MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/10/2012

O desperdício de um belo título: “Solidão Continental” e a mesmice


“Entre mim e aquele cenário da Osvaldo Aranha havia como uma mucosa transparente doendo se eu tocasse. Não era possível vislumbrar aquele cenário com isenção. Uma menininha filha de mendigos acampados ali embaixo me olhou com uma expressão indefinida, eu parecia lhe causar uma estranha atração. A garotinha usava batom, uma saia comprida de mulher adulta nos ombros, qual um manto fazendo uma cauda e um sutiã sobre um enorme bustiê rasgado. Fechei a janela para evitar o ruído exacerbado do trânsito. Tão logo fechei a janela ouvi uma cantoria só de vozes femininas. Atrás de mim, na sala outrora vazia, tinha uma maca rodeada de velhotas. Elas cantavam certamente um hino religioso, ainda pude ouvir submergindo em uma instância que não estava nem em Porto Alegre nem em parte alguma…”

“…Não tenho palavras para descrever o que se passa em mim em situações assim. Sei que as minhas ondas cerebrais se aceleram e entro em correnteza, mesmo que por fora eu nada aparente de anormal. Temo que ao fim desse tempestuoso fluxo haja alguma colisão com o que nem sei e dessa colisão eu saia em cacos…” (João Gilberto Noll, trechos de Solidão Continental)

Ao estrear no romance com A fúria do corpo (1981) João Gilberto Noll escolheu uma poética do grito, do excesso, o périplo narrativo exuberante e abundante. Qual não foi a surpresa com sua experiência seguinte no gênero: era também o registro de errâncias desconcertantes, mas numa linguagem quase avara, de extrema contenção: Bandoleiros (1985). Esse curto relato agônico imprimiria a marca de uma série que com certeza se inscreve entre as mais altas experiências da ficção contemporânea: Rastros de Verão, Hotel Atlântico, Harmada

Em 2008, após uma década meio “esquisita” do ponto de vista da realização literária (Lorde, Berkeley em Bellagio, admirados por uns; vistos com reserva por outros, entre os quais me incluo), surgiu o surpreendente Acenos e afagos. As errâncias eram aquelas mesmas, as “peripécias despidas de rotas” desconcertantes na sua descontinuidade (“as épocas do ano pareciam se confundir, sofrer alguns erros de continuidade, qual um filme louco”) e no seu “realismo demencial”; no entanto parecia que, rendendo-se novamente ao excesso, ao transbordante, Noll arejava enfim sua prosa e até mesmo suas obsessões.

Surge então Solidão Continental. Vendo o magro volume, pensei: será que este cumprirá o papel de Bandoleiros com relação a Acenos e afagos, trazendo mais concentrada a viragem do livro anterior, instaurando nova fase?

Infelizmente, não. Longe de ser o passo adiante num novo caminho, Solidão Continental é um brutal retrocesso. Como leitor habitual de Noll, tive a sensação de ser o funcionário de fábrica batendo o ponto e chafurdando na rotina entorpecedora:

“Onde me encontrava que não podia amar a quem nada me dava?”

“Veio-me à cabeça a minha imagem como a do personagem de um filme em meio à natureza, captado por uma câmera em sobrevoo.”

“Percebi que as circunstâncias tinham me vencido mais uma vez. Eu, que queria fugir delas para ir atrás de um estado improvável em que eu fosse dominado pela inconsequência…”

Aí estão os mesmos hotéis aonde o narrador chega sem ter porque ou para quê, ainda que os lugares sejam localizados especificamente (Chicago, Cidade do México, Porto Alegre). Aí está o mesmo lugar meio rural, meio periferia, meio terra de ninguém, onde esse protagonista sempre vai parar após seus contatos autistas com outros seres humanos, normalmente uma aproximação sexual truncada e que parece servir mais como toca de Alice para levá-los a um avesso da realidade cotidiana (mas jamais, certamente, ao país das maravilhas). Aí está o eterno Garoto que transa-não transa, aparece-desaparece, é anjo de vida e de morte (sempre há um hospital no meio do caminho) ao mesmo tempo, e que no final, não é nada, apenas uma figura de passagem, recortada de um fundo fuliginoso devido a um esboço de desejo.

