MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/10/2012

“If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”: O MONSTRO INCURÁVEL (ou Lendo “O médico e o monstro”)


O texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc

 


“…há homens que parecem racionais e sensatos, sábios e virtuosos, e cujo objetivo é levar uma vida regrada e honesta, para agir pelo exemplo sobre seus semelhantes, para provar-lhes que se pode viver moral e racionalmente neste mundo. Mas o que acontece então?  Sabe—se que muitos desses virtuosos acabam mais tarde contradizendo-se e tornando-se personagens de histórias escandalosas.  Agora eu vos pergunto: o que se pode esperar do homem, dessa criatura dotada de tão estranhas qualidades? Derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade, tão profundamente que só apareçam à superfície algumas bolhas de ar; satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar  da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem, por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo  seu pernicioso elemento fantástico. São precisamente seus sonhos fantásticos, é precisamente sua estupidez crassa que ele pretenderá conservar, apenas para demonstrar a si mesmo que os homens continuam a ser homens e não teclas de piano que a s leis da natureza se dedicam a dedilhar…”

(Dostoievski, Zapíski iz Podpólia- Notas do Subterrâneo, 1864)

Um fato demonstra bem que estamos num mundo já contaminado pelo “olhar de suspeita” pós-Nietzsche, pós-Freud e pós-modernismos: qualquer um, ao pegar O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde sabe que o Sr. Hyde é, na verdade, o Dr. Jekyll, isto é, que o monstro é o médico que se transformou nele. E, no entanto, isso devia ser um fator-surpresa na época e devia causar assombro.  È que nós temos hoje a impossibilidade da candura e da inocência, pois já somos formados na paródia. Além do mais, não faltam versões da história. Nunca assisti a nenhuma que fosse fiel ao original e todas se preocupam muito com a transformação física.

Falemos primeiramente de Robert Louis Stevenson. Ao mesmo tempo em que ele é admirado por escritores do porte de Jorge Luis Borges, é relegado às coleções infanto-juvenis, às adaptações e condensações, o que não seria válido sequer para os seus livros mais aventurescamente “juvenis” como  A ilha do tesouro  ou Raptado (as aventuras de David Balfour), quanto mais para Jekyll e Hyde. Ainda falaremos, em outra aula, sobre O clube dos suicidas, outra de suas obras-primas. Infelizmente falta espaço para O senhor de Ballantrae (traduzido no Brasil com pompa, como O morgado de Ballantrae), seu romance mais importante.

Eu falava mais atrás da pulsão da morte identificada por Freud. Quem fugiu mais dessa pulsão, procurando anelo através de Eros, do que Stevenson?  Desenganado pelos médicos na infância, praticamente sempre viveu com os dias contados, como li em algum lugar. No entanto, nos seus 44 anos, escreveu muito e viajou muito: nasceu em Edimburgo (13 de novembro de 1850) e acabou morando e morrendo (em três de dezembro de 1894) na Oceania, no arquipélago de Samoa, de uma hemorragia cerebral fulminante (e não de sua tuberculose crônica). Nunca viveu em Londres, cenário de Jekyll e Hyde, que ele escreveu aos 36 anos.

É impressionante a sofisticação e complexidade da narrativa (não obstante, o estilo “simples” e “claro”). Um dos grandes efeitos da sua construção indireta é que não precisamos assistir à transformação de Jekyll e Hyde, como querem tanto as adaptações cinematográficas, para sentir a força da história. Além do mais, a construção da narrativa é parte integrante da antecipação freudiana que reivindico no meu curso.

O pequeno romance (o original [1], na edição Penguin de bolso que eu tenho, tem 88 páginas), ou novela, se divide em dez capítulos. Já na abertura do primeiro capítulo conhecemos o Sr. Utterson, o advogado de Jekyll. Ele é o decoro vitoriano personificado, e também um homem compassivo. Costuma dar passeios a pé aos domingos com um parente, Richard Enfield [2]. Um dia, ao entrarem por uma ruazinha de lojas prósperas, na qual há uma “porta” destoante do clima de prosperidade geral, entrada de uma construção decadente e meio sórdida, Enfield conta um incidente relacionado a ela: numa madrugada, passava por ali e viu o encontrão que levaram um cavalheiro e uma menina que vinha correndo (saíra com o intuito de chamar um médico para alguém doente em sua família). A reação do homem foi violenta, inesperada e inexplicável: começou a pisotear a criança. Enfield e outras pessoas intervieram, e no bololô de gente que se formou, um sentimento era comum: aversão ao tal homem, que se apresentou como Sr. Hyde. Um sentimento tanto mais estranho por se ligar mais ao próprio homem do que ao seu ato. Todos se sentiam desconfortáveis diante dele, também, como se carregasse uma deformidade que ninguém conseguia localizar em sua aparência (no mais, era jovem, baixinho e desagradável, além de agir com desfaçatez).  Quando se exige dele uma reparação (cem libras), ele entra pela referida porta e volta com um cheque assinado por uma figura respeitável da sociedade londrina. Todos pensam se tratar de uma falsificação, mas quando o banco abre e o Sr. Hyde saca o dinheiro, os que o acompanhavam (entre eles, Enfield) se certificam de que o cheque é autêntico.

