MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/11/2012

A traição ao anonimato papeleiro


A editora Record vem lançando uma coleção com os textos da primeira edição de clássicos brasileiros, entre eles, o de Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915 (mas escrito anos antes), um dos textos mais brilhantes e lúcidos da nossa ficção.

Muitos veem o herói, Policarpo Quaresma, como um Dom Quixote nacional (mas se pensarmos em algumas figuras da Primeira República cheias de projetos nacionalistas utópicos, como o escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, dos Contos gauchescos , Quaresma não chega a ser um caso tão peculiar). Ele é um funcionário público quarentão que se entupiu de livros e abraçou um ideal absoluto de nacionalidade, e que começa a cometer “loucuras” para o senso comum, como propor à Assembleia Legislativa a adoção do tupi-guarani como língua oficial do país. Há em Quaresma o mesmo desencontro entre o mundo vislumbrado nos livros e a realidade, e a mesma tomada de consciência da “realidade”, destruindo o ideal, ao final, quando “recobra-se” do fervor patriótico ao ser preso por protestar contra os desmandos da ditadura de Floriano Peixoto, que avilta os direitos humanos após sufocar a Revolta da Armada.

Os embates de Quaresma têm seu lado cômico, contudo há a grandeza pressentida pela afilhada, Olga: “Sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma ideia, um voo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém o mundo em que freqüentava”.

E é nesse diferenciar-se da mediocridade imperante que podemos ver também (e sobretudo) a influência de Flaubert, mais nítida ainda do que a de Cervantes, que considero mais superficial. Pois se Olga não está habituada a ver em ninguém a grandeza, mesmo que submetida ao ridículo, de seu padrinho, é porque Lima Barreto enfatiza para o leitor as mesquinharias e mazelas, a bêtise triunfante na vida social na última década do século passado, concentrando-se na vida suburbana e dos pequenos funcionários (na primeira parte), depois mostrando a vida rural, quando Quaresma tnta tornar produtivo um sítio na cidadezinha de Curuzu (na segunda parte, digna de Bouvard e Pécuchet), e,mais tarde, ao mostrar o jogo de interesses que preside o “patriotismo”, o sentimento nacionalista, quando explodem as revoltas contra Floriano. Tudo se mostra pequeno, acanhado, acachapante, a própria Olga (que tem mais imaginação que as outras moças) resigna-se ao destino do casamento por conveniência.

Veja-se a descrição de como os colegas de trabalho de Quaresma reagem à sua súbita notoriedade por causa da proposta da adoção oficial do tupi-guarani: “É como se se visse no portador da superioridade um traidor da mediocridade, do anonimato papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas superiores dos ministros, com mais direito à consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos” (é preciso lembrar que já em meados do século XIX, Gogol, com O Capote, e Hawthorne, na introdução de A letra escarlate, já lançavam um olhar de medusa ao reino encantado da mediocridade burocrática).

Enfim, o espetáculo miúdo da estupidez cotidiana, o pesadelo burocrático, a corrupção e a tirania política conduzem ao belíssimo capítulo final, um dos mais amargos já escritos. Felizmente, para contrabalançar a tristeza, onde o “triste fim” de Policarpo quaresma não é tanto sua morte físico, mas a morte dos seus sonhos, há o despertar de Olga,que retoma um processo de diferenciação que não é o da loucura (um dos grandes tema do livro) ou o do quixotismo e sim a consciência de si mesma. E é aí, talvez, que Lima Barreto deixa para trás paralelos com quaisquer outros autores e torna-se ele mesmo, um autor único.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, , em 26 de outubro de 1999)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-falso-conselheiro-aires/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/08/genio-da-raca-lima-barreto/

https://armonte.wordpress.com/2014/01/23/os-caminhos-de-isaias-caminha-ou-tres-voltas-sobre-o-mesmo-parafuso/

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