MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/10/2012

Especial Nobel: o caso norte-americano

Filed under: especial nobel — alfredomonte @ 12:58
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1976 foi o último ano em que um grande escritor norte-americano, no caso Saul Bellow, ganhou o Nobel (isso porque não acho que Toni Morrison, premiada em 1993, seja um grande escritor norte-americano, mas isso é apenas uma opinião pessoal, pois até Harold Bloom admira a autora de Amada). A galeria de fotos acima permite mostrar o quanto isso foi injusto (ao longo dos anos, morreram autores do naipe de Truman Capote, J. D. Salinger John Cheever, Bernard Malamud, Richard Yates, William Styron, Norman Mailer, John Updike) e como a literatura norte-americana tem sido esnobada, apesar do seu impacto mundial, queira-se ou não. Eu teria até a tentação de incluir Junot Díaz, após ler seu esplêndido A fantástica vida breve de Oscar Wao, mas é um exagero, quando tantos veteranos são ignorados.

Na foto 1 temos Philip Roth, já com meio século de carreira. Sua condição é a de eterno candidato, ficou um pouco como Martin Scorsese com o Oscar (até ganhar com Os infiltrados). O que dizer? Roth é um dos maiores e ainda mantém uma notável e constante produção. Em anos recentes, pelo menos três romances dele atingiram um altíssimo grau de realização, O teatro de Sabbath, Pastoral americana & A marca humana. Além disso, temos os clássicos Complexo de Portnoy & Diário de uma ilusão, entre outros.

Na foto 2, temos a grande Joyce Carol Oates, outra que é prolífica, sempre produzindo, desde os anos 60, e que tem títulos recentes que não passam vergonha ao lado de realizações mais antigas: A falta que ela me faz, A filha do coveiro. E Eles passou  até pelo crivo até Harold Bloom (que não me parece muito fã dela), embora da safra mais antiga eu prefira Um jardim de delícias.

Na  foto 3, o mais discreto dos autores geniais: Louis Begley, que escreveu o famoso Sobre Schmidt, mas que tem realizações ainda mais impressionantes, desde a sua estréia com Infância de mentira, como o clássico O homem que sempre se atrasava.

Na foto 4, a autora de Democracia, um dos romances que mais amo, Joan Didion. Ela freqüentou nos últimos tempos a lista dos mais vendidos com o relato do seu luto pelo marido John Gregory Dunne (O ano do pensamento mágico), mas não podemos esquecer que ela é ótima ensaísta (O álbum branco), além da sua ficção (A última coisa que ele queria).

Na foto 5, o maior fabulador da ficção americana, mestre em criar histórias intrincadas e belas: John Irving, cujo romance mais bonito é As regras da casa de Sidra, mas que escreveu outros clássicos como O mundo segundo Garp, Hotel New Hampshire e Viúva por um ano.

Na foto 6, o ilusionista Paul Auster, capaz de criar intrincados labirintos borgianos em molduras narrativas acessíveis e populares. Por obra do acaso (!?) também foi aquele que eu acompanhei mais pormenorizadamente nas minhas resenhas, nas quais já comentei desde Trilogia de Nova Iork, o grande clássico austeriano, até realizações mais recentes e belas como O livro das ilusões, Noite do oráculo & Homem no escuro, passando pelas suas obras-primas A musica do acaso & Leviatã.

Na foto 7, outro autor misterioso e paradigmático com relação à pós-modernidade, e talvez o mais radical dos autores norte-americanos: Thomas Pynchon. É engraçado que eu tenha lido suas  ciclópicas, gigantescas realizações paranóicas, V e O arco-íris da gravidade e um livro mais curto O leilão do lote 39 sempre esteja fugindo de mim ao longo da minha vida de leitor.

Na foto 8, outro autor original, mais antigo, mas fundamental para se entender a pós modernidade: John Barth, o menos conhecido no Brasil, porque aqui só foram traduzidos poucos títulos da sua obra, como o excepcional A Ópera Flutuante e as experiências radicais de Quimera.

