MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/11/2012

Louise Erdrich e a escola do ressentimento: o “homem” visto pela mulher

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 1998)

Nos anos 80, apareceu a escritora mais bonita da atualidade, a norte-americana Louise Erdrich, descendente da mistura de índios com alemães em Dakota do Norte. Além de bela, seus romances eram impressionantes.Se o leitor superar os horríveis títulos, Feitiço de amor (“Love Medicine”) e A rainha da beterraba (“The Beet Queen”), conhecerá duas das melhores obras de ficção da década passada.

Agora, anos depois, um novo trabalho dela é publicado no Brasil: Histórias de amor ardente (Tales of burning Love: EUA-1996, traduzido por Ary Quintella). Terá Louise Erdrich sobrevivido à dácada de 80?

Love medicine, que eu particularmente adoro, começava com a morte de June Kashpaw numa tempestade de neve, após um encontro amoroso com um homem desconhecido. O restante do romance era a história da família de June, que vivia numa reserva indígena. Histórias de amor ardente conta a história de Jack, o homem com quem June passou seus últimos momentos, confirmando a tendência erdrichiana de repetir os mesmos personagens em seus romances. Ela também mantém o mesmo tipo de construção narrativa, com capítulos que se voltam para um determinado personagem, o qual fornecerá o ponto-de-vista predominante naquele passo da história.

A diferença é temporal: enquanto Love medicine & The Beet Queen usavam um largo espectro temporal (recuando até os anos 30), o novo livro ocupa-se basicamente de dois anos da vida de Jack Mauser (94 e 95), quando ele tem de se confrontar com quatro esposas: Eleanor, Candice, Marlis e Dot (esta última já vinha dos livros anteriores também).

Jack está atolado em dívidas. Quando sua casa pega fogo, ele foge e permite que pensem que morreu no incêndio. Suas ex-esposas reúnem-se para o funeral e acabam atoladas na neve no mesmo carro, numa outra tempestade, bem parecida com a que matou June. Sobrevivem sherazadianamente contando histórias sobre Jack umas para as outras (há uma outra pessoa no carro, um homem, contudo sua identidade é uma surpresa da trama rocambolesca).

O livro é feito de fogo e gelo, não só no sentido simbólico que essas duas palavras podem tomar no campo dos sentimentos como também no sentido mais literal: não faltam congelamentos (Jack quase morre congelado duas vezes) e incêndios (há vários); temos até um idoso agente funerário, pai de Eleanor, que resolve cremar-se junto com a esposa, quando esta morre.

Chega a ser bizarra a quantidade de coisas que acontecem a Jack: além dos congelamentos e de quase morrer assado no porão de sua própria casa, ainda lhe cai em cima a pesada estátua de pedra de uma virgem, um fato que pode ou não ter sido previsto por uma freira candidata a santa, pouco antes de ser fulminada por um raio na sua frente.

Na terceira parte da narrativa (na qual as mulheres compartilham histórias), a figura de Jack escapa do plano individual: ele se torna uma encarnação arquetípica do masculino, com a qual as Mulheres têm de haver-se. E aí está o calcanhar-de-aquiles de Histórias de amor ardente.       Quem deve ter se irritado com o livro, caso o tenha lido, é o grande Harold Bloom, na sua sempre renovada denúncia contra a escola do ressentimento que infestou e assolou o campo da literatura: de repente, os valores culturais que predominavam (o macho, a cultura ocidental, a raça branca) começaram a ser relativizados por uma visão multicultural, mais politicamente correta. E, pode ser injusta essa opinião, entretanto há um lado “escola do ressentimento” quase indisfarçado na condução do romance de Louise Erdrich. As quatro mulheres são sempre vistas de uma forma apologética e condescendente, mesmo nas suas maiores loucuras, enquanto que Jack  vai ganhando um crescente viés caricato, quase cômico, ao longo da trama. Tirando o seu lado “simbólico” de representante do “macho” em crise, e decadente, ele sofre grande diluição como personagem, após os primeiros capítulos, onde era uma figura bem mais interessante sob o ponto-de-vista literário.

Num todo irregular, há trechos lindos, onde ela descreve uma certa desolação que existe nas relações mais íntimas, e que lembram os melhores momentos da obra de Sam Shepard (autor de  Paris, Texas & Cruzando o paraíso); em compensação, há trechos em ela lembra os piores momentos de Shepard (como Louco de amor). Há também cenas engraçadíssimas como a da mãe de Eleanor sendo surpreendida pelo marido quando estava nua em cima de Jack, para aquecê-lo, após um de seus congelamentos; ou, então, a cena em que Jack tenta roubar o carro de Candice, e ver o filho, mas acaba tendo de enfrentar uma temerária babá, que parece ter absorvido todos os filmes de ação e pancadaria do mundo, fazendo-o passar maus bocados.

Se,ao fim e ao cabo, o leitor me perguntar se gostei do livro, a resposta, infelizmente, é: não. Histórias de amor ardente é uma experiência insatisfatória porque, nos seus piores momentos, Louise Erdrich trocou o olhar feminino sobre as coisas e a História, que alimentava e dava poder a Love medicine & The Beet Queen, por meras histórias femininas. Pode não parecer, todavia são coisas bem diferentes. Oxalá a bela Erdrich que, além de mulher, pertence a uma minoria étnica, tranque a matrícula na escola do ressentimento e vire o milênio como um dos grandes nomes da ficção norte-americana, como ela parecia destinada a ser.

(com relação às questão aqui abordadas, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2011/02/20/a-deformacao-da-psique-masculina-o-homem-visto-pelo-homem/)

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17/11/2012

O autor como personagem: o Goethe de Martin Walser

OS SOFRIMENTOS DE WERTHER ENVELHECIDO

Que ora devo esperar de algum rever,

Da flor ainda fechada deste dia?

Com Paraíso e Inferno a te envolver,

Na indecisão tua alma se angustia! –

Adeus, ó dúvidas! No umbral dos Céus

Ela te leva a alçar nos braços seus.

No Paraíso então foste acolhido,

Como se jus fazendo à vida eterna;

Finda a esperança, e o desejo contido,

Cá estava pois a meta mais interna,

E ao contemplar da singular beleza

Secava a fonte ansiosa da tristeza.

(…)

 

A um seu olhar, como ao vigor solar,

E a um sopro seu, como aos da primavera,

Derrete-se o egoísmo a degelar

Toda a crosta invernal em que estivera;

Finda o interesse, acaba a teimosia,

Quando ela chega e os põe em letargia.

É como se dissesse; `De hora em hora

A vida se oferece amigamente.

Do passado o registro é incerto agora.

Do amanhã é vedado estar ciente.

E se com a noite eu já me amedrontei,

Com o pôr do sol, que brilha, me alegrei.

Faça pois como eu: sensato e rindo,

Olhe bem o momento! Sem tardança!

Com simpatia o tome por bem-vindo,

Quer em hora de ação, quer em festança.

Ponha-se inteiro e puro onde estiver,

Para tudo e invencível você ser.`

Bem dito isso, achei: se um deus lhe deu

Do momento essa graça tão presente,

Quem acaso ao amável lado seu

Um eleito da sorte não se sente?

Mas eu, mandado embora, o que faria,

Já sem você, de tal sabedoria?

Ora estou muito longe! E o que convém

Ao minuto atual não sei dizer;

O bom e o belo que dele me advêm

São apenas um fardo a rebater,

Ante a bruta saudade me impelindo,

Só me resta um remédio, o choro infindo.

Choro que jorra e flui, mas não tem jeito

De em meu íntimo a flama arrefecer…

(…)

Perdendo o Todo, eu mesmo, que era outrora

Favorito dos deuses, me perdi.

