MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/11/2012

Jorge Amado em estado de graça: “Tenda dos Milagres”


(texto escrito especialmente para o blog em comemoração do centenário de Jorge Amado, em dez de agosto de 2012)

A Tenda continuava… a ser o centro da vida popular, ruidosa assembleia de conversas, ideias, realizações. Ali se escondiam pais e mães-de-santo perseguidos ali foram preservadas riquezas dos axés, ali o pai Procópio curou-se da surra de chicote que lhe rasgou as costas na polícia…”

“Daqui saí e aqui permaneço. Se em algo mudei e certamente assim aconteceu, se dentro de mim romperam-se valores e foram substituídos, se morreu uma parte de meu ser antigo, não renego nem renuncio a nada do que fui… Em meu peito tudo se soma e se mistura…” (diz o oswaldiano Pedro Archanjo[1])

Mesmo no tempo em que implicava com Jorge Amado, sempre mantive minha estima por TENDA DOS MILAGRES (1969). Enquanto, por mais que o respeitasse como realização épica, me irritava a sucessão de lugares-comuns que apareciam já no primeiro parágrafo de Terras do Sem-fim (uma besteira, porque o livro se garante de outra maneira, não como triunfo de “estilo”), não conseguia desencavar nada que desabonasse a história de Pedro Archanjo e a grande apologia da mestiçagem decorrente dela.

No momento em que se comemora o centenário de nascimento de Amado, nada mais natural que me voltasse para um livro no qual há também, ainda que de forma bem irônica, a comemoração de um centenário. E, com essa atualização da leitura, não mais sob o efeito da nostalgia (o único aspecto que teve o seu quê de nostálgico foi que, ao reler o romance na edição sem-graça da Companhia das Letras, senti saudade da bela edição original da Martins, ainda insuperada), posso alardear aos quatro ventos: trata-se de um belíssimo romance. Se não cria um mundo completo, na acepção balzaquiana, como Gabriela, cravo e canela (1958), possivelmente a obra-prima suprema do autor baiano, em termos de vitalidade do estilo e visão da vida, de verve, de  riqueza de ideias, acho que Tenda dos milagres é imbatível. Para mim, está para sua obra como O eleito está para a obra de Thomas Mann. Em ambos, parece que os autores estavam em estado de graça ao escrever, ambos dão a impressão de uma milagrosa reunião das qualidades e peculiaridades dos seus determinados universos autorais.

Comentei dos constrangimentos que a leitura de Amado (ainda mais uma orientada pela má vontade) acarreta mesmo no caso de seus melhores livros como Terras do Sem-fim, o que dirá dos piores  (Os ásperos tempos, primeiro volume de Os subterrâneos da liberdade, é um desfiar incessante de prosa fácil, calcada no lugar-comum e num apelo quase de folhetim barato). Mas de alguma forma Amado escapou das armadilhas da facilidade e cunhou um discurso narrativo delicioso, flexível, rico em inflexões e achados, ara TENDAS DOS MILAGRES.

Se Os ásperos tempos adota as soluções do folhetim sentimental, na história de Pedro Archanjo vemos um verdadeiro exercício da narrativa em todas as suas modulações, inclusive as picarescas e folhetinescas (só que de forma bem autoconsciente[2], basta lembrar da subtrama em que um dos filhos naturais de Archanjo, Tadeu, que se forma engenheiro e é rejeitado como pretendente da amada, por sua cor, não admite o plano do “padrinho”, como chama o progenitor, em raptar a noiva, por rocambolesco e exagerado —Tadeu já representa o aburguesamento:  “Pedro Archanjo pôde finalmente rir, não se propunha a palmatória do mundo, Lu e Tadeu resolvessem conforme melhor lhes aprouvesse, de qualquer maneira teriam seu apoio. Legalista e demorada, não era aquela a sua solução nem a de Alexandre Dumas, Pai, o mulato nascido do general de Napoleão e da bela negra da Martinica (da Martinicia ou de Guadalupe?—não se lembrava): se ouvidos, teriam optado pelo rapto incontinenti, de peito aberto”).[3]

Seu achado mais feliz foi fazer a narrativa ocorrer em dois tempos distintos (principalmente se atentarmos para a perigosa época em que o livro foi publicado; aliás, encontraremos diversas alusões e referências diretas aos arbítrios daqueles anos): em 1968, quando o renomado “sábio” norte-americano James D. Levenson chega, festejado e paparicado, à Bahia, e esnoba toda a agenda social tecida em torno da sua estadia, para se dedicar aos prazeres da companhia de uma jornalista mulata, Ana Mercedes, e à exaltação de um portentoso (porém, até então desconhecido) pensador baiano, cujos quatro livros fizeram a descrição e análise da riqueza dos costumes populares, das tradições africanas incorporadas à cultura brasileira, a mistura de sangues e de raças presente no cerne da baianidade, e quiçá, da brasileiridade,e, por fim, a riqueza que essa miscigenação étnico-cultural trouxe ao nosso país. Quem é Pedro Archanjo? Ao perceberem que ele é exaltado em terras estrangeiras, as autoridades e os intelectuais tentam se “apropriar” desse fenômeno, e o dono de um importante jornal tem a ideia genial de criar um calendário de eventos para comemorar o centenário de nascimento desse ilustre varão da terra.

