MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/09/2012

QUESTÃO DE GÊNERO: O “Inferno Provisório” de Luiz Ruffato


“O  todo          igual para todos          destino uno

para o justo e para o iníquo

para o bom          e para o puro e para o impuro

e para quem oferenda

e para aquele           que não faz oferendas

Tanto o bom           quanto o que peca

quem jurou

igual           a quem refugou o juramento

 

Eis o mal          em tudo o que é feito           sob o sol

pois é um o destino           para todos

E também no coração dos filhos do homem

infla-se o mal          e a loucura no seu coração

enquanto vivos

e o após de cada um          junto aos mortos

 

Pois aquele          que se vincula

ao todo dos viventes          segura-se à esperança

Pois cachorro vivo          é melhor

que leão            morto”

(Qohélet-O-que-sabe, o Eclesiastes, na versão de Haroldo de Campos)

“Por volta das nove horas, encorajando-se, rumou para a MG-285. O farol do Gol varria o matagal que abraçava a estreita faixa de asfalto. Milhares de estrelas ardem o breu da noite. Em breve, numa curva, o rio Pomba se entremostraria, indolente, e Cataguases, precários favos cinza mal iluminados, emergiria, açulando recordações. Trepado na garupeira da bicicleta do Toninho, o vento cálido acaricia seu rosto… A mão macia da Júlia conduz o espanto das letras no caderno-de-caligrafia… A volta na Kombi do Armazém do Lino, que o Lalado entregava compras, a molecada hidrófoba… A mãe, cheiro de querosene do fogareiro vermelho na tarde excluída do tempo… A viagem com o pai para São Paulo, uma semana cravada em seu coração simples, a certeza de que, a partir de então, Cataguases afundaria, lenta e inexoravelmente, numa terrível agonia, até morrer  um dia, agora talvez, quando, sorrateiro, corta a cidade deserta…”  (Luiz Ruffato, Domingos sem Deus)

(a resenha abaixo é uma versão ampliada da publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de novembro de 2011):

Domingos sem Deus encerra a série Inferno Provisório, iniciada em 2005.  Seu criador, Luiz Ruffato, afirma que é um painel romanesco. É direito dele classificar como quiser seu projeto. Eu me permito—como leitor—discordar: a categorização como romances, o excesso de títulos, subtítulos, epígrafes e dedicatórias prejudicaram cinco típicos livros de contos e novelas (mesmo se levando em conta a recorrência de personagens), que seriam melhor avaliados sem essa pirotecnia editorial toda. Imagine se Dalton Trevisan decretasse que cada uma das suas coletâneas é parte de um romance em progresso. De qualquer forma, os textos emperiquitados das orelhas  e certos comentários sobre a série me fazem crer que Ruffato embrulhou bonitinho seu peixe para fazer as delícias e delírios do povo do mundo acadêmico, onde estudarão os “jogos semióticos” e os palimpsestos contidos nos cinco volumes. Mesmo sabendo que o romance é um gênero-terreno baldio que aceita tudo, é muita forçação de barra.

O mesmo se pode dizer da intenção que moveu a escritura de Inferno Provisório. O autor mineiro tem enfatizado se tratar de um resgate da história do proletariado brasileiro no último meio século, sem o maniqueísmo ideológico de praxe, e com uma linguagem inovadora, não-naturalista. Ora, ora. O que eu vi sempre, oculto sob as dobras de veleidades tipográficas maçantes[1], foi um ótimo escritor tradicional, de veia realista (e não há problema nenhum nisso), que continua a tradição dos escritores católicos (Otto Lara Rezende, Gustavo Corção) ou dos injustamente esquecidos mestres da sondagem psicológica, como João Alphonsus ou Antonio Olavo Pereira. Não é inovação, é a posse de uma memória afetiva, de uma ambientação, de um miasma próprio e autêntico, e muitos recursos expressivos para trazê-los à tona.