Por que esse incidente interessa ao Sr. Utterson? Pois, ao ser informado desses atos do até então desconhecido Hyde, tem acrescida sua perturbação e inquietação com o estranho testamento de um dos seus clientes (e amigos íntimos), Dr. Jekyll, cujo beneficiário em caso de morte (e, mais estranhamente, de desaparecimento) seria o tal Hyde. Como Enfield, Utterson acha que ele pode estar chantageando Jekyll por algum erro do passado, talvez até mesmo ser fruto de um desses erros. Ao procurar o amigo e mencionar o incidente da menina, ele não consegue nenhuma informação e não vê nenhuma atitude de preocupação, embora se resolva a conhecer Hyde, “emboscando-o” na famosa porta (que é a entrada para a parte de trás da casa de Jekyll, uma parte utilizada como laboratório). Daí temos a famosa frase, “If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”“Se ele é o Sr. Hyde [Escondido], eu serei o Sr. Seek [buscador, ou mais precisamente, perseguidor][3].  No confronto rápido entre os dois, Utterson se vê reproduzindo o mesmo mecanismo psicológico evocado por Enfield: repulsa, aversão, percepção de alguma deformidade oculta.

Então Hyde comete um escandaloso crime: assassina sem motivo, a bengaladas, Sir Danvers Carew em plena rua e com testemunhas.  Utterson colabora com a polícia na investigação do caso, chegando a conhecer os cômodos que Hyde ocupara no Soho londrino. Não se consegue achá-lo, todavia. Mais uma vez, Utterson procura Jekyll, que lhe diz estar preocupado com sua reputação e quer se desvencilhar do protegido, o qual lhe enviou um bilhete, afirmando que “sumiria no mundo”, deixando-o em paz.  Meio aliviado, Utterson se abre com seu funcionário mais graduado, Guest, especialista em caligrafia, que comenta a semelhança entre as letras de Hyde (o bilhete) e Jekyll (em outro escrito), o que escandaliza o advogado (O quê? Henry Jekyll forjou isto para proteger um assassino!”), “sentindo seu sangue gelar nas veias”.

Com o passar do tempo, tendo Hyde desaparecido sem deixar rastros (a não ser o que se apura sobre os seus vícios e delitos), Utterson volta à tranqüilidade e Jekyll sai da sua estranha reclusão de anos, tornando-se socialmente ativo de novo, recebendo e visitando os amigos e “fazendo o bem”.  Até que, dois meses depois, quando Utterson vai visitá-lo, ele começa a não recebê-lo.  O advogado vai à casa de Lanyon, um amigo comum, e o encontra transtornado; pior ainda, de homem saudável e cheio de vitalidade, transformou-se num  homem que tem os dias contados. Lanyon diz que a culpa é de Jekyll e que nunca mais quer revê-lo ou saber dele, mas se recusa a comentar mais detalhes.

Num domingo (é o sétimo capítulo), repete-se o passeio de Utterson e Enfield, e ambos retomam o assunto da “porta” e agora falam explicitamente de Jekyll, resolvendo passar pelo lado da frente da sua casa. Eles o encontram à janela, e o convidam para um passeio. De repente, como se alguém o estivesse ameaçando lá dentro, ele muda sua atitude, mostra-se tomado de pavor e fecha imediatamente a janela, perturbando consideravelmente os dois cavalheiros.

No capítulo seguinte, Poole, o mordomo de Jekyll, procura Utterson e diz que todos na casa estão apavorados e que pode ter acontecido algo ao seu empregador. Utterson vai com ele à casa do amigo, encontra todos os criados reunidos, e indo ao laboratório, ouve o apelo do amigo (que apresenta uma voz bem mudada) de que o deixe em paz. Poole explica que teve de ir a várias boticas procurar um determinado pó, que, trazido, no entanto não satisfazia nunca Jekyll, que o comprara uma vez numa grande encomenda e não o encontrava mais naquele teor de pureza. Mais ainda, Poole transmite a Utterson a sua suspeita de que o empregador fora assassinado e de que a pessoa que está lá dentro é Hyde, o que é meio incompreensível para o espírito lógico de Utterson: por que o assassino permaneceria dias, à mercê da lei, na cena do crime? Mesmo assim, persuadido pelo mordomo e pelos seus próprios temores, assume a responsabilidade de colocar a porta do gabinete abaixo e descobrir quem se tranca ali. Quando isso é efetivado, descobrem o corpo de Hyde, que acabara de se suicidar. Antes de chamar a polícia, Utterson vasculha o laboratório e as imediações, em busca do cadáver de Jekyll. Não o encontra, apenas um novo testamento e uma papelada dirigida a ele. Como Lanyon, o outro amigo, antes de morrer, também lhe enviou uma papelada para ser lida no caso da morte (ou desaparecimento, o termo estranho se repete) de Jekyll, ele se resolve a ler a documentação toda, antes de tomar providências legais que podem manchar a reputação do amigo.

É no capítulo seguinte (o nono, “O relato do Dr. Lanyon”) que o leitor fica sabendo que Hyde é Jekyll transformado pela ação de um preparado.  Lanyon vê isso com seus próprios olhos e esse é o motivo do abalo moral que o liquidou.

No décimo e último capítulo (“O depoimento completo de Henry Jekyll sobre o caso”), o maior do texto, é o próprio Jekyll quem toma a palavra, amarrando todos os pontos da história, que conhecíamos fragmentária e indiretamente. Vou me estender mais nesse capitulo em citações porque, quando recapitular seu mythos (segundo Northrop Frye, a ordem da narrativa, como se apresenta a sua fabulação), em busca da sua diánoia (seu sentido), me concentrarei mais no Sr. Utterson.

Jekyll revela sua dualidade desde a juventude: visava a altos propósitos, queria ser respeitado e considerado, mas gostava de “irregularidades”, para utilizar um eufemismo para o que se poderia considerar devassidão, luxúria ou vício: “… ia-se cavando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o mal do bem e divide e compõe a dualidade da nossa alma”.