A me provar mandaram-me Pandora,

Que mais riscos que bens trazia em si;

À boca dadivosa eles me alçaram

E, ao separar-me dela, me arrasaram.”

    Os versos acima são de um dos mais famosos poemas de Goethe (1749-1832), a Elegia, composta por 23 sextetos,  agora universalmente conhecida como Elegia a Marienbad, e que faz parte de um pequeno volume chamado Trilogia da Paixão (que pode ser encontrado numa edição conjunta da Rocco com a L&PM). A versão que utilizei foi feita por um dos nossos tradutores mais admiráveis e escrupulosos, Leonardo Fróes. A Elegia foi escrita em 1823, aos 74 anos do autor. O doloroso episódio biográfico que o inspirou (a paixão por uma mocinha de 19 anos, Ulrike von Levetzow) e que alijou o poeta da posição de “favorito dos deuses” é o mote para um delicioso e brilhante romance de Martin Walser [publicado em 2008, e traduzido agora no Brasil por Renata Dias Mundt, em edição da planeta], Um homem apaixonado. Nele, encontraremos integralmente a Elegia (vertida de forma literal pela tradutora, por isso, apesar da sua competência optei pela versão de Fróes como intróito desta resenha).

   Não vou entrar aqui no mérito da conveniência ou não desse gênero de paixão (no caso, uma diferença de 55 anos), que foi uma tendência da vida madura de Goethe. Só pretendo enaltecer as virtudes de uma obra que ousa nos fornecer um retrato verossímil de um criador quase inescrutável, apesar do teor confessional de boa parte da sua produção, e do tour-de-force de Thomas Mann, ao retratá-lo num famoso capítulo de Carlota em Weimar, obra-prima de 1939.

     Na sua primeira parte, a narrativa localiza Goethe e a família Levetzow (mãe viúva e três filhas) na Marienbad de 1823, que começa a se tornar uma estância badalada no “circuito das águas” europeu. O ancião ocupa a posição mais eminente entre os homens de letras europeus, e é seguido, bajulado, citado, ou seja, aquela coisa pomposa que cerca a figura de Goethe como “ser olímpico”. Portanto, para as mulheres do clã é um privilégio sua convivência com ele, o qual há dois anos está fascinado por Ulrike. Ela, por sua vez, parece manter sempre uma atitude de flerte, provocativa e sedutora. O sucesso do “casal” enamorado (eles chegam a trocar beijos, o que é evocado na Elegia) chegará ao auge quando ganharem um concurso de fantasias, ele como Werther, seu personagem mais famoso, e ela como Lotte, a amada do infeliz e suicida herói. Já nesse passo do romance, Walser nos impressiona porque, seguindo os meandros mentais e sentimentais de Goethe, nem por isso deixamos de pressentir, pulsando sob diálogos admiráveis em elegância e discrição, as intrigas da pequena sociedade ali instalada para o verão. Nessa parte, há também a constrangedora e cruel cena da queda de Goethe (num colóquio no escuro com Ulrike), em que se fica patente (e patético, até no sentido etimológico de “páthos”) seu esforço desesperado de manter a “dignidade”, grande meta dos seus anos tardios, mesmo movido por uma paixão potencialmente ridícula.

      Ele usa seu protetor e amigo, o soberano de Weimar, para pedir em seu nome a mão de Ulrike. Na segunda parte, vemos como, sem querer perder o apelo mundano da presença do grande homem, a mãe da moça fará tudo para mantê-los sob vigilância, depois de uma discreta fuga para Karlsbad, ele no encalço delas.

   Quando se pensa que não há o que avançar no romance, ele se torna melhor ainda: Goethe voltou a Weimar e escreveu a sua Elegia. O que fazer com ela? Não a pode mostrar para quase ninguém. E o grande homem é quase refém na sua casa: sua nora Ottilie (que está mais para esposa, tal forma voraz com que se apossou da vida cotidiana do famoso sogro) faz cenas, cai doente, devido aos boatos da possível ligação com Ulrike (transmitidos de boca em boca), o vigia, conspira, e ele chega a acreditar que até sua correspondência é revistada e censurada. Pela arte de Walser, missivas reais e imaginárias se misturam, e ficamos conhecendo tanto a vida externa, os hábitos e as regras férreas que sustentam a existência (e freiam seu lado passional) do velho Werther como a sua vida interior de “homem apaixonado”, mas condenado à resignação: “…estás em terra inimiga… és agora o resignado, como nunca o foras… a mais nobre fachada cultural da Alemanha, da Europa, do mundo todo, o exemplo de resignação para os tempos vindouros, todos os infelizes devem levantar os olhos para ti como para uma constelação: assim se lida com uma grande dor, vês, de forma que a dor não seja mais dor… um sorriso, um esgar cultural que torna o teu rosto mais belo, a dor é uma poema de ocasião…” O poder da máscara.

(uma versão da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de setembro de 2010)

A MAIOR PERSONAGEM FEMININA DE THOMAS MANN

Venho comentando sistematicamente nesta minha coluna de A TRIBUNA o relançamento das obras de Thomas Mann pela Nova Fronteira. Já quase no final do percurso, a avaliação do empreendimento acaba sendo negativa. A princípio, as edições pareciam boas e bonitas. Não resistem, porém, a um olhar mais cuidadoso: não há unidade nas capas, umas são de muito bom gosto, outras surpreendem pela breguice; no caso dos livros mais volumosos, elas vão se descolando e o exemplar fica todo deformado. Cobrando tão caro,  a editora poderia pelo menos ter utilizado um papel melhor porque, somando tudo, sua coleção Thomas Mann ficou com um ar bem ordinário.

As deficiências da apresentação gráfica não são nada comparadas às encontradas nos textos. A Nova Fronteira prometeu “traduções revistas”. Ora, ora. Pegue-se CARLOTA EM WEIMAR. A não ser em alguns casos demasiadamente gritantes, a nova edição mantém quase todos os erros da anterior (lançada em 1984). Por exemplo, Goethe era indulgente com os horários de seu secretário Riemer, mas tanto em 1984 quanto agora o leitor brasileiro lerá que ele era indulgente com os honorários. O mesmo Goethe afirmava ter mão de artesão, apesar do seu refinamento aristocrático, só que o infortunado leitor daqui encontrará, em 1984 e agora, um absurdo não de artista. Etc etc etc. As traduções devem ter sido revistas por Stevie Wonder.

É uma pena, uma vez que LOTTE IN WEIMAR  é notável e não apenas por trazer a melhor personagem feminina criada por Mann: o famoso sétimo capítulo penetra diretamente na mente de Goethe, num enorme e complexo monólogo interior, com jogos de palavras e alusões que necessitavam de um tratamente editorial decente para não trazer mais dificuldades ao leitor. Esse capítulo e a parte inicial de José e seus irmãos são os maiores tours-de-force de Mann em termos técnicos, seus maiores feitos virtuosísticos.

Antes desse momento genial, a Senhora Conselheira Carlota Kestner chega a Weimar em 1816 (com 68 anos). Ela foi, na juventude, a inspiradora de Lotte, amada de Werther na obra-prima de Goethe, fato que sombreou toda a sua existência burguesa respeitável como mãe de 11 filhos.Apesar do pretexto da viagem (visitar a irmã e o marido desta), Carlota tem como objetivo confrontar-se com Goethe, o qual pontifica em Weimar como o supremo homem da nação alemã. Como ela mesma (um personagem pelo qual o leitor se apaixona) afirma, a certa altura: “existe uma velha conta entre a montanha e eu, uma conta que não foi saldada”. Mais tarde, num diálogo fantasmagóricona carruagem do próprio Goethe: “Vim para considerar o que teria sido possível, e cujas desvantagens diante do real verdadeiro são tão evidentes; e que entretanto permanece no mundo a seu lado como um Mas, e se…? e Se tivesse sido de outro modo…, o que é digno de nossa investigação. Você não acha também, velho amigo, e não pergunta também, às vezes, pelo possível no meio das dignidades da sua realidade?”