No saldo final, dos cinco volumes apenas o segundo, O mundo inimigo (2005), me parece totalmente bem realizado, Mamma, son tanto Felice (2005) e Vista parcial da noite (2006) apresentam altos e baixos gritantes, e O livro das impossibilidades (2008) vale basicamente por uma das suas três histórias, a última (“Zezé e Dinim”), muito superior às outras duas, não obstante as irritantes e desnecessárias firulas tipográficas que me lembram o pior lado de Cortázar (por exemplo, no Jogo da Amarelinha aquele tipo de capítulo frívolo onde se lia uma linha sim, outra não…).

Domingos sem Deus é o mais fraco do conjunto, o mais decepcionante, sem comparação. Ele apresenta seis histórias. É sempre a mesma coisa na maioria delas; pega-se um personagem num momento “presente” (a série não ultrapassa 2002, permanecendo na soleira do governo Lula) e a partir daí se reconstitui o passado (às vezes num estilo “relatório” monocórdio muito chato), sempre com a perda da referência (a região rural de Rodeiro, a cidade de Cataguases, em Minas, como ponto de passagem do rural para o operário e o lúmpen, e as fugas para os grandes centros: Rio, São Paulo, o ABC), imposta ou almejada, os vínculos familiares desfeitos, os sonhos frustrados, a criminalização cada vez maior de parte da sociedade, o aburguesamento caracterizado pelo consumo e pelos eletrônicos de ponta…

Vemos isso em “Trens”, “Sorte teve a Sandra”, “Outra fábula” (de onde tirei a epígrafe acima, e que seria uma espécie de ponto-de-fuga da série, atando as pontas com a primeira história de Mamma, son tanto felice. “Uma fábula”, que nos apresenta o mundo rústico de Rodeiro de forma brutal[2], e em “Mirim”, a fotografia de formatura da quarta série é o que dá a um velho num asilo o sentimento de ter existido, por isso é o melhor momento da sua vida”.

O ponto alto da coletânea, no entanto, é “Milagres”, uma das melhores coisas que Ruffato já escreveu: uma família relativamente próspera, em viagem (os pais tiveram que chantagear os filhos adolescentes com presentes caros), tem de fazer uma parada para consertar um pneu rasgado, e o borracheiro conta ao pai a sua trajetória de vida, como foi parar ali naquele fim de mundo. Aquela famosa dicotomia dos “dois brasis” dialoga em poucas e notáveis páginas, prova de que Ruffato é um escritor de grande talento que está desperdiçando seu vigor em grifes estilosas. O desfile pode ser chique, mas não muda a qualidade do tecido ou do material usado.


[1]  O leitor do meu blog talvez estranhe tal afirmação, uma vez que há alguma semanas elogiei a exuberância tipográfica de Minha irmã, meu amor, de Joyce Carol Oates. Só que, ali, fazia todo o sentido, e era expressão da personalidade-performance do narrador, Skyler Rampike (assim como tais recursos fazem sentido em Sterne ou Machado). Na maior parte das vezes, a meu ver, os recursos tipográficos aplicados em INFERNO PROVISÓRIO são gratuitos e inúteis, e me fazem lembrar maldosamente de um comentário de Ernesto Sábato (em O escritor e seus fantasmas). Sem ter o texto à mão, o argentino afirmava mais ou menos o seguinte, sobre Joyce e seus “seguidores”: o sujeito inventa o boeing e os demais se preocupam em mudar o tamanho das janelinhas, a melhoria dos assentos, a posição dos cinzeiros etc.

Embora Ruffato tenha realmente experimentado com êxito uma narrativa heterodoxa e multifacetada em Eles eram muitos cavalos, uma das mais importantes obras da ficção nacional recente e que está completando dez anos.

