MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/11/2012

Um cachalote agoniza em Garopaba: “Barba ensopada de sangue”


“A ideia de que esse dia está terminando o aflige. De trás do morro da Vigia, pontilhado pelas luzes das casas e dos postes, assuma justamente o vazio que veio procurar nesse lugar. É muito cedo para encontrá-lo. Tinha  fantasiado uma busca duradoura ou mesmo infinita e é frustrante ser lembrado tão cedo daquilo que prefere continuar fingindo não saber, que a sensação de vazio que cobiça está dormente dentro dele e que ele a arrasta consigo para onde vai. É como uma festa surpresa anunciada com antecedência ou uma piada explicada antes de ser contada.”

“O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares.”

“Alguma coisa no conjunto desse instante o comove. A cachorra aparenta estar contente e pacificada pela primeira vez desde a morte de seu pai.  Dália está confiando a seus cuidados o filho que ele ainda nem conhece. Talvez seja a afobação com que ela busca fincar a bandeira na vida dele, talvez ele simplesmente queira ficar sozinho e esteja dominado agora por uma carência momentânea, talvez no findo ele não a ature, não tem um diagnóstico preciso, mas surge uma sensação muito forte de que a relação íntima que estava nascendo entre eles começou a terminar nesse instante. Preferiria estar errado. E ao mesmo tempo há uma coerência interna reconfortante na maneira como um já afetou a vida do outro de maneira irreversível,  algo de bom que já se instalou e está protegido, que deverá durar mesmo que essas manhãs se interrompam hoje mesmo.”

“Há manhãs em que ele esquece de como foi parar ali e de qualquer ambição modesta que possa ter e sente que no fundo não há nada a desvendar ou entender a qualquer custo (…) Então o vento vira sem aviso. Sua força invisível reconfigura toda a paisagem em instantes. Soprando do sul, estica toda a superfície encrespada do mar em direção ao fundo como se estendesse um lençol amassado sobre a cama.”

 

(o  texto abaixo é uma versão mais extensa da resenha publicada pela Folha de São Paulo, em 08 de novembro de 2012)

NOTA- Algumas passagens abaixo revelam detalhes da trama, atenção.

Acesse : http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1181901-critica-daniel-galera-sucumbe-a-caricatura-de-romance-de-folego.shtml

Já no projeto anterior a Barba ensopada de sangue, a graphicnovel Cachalote(2010), em parceria com Rafael Coutinho, Daniel Galera parecia ter aumentado suas apostas como escritor: tratava-se de um complexo conjunto de tramas alternadas que, se não chegava a ser completamente bem-sucedido (antes o contrário), impunha respeito e mantinha seus admiradores na maior expectativa pelo novo e alentado romance.

Nele, o protagonista, atleta e professor de natação (com uma personalidade peculiar, meio neutra e desapegada, com a complicação neurológica de não conseguir lembrar do rosto das pessoas[1]), resolve instalar-se na estância balneária de Garopaba, após o suicídio do pai, porque este mencionara o mistério em torno da morte do avô ocorrida ali.

Há um nítido clima de hostilidade que volta e meia se torna ameaçador (ele é muito parecido com o ancestral, que se transformou na “lenda urbana” local), embora também acompanhado seu dia a dia por quase um ano, sempre tendo como parceira Beta, a cachorrinha que herdou do pai suicida (o qual pedira que a sacrificasse, mas ele não foi capaz de  cumprir a promessa, e mesmo quando ela é atropelada, teimosamente se aferra à qualquer indício de sobrevivência do animalzinho[2]) e será o pivô do clímax da história:

“O inverno o entusiasma por razões que não compreende (…) Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa.”

Nada faltava, portanto,  para que o ambicioso romance de 400 páginas fosse um marco: talento narrativo, autoridade na linguagem (sempre escreveu muito bem, e certas páginas do livro  provam isso à exaustão), cosmovisão, ambiente, personagem carismático…

Embarca-se na leitura com entusiasmo porque todos os indicadores (como mostram os trechos em epígrafe) mostram que será uma experiência e tanto.