Os seis primeiros capítulos do romance são bem teatrais. Carlota, que se instalara numa hospedaria, procura sair para visitar a casa da irmã e é impedida por diversas visitas, as quais lhe oferecem visões indiretas e sombrias do autor de Werther e Fausto. Depois, temos o extraordinário capítulo central do livro, em que percebemos o trabalho alquímico processando-se na mente goethiana, à margem e além de todas as visões exteriores e parciais que tivemos dele. O clímax do romance seria, é claro, o encontro (não se viram por 44 anos) entre Carlota e o “grande homem”, num almoço formal na casa dele, no capítulo seguinte, contudo Mann deliberadamente (creio eu) o constrói como um anti-clímax, para depois jogar o leitor no intrigante e belo capítulo final, onde a velha conta não saldada entre a montanha e Carlota é discutida numa atmosfera onírica, como se não fosse possível um entendimento real entre ambos no cotidiano solene, pesado e reverente que cerca o antigo apaixonado de Lotte.

Em CARLOTA EM WEIMAR alternam-se três planos: o plano do jogo literário (pois Carlota, no livro, se torna duplamente personagem: já o era de Goethe, torna-se novamente em Mann, afastand0-se ainda mais da sua existência biográfica real), que é  mola propulsora para o plano do espelhamento biográfico (a frustração, incompreensão e desilusão dos vários personagenscom relação a aspectos da personalidade e comportanento de Goethe, no texto, reproduzem as mesmas reações com relação ao próprio Thomas Mann, uma pessoa que, no entender do seu risível biógrafo Donald Prater, era mais fácil de admirar como escritor do que se gostar como ser humano, como se isso tivesse a menor importância: há gente simpática demais no mundo, um Thomas Mann é muito raro); e, por fim, o plano alegórico: ao desenhar um perfil da época pós-napoleônica na visita de Carlota a Weimar, o grande escritor alemão projeta o momento histórico no qual escrevia, com a sua pátria dando os passos decisivos para iniciar a Segunda Guerra.

Quem ler o romance com atenção, tendo em mente o ano da sua publicação (1939), verá como Mann faz com que as afirmações de Goethe, que é afinal o nome mais alto da cultura germânica, mesmo para os nazistas, funcionem como advertências diretas para os seus compatriotas (ele já se encontrava exilado): “não é certo que tenham de odiar a luz. Lamento por eles não conhecerem o encanto da verdade…que se consagrem credulamente a qualquer rufião místico que apele para o mais baixo, confirme-os em seus vícios e lhes ensine a entender a nacionalidade como isolamento…” A antipatia aos judeus “só era comparável com outra, a que existe contra os alemães, cujo papel atribuído pelo destino e cuja posição interior e exterior entre os povos demonstravam o mais espantoso parentesco com a posição dos judeus… às vezes o assaltava o medo angustioso de que um dia se pudesse desencadear o ódio coligado do mundo contra o outro sal da tera, a germanidade…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de fevereiro de 2001)

 

16/11/2012

O autor como personagem: o Dostoiévski de Coetzee

  

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/07/nos-confins-da-rarefacao-elizabeth-costello-de-j-m-coetzee/

Em 1869, Dostoiévski volta à Rússia por causa da morte (suicídio? acidente? assassinato?) do seu enteado, Pavel. Aluga o quarto onde ele estava vivendo e envolve-se com a proprietária, Anna, e a filha dela, Matryona. Ao tentar resgatar os papeis de Pavel que ficaram em poder da polícia, descobre o seu envolvimento (e também o de Matryona) com o ideólogo terrorista Nechaev; este, por sua vez, entra em contato com o grande escritor russo, apesar da perseguição da polícia.

Em O Mestre de São Petersburgo (The Master of Petersburg, 1994, traduzido por Luis Roberto Mendes Gonçalves, e que na edição da Best Seller ganhou o rebarbativo título de Dostoiévski, o mestre de São Petersburgo), o sul-africano J.M. Coetzee[1] parece ter almejado uma combinação da atmosfera de Crime e Castigo e a de Os Demônios, duas das principais obras de Dostoiévski. Será que ele conseguiu?

No começo, e até certa altura, parece que sim. É muito persuasiva a maneira como o quarte de Pavel e o “fantasma” do enteado vão se apossando de Dostoiévski, paralisando sua vontade de voltar para a Alemanha e reencontrar a esposa, fazendo com que ele tenha de se debater com a questão da paternidade (tão presente em seu universo, basta lembrar o exemplo mais óbvio, Os irmãos Karamázovi). E a técnica narrativa de Coetzee ajuda bastante a manter o interesse: ele parece convencido de que é impossível capturar a vida interior, o movimento subjetivo dos personagens, pelas palavras. O discurso do narrador atua, então, como uma câmera cinematográfica, mantendo um forte teor descritivo. Temos a sensação nítida de estar acompanhando a um filme em palavras, com aquela qualidade opaca da imagem, de só sugerir o que pode estar acontecendo intimamente com os personagens. Nesse passo da história, Anna, a senhoria, com o qual ló padrasto de Pavel estabelece uma tensa relação sexual, chega a lembrar certas personagens de José Saramago, como a Blimunda, de Memorial do Convento, ou a Joana Carda, de A Jangada de Pedra, mulheres do povo com uma sabedoria recôndita e crispada.

Por outro lado, embora a narrativa até se torne mais “dinâmica” com a entrada de Nechaev (o terrorista que tenta cooptar Dostoiévski, utilizando sua obsessão com Pavel), o livro perde sua força narrativa ao entrar no mundo conspiratório de burocracia policial, informantes e disfarces de terroristas. A trama de Coetzee aproxima-se sorrateiramente, como um informante, da lengalenga.

Quando, no final, a leitura da papelada deixada por Pavel se transforma numa espécie de arcabouço para Os Demônios, nem parece mais que estamos lendo o mesmo romance. Dostoiévski se perde com Nechaev pelas vielas de São Petersburgo (com o subversivo pretendendo mostrar a miséria russa para convencer seu interlocutor a colaborar com a Causa) e Coetzee perde o rumo da narrativa. O tom, pelo menos. Até mesmo Anna perde a qualidade saramaguiana que lhe dava certa magia e escorrega para a banalidade. O próprio Dostoiévski fica mais com cara de Barton Fink, emparedado num quarto que é, na verdade, uma metáfora da sua mente. Aliás, acontece com Coetzee o efeito irmãos Coen, criadores de Fink (e também de Miller´s Crossing): há muita ambição, muito estilo, só que nunca se chega a dizer a que se veio. O talento (inegável) é corroído pela gratuidade.

Encarando os 20 capítulos de O Mestre de são Petersburgo, pode-se dizer que ele segura as pontas até o capítulo 15, e, aos poucos, começa a ficar difuso, repetitivo, e encher linguiça. É uma pena porque, vindo de um país cuja base social estruturava-se num problema catalisador como o apartheid, que coloca todos em questão, Coetzee poderia ter a medida certa  para tratar desse mundo dostoievskiano, no qual o íntimo e o social entrelaçam-se, no qual um é a ampliação do outro.

Entretanto, sobram ainda as belas páginas que evocam os bons tempos do romance existencialista, como A Náusea: “Por que essa lenta caçada através dos campos vazios, atrás da impressão de um fantasma, o fantasma de uma impressão? Porque eu sou ele. Porque ele é eu. Alguma coisa que tento agarrar: o momento antes da extinção, quando o sangue ainda corre, o coração ainda bate. Coração, o boi fiel que mantém o moinho girando, que levanta apenas um olhar aturdido quando o machado se ergue alto, mas aceita o golpe, dobra os joelhos e expira.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 1997)


[1] Nota de 2012; Essa foi a minha primeira leitura de um livro de Coetzee, e pouco sabia da sua produção (e prestígio). Só fui conhecer melhor seu universo alguns anos depois, já quando ele estava no estágio “Companhia das Letras”, após alguns títulos lançados pela Best Seller, entre eles o extraordinário À espera dos bárbaros.