[2] “Na tarde em que avistou, do alto do estreito caminho que, abandonando a estrada de chão que liga Rodeiro à Serra da Onça, levava àquele fundo de grotão, a casa seis-cômodos náufraga no fundo da perambeira, a ampulheta da vida de Chiara Bicio, a Micheletta velha, inverteu-se: ela começou a morrer. E esgotou-se hora a hora, a saúde murchando na sangria estúpida de partos, e o juízo escapando por entre as fímbrias das úmidas árvores que uivavam nas noites intermináveis. De começo, pensava, pelo menos a visitaria a família, mas, desatinou, o Pai rompeu com os Bicio, assenhorando-se de que parente nenhum viria rondar coisas suas, algemando-a nos cordões umbilicais de gravidezes sem-fim, largando-a desamparada, minguando num quarto de portas e janelas trameladas por fora, de onde saiu, trinta e cinco anos, rija, enrolada numa toalha-de-mesa, tão pássara que até o vento insistia em carinhá-la em sua derradeira viagem de carro-de-boi cantador até a Igreja de São Sebastião, quando, para comparecer decente à missa de corpo-presente, vestiram-na em madeira…”

   

            ***********************************************

 REMORSOS E RANCORES- antologia de trechos de “Inferno Provisório“:
“Seu Zé Pinto, com a desculpa de aprumar uma parede que ameaçava desabar, empurrou Dusanjos para um dois-cômodos, nos fundos do beco, na verdade temeroso até de que não desse conta de pagar o aluguel. Mas ela havia tomado uma resolução: não era justo para o José Batista que continuasse assim, amofinada, morta-viva. Voltou à lavagem de roupas, passou a dar pensão-de-comida para duas mulheres da Ilha, pegou um capado para criar à-meia. Mas, quando o beco submergia na noite, não conseguia pregar os olhos. Ouvia o cricri dos grilos, o coaxar dos sapos, o barulho das corredeiras, e de novo era menina-moça deitada no colchão-de-pena a sonhar outra vida, longe da lavoura que detestava, que engrossava suas mãos pretas de enrolar fumo, nunca arranjaria um namorado assim, a planta dos pés esgravatada, meu deus, a mesma tristeza, a mesma sensação de abandono, se ao menos soubesse,  tivesse certeza do que aconteceu, mas não, ninguém sabia de nada, acordava, passos lá fora, É ele! O coração disparava, alguma porta abria, o silêncio, a solidão, horas em que achava que estava ficando louca, podia ´sentir´ a presença do Donato, ele chegando à tardinha, encostando a bicicleta na sala, sentado no banco da cozinha e falando Dusanjos, ó Dusanjos, ela vinha, enchia a bacia de alumínio com água temperada, ele perguntava, enquanto tirava o conga, E o menino, Dusanjos?, ela se abaixava para lavar seus pés, Passou bem o dia, só quer saber de mamar. Esse menino!, ele comentava, ensaboando as mãos e o rosto. Ah, queria morrer e não queria.  Onde estaria ele agora? Deus, acaba logo com essa agonia!” (Mamma, son tanto felice)

Segundo Ruffato, em Mamma, son tanto Felice ele incorporou textos de dois livros anteriores (que eu não li), Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos seis contos que compõem o primeiro volume de Inferno Provisório, escolhi um trecho de “O alemão e a puria”.

“Vanin sentiu um calafrio. E agora? Tramelou a porta, tirou os sapatos, deitou na cama. Ia sentir falta daquela gente, ah, ia. E das telhas pretas de fumaça, da cumeeira cheia de picumã, do barulho das corredeiras do rio Pomba, dos passarinhos (Preciso trocar a água e o alpiste deles, não posso esquecer), da bicicleta, da… da Zazá. Em cima da penteadeira, o retrato deles dois, dia do casamento, ela sorrindo, parecia tão feliz, ele sério, preocupado. Meu deus, é certo o que estou fazendo? Ah, mas logo logo, se tudo corresse direito, voltaria. Chamaria o Ditão e o Ditinho, o Natanael e a Mariinha, o Zico e o Zeca, fariam uma serenata para a Zazá, traria um monte de presentes, um vestido novo, um par de sapato, perfume, uma noite inesquecível! Olha o Vanin aí, Zazá, como está diferente o danado… Peste ruim! Desgraçado! Ih, lá vem a Zazá com aquele nervosismo. Sai, sai. Não, ela ia adorar, um monte de gente tocando violão, cantando só pra ela, quem não gosta?, quem? A Zazá ia ficar fula da vida, pegar um caldeirão de água fervendo e jogar em todo mundo. Que gênio, essa mulher, que gênio! Adormeceu.