De repente, percebe-se uma exasperação crescente com o texto, que nada tem a ver com esse mundo em riste, essa paisagem natural e humana prenhe de violência e aspectos intoleráveis (evocando J.M. Coetzee[3]):  cada personagem é descrito com pormenores delirantes, sua aparência, o que veste, mesmo que depois desapareça da narrativa, cada cenário, cada vale, cada morro; mas principalmente, nos damos conta de que estamos lendo a todo momento afirmações como as seguintes: “Compra uma cocada na banca da APAE, onde a renda é revertida para a instituição” (!!??; para que mais serviria uma barraca da APAE numa quermesse?);  “… seu celular é de Porto Alegre e o roaming está devorando os créditos.” (!!??);“Ele pedala a bicicleta a toda velocidade pelo acesso da Ferrugem e estaciona com um cavalo de pau em frente à cabana de Jasmim antes de ter tempo de começar a suar.” (!!??); ou “Carrega a mochila de acampamento com duas mudas de roupa, toalha, um sabonete, escova de dentes, a faca de cabo de tatu, o saco de dormir bem enrolado, dois isqueiros, um espelhinho, uma garrafa de água mineral, um quarto de queijo colonial, um salame, dois pacotes de biscoito recheado, bananas-passa, algumas maçãs e um pacote de ração canina, tudo dentro de sacolas plásticas.” (!!??), para não falar de informações pífias,  que de forma canhestra tentam incorporar o contingente ao continuum narrativo basicamente épico (como o escândalo envolvendo a governadora do Rio Grande do Sul[4]), ou trechos colocados de forma gratuita em discussões entre os personagens, que seriam mais interessantes sem eles[5] e, como se não bastasse, aquelas supostas sacações que só o são para gente muito mal informada (como a puta que lê Nietszche[6]), sem falar nos trechos simplesmente clichês:“Todo mundo parece ávido por ver e ser visto no formigueiro da comunidade em festa, à procura da catarse social prometida e desejada. Alguns usam seus melhores vestidos e ternos. Brincos pesados e relógios dourados faíscam no escuro (…) Ele caminha sozinho com um copo de quentão na mão (…) o ar gelado da noite resfria em questão de minutos a mistura fumegante de vinho doce, açúcar, cachaça e cravo-da-índia” ou ainda: “O mar em frente é uma grande massa de escuridão mais escura que a noite, um monstro ao mesmo tempo invisível e manifesto.”.

Quando toda a ameaça no ar parece se concretizar, justificando o título, a sensação (devido, talvez, cansaço do leitor) é de uma cena —com certo grau de comicidade— de western spaghetti (ou aquela sequência do Marlon Brando apanhando em Sindicato de Ladrões, se não for a do clímax de Rocky, um lutador), e olhe que já´tinha sido dose a cena em que ele encontra o avô, vivendo quase que literalmente nas cavernas, como ser totalmente revertido ao rústico e ao primevo,  após longa peregrinação pelas matas:

Tropega pela areia da praia até a escadinha, sobe os degraus, caminha um pouco pelo calçadão e começa a atravessa a rua em direção ao bar e aos latidos de Beta. Limpa o sangue dos olhos com as mangas do blusão e tem mais um pequeno acesso de tosse.  Quem ainda estava nas calçadas comentando a surra para de falar e olha para ele. Alguém no barzinho aponta para a rua e os outros também se viram. Ele se aproxima até ficar a dois passos da calçada.

   Tem cinco sujeitos numa das mesas. O bigodudo está atrás  do balcão secando copos com um pano branco. Todos o observam e ninguém diz nada.  Ele já não lembra do rosto deles e fica olhando de um para outro, sentindo o sangue escorrer nos olhos, piscando sem parar e franzindo o rosto inchado. Quatro dos cinco usam boné, três são loiros, e mais que isso ele não consegue reparar. Põe a mão em volta do queixo e espreme a barba ensopada de sangue de cima a baixo, até a ponta, fazendo escorrer um filete rubro que forma uma pequena poça nas lajotas brancas do pavimento [a essa altura talvez os leitores estejam ouvindo acordes de Ennio Morricone ou Bill Conti].

  Qual de vocês mesmo pegou a minha cachorra?”

Galera sucumbe a uma caricatura de romance de fôlego, e a agonia da narrativa lembra esses portentos formidáveis, esses cetáceos que encalham e morrem na praia, desastre a que assistimos com fascínio e consternação.