Jekyll mostra-se como um ego plenamente formado, mas que têm consciência do custo da repressão, de sacrificar o Principio do Prazer ao da Realidade, que ele denomina “pesada lei da vida” (“hard law of life”), o que, como pode se ver, é uma formulação já totalmente freudiana. Aliás, ao refletir sobre sua descoberta de que o homem não é uno, mas duplo, de que duas naturezas formam o conteúdo da consciência, ele reconhece que foi até onde alcançou em sua pesquisa, e que outros podem avançar e revelar a multiformidade da pretensa identidade humana (é o trecho que coloquei em epígrafe na seção dedicada a Freud, mais atrás). Seu único equívoco é afirmar que as diversas facetas são independentes umas das outras; na verdade, a pesquisa freudiana revelará como elas são interdependentes. Mas nem precisaríamos dela: basta lembrar que William Wilson não sobrevive ao seu homônimo nem Hyde consegue sobreviver sem Jekyll.

Como cientista faustiano, diria até nietzschiniano, se isso indicar o desprezo pelo horror ao Mal que a moralidade convencional apregoa, ele conta que  se entretinha com a “fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos [o mal e o bem]. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendrada pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se.” Se substituirmos a retórica maniqueísta de “bem” e “mal”, como conceitos absolutos, temos os conflitos que “id” e “superego” deflagram no ego. De fato, o nosso cientista louco tem perfeita consciência do caráter simbólico da identidade humana (o que o leva bem longe do biologismo triunfante daquela época): “Percebi mais claramente do que nunca a trêmula imaterialidade, a nebulosidade efêmera deste corpo tão aparentemente sólido ao qual somos atrelados”.

Bem, Jekyll consegue seu intento. Consegue que seu lado mau (vamos dizer, seu “id” e toda sua expectativa narcisista de satisfação de apetites, afora a agressividade sem freio advinda da pulsão de morte) apareça como uma pessoa autônoma, ainda que saída de si, isto é, substituindo o seu corpo. Ele se duplica, porém não seu corpo, que apenas adquire uma aparência afim à sua natureza. Hyde, o id, é compreensivelmente mais jovem, mais baixo, ou seja, tem algo de infantil e ainda não totalmente formado, o que pode ser o motivo de todos procurarem nele uma deformidade: ele é a criança que leva a vida de adulto. E Jekyll, “quando olhava no espelho para essa feia imagem, não sentia nenhuma repugnância, antes um alvoroçado prazer. Pois se era eu também” inadvertidamente nos revela que a dualidade continua, há um Jekyll espreitando Hyde em algum lugar, pois se não fosse assim ele não poderia olhar para si como Hyde e ter prazer como Jekyll de aquela feia imagem ser ele também! E aqui podemos ver a armadilha que preparou para si mesmo, ao mesmo tempo em que admiramos a perícia do autor, Stevenson, que percorre novamente todos os incidentes da narrativa, agora colocando-as sob a devida perspectiva.

A princípio tudo corre bem, principalmente considerando a divisão de classes e a hipocrisia da sociedade vitoriana. Ele consegue com facilidade retornar ao seu estado “normal” como Jekyll, “regressei um anjo em lugar de ficar demônio” (e logo adiante, um trecho revelador “A poção não tinha nenhuma ação característica, não era diabólica nem divina, apenas abalou as portas da prisão das minhas inclinações”, ou seja, anulou a repressão; “inclinações”= sujeito desejante): “…eu era não só muito conhecido e altamente considerado, como também caminhava para uma idade respeitável e essa incoerência da minha vida principiava a tornar-se importuna. Foi nessas condições que aquele novo poder me tentou até me tornar seu escravo. Bastaria beber um novo copo da poção para me libertar do corpo do médico célebre e assumir, como um disfarce perfeito, a figura de Edward Hyde. Sorri àquela idéia. Parecia-me então ser uma coisa divertida, e fiz os meus preparativos com toda a precaução. Arranjei e mobiliei essa casa no Soho, depois revistada pela polícia, e contratei como governanta, uma mulher que sabia ser discreta e sem muitos escrúpulos. Por outro lado, participei aos meus antigos criados que um tal Sr. Hyde, cujo aspecto descrevi, ficaria com plenos poderes e liberdade de entrar em casa; e para prevenir qualquer problema, eu próprio me tornei, sob o meu segundo caráter e aspecto, assíduo ali. Depois redigi o testamento a respeito do qual Utterson iria fazer tantas objeções; pois se algo me acontecesse na qualidade de Dr. Jekyll, eu entraria sem prejuízo econômico na pessoa de Edward Hyde. E assim precavendo-me, como supus, em todos os pormenores, comecei a usufruir as estranhas imunidades da minha posição…Existem homens que contratam matadores para lhes praticarem os crimes,enquanto a sua própria pessoa e reputação ficam a salvo. Eu era o primeiro que satisfazia os seus instintos, por si mesmo e à vontade… era o primeiro que, aos olhos do público, exibia uma vida de respeitabilidade e que num átimo, como um estudante irresponsável, se despojava dessa hipocrisia e mergulha, de cabeça, no mar da liberdade. Para mim, envolto em um anonimato impenetrável, a impunidade estava garantida. Pense: eu tinha a identidade que quisesse![4]

A contraditória atitude auto-apaziguadora de Jekyll fica evidente numa passagem mais adiante: “Ao voltar dessas excursões, muitas vezes recaía numa espécie de assombro ao pensar na minha depravação… Por vezes Jekyll ficava horrorizado com os atos praticados por Hyde. Mas a situação estava à margem da lei e fora do alcance da consciência. Afinal, era Hyde e só Hyde o culpado. Jekyll não ficava pior por isso: regressava, integro, às suas boas qualidades…” Íntegro? Será que ele conseguiu anular o superego? Não, se atentarmos que, no parágrafo seguinte, ele diz: “fatos subseqüentes me indicaram que o castigo não demoraria a chegar”. Freud nos ensinou que a idéia de castigo é interiorizada durante a formação do ego, sendo um dos papéis do superego. É por isso que tantas vezes determinados indivíduos elegem a autopunição.