 

    Ansioso, comprou passagem, cedo ainda, tentou se distrair olhando a televisão da rodoviária, tomou um café, dois. Na bolsa, duas mudas de roupa, o violão a tiracolo. Três vezes perguntou se demorava muito ainda. Queria entrar, dormir, acabar logo com aquela agonia. E se a Zazá aparecer aqui? Nossa senhora, vai ser um deus-nos-acuda! Deus me livre! Suor nas mãos, as pernas vara verde. Mastigou um pacote de biscoito-maria, andou de um lado para o outro, pensou em tirar uns acordes, os dedos duros.

   O ônibus encostou, a porta abriu, Vanin percorreu afoito o corredor, observando a fisionomia de cada um, ninguém conhecido, Graças a Deus, sentou, o motor roncou. Ê meu povo, vou embora, adeus!, as luzes se apagaram, atravessou a Ponte Nova, cortou a Vila Minalda, Meu deus, o quê que estou fazendo?, pegou a estrada rumo à Leopoldina, Cataguases sumiu atrás dos morros, o breu da noite, vontade de levantar, falar para o motorista que tinha esquecido os documentos em casa,  Vê se pode, não sei onde estou com a cabeça, pode parar aí mesmo, seguir viagem, tem problema não, e descer, voltar no beco, conversar com o seu Zé Pinto, Vamos esquecer aquele negócio, seu Zé, pensei melhor, bobagem minha, ele ia entender, seu corpo não se mexeu, Meu deus, a Zazá vai querer me matar…

   No meio da escuridão o ônibus engolindo o asfalto.”

              (O mundo inimigo)

Assim como o anterior, segundo o autor, há o reaproveitamento de textos de Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos doze contos de O mundo inimigo, escolhi um trecho de “A decisão”.

