MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/12/2012

O gume afiado do Machado e a luva de pelica à Jane Austen


DO BAÚ DE SURPRESAS DO VELHO MACHADO

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 04 de março de 1997

Que Machado de Assis seja o maior escritor brasileiro todo mundo tem ciência. De vez em quando, no entanto, é bom lembrar, para que ele não fique como um baú velho esquecido, ou sofrendo eternamente o inferno astral didático a que o condenaram, como leitura chata e obrigatória “porque cai no vestibular”. Nesse sentido, é louvável que a Globo coloque em circulação novamente suas Obras Completas (numa edição de banca, onde a qualidade do papel deixa muito a desejar, apesar da feliz escolha da linha de capas), iniciando com Dom Casmurro (1899) e A mão e a luva (1874). Por conta desse lançamento, resolvi reler, após muito tempo, o segundo.

Leitura de colégio, livro água-com-açúcar, trama insípida, romance menor da fase romântica de um escritor realista genial, que ainda não alcançara seu estilo. Eram esses os clichês mentais que etiquetavam esse segundo romance de Machado (o primeiro foi Ressurreição, 1872). A conclusão inevitável era que não valia a pena perder muito tempo com ele, que só tinha valor histórico ou, então, para especialistas.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que é um prazer ler A mão e a luva, um livro ironicamente malicioso, onde o romantismo é equacionado pela perversidade machadiana, a qual só não pode se expandir mais porque tem de alimentar as aparências folhetinescas. É lógico que, na comparação com Dom Casmurro, apresenta deficiências gritantes, em particular o descompasso entre a ironia elegante do estilo e o conformismo, para não dizer oportunismo, que parece ser a base filosófica da trama. Digamos de maneira melhor: Machado de Assis ainda não é o dono de todos os seus recursos. Mas já é bem Machado de Assis.

O enredo é simples. Guiomar é uma moça pobre, agregada à casa de uma Baronesa, e que de certa forma substitui a filha que a dama perdera. A Baronesa deseja que Guiomar case com seu sobrinho, Jorge. Ela, porém, o despreza por ser um inútil enfatuado, assim como despreza o romântico e pueril Estevão, seu primeiro pretendente na narrativa. Aliás, a primeira cena do livro é a revelação do amor de Estevão por Guiomar a seu melhor amigo, Luís Alves, cuja chácara é vizinha à da Baronesa. Bem, então quem fica com quem? Luís Alves e Guiomar descobrem que se amam, para desgosto de Estevão e do pessoal da chácara da Baronesa, que conspirava para aproximar Guiomar do herdeiro.

A mão e a luva poderia parecer um romance de Joaquim Manuel  A moreninha de Macedo não fosse o temperamento decididamente anti-romântico do velho Machado. Não é à toa que ele começa e quase termina o romance com Estevão, pois ridiculariza a cada momento o exagero romântico. Guiomar e Luís Alves são caracterizados como “ambiciosos”, malgrado o bom caráter, e Guiomar tem artes de dissimulação que já antecipam as atitudes de Capitu em Dom Casmurro, comportamento absolutamente compreensível devido à sua condição de agregada. Tanto é assim que A mão e a luva seria uma das provas mais importantes num processo que se resolvesse a comprovar o adultério da esposa de Bentinho. Capitu seria uma Guiomar que houvesse casado com um Estevão mais abastado, e acabasse preferindo extra-conjugalmente um Luís Alves mais arrivista.

É instigante encontrar já em plena ação o gume afiado do machado. Todos sabem que o autor de Quincas Borba foi leitor do inglês Laurence Sterne, autor de Tristram Shandy. Na história de Guiomar e Luís Alves parece, entretanto, haver a mão (e a luva de pelica) de Jane Austen.

É particularmente digno de nota o fato de que, ao contrário das intrigas românticas grandiloqüentes (como a de Senhora, por exemplo), e bem dentro do espírito da autora de Emma, os obstáculos à união do casal central aparecem numa trivial conspiração doméstica (orquestrada, em A mão e a luva,por uma dama de companhia inglesa, mrs. Oswald). Doméstica, pequena, abafada. Trivial, em suma. E esplendidamente caracterizada, pois no conflito entre a situação de favor e a vontade pessoal, aparece o cálculo, que desestabiliza a balança romântica.

Já aparecem as famosas “teorias” que avultam no universo machadiano, como a teoria de Luís Alves sobre o amor: “O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acaba de ler”. Há a costumeira “conversa” com o leitor: “Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade… Oh! sobretudo de boa vontade, porque é mister havê-la, e muita, para vir até aqui, e seguir até o fim, uma história como esta, em que o autor mais se ocupa de desenhar um ou dois caracteres, e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer coisa, porque outra coisa não se animaria a fazer…” E há, acima de tudo, a incomparável agudeza na análise do comportamento humano, como no momento da escolha do marido, em que Guiomar, preferindo Luís Alves,diz o nome do sobrinho da Baronesa, e esta percebe que ela não o ama: “A moça não queria iludir a Baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática, de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não tomassem à má parte o vocábulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que Guiomar, sem perder as excelências de seu coração, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouca sincera humanidade; e lhes direi também que, apesar de seus verdes anos, ela compreendia já  que as aparências de um sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio sacrifício”.

Os livros de Jane Austen estão ultimamente sendo redescobertos pelo público. O mesmo poderia acontecer, fora do âmbito escolar (e dos meios acadêmicos), com os de Machado de Assis que, muito mais do que uma caixinha de surpresas, é um baú da felicidade para qualquer apaixonado por ficção e literatura.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-o-realismo-simbolico-a-thomas-mann/

2 Comentários »

  1. Caro Alfredo,

    Gostei bastante do seu comentário sobre a obra ” A mão e a Luva”, de Machado. Abriu algumas perspectivas bem interessantes para o trabalho de mestrado que pretendo fazer sobre a personagem em si que anteriormente estudei. Observei Guiomar mais pela comparação com as personagens Aurélia Camargo (de Senhora – Alencar) e Emma Bovary ( Flaubert). Observá-las pela vertente de Austen foi verdadeiramente encantador, e muito perspicaz de sua parte. Me lembrarei desse site no meu trabalho. Pena que a publicação é antiga. Por favor, publique mais comentários pertinentes como estes de seu blog.
    Sinceramente

    Alba.

    Comentário por Alba — 25/04/2012 @ 19:57 | Responder

    • Obrigado pela gentileza do seu comentário, Alba.
      Espero um dia ler sua dissertação.
      Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 26/04/2012 @ 11:04 | Responder


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