MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/11/2012

Sobre a Granta e os “melhores jovens escritores”


NOTA EXPLICATIVA  

Tinha certa preguiça de ler a GRANTA dos “melhores jovens escritores brasileiros” não por qualquer prevenção, ou porque a seleção tivesse me revoltado, nada disso. É porque não gosto de ler antologias (só se for de textos de um autor só). Essas antologias-miscelâneas de autores ou assuntos não me interessam muito. Mas desde o lançamento para cá tanta gente me perguntou o que eu achava da tal seleção, como eu me posicionava, etc etc etc, e como tenho lido um bocado de ficção atual, acabei cedendo.

(o texto abaixo é uma versão ligeiramente mais estendida da resenha publicada  em A TRIBUNA de Santos, em 13 de novembro de 2012)

Na edição internacional de Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros,  a polêmica seleção feita pela prestigiosa Revista Granta de 20 nomes, com idade abaixo dos 40, da nossa ficção atual,  Apneia, de Daniel Galera, que aparece como o 6º. texto na versão brasileira, foi deslocado de forma a encerrá-la. Não deixa de ser um risco para o conjunto, pois sendo–tomado como peça independente–  o mais forte e vistoso entre os textos escolhidos, também poderá ser visto como um “gran finale”, exercendo pressão no sentido negativo: tudo que vem antes é como se fosse preparação para esse “clímax”.

O próprio Galera acaba de lançar o romance do qual a amostra na coletânea era o capítulo inicial, Barba Ensopada de Sangue, 420 páginas que fazem sentir saudade da qualidade irretocável desse fragmento.

Dos outros 19 “eleitos”, cinco já frequentaram esta coluna: Michel Laub Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Tatiana Salem Levy e Julián Fuks.

Laub e Lísias (junto com Galera) representam de fato o que há de mais relevante e consistente na nossa ficção jovem; creio, porém, que os ótimos Animais e Tólia, ao contrário do texto do colega de ofício, serão muito mais apreciados por quem já conhece seus trabalhos anteriores, a maneira como foram construindo suas “vozes” narrativa muito próprias. Os neófitos ficarão um pouco desconcertados, desconfio, principalmente com o de Lísias.

Quanto às amostras de Cuenca e Tatiana (Antes da queda e O Rio sua), sem me deter em aspectos problemáticos (que os dois apresentam, em especial o dele, cujo resultado final quase não ultrapassa o nível da crônica), me pareceu muito afortunado e enriquecedor o efeito de espelhamento que ambos proporcionam: num deles, há a recusa do Rio de Janeiro, por parte do narrador (junto com o medo de que, na verdade, a cidade o esteja recusando), e um diagnóstico de suas mazelas; no outro há uma entrega quase fisiológica à sua persuasão. Recomendo a leitura conjunta, mesmo que não tenha sido essa a intenção original.

E o conto de Julián Fuks, O jantar, apesar da laboriosidade vocabular, que cansa um pouco (Fuks parece sempre estar lutando ingloriamente com a língua portuguesa, luta que não tem nada a ver com aquela de Drummond) é muito bem arquitetado, com um final perfeito e impactante, digno de ser citado nos manuais do gênero que recomendam o “efeito” construído pouco a pouco, criando uma sensação de nocaute no desenlace.

Todos os citados, e outros que eu ainda não conhecia, têm obras publicadas, alguns até  uma carreira bem sólida. No entanto, que esquisitas as inclusões de Emilio Fraia e Miguel Del Castillo, que mal têm títulos a apresentar (embora Fraia tenha escrito um romance, em parceria com Vanessa Barbara, também presente na coletânea, se é possível dizer isso)! São “personalidades” de escritor que vieram antes de uma obra propriamente dita (Temporada e Violeta, podem, no máximo, ser etiquetados com aquele adjetivo para lá de vago: promissores). O fator suspeito é que os dois trabalham como editores na mesma casa (CosacNaify). Não  à toa, choveram acusações e suspeitas, quando os 20 nomes foram anunciados.

Não é o caso do quase inédito em livro Vinicius Jatobá, cujo Natureza Morta é muito mais do que promissor, e nos dá vontade de conhecer mais dele, bem como os ainda melhores, e mais bem-acabados, Teresa (Cristhiano Aguiar) e A febre do rato (Javier Arancibia Contreras), os quais, além de pontos altos da seleção, nos dão muita vontade de ler o que os autores já publicaram e criam a maior expectativa com relação ao que farão no futuro. Os três confirmam que certas linhagens narrativas, voltadas para o existencialismo e o expressionismo estão bem vivas.

Também duas amostras de romances que estão sendo escritos nos deixam com gosto de “quero mais” (o oposto do que acontece com Faíscas, de Carol Bensimon, uma das escolhas menos felizes do volume): o intenso Fragmento de um romance, de Carola Saavedra, e o divertido e inteligente F para Welles, de Antônio Xerxenesky, que parece seguir, salvo engano, o caminho trilhado quase solitariamente por Roberto Drummond.

Para mim, o texto mais surpreendente (porque, sem o ter lido, considerava chatinho o autor, por suas entrevistas enfatuadas) foi o delicioso Valdir Peres, Juanito e Poloskei, de Antônio Prata, prova que nunca podemos fechar a conta antes do tempo. E por falar em fechamento de conta, 12 textos minimamente interessantes num conjunto de 20 (no meu saldo), não é nada mal.

2 Comentários »

  1. A crônica do Cuenca me agradou bastante. Gostei do conto do Sarmatz. O do Laub me rememorou seu Diário da Queda. O conto do Lísias deixou muito a desejar, assim como o da Geisler. O do Fuks é bom. Ainda tenho outros para ler. Concordo convosco, esse tipo de antologia também não me agrada.

    Comentário por Rafa — 13/11/2012 @ 11:09 | Responder

    • Essa é a questão quanto a esse tipo de coletânea, Rafa. No final, tudo fica no “eu gostei desse, não gostei daquele…”
      Na minha opinião, o Ricardo Lísias (de quem adorei o conto na Granta, achei fascinante) é o melhor escritor surgido em anos recentes no Brasil.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 13/11/2012 @ 14:56 | Responder


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