O narrador é Fausto Pena, jovem poeta obscura, namorado constantemente corneado (e depois sumariamente posto de lado), inclusive pelo eminente e fogoso  Levenson, de Ana Mercedes, que, no entanto consegue para ele a incumbência de pesquisar para o “gringo” a vida obscura de Archanjo.

Primeiramente de maneira não-linear e emaranhada, depois mais nos trilhos, abre-se o segundo plano narrativo e recuamos para a Bahia das primeiras décadas do século XX (Archanjo morre aos 75 anos, em 1943) e descobrimos o porquê de todos ignorarem a existência desse pensador. Simplesmente porque ele mesmo era “mestiço”, além disso pobre (um mero bedel na faculdade de medicina, cargo que ocupou por trinta anos até ser expulso por ofender a honra de um professor racista, por ter publicado um livro sobre a mistura de raças na genealogia das tradicionalíssimas famílias baianas, e afirmar que ambos tinham um antepassado comum).

“Foi a partir desse tempo, moço de vinte e poucos anos, que Pedro Archanjo deu na mania de anotar histórias, acontecidos notícias, casos, nomes, datas, folhas, detalhes insignificantes, tudo que se referisse à vida popular. Para quê? Quem sabe lá. Pedro Archanjo era cheio de quizilas, de saberes e certamente não se devera ao acaso sua escolha, tão moderno ainda, para alto posto na casa de Xangô, levantado e consagrado Ojuobá, preferido entre tantos outros candidatos, velhos de respeito e sapiência. Coube-lhe, no entanto, o título, com os direitos e  os deveres; não completara ainda trinta anos quando o santo o escolheu e o declarou: não pudera haver maior acerto—Xangô sabe os porquês…”

A princípio, mesmo na releitura, já conhecendo o livro, apesar de gostar da mistura de tempos, das situações, enfim, apesar de achar o livro delicioso, eu implicava com a figura de Pedro Archanjo, que me parecia boa demais para ser verdade, um pouco como a figura do Zorba de Nikos Kazantzakis. Essa alegria de viver, essa mistura de genialidade com garanhice, essa identificação com o povo, essa coisa de ojuobá, me parecia “temperada” demais, excessiva, a ponto de não ver encanto justamente na figura principal do livro. O que ajudava a digerir bem esse excesso de tempero na composição de Archanjo era justamente a maneira hábil com que Amado abordava-o: um misto de diz-que-diz, meio lenda meio verdade, sem que os fatos chegassem a formar um conjunto nítido[4].

Mas isso era arrogância de leitor e eu pequei por não confiar suficientemente na maestria de Amado, mesmo adorando o texto. Se por um lado a narrativa vai ficando mais linear, sem perder que a prosa perca seu prodigioso sabor e saber, ao mesmo tempo a figura de Archanjo vai se tornando mais crível e enfim temos um personagem de primeira grandeza, não apenas um “fodão” do povo. Surpreendeu-me que eu, já macaco velho de montes de leituras, ficasse tão emocionado com a parte final de TENDA DOS MILAGRES, que eu acho muito triste (embora o livro, como deve ser, termine numa apresentação de samba-enredo de carnaval—mas quando foi que o samba não teve um fundo triste?)[5]. Depois que Archanjo vai escrevendo seus livros, e confessa ao seu “camarado” professor da faculdade de medicina que no fundo não acredita mais nos ritos do candomblé, naquela coisa de ojuobá, que ele os executa por um sentimento de adesão à cultura popular, mais ainda, a um sentimento de pertencimento, de fraternidade[6], ele se torna “o” personagem da galeria criada por Jorge Amado; não podemos esquecer também a narração do fim de sua vida, sem seu compadre Lídio Corró, vivendo de bicos, sempre anotando ditos e informações. São as melhores páginas que o autor de Jubiabá escreveu em sua vida.

E TENDA DOS MILAGRES se torna não apenas o meu livro predileto de Jorge Amado, mas um dos meus livros prediletos de toda a vida.