Chegamos então ao fato que deu início à narrativa: a agressão gratuita à menina (observe-se a seguinte frase introdutória à sua narração do incidente: “se não tivesse mais conseqüências, nem valeria a pena mencionar”; é a idéia da “conseqüência”, e não o problema ético e moral, que o preocupa). Acontece algo ainda pior: sem o uso da poção, uma noite Jekyll acorda transformado em Hyde: “comecei a pensar mais seriamente nos prós e contras da minha dupla existência. A parte do meu ser que eu tinha a faculdade de projetar fora de mim estava agora mais exercitada e desenvolvida. Era como se o corpo de Edward Hyde tivesse crescido, como se —quando sob essa forma— o sangue me percorresse com mais calor. Foi quando inferi um perigo: se tal coisa se prolongasse, a balança da minha natureza começaria a pender para um lado, o poder da transformação voluntária tornar-se-ia difícil e o caráter de Edward Hyde integrar-se-ia irrevogavelmente no meu… Todas as circunstâncias, na atualidade, pareciam indicar que eu ia perdendo lentamente a influência da minha primitiva e melhor parte, e incorporando-me pouco a pouco no meu duplo, secundário e pior. Era preciso escolher entre os dois… Entregar a minha sorte na carcaça de Jekyll era estrangular todos esses apetites que eu secretamente acariciara durante tempos e de que começava agora a regalar-me. Confinar-me no esqueleto de Hyde era morrer para milhares de aspirações e interesses espirituais e ficar, para sempre, tombado no opróbrio…”

Ele opta por Jekyll, abstendo-se da poção. Sintomaticamente, não se desfaz, contudo, da morada no Soho nem das roupas de Hyde. E o tempo, acalmando os remorsos, traz a tortura das ansiedades e desejos. E aí Hyde mostra como Eros é permeado pelo seu gêmeo Thânatos, pois ao ceder à fraqueza, e tomar a poção, Jekyll libera seu alter ego no ponto mais agressivo e destrutivo, acarretando o assassinato de sir Danvers: “Com um transporte de alegria infernal, ataquei o corpo indefeso, gozando deliciosamente cada golpe que desferia. E foi só quando a fraqueza do braço deu sinal que eu de repente, no auge da fúria, senti-me tomado por um arrepio de terror. A névoa dissipara-se; vi a minha cabeça posta a prêmio —e fugi da cena daqueles excessos, ao mesmo tempo trêmulo e triunfante, satisfeita a luxúria da maldade [Thânatos], e o meu amor à vida[Eros] exacerbou-se até o limite.”  Não é ocioso lembrar que Hyde ataca justamente alguém muito parecido com o seu outro, em idade, posição social e respeitabilidade. A fúria da destruição sempre é voltada para nós mesmos. Como ele não pode destruir Jekyll, por motivos óbvios, vale-se de um substituto.

Como Hyde tornara-se de fato um foragido, Jekyll o reprime inteiramente e temos aqueles meses, após a entrega do bilhete a Utterson, em que o médico retorna à sua antiga (e insatisfatória para ele, embora aos dois amigos, Utterson & Lanyon, pareça uma ressurreição espiritual) existência benemérita e mundana. Um dia, passeando no Regent´s Park e sentando-se num banco, sentiu que “a animalidade dentro de mim remexia-se e instigava a memória; o lado espiritual condescendia, prometendo subseqüente penitência, mas não disposto ainda a começá-la”. E se transforma em Hyde. Procura se esconder, e escreve a Lanyon, pedindo que ele arrombe seu laboratório e apanhe os instrumentos para sua transformação. É quando ele procura o amigo (como Hyde) e se metamorfoseia à sua frente que ele causa o já contado abalo moral que deu cabo em Lanyon e fez com que ele dissesse nunca mais querer revê-lo.  São cruciais ao texto o relato das horas que passou à espera de que Lanyon atendesse seu pedido. Vemos Hyde transformado em id puro: “Ele… não posso dizer Eu… esse filho do Inferno não tinha mais nada de humano: nele mais nada existia além do medo e do ódio”. No meio da noite londrina, protegido pelo anonimato da metrópole, ele vaga, as “duas paixões abjetas” num tumulto dentro de si: “Em certa ocasião houve uma prostituta que se lhe dirigiu, oferecendo-se. Ele golpeou-a na cara, e ela fugiu”.

Depois do incidente com Lanyon, apesar da angústia, Jekyll ainda procura se auto-iludir: “Acordei no dia seguinte, cansado, fraco, mas com algum alívio. Ainda me assustava a idéia de que um animal dormia dentro de mim, e eu naturalmente não esquecera os medonhos perigos da véspera; porém, uma vez mais, encontrei-me na antiga casa, sozinho com as minhas drogas; o fulgor da gratidão por me haver salvado e o resplendor da esperança rivalizavam agora na minha alma.”. Só que a partir daí as transformações serão todas involuntárias e cada vez mais constantes, e ele terá de se trancar no laboratório, despachando Poole às farmácias tentando obter a substância original que fizesse a poção ter a mesma força e resultados das primeiras vezes. Em vão.  E agora as duas partes frontalmente se odeiam. O ódio de Jekyll é o pavor do irracional: “… do fundo do abismo cavado pareciam erguer-se vozes e imprecações, o barro amorfo como que gesticulava e amaldiçoava, o que estava morto, e não tinha forma, tomava o lugar das funções da vida [há um nome para isso na teoria freudiana, é o retorno do reprimido], e isso, essa miséria rebelde, prendia-se a ele, mais abraçado que uma mulher, mais cerrado do que as pálpebras; jazia enclausurado na sua carne, onde o sentia implorando e lutando por nascer; e em cada hora de fraqueza, em cada momento de sonolência, prevalecia contra si e destituía-o dos seus direitos”;  em contrapartida, “O ódio de Hyde por Jekyll era diferente. O medo da forca impelia-o constantemente a cometer suicídios temporários e a voltar à posição subalterna de uma parte do seu todo; mas detestava essa necessidade, aborrecia-o o desânimo em que Jekyll se abatia,ressentido do ódio do qual era objeto. Daí os ardis simiescos com os quais pretendia me enredar, obrigando-me a rabiscar blasfêmias à margem dos meus livros, a queimar cartas e a destruir o retrato de meu pai [mas se Hyde é feito de parte da substância de Jekyll, essas ações específicas ganham um significado maior, não?]. E se não fosse o seu medo da morte, há muito ter-se-ia destruído para me envolver na sua própria ruína. O amor pela vida, contudo, era extraordinário”. Algo que não pode deixar de ser comentado, é a habilidade psicológica de Stevenson, ao mostrar a divisão do médico na própria linguagem, ora utilizando a primeira pessoa, ora a terceira, no movimento mesmo de um parágrafo como o acima transcrito.

