que é maldade da moça, diz a Preá que não suba. Mas o povo espera o domingo com mais interesse do que o clássico jogo de sábado contra o Itapagi Esporte Clube: Preá é leso, vai subir mesmo… Erlinda está fazendo coxinhas para vender na praça durante o acontecimento. Disseram que vem um caminhão de gente do sítio Ventania só para ver.” (trecho de Vasto Mundo, que, de qualquer forma, é um conto paradigmático).

 valéria em verde

1 Comentário »

  1. […] outra resenha, publicada também em seu blog, mas escrita originalmente para o jornal A Tribuna, Alfredo Monte […]

    Pingback por E o mundo é vasto - O Benedito — 26/02/2015 @ 10:41 | Responder


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