MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/10/2012

APÓS O ANOITECER, de Murakami: arquétipos líquidos


 

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Se desidratarmos APÓS O ANOITECER de toda a sua imersão na contemporaneidade, do perfil urbano típico em qualquer ponto do nosso mundo globalizado (quanto mais numa metrópole do porte de Tóquio), da presença ostensiva dos recursos tecnológicos recentíssimos, e sobretudo daqueles aspectos que definem a chamada pós-modernidade (ou modernidade líquida, como propõe Zygmunt Bauman), um dos quais é o isolamento do indivíduo, mesmo que classificado em etnias ou “tribos”, vagando pela paisagem noturna,  poderemos encontrar as velhas imagens arquetípicas do “patinho feio” e da “bela adormecida” (ou da Branca-de-Neve).

O romance de Haruki Murakami (traduzido por Lica Hashimoto) tem sua estrutura narrativa regida pelos ponteiros do relógio, começando por volta das cinco para a meia-noite e terminado quase às cinco para as sete da manhã. Nesse intervalo de tempo, o foco narrativo (isto é, o ponto de vista escolhido pelo autor) se apresenta explicitamente ao leitor e mostra que se fixará, entre todos os tipos humanos fortuitamente encontrados pela noite, em duas irmãs, Mari e Eri Asai. Veja-se um trecho: “Enquanto estamos do lado de cá observando passivamente a cena, aos poucos sentimos que nossa insatisfação aumenta. Queremos verificar, com nossos próprios olhos, o interior desse quarto. Queremos nos aproximar dela e ver de perto esse movimento sutil, esse indício de que a conscientização de Eri está se iniciando. Queremos fazer conjecturas, o mais concretamente possível, sobre o significado desses movimentos…”

Mari, 19 anos, o “patinho feio”, perdeu o último trem propositalmente para ficar longe de casa, onde se sente preterida em favor da irmã, uma bela modelo. Lendo numa lanchonete, ela resiste ao contato com estranhos, até que Takahashi, tocador de trombone e talvez mais desajustado ainda do que ela, quebra esse encastelamento, fazendo com que conheça tipos humanos e lugares, os quais jamais fariam parte diretamente da sua vida: no motel Alphaville, uma prostituta chinesa foi espancada e roubada por um cliente (que, depois descobriremos, é um nerd que trabalha até altas horas, casado, com filhos); Mari serve de intérprete (pois estuda chinês) e assim entra no mundo das mulheres que trabalham no motel: Kaoru, a gerente, ex-lutadora, amiga de Takahashi; Koorogui, que faz faxina em motéis e leva essa vida modesta porque oculta sua verdadeira identidade: seria morta se retomasse sua vida anterior. O diálogo entre ela e Mari é talvez o mais bonito num livro em que não faltam diálogos longos e talentosos, muito cinematográficos,  nos quais o mais prestigiado autor japonês da atualidade consegue o milagre de fazer com que as pessoas se mantenham estranhas, ainda que trocando confidências umas com as outras (isso permitirá a ele desenhar a possibilidade, mas só a possibilidade, de Mari e Takahashi formarem um casal, um dos mais delicados já delineados na ficção mais recente). Essa parte do livro atravessa bares, lanchonetes, praças, escritórios, motéis, lojas de conveniência, corridas de táxi, plataformas de metrô. Será possível surgirem relações verdadeiramente humanas em tantos lugares destinados ao impessoal, ao descartável, quando não à indiferença (que marca o comportamento de Shirakawa, o agressor da prostituta)?

Enquanto isso, como legítima “branca de neve”, Eri Asai é vítima de um feitiço. Há dois meses está adormecida, para perplexidade da sua família. Na escuridão do seu quarto, o aparelho de tevê, sem estar ligado a nenhuma tomada (um atmosfera narrativa que nos remete a certas tramas de Paul Auster e de David Lynch, embora sem a bizarrice peculiar ao diretor de Veludo Azul), fornece imagens de um outro recinto onde vemos um homem mascarado, de características muito similares às de Shirakawa. No entanto, nada é certo. Mais tarde, Eri é raptada para essa outra dimensão “além da televisão” e acorda ali, presa, sem possibilidade de fuga e sentindo seu ser desfazer-se. Será que a figura querida por todos, que tanto queria agradar, não consegue sustentar essa opção de vida? Será que a insubstancialidade é o destino da branca de neve, transformada em bela adormecida?

Enquanto Mari cresce durante a noite, através dos contatos ao acaso que a desencantam da condição de patinho feio, de jovem estranha, com gostos anacrônicos e introvertidos (a música e as citações cinematográficas do romance são curiosamente “fora de época”, mas numa cultura miscelânica como a de hoje nada parece mais apropriado), parece que o destino de Eri é obliterar-se, prisioneira da sua imagem, objeto de desejo trancafiado numa sala árida e muito parecida com um local de trabalho anônimo e impessoal.

Mas Murakami não oferece destinos irrevogáveis nem soluções no seu belo romance. Fixadas, acompanhadas e esquadrinhadas pelo líquido (já que consegue assumir várias formas), mas impotente (“Infelizmente, devemos admitir, não podemos fazer nada por Eri Asai. É redundante, mas tornamos a repetir que somos apenas um ponto de vista. Em hipótese alguma podemos interferir nessa situação) foco narrativo por algumas horas, essas duas vidas são abandonadas (se pudermos usar esse termo tão frio) no limiar de um novo dia. E quem sabe o que pode acontecer?

(resenha publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 08.09.09)

 

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