O relato termina assim: “É inútil —meu tempo agora é tão curto… — prolongar esta descrição… O meu castigo poderia durar muitos anos, mas essa última calamidade separou-me finalmente da minha própria expressão e natureza. A minha provisão de sais, que nunca fora renovada desde a data da primeira experiência, começou a diminuir. Mandei comprar outra quantidade e procedi à mistura: produziu-se a efervescência e a primeira mudança de cor, porém não a segunda. Tomei-a, e não senti resultado nenhum. Poole deve ter-lhe contado como o mandei vasculhar por toda Londres. Foi tudo inútil. E estou agora persuadido de que o primeiro suprimento é que era impuro e que foi essa desconhecida impureza  a razão da eficácia da poção[5].

         Já se passou quase uma semana, e estou agora encerrando este relato sob a influência da última dose dos primeiros sais. É pois a última vez, a menos que aconteça um milagre, que Henry Jekyll pensa com os seus pensamentos e contempla o  seu autêntico rosto, tão tristemente desfigurado!, no espelho do gabinete. Não devo alongar-me na conclusão deste relato. Se a minha narrativa escapou até agora à destruição, deve-se isso a uma combinação de prudência e de sorte. Quando, no ato de escrever, me tomam as angústias da transformação, Hyde rasga em pedaços o papel. Mas, se decorrer algum tempo, depois de tê-la posto de lado, o espantoso egoísmo do monstro e sua preocupação com o presente, provavelmente a deixarão a salvo. A sentença, que pesa sobre nós dois, começará a esmagá-lo já. Daqui a meia hora, quando de novo e para sempre me tornar aquela personalidade odiosa, sentar-me-ei a tremer e chorar numa poltrona, ou continuarei, com os ouvidos atentos, a passear por este aposento, meu último refúgio terreno, à escuta de algum ruído ameaçador. Hyde morrerá no patíbulo? Ou terá a coragem de libertar a si mesmo, no último instante? Só Deus o sabe. Não me preocupo. Esta é que é a minha última hora, e o que vai acontecer depois concerne a outro, não a mim. Aqui, portanto, ao descansar a pena e selar minha confissão, ponho ponto final na infeliz vida deste médico infortunado que se chamava Henry Jekyll.”

Hyde não suporta viver além de Jekyll, nem tem instrumentos psíquicos para isso, é no fundo uma criança e está despreparado para enfrentar quaisquer responsabilidades, advindas do Princípio da Realidade, que só existia para ele… na forma de Jekyll.

Portanto, com assombrosa intuição e eficiência ficcional, Stevenson se antecipou a Freud.  Rosemary Jackson, em A literatura da  subversão, examina o texto como um parábola do dualismo libidinal: “O outro lado do humano retorna para ativar tendências libidinais latentes escondidas pelo ego social, exemplificando a teoria de Freud da narrativa fantástica como relato do retorno do reprimido”.

Quem, no entanto, dá atenção ao pobre Sr. Utterson, para mim a personagem-chave mais interessante da história? Porque ela é construída para ele, não só porque representa o leitor (já que este o acompanha no deciframento dos fatos), mas porque ele é o verdadeiro superego da trama. Ele é que, apesar de compassivo e tolerante com os pecados do próximo, vai ser o insistente arauto do Princípio da Realidade a cobrar de Jekyll uma explicação, que irá atrás de Hyde e colaborará com a polícia, como um Sherlock Holmes improvisado. É ele que participa de todos os acontecimentos, a não ser nos relatos finais esclarecedores dos seus dois melhores amigos, Lanyon (um superego secundário, falarei daqui a pouco disso) e Jekyll. Ele é que ordenará arrombar a porta do gabinete para esclarecer o que de fato está acontecendo, não tolerando mistérios nem a ambigüidade, embora tomando atitudes com o fito de manter o decoro e a reputação dos amigos que também são clientes (esse século XIX utilitário). Mas que é obrigado, a princípio, a ver “o fio vermelho do crime se misturando à meada cinzenta da vida” (frase de Conan Doyle em Um estudo em vermelho), e no final tem a revelação de que esse fio vermelho sempre fez parte do novelo, e pertence à mesma tessitura. Ele é o investigador do mal que descobre na vítima que fora socorrer o mal que perseguia. Coisa muito comum para nós, leitores do século XXI, mas desconcertante em 1886.