“… mas e daí?, o  que poderia acontecer eu daqui ele de lá, assim—só me restava fechar os olhos e me alucinar com aquilo que o sol inclemente processasse na minha cabeça quebrada, um homem com dificuldade de lembrar o próprio endereço, quem sabe seu nome, agora na companhia daquele velho à beira de sua própria sepultura pois precisava pegar Porto Alegre ainda de dia, para entrar no meu pronto-socorro, deitar na minha maca e deixar que o destino me reiniciasse, amém…”

É óbvio que um escritor da tarimba e do gabarito de Noll proporciona ao seu leitor, mesmo num texto insatisfatório e chocho como esse, bons momentos, aquelas frases lapidares que tanto se prestam à citação, em meio a essa eterna disponibilidade viscosa, a essa gratuidade do episódico, a esse eterno anticlímax (que já foi instigante, e agora é apenas entediante).

No melhor da sua produção, o escritor gaúcho pegava o leitor de jeito com a contundência desse mundo descampado dentro do coração dos seus protagonistas. Agora, ele irrita por conta da complacência com que o dilui.

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São Paulo, terça-feira, 16 de outubro de 2012Ilustrada
Ilustrada

Escritor irrita pela complacência com que dilui o universo dos personagens

ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Ao estrear no romance com “A fúria do Corpo” (1981) João Gilberto Noll escolheu uma poética do grito, do excesso, o périplo narrativo exuberante e abundante.

Qual não foi a surpresa com sua experiência seguinte no gênero: era também o registro de errâncias desconcertantes, mas numa linguagem quase mesquinha, de extrema contenção: “Bandoleiros” (1985).

Esse curto relato agônico imprimiria a marca de uma série que, com justiça, inscreve-se entre as mais altas experiências da ficção contemporânea: “Rastros de Verão”, “Hotel Atlântico” e “Harmada”.

Em 2008, após uma década meio “esquisita” para a realização literária (Lorde, Berkeley em Bellagio, admirados por uns; vistos com reserva por outros, entre os quais me incluo), surgiu o surpreendente “Acenos e Afagos”.

As errâncias eram aquelas mesmas, desconcertantes na sua descontinuidade e no seu “realismo demencial”; no entanto parecia que, rendendo-se novamente ao excesso, ao transbordante, Noll arejava sua prosa e suas obsessões.

Surge então “Solidão Continental”. Vendo o magro volume, pensei: será que cumprirá o papel de “Bandoleiros” com relação a “Acenos e Afagos”, trazendo mais concentrada a viragem do livro anterior, instaurando nova fase?

Infelizmente, não. Longe de ser o passo adiante num novo caminho, “Solidão Continental” é um brutal retrocesso. Como leitor habitual de Noll, tive a sensação de ser o funcionário de fábrica batendo o ponto e chafurdando na rotina entorpecedora.
Eis o mesmo lugar meio rural, onde o protagonista sempre vai parar após seus contatos autistas com outros seres humanos, normalmente uma aproximação sexual truncada e que parece servir mais como toca de Alice para levá-lo a um avesso da realidade cotidiana.

Eis o eterno garoto que transa e não transa, aparece e desaparece, é anjo de vida e de morte (sempre há um hospital no meio do caminho) ao mesmo tempo, e que no final, não é nada, apenas uma figura de passagem, recortada de um fundo fuliginoso devido a um esboço de desejo.

É óbvio que um escritor da tarimba e do gabarito de Noll proporciona ao seu leitor, mesmo num texto insatisfatório e chocho como esse, bons momentos, aquelas frases lapidares que tanto se prestam à citação, em meio a essa eterna disponibilidade viscosa, a essa gratuidade do episódico, a esse eterno anticlímax (que já foi instigante, e agora é apenas entediante).

No melhor da sua produção, o escritor gaúcho pegava o leitor de jeito com a contundência desse mundo descampado dentro do coração dos seus protagonistas. Agora, ele irrita por conta da complacência com que o dilui.

 

SOLIDÃO CONTINENTAL
AUTOR João Gilberto Noll
EDITORA Record
QUANTO R$ 27,90 (128 págs.)
AVALIAÇÃO regular

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