O AUTOR COMO PERSONAGEM: UM JOGADOR CHAMADO DOSTOIÉVSKI

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de fevereiro de 2005)

“…havia uma carta endereçada a Anna Grigórievna contendo cem rublos…agora eles iriam poder pagar o que deviam à senhoria, sem precisar mais se esconder dela, e resgatar o broche, os brincos, as alianças e os outros objetos e, finalmente, ir embora desse lugar maldito. Decidiram partir no dia seguinte, e assim que chegaram em casa Anna Grigórievna começou a fazer as malas, enquanto Fédia saiu para trocar o dinheiro e resgatar o broche, os brincos e as alianças …”

Quem leu Um jogador, de Dostoievski, ou quem simplesmente gosta de literatura, não pode deixar de ler o esplêndido Verão em Baden-Baden (1981), de Leonid Tsípkin, pequeno romance que faz o leitor vivenciar, como se estivesse ao lado dele, o vício de jogar do próprio Dostoiévski, o Fédia do trecho acima, cujo desenlace é o seguinte: “Fédia apareceu justamente nessa hora –estava pálido e caiu a seus pés, como de costume, dizendo que havia perdido o dinheiro que Anna Grigórievna lhe confiara…era preciso salvar o dinheiro que restava…”.

Acompanhamos Fédia arrastando sua esposa por diversas cidades da Europa, tentando “fazer um capital” com o jogo em Baden-Baden, sentindo-se enganado pelos senhorios e serviçais alemães, o casal cada vez mais maltrapilho, penhorando até suas poucas roupas melhores, e o autor de livros supremos oscilando entre a exaltação e a mortificação, com um amor-próprio doentio, ao ponto dos atos mais infantis, mas com uma capacidade de se auto-diagnosticar impressionante, indo e vindo febrilmente do cassino para a pensão, da pensão para os passeios habituais dos veranistas (onde ele e a esposa fazem triste figura), e daí novamente para o cassino. E seu confronto humilhante com seus competidores literários, Turgueniêv e Gontchárov, a quem enfrenta no campo das idéias, porém sempre com um travo amargo no plano social (o porteiro do hotel de Turgueniêv barra sua passagem, Gontchárov coloca  com soberba em suas mãos moedas de ouro que ele imediatamente perde na roleta).

E o mistério de toda relação: por que Anna Grigórievna persistiu nesse casamento ? Aliás, por que casou com ele ? Como se sabe, ela a princípio era secretária dele, que ditava suas obras para cumprir prazos de entrega com maior rapidez (portanto, já havia dívidas, já havia o vício, já havia todo um mundo familiar conspiratório e complicado).

No final, o narrador, judeu, não consegue entender seu amor avassalador por esse autor tão anti-semita, embora praticamente tenha solucionado a questão ao fazer de Fédia um personagem dostoievskiano, atingindo toda a gama de sentimentos humanos, até os mais “feios”, os mais ridículos.

O que fica difícil de explicar é a magia da narrativa de Verão em Baden-Baden. Feita sob o signo do deslocamento (além da perambulação de cidade em cidade do casal Dostoiévski, o fio condutor é uma viagem de trem do narrador), no tempo e no espaço, ela se fundamenta toda na relutância em usar pontos finais: um travessão se abre, e outro e mais outro, e aí um  momento da vida de Fédia e Anna, ou do narrador, se abre, e assim somos levados a viajar no ritmo e na intensidade dessas vidas, de uma forma que nenhuma biografia linear conseguiria.

No prefácio ao livro, Susan Sontag nos conta que Tsípkin nunca conseguiu publicar nada em vida. Ele escrevia para “a gaveta”. E ela acrescenta: “para a literatura propriamente dita”. O que pode ser uma frase retórica, de efeito, mas que dá o que pensar em alguns casos, como no de Tsípkin. Ao nos fazer viajar, por menos de 200 páginas, na essência da vida de um gênio como Dostoiévski, realmente ele  atingiu o que só a verdadeira literatura consegue: “Mais vida, em um tempo ilimitado”.

O autor como personagem: Machado morre

 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de março de 2006)

       Machado de Assis, um gênio brasileiro, de Daniel Piza, sofreu um  bombardeio crítico, sobretudo devido a diversos erros de informação (José Bonifácio seria português e Deodoro seria o “Marechal de Ferro”, por exemplo).

Só que eles podem ser corrigidos numa nova edição. Mais difícil de reparar são os tolos resumos das obras, as análises atabalhoadas ou pífias, ou os trechos decididamente toscos, como este em que ele  comenta a célebre fórmula “Ao vencedor, as batatas”: “Mais uma vez, a frase é entendida como uma ironia de Machado no sentido de que o vencedor não tem nenhuma vantagem salvo a de ficar com umas batatas…” !!! Que coisa incrível, não ? Ainda não satisfeito, ele caracteriza, na página seguinte, a loucura de Rubião (protagonista de Quincas Borba) do seguinte modo: “Era um perdedor com batatas” !!!

Mais uma vez, a ficção ganhou longe da pesquisa biográfica, ficando com as batatas.  Há uma nova edição de um finíssimo –em todos os sentidos—romance de Haroldo Maranhão, lançado com pouco alarde em 1991: Memorial do fim. Nele, encontramos Machado de Assis agonizante. Seu leito foi descido para o andar térreo, a porta da casa no Cosme Velho está sempre aberta, pois muitos querem vê-lo antes do trespasse: são amigos que chegam, são anônimos que vêm prestar a última homenagem, é o Barão do Rio Branco que comparece e dá azo a um momento constrangedor, é uma romancista que espera extrair do moribundo um prefácio, é uma mulher que pode ter sido o derradeiro investimento afetivo do grande escritor, após a morte da esposa, Carolina (um dos piores momentos do livro de Piza é quando “analisa” o famoso soneto póstumo dedicado a ela).

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Aliás, a figura da mulher aparece com a mesma ambigüidade que torna fascinantes tantas figuras femininas de Machado. Memorial do fim já começa com uma delas, real ou imaginária, a inquietar um dos seus amigos fiéis, o crítico José Veríssimo, descrito numa carta (de Mário de Alencar, filho do autor de Iracema, e discípulo dedicado do Bruxo do Cosme Velho a ponto de querer manter o decoro e afugentar qualquer fantasma feminino que assombre a figura impecável, o lado Conselheiro Aires, do seu mestre) em termos deliciosos, se lembrarmos que Haroldo Maranhão é paraense:

Diz-se um roceiro, e o é, do Amazonas semibárbaro, onde a marca racial se traduz nas impetuosidades dos elementos, nas águas possuídas de cólera, que rompem florestas e terras bem fincadas, levando-as no arrasto da força primitiva. O íncola parece plácido, demonstra-o ser, mas lá um dia muda-se nas raivas dos répteis ensandecidos. Então, e sem nexo de causa e efeito, lacera pessoas mesmo as amigas; são gentes indomadas que copiam a natureza indomada. Subsistem de outra face, nele, laivos de extremada curiosidade, para não falar-se [sic] de bisbilhotice, e de leves toques de picardia acerca de autores e livros, tudo obra da herança roceira.”