“O delegado, doutor Aníbal Resende, apertou a mão do meu pai (camarada) Obrigado, seu Sebastião, por ter aceitado o nosso convite. Isso só me dar mais convicção de que se trata de um grande equívoco… e é o que, aliás, nós vamos esclarecer agora… (acende um cigarro) Pode se sentar, seu Sebastião, fique à vontade. Bom, pra não me estender muito, seu Sebastião, vamos direto ao ponto:  (irônico, a voz alterada) Que raio de história é essa que o senhor anda espalhando por aí, seu Sebastião, de que Cataguases vai ser invadida pelos alemães? Quem foi que inventou uma besteira tão grande, seu Sebastião? (compreensivo, a voz mais baixa) Seu Sebastião, deixe-me explicar uma coisa para o senhor: o senhor, a sua família, são pessoas de bem, conhecidos, ordeiros, cumpridores do dever, todo mundo sabe… Agora, o senhor já ouviu falar dos comunistas? (didático) Existe em nosso país gente que quer implantar o terror, irmão matando irmão, (a voz amplifica-se, o suor escorre da testa) (As mãos gesticulam, teatrais) quer ver o Brasil nas mãos dos comunistas, da Rússia!, seu Sebastião, da Rússia!, onde os valores cristãos  de nada valem, onde os homens dividem as mulheres com os amigos, as filhas dormem com os pais, os padres são enforcados por pura diversão, onde não há lei, onde reinam a anarquia, a bagunça, a perdição… (gritando) São esses comunistas, seu Sebastião, que divulgam notícias como a que o senhor anda espalhando, com o objetivo de provocar o pânico, a desordem, a desconfiança… (esmurra a mesa) (Levanta-se, acende outro cigarro, acalma-se) Seu Sebastião… seu Sebastião…deixe-me fazer uma pergunta pro senhor e queria que  o senhor me respondesse com toda sinceridade: (fixa seus olhos nos olhos do meu pai) Seu Sebastião, o senhor conhece algum comunista? Já viu um? Não? O senhor sabe quem é comunista? Não? (Senta-se, limpa o rosto com um lenço, enfia-o de novo no bolso de trás da calça) (sarcástico) Nem nós, seu Sebastião… Nem nós, da polícia… Sabe por quê? Porque comunista não traz isso escrito na testa… Como posso ter certeza de que o senhor, seu Sebastião, não é comunista, se o senhor está agindo como um? Bom, então vamos da um voto de confiança pro senhor, seu Sebastião. (autoritário). Agora, a partir de hoje o senhor está proibido, proibido, entendeu?, de abrir a boca pra falar sobre isso. Proibido! Outra coisa: vamos confiscar, temporariamente apenas, todos os aparelhos de rádio e televisão que o senhor possua em casa… (gritando) Eu não tenho nada com isso! Se o senhor ainda está pagando a televisão, problema seu! Estou sendo seu amigo, seu Sebastião, não sei se o senhor percebeu? (Acende mais um cigarro pega um papelzinho na gaveta) (a voz mais mansa, confidente) O senhor tem um filho… Reginaldo?, Reginaldo… tinha um tio meu que chamava Reginaldo… Bom, o Reginaldo trabalha na Manufatora, não é mesmo? E tem uma filha… Mirtes… a Mirtes trabalha na sala-de-pano da Industrial?, belo emprego, heim, seu Sebastião?, belo emprego! Os filhos bem-encaminhados, graças a Deus… (camarada) Pois é, e tem gente que jura que o senhor é comunista, só pra ver os seus filhos serem mandados embora, só pra ver a família do senhor passando dificuldades… Que mundo, esse, seu Sebastião, que mundo! (amigo) Ah, não esquece  de levar o menino no psiquiatra, como recomendou o professor Guaraciaba…” (Vista parcial da noite)

Dos onze contos de Vista parcial da noite, escolhi um trecho de “O ataque”.

“__ Era? Caralho, Zezé, você lembra de cada coisa!

(pausa)

Dinim: Como você lembra dessas coisas?

Zezé: Eu lembro de tudo…

__ De tudo?

__De tudo…

__ Eu não lembro de porra nenhuma…

__ Bom pra você…

__ Bom?

__ É

__ Por quê, bom?

__ Pelo menos assim você não sofre…

__ Não sofro?

__ Eu lembro de tudo… E isso machuca a gente… Eu lembro da primeira chinelada que a minha mãe, coitada, deu na minha bunda… Eu lembro quando eu vi uma mulher pelada lá na Ilha, lembra da Ilha? Lembro de todas as vezes que neguim olhou pra mim com desprezo, aqui, no Rio… E da régua que a dona Ângela, nossa professora no quarto ano, quebrou na minha cabeça, Ô criolim burro!, ela falou, a sala inteira rindo… E da tabuada que ganhei uma vez, toda despedaçada… arrumei com durex, encapei ela… E tudo… um monte de coisas… (pausa) Por isso que eu digo, feliz é você, que não lembra de nada…

(pausa)

Dinim: É… você lembra… eu penso… Toda noite eu não consigo dormir… Na minha cabeça fica martelando que eu tomei o caminho errado, que eu desviei em algum lugar… E que não tem mais jeito… E que eu estou fodido… E que todo mundo que fica perto de mim se fode…

(pausa)

Dinim: Pra nós não tem saída, cara, não tem…

Zezé? Do que você está falando, cara?