A caracterização do Sr. Utterson, que, não por acaso, abre a narrativa, já é fascinante: “O advogado Utterson era um homem de fisionomia severa, que jamais se iluminava com um sorriso [ou seja, já aqui ele é convocado como representante da sociedade vitoriana, um espelho dela; Jekyll será o espelho deformante]; frio, concentrado, de poucas palavras, reservado; magro, alto, parcimonioso e melancólico, porém de certa maneira simpático, apesar de tudo. Nas reuniões de amigos, e quando o vinho lhe agradava, brilhava-lhe no olhar qualquer coisa de extraordinariamente humano; qualquer coisa que, na verdade, não se exprimia por suas palavras e que falava não só na silenciosa manifestação do semblante, satisfeito depois do jantar, mas, na maioria das vezes, e com eloqüência, nos atos da sua vida. Austero consigo mesmo, bebia gim quando estava só, a fim de se penitenciar do seu gosto pelo vinho; e, embora adorasse o teatro, havia já vinte anos que não freqüentava nenhum [atitude característica do superego, auto-contrariar-se [6]].Mas com os outros mostrava-se condescendente. Por vezes, sentia admiração, quase inveja, por certos espíritos febrilmente empenhados nos seus próprios delitos; e, em qualquer situação, inclinava-se mais a ajudar que a censurar: Solidarizo-me com a heresia de Caim, costumava dizer, Deixo meu semelhante danar-se com suas próprias pernas. Assim, sua sina era ser amiúde a última companhia decente de alguns homens decaídos, ou a última influência favorável de criatura envilecidas. Sempre que vinham bater à sua porta, nunca mostrava a mais leve sombra de alteração em suas atitudes.

         Agir dessa maneira era fácil ao Sr. Utterson, em razão do seu caráter extremamente sereno; e até as suas melhores amizades dir-se-iam também baseadas numa ampla tolerância. É próprio do homem modesto aceitar a roda dos seus amigos do jeito que o destino lhe preparou. E assim acontecia com o advogado, pois os amigos ou eram consangüíneos, ou conhecidos bastante antigos. Os afetos, como a hera, cresciam com o tempo, e não em razão das propriedades particulares do objeto.”

Pensemos um pouco: é um quadro simpático? Favorável? Creio que a ambigüidade já se instalou: o Sr. Utterson é severo, reprimido, tolerante, mas de uma tolerância desdenhosa; compassivo, mas de um jeito que parece dizer que o mundo é assim, e pronto, portanto, representante de certo conformismo, do mais resignado conservadorismo. Os leitores o acham simpático porque é muito bem delineado, até com um toque de humor, e porque seria intolerável a uma narrativa que fosse “levada” quase até o seu fim por um personagem desagradável em primeiro plano. Mas de nenhuma forma ele deixa de ser o olhar vigilante da sociedade em prol da meada cinzenta. Além disso, ele tem outro papel importante: como advogado, ele é o detentor dos documentos, das provas, em última instância, da verdade última da narrativa. É a sua curiosidade (e seu desconforto) sobre o testamento[7] de Jekyll que faz com que o leitor penetre na estranha (e perniciosa) condição de protegido de Hyde. Quando apura dados sobre a personalidade do beneficiado, a partir do caso da menina agredida, vemos como Stevenson tinha uma firme intuição sobre os processos do inconsciente. Se o superego é o nosso lado hiper-consciente e censório, então Utterson tem razão de se sentir inquietado com as imagens inexplicáveis e ameaçadoras que evoca na seguinte passagem: “Bateram seis horas… e ele ainda continuava a debater-se com o problema. Até então encarara-o apenas pelo lado intelectual; mas agora a imaginação incitava-o, ou melhor, dominava-o; e enquanto estivera na cama, agitando-se no escuro da noite e do quarto sombreado pelas pesadas cortinas, voltou-lhe ao espírito como imagens projetadas em tela luminosa. Via-se à noite na cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa de um médico; os dois chocavam-se e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos. Ou então era um quarto numa residência luxuosa, onde o amigo Jekyll dormia, sorrindo no meio de um sonho; a porta abria-se, as cortinas da cama eram violentamente arrancadas, o dorminhoco acordava, e pronto!, ao seu lado estava um vulto possuído de poderes demoníacos; e, àquelas horas mortas, devia ele levantar-se e cumprir determinadas ordens. O espectro nas duas fantasias assombrou o advogado a noite inteira; e, se em alguns momentos, chegou a passar pelo sono, foi só para vê-lo deslizar furtivamente através das moradias silenciosas, ou mover-se cada vez mais rápido, vertiginosamente, pelos extensos labirintos de uma cidade iluminada, e em todas as esquinas esmagar uma criança, abandonando-a sem socorro. O espectro, porém, não tinha rosto pelo qual pudesse ser reconhecido; não, não o tinha em nenhum dos sonhos, ou então escondia-o, ou diluía-se quando procurava fixá-lo. E foi assim que nasceu e se desenvolveu depressa, na mente do advogado, uma curiosidade singular e forte, quase desordenada: conhecer o rosto do verdadeiro Hyde. Se conseguisse vê-lo pelo menos uma vez, parecia-lhe que o mistério seria esclarecido e desvendado claramente, como acontece com as coisas misteriosas quando bem examinadas.” Nem é preciso enfatizar a atmosfera de terror infantil redespertado naquelas imagens de labirintos de ruas, da noite da cidade cheia de ameaças, e a imagem do espectro sem rosto praticando maldades, assombrando a razão e o sono do advogado “são”, “sensato”, por quem a miséria humana era assistida de camarote e binóculo, a raça de Caim caminhando para a danação com suas próprias pernas, e ele sendo solícito e polido.  Como se vê, o foco narrativo em 3ª. pessoa acompanhando o Sr. Utterson enriquece muito o texto e prepara o terreno para a “confissão” (feita para o advogado, o detentor da reputação) de Jekyll.