Com picardia e desfaçatez, Maranhão nos dá o fim de Machado mimetizando a maneira como ele mostrou a comédia humana, fundamentada em máscaras e fingimentos. Mais assombrosa ainda é a perícia com a qual mimetizou sua linguagem e técnica romanesca, conversando com o leitor, investindo nas desconcertantes digressões, contrariando expectativas, fazendo o próprio processo de escrever ser desmascarado, chegando até à gratuidade de compor capítulos com trechos de romances machadianos, e talvez este seja o ponto menos feliz do livro.

Ele é tão “feliz” em todo o resto, em que a pena da galhofa ajuda a suportar a tinta da melancolia de um fim, que ainda por cima é obrigado a fazer-se de espetáculo incessantemente aberto ao público, que alguns capítulos de gosto duvidoso pouco importam.

Ao contrário do próprio Machado (o qual não foi imune ao universo social que descreveu tão lucidamente) e seu discípulo, Mário de Alencar, Haroldo Maranhão nunca faz questão de ser impecável e decoroso. No entanto, houve (houve mesmo? Ou será mais uma gaiatice, um teste para o leitor, tão provocado ao longo da narrativa?) um cochilo no seu posfácio: diz que no capítulo XVII reuniu trechos de Quincas Borba. Trata-se, no entanto, de Dom Casmurro.

NOTA- Há duas edições de Memorial do fim, uma pela Marco Zero; outra, pela Planeta.

 

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O autor como personagem: A FOME DE NELSON

“Minha doença me revelou a minha mulher, e aliás me revelou a mim mesmo. Nunca fui de desconfianças, e sempre enchi Silvana de mimos, sem fazer uma crítica, um reparo, um senão. Quando as tosses começaram, o rosto dela assumiu uma expressão preocupada. Vivia torcendo um lencinho bordado nas mãos e estendendo-o para minhas mãos trêmulas. Tornou-se de forma geral mais atenciosa com tudo e com todos. Recebia as visitas com esmero e quase devoção: comprava flores, arrumava mil vezes os bibelôs sobre o aparador. Um dia, percebi um olhar diferente dela para um amigo meu, que nos visitava todas as segundas-feiras. Logo notei que nesses dias ela se arrumava de forma especial, sempre com um novo detalhe, como uma presilha nova ou uma sandália mais delicada. Seriam ciúmes de tuberculoso?—era o que me perguntava. Passei a responder com um resmungo ás perguntas que me fazia, e ela deixou de me olhar diretamente nos olhos, como costumava fazer, com seu rosto erguido e seu riso franco de outrora. Mas quando meu amigo chegava—e suas visitas eram cada vez mais frequentes—ela se desdobrava em sorrisos. Você sabe que a cara do marido pode influir no adultério; quanto mais uma tosse seca e insistente. Eu espionava-a quando ela pensava esta sozinha, e mais de uma vez a peguei cantando baixinho. Silvana saía todo fim de tarde, esquivando-se de mim. Meus amigos frequentavam então pouco a nossa casa; tenho certeza de que ela saía para encontrá-los em outros lugares—sabe-se lá em que antros. Via cenas horríveis: de boca vermelha e retorcida, ela me traía com meu irmão, meus amigos e até com um padre que conhecíamos. Eu estava magro, mas os braços e as pernas dela tinham se tornado diáfanos, quase transparentes. Finalmente mal nos olhávamos; e quanto tive de partir nos demos um vago adeus. O mais incrível de tudo é que eu, mesmo sem falar com ela, mesmo fingindo ignorá-la da maneira mais abjeta, a perdoava, desde o início, e ainda hoje a perdoo.”

“O tuberculoso é aquele que teima em viver depois de ter morrido”.

As duas citações acima foram extraídas de A fome de Nelson, romance de Adriana Armony publicado em 2005 pela Record. A autora carioca, então com 36 anos, vinha de uma tese de doutorado em que estudava Nelson Rodrigues como leitor de Dostoiévski. Logo, nada mais natural do que transformá-lo num personagem dostoievskiano.

O período da sua vida em que a família está na quase-miséria absoluta devido à sucessão de ocorrências trágicas (o assassinato do irmão, o galã da família, Roberto Rodrigues, por Sylvia Seraphim, a qual, na verdade, fora à redação do jornal que o pai dirigia para matar a ele, que acabou morrendo, de fato, pouco depois, e o declínio financeiro arrastou a todos), a aparência maltrapilha, a vida mental intensa e que muitas vezes não se ajusta à realidade circundante (candidato a escritor, escriba do jornal “O Globo”, frequenta meios literários, mas é como se fosse num clima de sonho: é apaixonado e alimenta projetos de casamento com uma linda bailarina, Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, com a qual mal troca alguma palavras[1]), as caminhadas sem fim (premido pela falta de dinheiro para a passagem) pelo Rio de Janeiro nos anos 30, do subúrbio até o centro, todos esses elementos são perfeitos para criar uma atmosfera digna do autor de Crime e Castigo. E a cereja do bolo: a tuberculose, que leva o jovem escritor “febril” para a sua Sibéria pessoal, o Sanatorinho, em Campos de Jordão (Raskólnikhov foi para a Sibéria, degredado, no final do romance mais famoso de Dostoievski, e o próprio autor russo viveu essa experiência-limite, como nos conta em Recordações da casa dos mortos).

Para servir de anteparo a essa ligação estreita entre os dois escritores (e, sejamos francos, também em função de cacoetes da pós-modernidade[2]), Adriana Armony molda um narrador que resolve contar sobre a vida de Nelson porque supostamente teria sido seu contemporâneo na estadia em Sanatorinho (embora não se aproximassem muito ali). Mais tarde, funcionário público aposentado, escreverá um relato obsessivo e que pode conter uma mistura do factual com o literário e o alucinatório (como nota argutamente o autor da orelha do livro, Ricardo Oiticica, essa confluência aproxima A fome de Nelson da experiência levada a cabo por Nelson em Vestido de Noiva e seus planos alternados)[3].

Considero o livro muito bem realizado. Se há um senão a fazer é o fato de a autora não nos dar mais, de não ter feito um relato mais longo.

Eu sei, eu sei que o sintético é bom, que menos é mais (e também que o mais das vezes a reclamação é oposta: de que um livro poderia ser menor, sem prejuízo), e o próprio Nelson Rodrigues, excessivo como era, chegou aos píncaros da sua realização artística no “nada falta, nada sobra” de Senhora dos afogados (1947).

Entretanto, Adriana Armony coloca tantas coisas, misturando até focos narrativos distintos (como o da irmã de três anos de Nelson, num determinado momento) num texto tão curtinho, que ela mesma parece eloquentemente ressaltar que poderia ter percorrido outros caminhos dentro do texto e feito um romance maior.

Não acho justo que isso fique como uma sombra prejudicando o efeito geral de A fome de Nelson, apenas sublinho que não faltaria material para ela expandir seus paralelos dostoievskianos e que esse lado fuliginoso da biografia rodriguiana é propício para uma obra de fôlego maior.

Gostei especialmente da parte de Sanatorinho, da convivência com outros “mortos sem morte” (um dos quais é o que narra a história da epígrafe), e sobretudo, do relato da criação de um primeiro “espetáculo” rodriguiano dentro daquela instituição como forma de mostrar a passagem do candidato a romancista-epígono de Dostoievski para um autor teatral com sua voz única, além do fato de que aqueles “solteiros” forçados se movimentarem no polo psíquico dos abandonados, dos traídos que perdoam, dos ressentidos, dos impotentes, dos nostálgicos mesmo do desprezo e indiferença da mulher, ou seja o polo em que se movimentarão tantos personagens do futuro dramaturgo, cronista e folhetinista.

Ao fim e ao cabo, esse curto e eficaz A fome de Nelson nos dá fome de Nelson, de mergulhar novamente no seu universo de tuberculoso que viveu depois de ter morrido.


[1] As cenas no “salão parisiense” de Eros lembram similares em Memórias do Subsolo ou O Duplo, com o protagonista sempre em “estado de vexame”.

