MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/10/2012

“Amor, de novo” e a vocação de Doris Lessing para “borrar quadros harmoniosos”


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de outubro de 1996)

Ela odeia esse tipo de afirmação, mesmo assim vamos lá: Doris Lessing é o maior nome vivo da ficção,  um gênio literário cujo conjunto da obra paradoxalmente ultrapassa os limites da própria literatura, com livros que fizeram a cabeça de muita gente, pela apaixonante discussão e idéias e problemas fundamentais das últimas décadas, pela sua percepção das relações humanas, pela sua capacidade de contar histórias que parecem nos incluir e nos dizer respeito infinitesimalmente.

Vista da maneira acima, sua obra ganha um ar monumental, seus maiores livros parecem conter a vida inteira! E isso é um pouco verdade, em se tratando de The golden notebook (que, no Brasil, virou algo como uma propaganda do baú da felicidade: O carnê dourado), Roteiro para um passeio ao inferno, os cinco volumes de Os filhos da violência ou Shikasta.

De vez em quando, no entanto, ela concentra-se num trabalho mais flaubertiano, no sentido de algo mais curto, mais trabalhado estilisticamente, mais harmonioso formalmente. É o caso de A canção da relva, Memórias de um sobrevivente ou Planeta 8 (este último pertence à mesma série iniciada por Shikasta, Canopus em Argos; arquivos). E é nesse nicho que se alinharia o seu novo livro, Amor, de novo (Love, again, na tradução de José Rubens Siqueira), não fosse por alguns detalhes. A própria Doris Lessing já afirmou que gosta de “borrar os quadros harmoniosos e seguros”.

Amor, de novo não é a história de amores geriátricos que a grande escritora inglesa já tentara, com resultados módicos (para ela), em Se os velhos pudessem (1984). Apesar de Sarah, a protagonista, ter 65 anos e apaixonar-se por dois homens na trama (um ator e um diretor, pois estamos, aqui, no meio teatral), ambos com metade da sua idade, não seria Doris Lessing quem cairia na complacência irresponsável e tola de algo tipo Ensina-me a viver.

Pois qualquer um que já viveu no ambiente de um grupo teatral, tal como ela o descreve, sabe como sempre há joguinhos sexuais, conquistas cobiçadas e (quando o grupo convive muito proximamente) transferência de expectativas da peça para as relações comezinhas. É claro que no contexto do romance essa “magia” é intensificada pelo teor da peça que o grupo está montando e que estreará numa cidadezinha francesa (e que eu não revelarei aqui).

Por outro lado, o torvelinho de exacerbação romântica em que Sarah é projetada serve para que ela resgate sua própria história amorosa, para que ela sobreponha diversas fases da vida, diversas camadas de experiências, o que acaba sendo, de certa forma, um “roteiro para um passeio ao inferno” por causa da dor, da ansiedade, do desejo sexual insatisfeito, mas, como sempre acontece nos livros de Doris Lessing, as paredes se abrem e algum autoconhecimento, mesmo que precário, é proporcionado. E obviamente ninguém quer isso porque é mais charmosos sofrer e obcecar-se do que ir ao fundo do poço, à origem de toda essa azáfama em torno do Outro:

“Sarah, que durante anos jamais pensara em se casar ou mesmo viver com um  homem, passaria agora a procurar um homem com quem pudesse partilhar aquele amor que carregava com ela como uma carga que tinha de depositar nos braços de alguém… Eus esquecidos brotavam como bolhas num líquido fervente, explodindo em palavras: Aqui estou—lembra-se de mim? Ela disse a si mesma que era como uma crisálida dependurada de um ramo, seca e morta por fora, mas cuja substância por dentro, perde a forma, ferve e se agita, sem nenhum objetivo aparente, e, no entanto, essa sopa acaba tomando a forma de um inseto: uma borboleta. Estava, obviamente, dissolvendo-se em alguma espécie de sopa fervente, que talvez viesse a assumir outra forma em algum momento. Não precisava ser nada como uma borboleta, ela já ficara contente com um como-era-antes”.

E como é que Doris Lessing borra seu confortável quadro, isto é, seu livro tão brilhantemente escrito, com um estilo que ninguém consegue superar hoje em dia? Através de uma série de pequenas frases, dirigidas ao leitor, provocando-o para que participe do jogo, como se o narrador estivesse a espreitá-lo tanto quanto a Sarah. Essas pequenas frases quebram a “perfeição” óbvia que Amor, de novo teria facilmente e funcionam como as paredes que se abriam para a percepção renovada da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente, fazendo com que sejamos levados para aquele universo narrativo, mesmo    que queiramos ficar apenas como compadecidos espectadores dos lances cênicos.

Para quem estava sentindo falta da presença luminosa e arejante de Doris Lessing no mundo (fazia muitos anos que não tínhamos uma obra de ficção sua), esse novo e poderoso livro veio nos mostrar que, aos 77 anos (a ser comemorados em 22 de outubro próximo), ela continua arguta, generosa, impactante, a grande “arqueóloga das relações humanas” (como já foi chamada), e que ler um livro seu continua a ser uma experiência iniciática, para não dizer única.

VER TAMBÉM NO BLOG:

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