MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/11/2012

O autor como personagem: A FOME DE NELSON


“Minha doença me revelou a minha mulher, e aliás me revelou a mim mesmo. Nunca fui de desconfianças, e sempre enchi Silvana de mimos, sem fazer uma crítica, um reparo, um senão. Quando as tosses começaram, o rosto dela assumiu uma expressão preocupada. Vivia torcendo um lencinho bordado nas mãos e estendendo-o para minhas mãos trêmulas. Tornou-se de forma geral mais atenciosa com tudo e com todos. Recebia as visitas com esmero e quase devoção: comprava flores, arrumava mil vezes os bibelôs sobre o aparador. Um dia, percebi um olhar diferente dela para um amigo meu, que nos visitava todas as segundas-feiras. Logo notei que nesses dias ela se arrumava de forma especial, sempre com um novo detalhe, como uma presilha nova ou uma sandália mais delicada. Seriam ciúmes de tuberculoso?—era o que me perguntava. Passei a responder com um resmungo ás perguntas que me fazia, e ela deixou de me olhar diretamente nos olhos, como costumava fazer, com seu rosto erguido e seu riso franco de outrora. Mas quando meu amigo chegava—e suas visitas eram cada vez mais frequentes—ela se desdobrava em sorrisos. Você sabe que a cara do marido pode influir no adultério; quanto mais uma tosse seca e insistente. Eu espionava-a quando ela pensava esta sozinha, e mais de uma vez a peguei cantando baixinho. Silvana saía todo fim de tarde, esquivando-se de mim. Meus amigos frequentavam então pouco a nossa casa; tenho certeza de que ela saía para encontrá-los em outros lugares—sabe-se lá em que antros. Via cenas horríveis: de boca vermelha e retorcida, ela me traía com meu irmão, meus amigos e até com um padre que conhecíamos. Eu estava magro, mas os braços e as pernas dela tinham se tornado diáfanos, quase transparentes. Finalmente mal nos olhávamos; e quanto tive de partir nos demos um vago adeus. O mais incrível de tudo é que eu, mesmo sem falar com ela, mesmo fingindo ignorá-la da maneira mais abjeta, a perdoava, desde o início, e ainda hoje a perdoo.”

“O tuberculoso é aquele que teima em viver depois de ter morrido”.

As duas citações acima foram extraídas de A fome de Nelson, romance de Adriana Armony publicado em 2005 pela Record. A autora carioca, então com 36 anos, vinha de uma tese de doutorado em que estudava Nelson Rodrigues como leitor de Dostoiévski. Logo, nada mais natural do que transformá-lo num personagem dostoievskiano.

O período da sua vida em que a família está na quase-miséria absoluta devido à sucessão de ocorrências trágicas (o assassinato do irmão, o galã da família, Roberto Rodrigues, por Sylvia Seraphim, a qual, na verdade, fora à redação do jornal que o pai dirigia para matar a ele, que acabou morrendo, de fato, pouco depois, e o declínio financeiro arrastou a todos), a aparência maltrapilha, a vida mental intensa e que muitas vezes não se ajusta à realidade circundante (candidato a escritor, escriba do jornal “O Globo”, frequenta meios literários, mas é como se fosse num clima de sonho: é apaixonado e alimenta projetos de casamento com uma linda bailarina, Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, com a qual mal troca alguma palavras[1]), as caminhadas sem fim (premido pela falta de dinheiro para a passagem) pelo Rio de Janeiro nos anos 30, do subúrbio até o centro, todos esses elementos são perfeitos para criar uma atmosfera digna do autor de Crime e Castigo. E a cereja do bolo: a tuberculose, que leva o jovem escritor “febril” para a sua Sibéria pessoal, o Sanatorinho, em Campos de Jordão (Raskólnikhov foi para a Sibéria, degredado, no final do romance mais famoso de Dostoievski, e o próprio autor russo viveu essa experiência-limite, como nos conta em Recordações da casa dos mortos).