Na foto 09, um daqueles autores que criam em torno de um espaço peculiar, de uma gente específica, no caso o pessoal de ascendência irlandesa de Albany: William Kennedy, o qual lentamente (com Legs & A grande jogada de Billy Phelan) foi desenhando seu mundo até chegar às culminâncias de Ironweed e O ramalhete em chamas.

    Na foto 10, um arqueólogo das mentalidades, E.L. Doctorow, sempre relendo o passado americano com uma inteligência suprema até chegar recentemente à guerra de Secessão em A Marcha. Mas tivemos Ragtime, Loon Lake- O lago da solidão, Billy Bathgate e os maravilhosos A grande feira & O livro de Daniel.

Na foto 11, com cara de cowboy curtido e sem ilusões, Cormac McCarthy, cujo Meridiano de Sangue ganhou nova tradução no Brasil agora, e que na sua obra parece ter materializado a crepuscularidade que o faroeste alcançara no cinema e nunca conseguira na ficção, mesmo que sua narrativa se passe num futuro apocalíptico (A estrada), num presente apocalíptico (Onde os velhos não têm vez) ou num passado apocalíptico (a “trilogia da fronteira”: Todos os belos cavalos, Cidades da planície, A travessia).

Qualquer um deles merece o Nobel.

Ainda poderia incluir outros (Anne Tyler, Richard Ford, David Mamet, Sam Shepard, Raymond Carver), mas seria exagero…

8 Comentários »

  1. Thomas Pynchon é o melhor deles.
    Até porque usou da sua própria paranoia para tornar-se uma lenda.
    Contra o dia (Against the day) e o Arco Iris da Gravidade são duas obras prima do autor.

    Comentário por Weder Almeida — 18/05/2012 @ 12:22 | Responder

    • Bem,isso sempre é uma questão de gosto.Ele decerto é um dos mais originais. Abraço,Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 18/05/2012 @ 13:13 | Responder

  2. Bem, desses todos quem li mesmo foi Philip Roth, um pouco de Paul Auster e mais nada. Eu acho que o Roth merece. Mas com toda certeza vai ganhar alguém meio desconhecido de algum país de que ninguém ouviu falar muito. É quase sempre assim.

    Comentário por Chico Lopes — 02/10/2013 @ 15:45 | Responder

    • Eu até acho uma virtude essas descobertas do Nobel, assim vamos conhecendo autores maravilhosos, que nunca conheceríamos. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 03/10/2013 @ 14:38 | Responder

  3. Será mesmo que algum dia algum brasileiro ganhará? Torço por Manoel de Barros…

    Comentário por Chico Lopes — 02/10/2013 @ 15:46 | Responder

    • O único candidato brasileiro é o Ferreira Gullar. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 03/10/2013 @ 14:36 | Responder

  4. Caro Alfredo, em se tratando dos brasileiros, ia perguntar se o Rubem Fonseca não é merecedor, mas lendo seu blog vi que não é fã dos romances dele (e já há algum tempo mesmo os contos não têm a mesma força). Mas me diga: Será que exagero em dizer que o Rubem de Lúcia Mcartney, A Coleira do Cão, O Cobrador, Feliz Ano-Novo e Romance Negro – entre outros livros menores mas não destituídos de qualidade – não teria merecido a láurea? Acredito que pelo menos durante as décadas de 60 e 70 o Rubem foi um autor digno de uma consideração dessa estatura…

    Comentário por Murilo — 15/01/2014 @ 0:19 | Responder

    • Sim, por esses livros mais antigos de contos certamente ele mereceria todos as maiores premiações do mundo, Murilo. Mas em outro post, em que coloco autores brasileiros que acho merecedores do Nobel, ele está incluído, pois ele já foi simplesmente genial. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 16/01/2014 @ 11:35 | Responder


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