Ainda a respeito desses primeiros capítulos, não podemos deixar de fazer uma analogia entre a personalidade do Sr.  Utterson (que vai nos dar a abertura para o “estranho caso” do médico e o monstro) e a rua na qual fica localizada a porta para os fundos da residência de Jekyll, isto é, por onde a respeitabilidade vitoriana é virada do avesso. Vale a pena transcrever a descrição, que é digna do início de O coração das trevas, de Joseph Conrad, porque mostra a civilização de fachada, ostensiva, ancorada na idéia de prosperidade e não de uma verdade íntima: “…em um desses passeios, o acaso os conduziu a uma ruazinha de um bairro comercial de Londres. Era uma travessa estreita e sossegada, não obstante nela se fizessem negócios importantes nos outros dias da semana. Os moradores, ao que parecia, eram gente próspera e competiam entre si, cada qual querendo fazer ainda melhor, gastando o que sobrava em melhoramentos; e as fachadas das lojas exibiam-se ao longo da viela, com ar convidativo, como filas de sorridentes balconistas. Mesmo aos domingos, quando se encobrem os mais sedutores encantos e o trânsito quase inexiste, a rua brilhava, por contraste, na escuridão que a cercava, tal qual uma fogueira na espessura dum matagal; e com os seus taipais pintados recentemente, os metais polidos, limpeza geral e ar acolhedor, logo prendia  deliciava o olhar dos que passavam.

         A dois passos de uma esquina, à esquerda de quem vai na direção leste, havia um desvio provocado pela abertura de um pátio; e exatamente nesse ponto avançavam sobre a rua os beirais do telhado de uma sombria construção de dois andares; não se lhe via janela, apenas uma porta no piso inferior, e por cima a testa sem olhos, que era aquela parede desbotada, mostrando os sinais de prolongada e sórdida negligência. A porta, sem campainha nem batente, estava empenada e suja… etc etc. É a porta para o laboratório, esse espaço mítico da imaginação cientificista do século XIX, e ao mesmo tempo  a porta Hyde, no lado oposto à entrada chique da residência Jekyll. E até a porta tem algo de incômodo, desconfortável, que causa um mal estar no meio das luzes da prosperidade que deixa a ruela com um ar de fogueira em pleno matagal (entretanto há um quê de destrutivo nessa imagem, como se para evidenciar a prosperidade algo tivesse que ser carbonizado).

Capítulos adiante, logo ao ser informado de que Hyde assassinou Sir Danvers, o Sr. Utterson, seu advogado e amigo, insiste em acompanhar a polícia ao endereço de Hyde (aliás, é ele quem reconhece a arma do crime, uma bengala que dera de presente a Jekyll). E no caminho até o Soho ele vê com outros olhos a cidade onde mora e nos permite olhar a Londres que desce do nível Jekyll para o nível Hyde: “Enquanto a carruagem seguia de rua em rua Utterson podia observar a quantidade maravilhosa de graduações e matizes de luz matutina: enquanto aqui estava escuro como se estivesse a anoitecer, ali surgia um brilho de castanho rico, mas lúgubre, como o clarão de um incêndio estranho [mais uma vez a imagem incendiária], e, mais além, a névoa esgarçava-se, e uma triste réstia de luz brilhava numa espiral ondulante. O bairro sombrio do Soho distinguia-se sob esses reflexos incertos, com as suas ruas lamacentas, os seus transeuntes em desalinho, os candeeiros que não se apagaram ou haviam sido acesos outra vez para combater a fúnebre invasão das sombras, tudo isso aos olhos do advogado parecia como um bairro de uma cidade de pesadelo. Os seus pensamentos eram tenebrosos; e quando relanceava o olhar pelo companheiro de viagem [o inspetor de polícia] sentia um pouco daquele terror da justiça e dos seus magistrados que às vezes se apodera até das pessoas mais honestas.

         Quando a carruagem chegou ao local indicado, o nevoeiro dissipara-se um pouco, mostrando, numa ruela escura, um botequim; um modesto restaurante francês; um bazar de miudezas; muitas crianças esfarrapadas acotovelando-se nos portais; e mulheres de diversas nacionalidades que saíam de chave na mão, para beber o primeiro copo. Depois o nevoeiro desceu outra vez, cor de terra, frustrando-lhe a visão daquelas misérias à volta. Era aqui que residia o protegido de Henry Jekyll, o herdeiro de um quarto de milhão de libras.” [8] (num capítulo posterior, aquele em que Poole pede socorro a Utterson, e os dois saem pela noite londrina rumo à residência de Jekyll, lemos: “Era uma noite de março, tempestuosa e fria; a lua estava pálida e vencida, como se o vento a tivesse magoado… O vento dificultava a conversa…Parecia ter varrido as ruas, afugentando os transeuntes, a tal ponto que Utterson pensou que nunca tinha visto essa parte de Londres tão deserta. O advogado teria desejado o contrário: nunca na vida sentiu uma vontade tão grande de tocar, de estar perto dos seus semelhantes. Por mais esforços que fizesse para o impedir, no seu espírito pesava o pressentimento da catástrofe”)