Para servir de anteparo a essa ligação estreita entre os dois escritores (e, sejamos francos, também em função de cacoetes da pós-modernidade[2]), Adriana Armony molda um narrador que resolve contar sobre a vida de Nelson porque supostamente teria sido seu contemporâneo na estadia em Sanatorinho (embora não se aproximassem muito ali). Mais tarde, funcionário público aposentado, escreverá um relato obsessivo e que pode conter uma mistura do factual com o literário e o alucinatório (como nota argutamente o autor da orelha do livro, Ricardo Oiticica, essa confluência aproxima A fome de Nelson da experiência levada a cabo por Nelson em Vestido de Noiva e seus planos alternados)[3].

Considero o livro muito bem realizado. Se há um senão a fazer é o fato de a autora não nos dar mais, de não ter feito um relato mais longo.

Eu sei, eu sei que o sintético é bom, que menos é mais (e também que o mais das vezes a reclamação é oposta: de que um livro poderia ser menor, sem prejuízo), e o próprio Nelson Rodrigues, excessivo como era, chegou aos píncaros da sua realização artística no “nada falta, nada sobra” de Senhora dos afogados (1947).

Entretanto, Adriana Armony coloca tantas coisas, misturando até focos narrativos distintos (como o da irmã de três anos de Nelson, num determinado momento) num texto tão curtinho, que ela mesma parece eloquentemente ressaltar que poderia ter percorrido outros caminhos dentro do texto e feito um romance maior.

Não acho justo que isso fique como uma sombra prejudicando o efeito geral de A fome de Nelson, apenas sublinho que não faltaria material para ela expandir seus paralelos dostoievskianos e que esse lado fuliginoso da biografia rodriguiana é propício para uma obra de fôlego maior.

Gostei especialmente da parte de Sanatorinho, da convivência com outros “mortos sem morte” (um dos quais é o que narra a história da epígrafe), e sobretudo, do relato da criação de um primeiro “espetáculo” rodriguiano dentro daquela instituição como forma de mostrar a passagem do candidato a romancista-epígono de Dostoievski para um autor teatral com sua voz única, além do fato de que aqueles “solteiros” forçados se movimentarem no polo psíquico dos abandonados, dos traídos que perdoam, dos ressentidos, dos impotentes, dos nostálgicos mesmo do desprezo e indiferença da mulher, ou seja o polo em que se movimentarão tantos personagens do futuro dramaturgo, cronista e folhetinista.

Ao fim e ao cabo, esse curto e eficaz A fome de Nelson nos dá fome de Nelson, de mergulhar novamente no seu universo de tuberculoso que viveu depois de ter morrido.


[1] As cenas no “salão parisiense” de Eros lembram similares em Memórias do Subsolo ou O Duplo, com o protagonista sempre em “estado de vexame”.

[2] Daí que o relato comece com um tom paródico (apropriando-se do início de Memórias do Subsolo):

“Sou um homem doente, um homem desagradável, creio que sofro do fígado… É mais pura verdade; e no entanto alguém já escreveu isto, e me espreita das páginas de um livro com sua barba espessa e olhos que ´perscrutam a alma´ (…) surge-me inadvertidamente essa palavra antiga, alada, que se estende como um lençol perfumado sobre o meu corpo cansado. Quem hoje perscruta a alma de alguém? Ou antes: quem hoje tem alma? É uma palavra tão fora de moda quanto ´polainas´, por exemplo…”

[3] “… aqui me confundo, não sei mais quem é este, se ele ou outro, ou se fui eu, com minha febre de tuberculoso, em meu delírio de desenganado, que misturei tudo, pois o que ocorreu provavelmente foi algo inteiramente diverso, a tosse seca de Nelson simplesmente se repetiu até consultarem um médico, que pediu que ele repetisse 33, mas não disse que a melhor coisa a fazer era tocar um tango argentino; e era Dostoievski que tinha ataques epilépticos precedidos de uma iluminação que o cegava, uma sensação aguda de prazer que se espraiava em doces e terríveis convulsões; além do quê, toda essa história de crime soa talvez um tanto forçada; a verdade é que, descoberta a tuberculose, Nelson foi mandado para uma casa de recuperação, onde conheceu homens esquálidos e fascinantes, ´mortos sem morte´ que viriam mais tarde povoar sua imaginação; foi lá que eu o conheci e, a meu modo, o amei”.