[2] Daí que o relato comece com um tom paródico (apropriando-se do início de Memórias do Subsolo):

“Sou um homem doente, um homem desagradável, creio que sofro do fígado… É mais pura verdade; e no entanto alguém já escreveu isto, e me espreita das páginas de um livro com sua barba espessa e olhos que ´perscrutam a alma´ (…) surge-me inadvertidamente essa palavra antiga, alada, que se estende como um lençol perfumado sobre o meu corpo cansado. Quem hoje perscruta a alma de alguém? Ou antes: quem hoje tem alma? É uma palavra tão fora de moda quanto ´polainas´, por exemplo…”

[3] “… aqui me confundo, não sei mais quem é este, se ele ou outro, ou se fui eu, com minha febre de tuberculoso, em meu delírio de desenganado, que misturei tudo, pois o que ocorreu provavelmente foi algo inteiramente diverso, a tosse seca de Nelson simplesmente se repetiu até consultarem um médico, que pediu que ele repetisse 33, mas não disse que a melhor coisa a fazer era tocar um tango argentino; e era Dostoievski que tinha ataques epilépticos precedidos de uma iluminação que o cegava, uma sensação aguda de prazer que se espraiava em doces e terríveis convulsões; além do quê, toda essa história de crime soa talvez um tanto forçada; a verdade é que, descoberta a tuberculose, Nelson foi mandado para uma casa de recuperação, onde conheceu homens esquálidos e fascinantes, ´mortos sem morte´ que viriam mais tarde povoar sua imaginação; foi lá que eu o conheci e, a meu modo, o amei”.

13/11/2012

Sobre a Granta e os “melhores jovens escritores”

NOTA EXPLICATIVA  

Tinha certa preguiça de ler a GRANTA dos “melhores jovens escritores brasileiros” não por qualquer prevenção, ou porque a seleção tivesse me revoltado, nada disso. É porque não gosto de ler antologias (só se for de textos de um autor só). Essas antologias-miscelâneas de autores ou assuntos não me interessam muito. Mas desde o lançamento para cá tanta gente me perguntou o que eu achava da tal seleção, como eu me posicionava, etc etc etc, e como tenho lido um bocado de ficção atual, acabei cedendo.

(o texto abaixo é uma versão ligeiramente mais estendida da resenha publicada  em A TRIBUNA de Santos, em 13 de novembro de 2012)

Na edição internacional de Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros,  a polêmica seleção feita pela prestigiosa Revista Granta de 20 nomes, com idade abaixo dos 40, da nossa ficção atual,  Apneia, de Daniel Galera, que aparece como o 6º. texto na versão brasileira, foi deslocado de forma a encerrá-la. Não deixa de ser um risco para o conjunto, pois sendo–tomado como peça independente–  o mais forte e vistoso entre os textos escolhidos, também poderá ser visto como um “gran finale”, exercendo pressão no sentido negativo: tudo que vem antes é como se fosse preparação para esse “clímax”.

O próprio Galera acaba de lançar o romance do qual a amostra na coletânea era o capítulo inicial, Barba Ensopada de Sangue, 420 páginas que fazem sentir saudade da qualidade irretocável desse fragmento.

Dos outros 19 “eleitos”, cinco já frequentaram esta coluna: Michel Laub Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Tatiana Salem Levy e Julián Fuks.

Laub e Lísias (junto com Galera) representam de fato o que há de mais relevante e consistente na nossa ficção jovem; creio, porém, que os ótimos Animais e Tólia, ao contrário do texto do colega de ofício, serão muito mais apreciados por quem já conhece seus trabalhos anteriores, a maneira como foram construindo suas “vozes” narrativa muito próprias. Os neófitos ficarão um pouco desconcertados, desconfio, principalmente com o de Lísias.

Quanto às amostras de Cuenca e Tatiana (Antes da queda e O Rio sua), sem me deter em aspectos problemáticos (que os dois apresentam, em especial o dele, cujo resultado final quase não ultrapassa o nível da crônica), me pareceu muito afortunado e enriquecedor o efeito de espelhamento que ambos proporcionam: num deles, há a recusa do Rio de Janeiro, por parte do narrador (junto com o medo de que, na verdade, a cidade o esteja recusando), e um diagnóstico de suas mazelas; no outro há uma entrega quase fisiológica à sua persuasão. Recomendo a leitura conjunta, mesmo que não tenha sido essa a intenção original.

E o conto de Julián Fuks, O jantar, apesar da laboriosidade vocabular, que cansa um pouco (Fuks parece sempre estar lutando ingloriamente com a língua portuguesa, luta que não tem nada a ver com aquela de Drummond) é muito bem arquitetado, com um final perfeito e impactante, digno de ser citado nos manuais do gênero que recomendam o “efeito” construído pouco a pouco, criando uma sensação de nocaute no desenlace.

Todos os citados, e outros que eu ainda não conhecia, têm obras publicadas, alguns até  uma carreira bem sólida. No entanto, que esquisitas as inclusões de Emilio Fraia e Miguel Del Castillo, que mal têm títulos a apresentar (embora Fraia tenha escrito um romance, em parceria com Vanessa Barbara, também presente na coletânea, se é possível dizer isso)! São “personalidades” de escritor que vieram antes de uma obra propriamente dita (Temporada e Violeta, podem, no máximo, ser etiquetados com aquele adjetivo para lá de vago: promissores). O fator suspeito é que os dois trabalham como editores na mesma casa (CosacNaify). Não  à toa, choveram acusações e suspeitas, quando os 20 nomes foram anunciados.

Não é o caso do quase inédito em livro Vinicius Jatobá, cujo Natureza Morta é muito mais do que promissor, e nos dá vontade de conhecer mais dele, bem como os ainda melhores, e mais bem-acabados, Teresa (Cristhiano Aguiar) e A febre do rato (Javier Arancibia Contreras), os quais, além de pontos altos da seleção, nos dão muita vontade de ler o que os autores já publicaram e criam a maior expectativa com relação ao que farão no futuro. Os três confirmam que certas linhagens narrativas, voltadas para o existencialismo e o expressionismo estão bem vivas.

Também duas amostras de romances que estão sendo escritos nos deixam com gosto de “quero mais” (o oposto do que acontece com Faíscas, de Carol Bensimon, uma das escolhas menos felizes do volume): o intenso Fragmento de um romance, de Carola Saavedra, e o divertido e inteligente F para Welles, de Antônio Xerxenesky, que parece seguir, salvo engano, o caminho trilhado quase solitariamente por Roberto Drummond.

Para mim, o texto mais surpreendente (porque, sem o ter lido, considerava chatinho o autor, por suas entrevistas enfatuadas) foi o delicioso Valdir Peres, Juanito e Poloskei, de Antônio Prata, prova que nunca podemos fechar a conta antes do tempo. E por falar em fechamento de conta, 12 textos minimamente interessantes num conjunto de 20 (no meu saldo), não é nada mal.

12/11/2012

A filosofia do “é cada um, cada um”: QUERÔ, de Plínio Marcos

A POBREZA E A EXCLUSÃO TORNAM A TERRA PLANA; O MUNDO TEM FIM, ADIANTE É O MAR TENEBROSO

“Eu nunca fui nada. Nem tem jeito de ser nada. Mas, porra, eu não quero morrer. Não quero. O Zulu não falava que queria morrer. Mas eu sei que ele não queria. Eu estava sabendo. Eu via. Não é que eu via, manja? Estava escuro paca. A gente não se via. Eu, no começo, só enxergava o revólver que estava na mão do filho da puta. Essa merda aqui. Esse trinta e oitão mesmo. Mas quando ele passou pra minha mão, eu nem via mais a draga. Via os olhos do crioulo. Via o medo dele… Eu vi. Ele estava encagaçado. Eu sei. Eu sei de tudo. Eu sou o Querô! Porra, eu sou o Querô! … Era eu ou ele. E antes ele do que eu…Os meus olhos eram duas brasas. E ele via. Via bem o gosto que eu tinha na boca… Via bem. Via o cheiro que eu tinha no nariz. O fedor escroto. O fedor fodido do perfume das putas da Xavier… O crioulo via. Via. E eu via. Via a merda toda. Aquela bosta fedida era minha vida. A minha própria vida. E eu apertei. Apertei pra valer… Porque era a minha vida que valia ali. A minha bronca fodida de tudo. Desde que eu nasci. Desde esse apelido porco que carrego.”