__ Porra, Zezé, só durmo na base de Valium, tenho úlcera no estômago, colesterol alto, pressão alta, estou gordo, fumo pra caralho, bebo pra caralho, cheiro pra caralho… (pausa)… Velho, cara… me sinto um velho… E estou com trinta e cinco anos, você também, não é?, trinta e cinco anos…

(pausa)

Dinim: Cara, todo dia penso numa solução… todo dia…

Zezé: Que solução?

__ Não sei… ainda… Mas tem que ter alguma…”

(O livro das impossibilidades)

   Segundo Ruffato, foi reaproveitada nesse quarto volume de Inferno Provisório uma das histórias de (os sobreviventes). Dos três contos longos (dois podem ser considerados novelas), escolhi um trecho de “Zezé e Dinim”.

“Eu estou aqui há mais de trinta anos… Uma vida…E foi por acaso que vim pra cá, acredita? Puro acaso… Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão Valério mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bicio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam encaminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que todo mundo ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltavam aos eixos. Mas…

    Nilo, as mãos suadas, esticava as pernas, agitado.

__ Eu trabalhava num restaurante, de garçom, e uma noite, voltando pra pensão, em Guadalupe, cismei que tinha um sujeito me seguindo, e a partir daí perdi a razão, minha vida virou um inferno, passei a achar que todas as pessoas sabiam da minha falta, me olhavam e me condenavam, não conseguia mais comer, nem dormir, e a situação ficou tão insuportável que um dia, desesperado, desci na rodoviária só com os documentos e a roupa do corpo, e comprei passagem pro primeiro ônibus de saída. Arranchei em Feira de Santana uns meses, sobrevivendo de biscate, até que conheci um rapaz, gerente desse posto, já até morreu, coitado, que Deus o tenha!, que perguntou se não queria tocar uma borracharia aqui… No começo ainda imaginei, escondo uns tempos, espero a poeira baixar, volto, mas me sentia um covarde, decepcionei minha família, envergonhei a família de Arlete, falta de cabeça, quando a gente é jovem faz umas besteiras, depois não tem como ajeitar. Aí vai ficando, ficando… me acomodei…

    Cabeludo levantou. Nilo caminhou apressado rumo ao Siena preto.

__ O resto é o que está vendo… Ninguém me incomoda, não incomodo ninguém…” (Domingos sem Deus)

Dos seis contos de Domingos sem Deus, escolhi um trecho de “Milagres”.

 

6 Comentários »

  1. Penso que há um preocupação absurda de nossas autores com a línguagem, a forma. A busca de “uma linguagem inovadora” parece resumir a literatura brasileira. Gostei de seu texto sobre Oswald de Andrade e o seu “clássico” Memórias sentimentais de João Miramar . Incrível sua análise da obra de Raquel de Queiroz .Não há complacência nelas e isso é bom.

    Comentário por marcelo da costa — 27/11/2011 @ 20:29 | Responder

    • Meu caro Marcelo, obrigado pelo seu comentário. Penso que a busca da inovação, de novas formas, em si não é um problema, e sim o trombetear que se está inovando, que se criou uma nova (velha) forma, e as panelinhas que se formam, de escritores ou acadêmicas. E isso é um problema da nossa literatura, decerto.
      Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 27/11/2011 @ 22:14 | Responder

  2. Excelente…

    Comentário por pukka131dicas — 15/07/2012 @ 15:51 | Responder

    • Muito obrigado. Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 16/07/2012 @ 12:56 | Responder

  3. Acabei de ler “Eles eram muitos cavalos”, e na minha opinião é um dos melhores livros que li ultimamente (gostei mais que “O céu dos suicidas”), mas pra mim é uma coletânea de contos e não um romance. Vou ler a série.

    Comentário por Silvana — 11/06/2013 @ 17:39 | Responder

    • Gosto muito de “Eles eram muito cavalos” e acho mais um texto-mosaico, Silvana. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 12/06/2013 @ 13:52 | Responder


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