4 Comentários »

  1. Vou esperar com ansiedade os seus comentários sobre as peças de Nelson Rodrigues. Tive a oportunidade de interpretar no teatro Aprígio em O Beijo no Asfalto e o Juiz Misael Drummond em Senhora dos Afogados. Faço essa menção porque Nelson, assim como outros autores clássicos de teatro, são muito mal interpretados e entendidos. Porém, pelo prestigío que seu nome tem, vemos dezenas e dezenas de produções suas a cada ano. Como disse um amigo meu certa vez: “Em cada esquina se faz um Nelson”. E no cinema foi a mesma coisa.
    Além disso, as pessoas parecem não ter muita paciência de procurar estudar e entender com calma o autor e suas muitas ligações com diversos ramos do conhecimento humano e da cultura. Um dos motivos, talvez, de seus textos não serem atuados como deveriam. Em qualquer escola ou cursinho de teatro, se coloca Nelson para ser feito por pessoas que nunca tiveram contato com interpretação e apenas querem ir para a televisão. Grande parte dos professores parece também não entender Nelson. Mas, repetindo, pelo nome que tem, todos buscam fazê-lo logo de cara e o mais rápido possível.
    Digo isso pois algo que Nelson dizia buscar muito em suas peças era a interpretação exagerada, sem pudores, dos atores: que rolassem no chão e se jogassem contra a parede se preciso. Para ele, aqui no Brasil, os atores procuravam muito copiar modelos europeus rigídos e teatrais no sentido mais arcaico da palavra. Portanto, o que Nelson propunha era uma proposta radical de interpretação, que traduzisse o afloramento do inconsciente por debaixo das convenções sociais. E não é fácil ser exagerado e verdadeiro ao mesmo tempo. O ator, se estuda e tem o preparo adequado, caso de poucos, sabe que deve andar em uma corda bamba, em um limite tênue para interpretar Nelson.
    Essa sempre foi minha visão e o que exaustivamente tentei. Não me cabe dizer aqui se consegui isso, especialmente em detrimento dos atores que seguiram outra linha, nem me colocar como dono da verdade em relação a essa posição. É a minha visão e respeito a discordância de cada um.
    No entanto, na visão de muitos, Nelson “viaja”, “é ultrapassado”, “datado”. Em algumas coisas, sim, talvez. Mas essa proposta de atuação, de exposição selvagem, dionisíaca do ator que poucos conseguem fazer e por isso nem todos deveriam tentar é algo, a meu ver, que deveria ser mais pensado e estudado pelos analistas de Nelson. Penso, também, que deveriam haver mais adaptações atualizadas para o cinema em contraste ao muito que foi feito no passado. Aliás, para mim, apesar dele ter escrito para teatro, seu trabalho e essa proposta de atuação da qual falei se prestariam muito melhor ao cinema do que aos palcos.

    Abraços!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 19/08/2012 @ 20:35 | Responder

    • Pois é, Fabrizio, você vai perceber nos textos que eu postar sobre peças de Nelson a minha insatisfação com o tom adotado na interpretação de Nelson. Para dizer a verdade, só gostei quando vi “Nelson 2 Rodrigues” (reformulação de Antunes Filho do espetáculo “Nelson Rodrigues- O eterno retorno”), “Paraíso Zona Norte” e “Senhora dos afogados” do grande encenador paulista. E gosto do tom dado à “Falecida” por Leon Hirzsman e gosto, apesar da gritaria da interpretação, que “data” muito o filme, de “Toda nudez será castigada” do Jabor. O resto…
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 20/08/2012 @ 13:25 | Responder