[1] Ele tem qualquer coisa dos heróis de Clint Eastwood, sintetizados em Gran Torino; diga-se de passagem, a “culpa coletiva” da comunidade (com relação à “morte” do avô) me lembrou outro filme de Eastwood, O estranho sem nome.

[2] É claro que esse é um fator que faz com que o leitor  se identifique com o mundo, não fosse por isso, quase autista dos heróis galerianos, desde Até o dia em que o cão morreu. O capítulo do diálogo com o pai, que foi publicado na “Granta” com o título Apneia,  é excelente.

[3] Além de Coetzee, a própria condição de narrador do protagonista (que pertence à categoria de pessoas caracterizada na pág. 135, “Nadar para eles é uma relação especial com o mundo”), fez com que me viessem à mente, como uma linhagem um tanto quanto melancólica, o narrador da simbólica e poética história de John Cheever, e a canção do R.E.M. Podemos ler ainda:

“A roupa de borracha atenua seu medo do oceano mas o medo está ali e aumenta assim que pensa nele. Tem a sensação de que o oceano quer alguma coisa dele mas não consegue imaginar o que seria essa coisa. É como se fosse uma informação que esqueceu ou nem sabe que sabe. O oceano o interroga e parece sempre prestes a perder a paciência mas ele sai a tempo de evitar um ataque de fúria.”

[4] “…essa sujeirada do Detran aqui—aliás, tu viu essa merda? Uma roubalheira do cacete, quarenta e quatro milhões, tá explodindo na governadora—mas assim que der para respirar eu vou fazendo umas ligações e tento adiantar alguma coisa pra ti.”

[5] “Já que tu é religioso, deixa eu te perguntar uma coisa. Digamos que um escritor famoso escreve uma coisa que ele nunca publica, mas ele entrega  manuscrito prum amigo de confiança, o melhor amigo dele, e pede pra que esse texto nunca seja publicado. O escritor morre. O amigo lê o texto e descobre que é uma obra-prima. E aí ele mostra o texto pra um editor, o editor publica e todo mundo concorda que é uma obra-prima e o escritor fica ainda mais respeitado depois da morte.

   Tá. Que tem?

  O que o amigo fez é errado? Ele traiu o escritor?

   Não to te entendendo. Tu tem um amigo escritor?

   Não. Porra. Peraí.

   Espera. Vou mudar a pergunta.

  O celular do Bonobo bipa mas ele não levanta para checar a mensagem.

  Só não entendi por que o escritor deixou o texto com o cara se ele não queria publicar. Por que não queimou de uma vez?”

[6] “Ela se vira de costas e ergue a blusa. Está escrito em letras grandes, atravessado na lombar, DEUS ESTÁ MORTO.

  Essa tatuagem é estranha.

  Legal, né? Eu adoro Nietzsche.

  Quem é Nietzsche mesmo?

   É um filósofo. O bigodudo. Uma amiga minha botou essa frase no Orkut e eu gostei. Li um livro dele. Além do Bem e do Mal.”

3 Comentários »

  1. Tentei ler alguns contos do primeiro livro de Daniel Galera, há muitos anos, e confesso que achei muito, muito ruim! Desde então, ainda não me aventurei na obra desse autor. Quando saiu o “Barba Ensopada…” li 99% de críticas favoráveis, na verdade foram críticas que quase beiravam a idolatria… Meu primeiro pensamento foi o de que a Cia da Letras está com uma equipe de marketing tão boa quanto os escritores, ou até melhor, não sei… Apenas no blog de Elvira Vigna e no seu eu li considerações… digamos… “ponderadas” sobre o livro… Sei que é um clichê ultracretino fazer a pergunta que farei aqui… Mas, em uma escala de 0 a 10, qual sua nota para “Barba Ensopada de Sangue”??? Se for maior que 5, acho que tentarei ler a obra… rsrsrs…

    Comentário por Leonardo Alvarenga — 25/11/2013 @ 14:19 | Responder

    • Pelo resultado final, se fosse atribuir nota, daria 4. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 26/11/2013 @ 6:54 | Responder

  2. obrigado pela resposta Alfredo… ajudou muito… vou morrer sem reler o Daniel Galera e te agradeço por isso… um grande abraço…

    Comentário por Leonardo Alvarenga — 26/11/2013 @ 9:51 | Responder


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