Caberia perguntar, se o Sr. Utterson é detentor dos segredos das pessoas amigas e que também são clientes, e se Jekyll o sabe tão zeloso da reputação, por que não o escolheu para ajudá-lo quando se viu na difícil situação no Regent´s Park, preferindo o Dr. Lanyon, com o qual ficou às turras durante anos por não concordarem em pontos científicos, o Dr. Lanyon claramente desdenhando as posições de Jekyll nesse campo. Aliás, Lanyon é bem menos compassivo e mais ácido na sua avaliação do comportamento de Jekyll (…há uns dez anos Henry Jekyll se tornou misterioso para mim. Ele começou a trilhar por caminhos errados…”[9] , óbvio que ele se refere a questões de conhecimento, e não de moralidade) e não se interessa muito pela aparição de Hyde na sua vida. Portanto, não caberia ver no ato de pedir a sua ajuda um pouco do desespero acuado de Hyde, porém muito mais um ato desafiador, provocativo, visando esmagar sua prepotência e arrogância, a sua segurança científica? Hyde (como uma espécie de porta-voz) chega mesmo a dizer, antes da sua transformação (descrita em termos discretíssimos, sem a gula naturalista de um Zola), quando Lanyon admite que está curioso em ver o efeito da poção para poder enfim despachá-lo, agastado que está pela “prestação de inexplicáveis favores”: “Está bem, Lanyon. Mas não se esqueça de que o que vai acontecer é segredo profissional. E agora você que por tanto tempo ficou confinado na estreiteza das coisas materiais, que negou a virtude da medicina transcendental, que escarneceu de quem lhe é superior… abra os olhos e veja!” Para terminar, chamo a atenção de que essa pequena fala de Hyde (uma das poucas que lhe ouvimos no livro) dá a medida da contraditória isenção de Jekyll com relação a ele: pois quem fala aí? O baixinho meio disforme, juvenil e primitivo? Falando em “medicina transcendental”, acusando Lanyon de confinar-se na estreiteza das coisas materiais?  Acho que o médico aí está muito presente no seu monstro…


[1] Quanto às traduções correntes do texto,  tenho muitas, mas estou longe de esgotar todo o campo disponível. As que possuo me deixam com a seguinte conclusão: nenhuma é especialmente ruim, mas todas deixam a desejar em algo. As melhores são as de Heloisa Jahn (Ática), e de Pietro Nassetti(Martin Claret, por incrível que pareça),, minhas favoritas, além da de Rodrigo Lacerda (Nova Fronteira) a do trio José Paulo Golob, Maria Ângela Aguiar & Roberta Sartori (L&PM).a de Flávia Villas Boas (Paz & Terra), a de Adriana Lisboa (Ediouro). Há uma pretensa “adaptação” de Edla Van Steen que, na verdade, é uma tradução muito boa que efetuou pequeníssimos cortes (sempre  imperdoáveis) no texto (Scipione). Discutível, ironicamente, é a premiada: de Lígia Cademartori (FTD), que apresenta erros grosseiros e sérios problemas de revisão

Nota de 2012- O texto em português que utilizo é o de Cabral do Nascimento, fato que só descobri agora, pois  a Martin Claret atribuía a tradução que editava a Pietro Nassetti (como fez, aliás, em diversas ocasiões). É uma tradução excelente.

 

Aqui não estão listadas edições posteriores a 2008. Mas eis algumas capas:

[2] Há uma marcante ausência de interesse feminino (erótico ou amoroso) na trama. Os personagens são todos solteirões: Utterson, Jekyll, Hyde, Lanyon, Enfield. Alguns, entre eles Nabokov, até viram nisso um subtexto homoerótico, mas creio que é mais a representação de um tipo social (afinal, Holmes & Watson, apesar das diversas mulheres que aparecem em suas aventuras, também pertencem à ordem dos solteirões). Só nas jamais explicitadas atrocidades morais de Hyde é que poderíamos tentar fazer com mais afinco tal leitura, mesmo assim foi sábia a decisão de deixá-las por conta da nossa imaginação.

[3] Geralmente, as traduções procuram indicar o trocadilho explicitamente, sem procurar reinventá-lo. Heloisa Jahn optou por deixá-lo implícito na sua tradução: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, não perde por esperar”. Fosse eu o tradutor, levaria a coisa ao extremo: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, brincarei de pega-pega”.

[4] Note-se que ele não vê dilema em “sobreviver” como Hyde a Jekyll. E podemos traçar com relação à evolução do caso um paralelo com o vício em geral, até na necessidade crescente de uma maior quantidade da droga transformadora, pois as doses já não serão suficientes, não serão tão eficazes e o efeito será mais depressivo que eufórico.

[5] Portanto, a própria poção assimila a dubiedade e mistura das coisas, que deu origem à trama.

[6] No capítulo seguinte, comenta-se que ele sempre termina os domingos, após o jantar, “com algum árido volume de teologia, até que o relógio da igreja próxima batesse meia-noite, quando ia, consolada e prudentemente, para a cama”.

[7] Cujo teor ele considera até meio ultrajante para o seu senso jurídico, por ser inexplicável e gratuito: “Este documento, durante muito tempo, fora o pesadelo do advogado; ofendia-o não só como jurista, mas como pessoa sã e sensata, para quem tudo que fugia à tradição e normalidade era coisa indecente…Já era bastante mau que se tratasse de um nome a respeito do qual não podia saber mais nada; mas ficava ainda pior quando esse nome parecia revestido de execráveis atributos.” Portanto, algo que ele não pode explicar ou ajustar a suas normas.

[8] No final, o herdeiro desse quarto de milhão de libras acaba sendo o próprio Utterson. Vitória do superego vitoriano sobre seus elementos desagregadores e desordeiros.

[9] Mais adiante, ao ser solicitada sua ajuda, manuseando anotações e frascos de Jekyll, ele afirmará: “Tudo isto, que aguçava minha curiosidade, pouco me dizia de concreto: um frasco com alguma tintura qualquer, papelotes com sais, e anotações de uma série de experiências que não haviam chegado, como muitas das experiências de Jekyll, a qualquer resultado prático.” Daí que se pode inferir que, na visão de Lanyon, Jekyll é um fracassado, enquanto cientista, bem entendido.

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2 Comentários »

  1. interessantissimo

    Comentário por nathalia — 14/11/2013 @ 19:54 | Responder

    • Valeu, Nathalia.

      Comentário por alfredomonte — 15/11/2013 @ 12:37 | Responder


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