Três décadas depois da sua publicação original (1976) Querô é uma eficaz marreta literária na demolição de algumas monolíticas ilusões. Uma delas, típica da mentalidade proto-fascista de parte da nossa sociedade, tem como base o ressentimento com os “direitos humanos” (é, fala-se assim, como se tratassem de uma entidade encarnada) e formas de proteção social (a lei do adolescente e do menor, por exemplo), responsáveis por um comportamento “folgado” da banda excluída; outra, a de que teria havido uma época em que a violência no país não era “tanta” (nem falemos aqui dos saudosos da ditadura militar).

Quando a violência não foi “tanta” (e tantalizante) no Brasil? Em que momento, que idade de ouro, não tivemos uma realidade brutal de exploração e de exclusão? Policiais corruptos, truculentos, moleques quase facínoras, pés de chinelo sem noção de cidadania, desamparados, carne para cemitério, serviços sociais precários, o romance de Plínio Marcos é, tanto quanto curto, eloqüente nesse sentido. Hoje, o que poderia diferenciar os Querôs de seus predecessores é haver certos estatutos que os protegeriam mais, se corretamente aplicados e cobrados pela sociedade civil. Fantasma de uma época em que sequer havia isso, a voz de Querô, ao contar sua trajetória, vem nos assombrar.

 

Outra ilusão, que parece antagônica, mas creio ser complementar, é o sentimentalismo em torno da garotada abandonada à sua própria sorte, um discurso bom mocista pífio e falso. Pela minha própria experiência, posso dizer que não há nada a resgatar em certos casos, eles só fingem que aceitam todo o blá blá blá com que os cercamos, e no fundo acham tudo uma babaquice, pois é outro o código que os rege, é o código da barbárie a que foram relegados, não-cidadãos que são. E há um ponto sem retorno, a filosofia definida por Querô: “Nas quebradas do mundaréu, na hora do ‘vamos ver’ ‘é cada um, cada um’”. E isso, caro leitor, por incrível que pareça, é filosofia profunda.

Para alterar suas premissas, seria preciso haver outro molde do humano. No mais, o relato do filho da prostituta que se mata ao beber querosene, faz um acachapante retrato de uma parte de Santos, entre as décadas de 60 e 70: a área do mercado, do cais, com seus puteiros, inferninhos (ainda então chamados de cabarés), bares, bibocas, pensões ordinárias, cortiços, as barcas para Itapema. E nada desenha melhor a mente e a experiência de Querô do que essa geografia.

 

É a Santos vivida na opressão da miséria e da ignorância, não muito diferente de qualquer cafundó nordestino. Os coronéis só mudam de domicílio, nunca de pele, e os filhos deles bem podem ser promotores armados, anunciando a tiros seus privilégios escusos. Para Querô, a terra é plana, uma linha nítida demarca o limite: nada de cidade balneária, nada das praias, dos célebres jardins, dos canais, do Gonzaga. Mais do que o mercado municipal, as docas, as bocas, é a terra da exclusão:

O Itapema eu conhecia bem. Quando estava com o Tainha, a gente sempre atravessava pra esse lado quando batia sujeira no cais do porto… Quase de noitinha, quando eu já ia desanimando, um catraieiro conhecido atracou. Arrisquei. Falei com ele. Deu certo. O homem me atravessou de graça pro mercado. Me senti livre. Estava com fome, com frio, com sono, quase nu. Mas estava em Santos. No mercado onde me criei. Estava, agora sim, em casa.”

(resenha  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 8 de setembro de 2007)

09/11/2012

Um cachalote agoniza em Garopaba: “Barba ensopada de sangue”

“A ideia de que esse dia está terminando o aflige. De trás do morro da Vigia, pontilhado pelas luzes das casas e dos postes, assuma justamente o vazio que veio procurar nesse lugar. É muito cedo para encontrá-lo. Tinha  fantasiado uma busca duradoura ou mesmo infinita e é frustrante ser lembrado tão cedo daquilo que prefere continuar fingindo não saber, que a sensação de vazio que cobiça está dormente dentro dele e que ele a arrasta consigo para onde vai. É como uma festa surpresa anunciada com antecedência ou uma piada explicada antes de ser contada.”

“O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares.”

“Alguma coisa no conjunto desse instante o comove. A cachorra aparenta estar contente e pacificada pela primeira vez desde a morte de seu pai.  Dália está confiando a seus cuidados o filho que ele ainda nem conhece. Talvez seja a afobação com que ela busca fincar a bandeira na vida dele, talvez ele simplesmente queira ficar sozinho e esteja dominado agora por uma carência momentânea, talvez no findo ele não a ature, não tem um diagnóstico preciso, mas surge uma sensação muito forte de que a relação íntima que estava nascendo entre eles começou a terminar nesse instante. Preferiria estar errado. E ao mesmo tempo há uma coerência interna reconfortante na maneira como um já afetou a vida do outro de maneira irreversível,  algo de bom que já se instalou e está protegido, que deverá durar mesmo que essas manhãs se interrompam hoje mesmo.”

“Há manhãs em que ele esquece de como foi parar ali e de qualquer ambição modesta que possa ter e sente que no fundo não há nada a desvendar ou entender a qualquer custo (…) Então o vento vira sem aviso. Sua força invisível reconfigura toda a paisagem em instantes. Soprando do sul, estica toda a superfície encrespada do mar em direção ao fundo como se estendesse um lençol amassado sobre a cama.”

 

(o  texto abaixo é uma versão mais extensa da resenha publicada pela Folha de São Paulo, em 08 de novembro de 2012)

NOTA- Algumas passagens abaixo revelam detalhes da trama, atenção.

Acesse : http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1181901-critica-daniel-galera-sucumbe-a-caricatura-de-romance-de-folego.shtml

Já no projeto anterior a Barba ensopada de sangue, a graphicnovel Cachalote(2010), em parceria com Rafael Coutinho, Daniel Galera parecia ter aumentado suas apostas como escritor: tratava-se de um complexo conjunto de tramas alternadas que, se não chegava a ser completamente bem-sucedido (antes o contrário), impunha respeito e mantinha seus admiradores na maior expectativa pelo novo e alentado romance.

Nele, o protagonista, atleta e professor de natação (com uma personalidade peculiar, meio neutra e desapegada, com a complicação neurológica de não conseguir lembrar do rosto das pessoas[1]), resolve instalar-se na estância balneária de Garopaba, após o suicídio do pai, porque este mencionara o mistério em torno da morte do avô ocorrida ali.

Há um nítido clima de hostilidade que volta e meia se torna ameaçador (ele é muito parecido com o ancestral, que se transformou na “lenda urbana” local), embora também acompanhado seu dia a dia por quase um ano, sempre tendo como parceira Beta, a cachorrinha que herdou do pai suicida (o qual pedira que a sacrificasse, mas ele não foi capaz de  cumprir a promessa, e mesmo quando ela é atropelada, teimosamente se aferra à qualquer indício de sobrevivência do animalzinho[2]) e será o pivô do clímax da história:

“O inverno o entusiasma por razões que não compreende (…) Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa.”