[1] Oswald de Andrade dizia: “eu somo, eu encaixo, eu incorpro”…. O burguês branco de São Paulo e o mulato baiano, ambos com a mesma glutonaria antropofágica pela vida.

[2] Ou nem tanto, o que de maneira nenhuma entrava o romance. Por exemplo, na subtrama em que a filha de Rosa de Oxalá se casa, e a mãe tem de assistir (escondida) a cerimônia na igreja, por ser negra e manteúda do dr. Jerônimo de Alcântara Pacheco, parece que estamos acompanhando um dramalhão estilizado de Douglas Sirk, o diretor da versão de Imitação da Vida, com Lana Turner.

Porém, o segredo dos romances realmente grandíssimos é o de incorporar várias linguagens e estratos.

[3] Diga-se de passagem, a própria origem de Tadeu é uma mescla do realismo literário com o lendário e o folhetinesco, pois sua mãe, Dorotéia, seria uma iaba, uma orixá encapetada, que queria brincar com a sexualidade do femeeiro Pedro Archanjo e acabou enrabichada por ele, depois no entanto “sumindo no mundo”, sem saber o que fazer com o filho “que só queria saber de livro e de contas”. A deserção de Tadeu da vida do “padrinho” é um dos muitos elementos que melancolizam as últimas páginas de TENDA DOS MILAGRES e ao mesmo tempo representa uma evolução pessoal do personagem e um processo social. Desse ponto de vista, o livro é um perfeito exemplo do romance histórico na acepção lukácsiana, mas não sei se o mestre húngaro da crítica literária concordaria.

[4] Veja-se esta passagem: “Em meio  a tanto embeleço, uma coisa é certa: a presença de Zabela na festa de Ogun em que se deu o encantamento. Divergem os relatos de narrador para narrador. Todos viram o bafafá com os olhos que a terra um dia há de comer mas cada qual o enxergou á sua maneira”.

[5] “Nas escolas de capoeira, a discutir com Budião e Valdeloir, nos pastoris, na sede dos Afoxé dos Pândegos da África, nos terreiros, nas madrugadas nas Sete Portas, em Água dos Meninos. De conversa em conversa, tomando notas na pequena caderneta preta, fazendo rir e chorar com casos acontecidos, numa correria, viveu o velho Pedro Archanjo os últimos anos de sua vida. Tanta corrida, tanta gente, tão sozinho.”

[6] “Tudo aquilo que foi meu lastro, terra onde tinha fincado os pés, tudo se transformou num jogo fácil de adivinhas. O que era milagrosa descida dos santos reduziu-se a um estado de transe que qualquer calouro da Faculdade analisa e expõe. Para mim, professor, só existe a matéria. Nem por isso deixo de ir ao terreiro e de exercer as funções de meu posto de Ojuobá, cumprir meu compromisso. Não me limito como o senhor que tem medo do que os outros possam pensar, tem medo de diminuir o tamanho de seu materialismo.

__ Sou coerente, você não é!, explodiu Fraga Neto, Se não acredita mais, não acha desonesto praticar uma farsa, como se acreditasse?

__ Não. Primeiro, como já lhe disse, gosto de danar e de cantar, gosto de festa, antes de tudo de festa de candomblé. Ademais, há o seguinte: estamos numa luta, cruel e dura. Veja com que violência querem destruir tudo que nós, negros e mulatos, possuímos, nossos bens, nossa fisionomia. Ainda há pouco tempo, com o delegado Pedrito, ir a candomblé era um perigo, o cidadão arriscava a liberdade e até a vida (…) O senhor pensa que, seu eu fosse discutir com o delegado Pedrito, como estou discutindo com o senhor, teria obtido algum resultado? Se eu houvesse proclamado meu materialismo, largo de mão o candomblé, dito que tudo aquilo não passava de um brinquedo de criança, resultado medo primitivo, da ignorância e da miséria, a quem eu ajudaria? Eu ajudaria, professor, ao delegado Pedrito e sua malta de facínoras, ajudaria a acabar com uma festa do povo. Prefiro continuar a ir ao candomblé, ademais gosto de ir, adoro puxar cantiga e dançar em frente aos atabaques.

__ Assim, mestre Pedro, você não ajuda a modificar a sociedade, não transforma o mundo.

__ Será que não? Eu penso que os orixás são um bem do povo. A  luta da capoeira, o samba-de-roda, os afoxés, os atabaques, os berimbaus são bens do povo. Todas essas coisas  e muitas outras que o senhor, com seu pensamento estreito, quer acabar, professor, igualzinho ao delegado Pedrito, me desculpe lhe dizer. Meu materialismo não me limita…”

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