  2. Exatamente. Percebo que seu pensamento se alinha com o meu. Não vi as montagens de Antunes Filho porque ainda não tinha idade para isso mas pelo que li delas e por cenas que pude ver filmadas de sua montagem de Senhora dos Afogados creio que ele foi um dos poucos que realmente entendeu Nelson Rodrigues. Pelo menos nesse sentido de que Nelson se preocupava muito mais com a antropologia do homem do que com sua psicologia. Com aquilo que surgiu no homem antes da sua civilização, socialização e desenvolvimento psicológico. E os poucos bons estudos que temos de Nelson em livros mostram isso.
    A própria história de Antunes Filho como diretor de teatro mostra uma preocupação muito grande e influência de estudos de antropologia. Certa vez, vi uma bibliografia extensa dele para alunos de suas oficinas e cursos. Não estava nenhum livro de interpretação ou teoria teatral e, se não me engano, nem de psicologia (talvez os de Jung). Grande parte era de autores de antropologia, de estudo dos mitos arcaicos da civilização tais como Mircea Eliade (que Antunes parece adorar), Joseph Campbell e outros.
    E, não tenho plena certeza, pois já faz muito tempo que li uma matéria sobre exercícios de atuação propostos por Antunes a seus atores mas creio serem práticas para fazê-los sentirem-se retornando ao estado primitivo do ser humano, fazendo-os portarem-se até mesmo como animais. Mesmo assim, não sei se os atores de Antunes pegaram a proposta de atuação de Nelson. Digo isso, pois há cerca de uns dois anos vi uma encenação de Antígona de Antunes que foi exibida aqui no Rio onde ele faz os atores utilizarem um modo de empregar a voz, baseado em muitos estudos seus, que se baseia na RESSONÂNCIA e não na PROJEÇÃO da fala que é o que todos fazem no teatro. Antunes sempre disse que os atores brasileiros não sabem utilizar a voz, são inconscientemente influenciados por práticas antigas de atuação do teatrão português que vem do século XIX e que a lingua portuguesa, muito mais vocálica, não se presta ao palco, diferente da russa ou inglesa, anglo-saxônica, que é consonantal e muito mais ressonante.
    Os atores brasileiros, segundo ele, sempre forçam a voz no palco pois procuram projetá-la e não fazê-lá ressoar e, dessa forma, tudo fica gritado, forçado e artificial. No espetáculo dele que assisti, realmente os atores não levantam a voz e procurei sentar nas últimas fileiras do teatro para aferir essa experiência. Os atores falam naturalmente, até baixo e se ouve perfeitamente, limpidamente. Mas as interpretações ficaram todas com tom monocórdio. Não serviria jamais para Nelson, a meu ver e não sei como foram essas encenações dele dos textos rodriguianos.
    A tradição de interpretação teatral brasileira que Antunes critica somada a Nelson Rodrigues cujas cenas já levam ao exagero que, como disse em outro post, o ator tem que dominar muito bem para não ficar bizarro e cômico levam justamente a seus personagens sempre se transformarem em caricaturas. Com isso, não parecem mostrar que Nelson está usando seus personagens como metáfora do que existe de primitivo no ser humano. Dessa forma, creio que se consolidou uma visão estereotipada e superficial de Nelson. E ao se autodenominar “Anjo Pornográfico” me parece que ele reforçou isso. As adaptações para cinema, teatro e televisão fortalecem mais ainda esse personagem e uma visão falsa do que ele realmente quis expor: que as situações e seres humanos de suas peças não são algo inusitado, a parte e exceções saídos da mente de um delirante, mas estudo e dissecações sérias do que existe em todos nós.

    Forte abraço!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 20/08/2012 @ 19:44 | Responder

    • É isso aí, Fabrizio. Eu sou um grande admirador de Antunes Filho, desde que assisti MACUNAÍMA aos 16 ou 17 anos (e olhe que nem gosto do livro de Mário de Andrade). Para mim, ele é o Kubrick do teatro brasileiro. E realmente você mata a charada quando diz que o interesse de Nelson Rodrigues é mais antropológico que psicanalítico (ainda que o psicanalítico se inscreva de qualquer forma nessa antropologia).
      E me incomoda de fato o tipo de interpretação adotado pelos atores brasileiros em geral, no cinema, na tevê e no teatro. Ou é um naturalismo tosco ou uma gritaria forçada e empostada, que mal dá para suportar, mesmo em obras do nível de TERRA EM TRANSE, de Glauber Rocha. Por tudo isso, a mais sóbria versão de uma peça de Nelson é A FALECIDA.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 22/08/2012 @ 8:51 | Responder


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