MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/11/2012

O autor como personagem: o Dostoiévski de Coetzee


  

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Em 1869, Dostoiévski volta à Rússia por causa da morte (suicídio? acidente? assassinato?) do seu enteado, Pavel. Aluga o quarto onde ele estava vivendo e envolve-se com a proprietária, Anna, e a filha dela, Matryona. Ao tentar resgatar os papeis de Pavel que ficaram em poder da polícia, descobre o seu envolvimento (e também o de Matryona) com o ideólogo terrorista Nechaev; este, por sua vez, entra em contato com o grande escritor russo, apesar da perseguição da polícia.

Em O Mestre de São Petersburgo (The Master of Petersburg, 1994, traduzido por Luis Roberto Mendes Gonçalves, e que na edição da Best Seller ganhou o rebarbativo título de Dostoiévski, o mestre de São Petersburgo), o sul-africano J.M. Coetzee[1] parece ter almejado uma combinação da atmosfera de Crime e Castigo e a de Os Demônios, duas das principais obras de Dostoiévski. Será que ele conseguiu?

No começo, e até certa altura, parece que sim. É muito persuasiva a maneira como o quarte de Pavel e o “fantasma” do enteado vão se apossando de Dostoiévski, paralisando sua vontade de voltar para a Alemanha e reencontrar a esposa, fazendo com que ele tenha de se debater com a questão da paternidade (tão presente em seu universo, basta lembrar o exemplo mais óbvio, Os irmãos Karamázovi). E a técnica narrativa de Coetzee ajuda bastante a manter o interesse: ele parece convencido de que é impossível capturar a vida interior, o movimento subjetivo dos personagens, pelas palavras. O discurso do narrador atua, então, como uma câmera cinematográfica, mantendo um forte teor descritivo. Temos a sensação nítida de estar acompanhando a um filme em palavras, com aquela qualidade opaca da imagem, de só sugerir o que pode estar acontecendo intimamente com os personagens. Nesse passo da história, Anna, a senhoria, com o qual ló padrasto de Pavel estabelece uma tensa relação sexual, chega a lembrar certas personagens de José Saramago, como a Blimunda, de Memorial do Convento, ou a Joana Carda, de A Jangada de Pedra, mulheres do povo com uma sabedoria recôndita e crispada.

Por outro lado, embora a narrativa até se torne mais “dinâmica” com a entrada de Nechaev (o terrorista que tenta cooptar Dostoiévski, utilizando sua obsessão com Pavel), o livro perde sua força narrativa ao entrar no mundo conspiratório de burocracia policial, informantes e disfarces de terroristas. A trama de Coetzee aproxima-se sorrateiramente, como um informante, da lengalenga.

Quando, no final, a leitura da papelada deixada por Pavel se transforma numa espécie de arcabouço para Os Demônios, nem parece mais que estamos lendo o mesmo romance. Dostoiévski se perde com Nechaev pelas vielas de São Petersburgo (com o subversivo pretendendo mostrar a miséria russa para convencer seu interlocutor a colaborar com a Causa) e Coetzee perde o rumo da narrativa. O tom, pelo menos. Até mesmo Anna perde a qualidade saramaguiana que lhe dava certa magia e escorrega para a banalidade. O próprio Dostoiévski fica mais com cara de Barton Fink, emparedado num quarto que é, na verdade, uma metáfora da sua mente. Aliás, acontece com Coetzee o efeito irmãos Coen, criadores de Fink (e também de Miller´s Crossing): há muita ambição, muito estilo, só que nunca se chega a dizer a que se veio. O talento (inegável) é corroído pela gratuidade.

Encarando os 20 capítulos de O Mestre de são Petersburgo, pode-se dizer que ele segura as pontas até o capítulo 15, e, aos poucos, começa a ficar difuso, repetitivo, e encher linguiça. É uma pena porque, vindo de um país cuja base social estruturava-se num problema catalisador como o apartheid, que coloca todos em questão, Coetzee poderia ter a medida certa  para tratar desse mundo dostoievskiano, no qual o íntimo e o social entrelaçam-se, no qual um é a ampliação do outro.

Entretanto, sobram ainda as belas páginas que evocam os bons tempos do romance existencialista, como A Náusea: “Por que essa lenta caçada através dos campos vazios, atrás da impressão de um fantasma, o fantasma de uma impressão? Porque eu sou ele. Porque ele é eu. Alguma coisa que tento agarrar: o momento antes da extinção, quando o sangue ainda corre, o coração ainda bate. Coração, o boi fiel que mantém o moinho girando, que levanta apenas um olhar aturdido quando o machado se ergue alto, mas aceita o golpe, dobra os joelhos e expira.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 1997)


[1] Nota de 2012; Essa foi a minha primeira leitura de um livro de Coetzee, e pouco sabia da sua produção (e prestígio). Só fui conhecer melhor seu universo alguns anos depois, já quando ele estava no estágio “Companhia das Letras”, após alguns títulos lançados pela Best Seller, entre eles o extraordinário À espera dos bárbaros.

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