Nada faltava, portanto,  para que o ambicioso romance de 400 páginas fosse um marco: talento narrativo, autoridade na linguagem (sempre escreveu muito bem, e certas páginas do livro  provam isso à exaustão), cosmovisão, ambiente, personagem carismático…

Embarca-se na leitura com entusiasmo porque todos os indicadores (como mostram os trechos em epígrafe) mostram que será uma experiência e tanto.

De repente, percebe-se uma exasperação crescente com o texto, que nada tem a ver com esse mundo em riste, essa paisagem natural e humana prenhe de violência e aspectos intoleráveis (evocando J.M. Coetzee[3]):  cada personagem é descrito com pormenores delirantes, sua aparência, o que veste, mesmo que depois desapareça da narrativa, cada cenário, cada vale, cada morro; mas principalmente, nos damos conta de que estamos lendo a todo momento afirmações como as seguintes: “Compra uma cocada na banca da APAE, onde a renda é revertida para a instituição” (!!??; para que mais serviria uma barraca da APAE numa quermesse?);  “… seu celular é de Porto Alegre e o roaming está devorando os créditos.” (!!??);“Ele pedala a bicicleta a toda velocidade pelo acesso da Ferrugem e estaciona com um cavalo de pau em frente à cabana de Jasmim antes de ter tempo de começar a suar.” (!!??); ou “Carrega a mochila de acampamento com duas mudas de roupa, toalha, um sabonete, escova de dentes, a faca de cabo de tatu, o saco de dormir bem enrolado, dois isqueiros, um espelhinho, uma garrafa de água mineral, um quarto de queijo colonial, um salame, dois pacotes de biscoito recheado, bananas-passa, algumas maçãs e um pacote de ração canina, tudo dentro de sacolas plásticas.” (!!??), para não falar de informações pífias,  que de forma canhestra tentam incorporar o contingente ao continuum narrativo basicamente épico (como o escândalo envolvendo a governadora do Rio Grande do Sul[4]), ou trechos colocados de forma gratuita em discussões entre os personagens, que seriam mais interessantes sem eles[5] e, como se não bastasse, aquelas supostas sacações que só o são para gente muito mal informada (como a puta que lê Nietszche[6]), sem falar nos trechos simplesmente clichês:“Todo mundo parece ávido por ver e ser visto no formigueiro da comunidade em festa, à procura da catarse social prometida e desejada. Alguns usam seus melhores vestidos e ternos. Brincos pesados e relógios dourados faíscam no escuro (…) Ele caminha sozinho com um copo de quentão na mão (…) o ar gelado da noite resfria em questão de minutos a mistura fumegante de vinho doce, açúcar, cachaça e cravo-da-índia” ou ainda: “O mar em frente é uma grande massa de escuridão mais escura que a noite, um monstro ao mesmo tempo invisível e manifesto.”.

Quando toda a ameaça no ar parece se concretizar, justificando o título, a sensação (devido, talvez, cansaço do leitor) é de uma cena —com certo grau de comicidade— de western spaghetti (ou aquela sequência do Marlon Brando apanhando em Sindicato de Ladrões, se não for a do clímax de Rocky, um lutador), e olhe que já´tinha sido dose a cena em que ele encontra o avô, vivendo quase que literalmente nas cavernas, como ser totalmente revertido ao rústico e ao primevo,  após longa peregrinação pelas matas:

Tropega pela areia da praia até a escadinha, sobe os degraus, caminha um pouco pelo calçadão e começa a atravessa a rua em direção ao bar e aos latidos de Beta. Limpa o sangue dos olhos com as mangas do blusão e tem mais um pequeno acesso de tosse.  Quem ainda estava nas calçadas comentando a surra para de falar e olha para ele. Alguém no barzinho aponta para a rua e os outros também se viram. Ele se aproxima até ficar a dois passos da calçada.

   Tem cinco sujeitos numa das mesas. O bigodudo está atrás  do balcão secando copos com um pano branco. Todos o observam e ninguém diz nada.  Ele já não lembra do rosto deles e fica olhando de um para outro, sentindo o sangue escorrer nos olhos, piscando sem parar e franzindo o rosto inchado. Quatro dos cinco usam boné, três são loiros, e mais que isso ele não consegue reparar. Põe a mão em volta do queixo e espreme a barba ensopada de sangue de cima a baixo, até a ponta, fazendo escorrer um filete rubro que forma uma pequena poça nas lajotas brancas do pavimento [a essa altura talvez os leitores estejam ouvindo acordes de Ennio Morricone ou Bill Conti].

  Qual de vocês mesmo pegou a minha cachorra?”

Galera sucumbe a uma caricatura de romance de fôlego, e a agonia da narrativa lembra esses portentos formidáveis, esses cetáceos que encalham e morrem na praia, desastre a que assistimos com fascínio e consternação.


[1] Ele tem qualquer coisa dos heróis de Clint Eastwood, sintetizados em Gran Torino; diga-se de passagem, a “culpa coletiva” da comunidade (com relação à “morte” do avô) me lembrou outro filme de Eastwood, O estranho sem nome.

[2] É claro que esse é um fator que faz com que o leitor  se identifique com o mundo, não fosse por isso, quase autista dos heróis galerianos, desde Até o dia em que o cão morreu. O capítulo do diálogo com o pai, que foi publicado na “Granta” com o título Apneia,  é excelente.

[3] Além de Coetzee, a própria condição de narrador do protagonista (que pertence à categoria de pessoas caracterizada na pág. 135, “Nadar para eles é uma relação especial com o mundo”), fez com que me viessem à mente, como uma linhagem um tanto quanto melancólica, o narrador da simbólica e poética história de John Cheever, e a canção do R.E.M. Podemos ler ainda:

“A roupa de borracha atenua seu medo do oceano mas o medo está ali e aumenta assim que pensa nele. Tem a sensação de que o oceano quer alguma coisa dele mas não consegue imaginar o que seria essa coisa. É como se fosse uma informação que esqueceu ou nem sabe que sabe. O oceano o interroga e parece sempre prestes a perder a paciência mas ele sai a tempo de evitar um ataque de fúria.”

[4] “…essa sujeirada do Detran aqui—aliás, tu viu essa merda? Uma roubalheira do cacete, quarenta e quatro milhões, tá explodindo na governadora—mas assim que der para respirar eu vou fazendo umas ligações e tento adiantar alguma coisa pra ti.”

[5] “Já que tu é religioso, deixa eu te perguntar uma coisa. Digamos que um escritor famoso escreve uma coisa que ele nunca publica, mas ele entrega  manuscrito prum amigo de confiança, o melhor amigo dele, e pede pra que esse texto nunca seja publicado. O escritor morre. O amigo lê o texto e descobre que é uma obra-prima. E aí ele mostra o texto pra um editor, o editor publica e todo mundo concorda que é uma obra-prima e o escritor fica ainda mais respeitado depois da morte.

   Tá. Que tem?

  O que o amigo fez é errado? Ele traiu o escritor?

   Não to te entendendo. Tu tem um amigo escritor?

   Não. Porra. Peraí.

   Espera. Vou mudar a pergunta.

  O celular do Bonobo bipa mas ele não levanta para checar a mensagem.

  Só não entendi por que o escritor deixou o texto com o cara se ele não queria publicar. Por que não queimou de uma vez?”

[6] “Ela se vira de costas e ergue a blusa. Está escrito em letras grandes, atravessado na lombar, DEUS ESTÁ MORTO.

  Essa tatuagem é estranha.

  Legal, né? Eu adoro Nietzsche.

  Quem é Nietzsche mesmo?

   É um filósofo. O bigodudo. Uma amiga minha botou essa frase no Orkut e eu gostei. Li um livro dele. Além do Bem e do Mal.”

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