MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/09/2012

Cinquenta tons de fúksia


 “Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva…”

  Se o título Procura do romance fosse de Nora Roberts, ou nos vários tons a percorrer o espectro do rosa ao cinza, de suas similares, a heroína procuraria o romance amoroso, o final feliz.

Há uma outra forma de imaturidade  fetichista da qual Procura do romance parece ser o epítome: enquanto há mocinhas e mulheres maduras que anelam pelo amor verdadeiro, há homens, mais jovens ou mais maduros, cujo gozo é a metalinguagem, a ficção autorreferente (que encontra  bastante eco nos prêmios literários, assim como a literatura à Nora Roberts encontra sua realização na lista dos mais vendidos; o mercado divide bem a esfera dos desejos, e só  nós, que queremos ser “leitores de verdade, autênticos” somos bobos, no final das contas).

A procura de romance, nesse caso, é a procura do gênero literário: dado o diagnóstico-ladainha constante de que o romance morreu, é preciso resignar-se aos jogos intertextuais, na esfera do que se denominou recentemente de “literatura exigente”, aquela que pressupõe um Sujeito moribundo, um foco narrativo (des)enraizado na desconfiança, fazendo tabula rasa do psicológico, do biográfico, da “realidade”.

Assim, o livro de Julián Fuks pode ser tomado como o 50 tons de cinza (se não for, seguindo a sugestão genial de Diogo Ávares, 50 tons de fúcsia) da metanarrativa. Como brincou uma amiga minha, quando lhe enviei trechos, dos quais rimos muito, ele é um típico exemplar dos “escritores-promissores-contemporâneos-urbanos-globalizados-deslocalizados-umbiguistas-autoficcionistas-grantistas”, ufa!

Mas seria injusto dizer que Fuks em seu livro procede como aqueles escritores que vão passar um mês em qualquer lugar do mundo, ou uma temporada na, digamos, Mongólia, e fazem questão de mostrar em seus livros  (pois há sempre livros, mesmo com o  gênero moribundo, porque afinal há prêmios e bolsas) que não vão falar do lugar, que vão ignorá-lo, e que ele é um palco como qualquer outro seria para o exercício da linguagem.

No caso de Procura do romance o Espaço é bem circunscrito: seu protagonista, embora brasileiro, é filho de argentinos, e até chegou a morar por alguns anos (à época da infância) num apartamento em Buenos Aires, para o qual volta, com o intuito de escrever um romance, embora seja um “homem neutro” e não haja assunto para tal empreendimento: q ue poderia ser proustiano, pois há a lembrança das carências quando menino, beijos maternos,  terrores infantis; que poderia ser cortazariano, pois há jogos sutis entretecidos entre o protagonista e uma moça desconhecida numa visita a uma exposição de Picasso; que poderia enveredar pelo fantástico do tipo kafkiano e borgiano, com alguns elementos insólitos a quebrar a rotina; que poderia ser joyceano ou woolfiano ao dar relevância a elementos outrora considerado irrrelevantes do cotidiano; só que todas essas possíveis veredas já magnificamente exploradas pela ficção romanesca no seu auge modernista são contrariadas, canceladas, truncadas. Procura-se o romance, não se chega a ele. Retomando a citação que abre este meu fúcsio comentário:

“Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva, mas que ao menos guarde consigo a evidência do seu empenho [permitam-me: !!!!????}, o montante de sua contribuição ao mundo das letras, sua espera fixada no tempo, sua promessa em perpétuo adiamento, seu livro por vir, se ainda lhe vale a soberba.

E com sua mirrada resma alinhada às pressas e apertada junto às costelas, parte o homem sem mais delongas até a porta da frente…”  E mais adiante: “…engole a própria náusea, assume a angústia e compreende que as paredes que o circundam serão para sempre o cenário autêntico não de uma perda, mas de uma derrota, ingente e desprezível a um só tempo, eloquente e indizível a um só tempo, uma derrota que, se não o justifica ante os outros, ao menos o devolve aos limites de si mesmo…”  Creio que, no fundo, lá no fundinho, tais  “limites” são ilimitados e ilimitáveis.

São 142 páginas nessa toada. É chocante constatar que Fuks caiu no ridículo de escrever tal besteira beirando os 30 anos. Se ele tivesse 18, apesar de chatinho, seria mais justificado. Aos 30 anos, parece uma empulhação tamanha que me dá preguiça até de percorrer seus 16 capítulos, como  faço habitualmente para o meu leitor ter uma ideia clara da obra que estou comentando.

Fuks escreve com um traquejo que se assemelha àtradução ruim de um original argentino. Nem isso ele conseguiu: poderia ser uma experiência legítima de linguagem, a  junção de duas línguas, tal como fez Junot Díaz no ótimo A breve e maravilhosa vida de Oscar Wao. Infelizmente, parece que basta procurar o romance, não se precisa encontrá-lo.

Vou me limitar a transcrever alguns trechos “preciosos ridículos”, que fizeram a festa para mim e alguns amigos, que os saboreamos muito,  variando do presunçoso ao mais-que-batido ou à reinvenção da roda made in “literatura exigente”:

Vejam, seu protagonista não lê um livro apenas: “AS RETINAS VÃO SE MACULANDO DE TODOS AQUELES INCONTÁVEIS SINAIS GRÁFICOS    (deve ser aquela coisa toda de “literatura e cegueira”).                   ;

Chove? não, é claro, caem ‘AS GOTÍCULAS DO LÍQUIDO NATURAL DESPEJADO .

“NÃO ME PREOCUPO EM ABRIR AS JANELAS E ATINAR COM O MUNDO, PORQUE NÃO PARECE HAVER NO MUNDO NADA QUE POSSA ME INTERESSAR

E ainda o acusaram de ser:   “UM SUJEITO AUTO-CENTRADO, UM EGÓLATRA“!!!???

E numa livraria (onde mais?) ele sonha: “SITUAR SEU INOMINADO PROTAGONISTA E ENTREGÁ-LO A SEU HABITUAL SOLILÓQUI DE DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO, QUIÇÁ ESSE SUJEITO–SE ESCRITOR– COGITANDO A POSSIBILIDADE DE SITUAR SEU RESPECTIVO PROTAGONISTA NAS MESMAS CONDIÇÕES E ENTREGÁ-LO A OUTROS–OU OS MESMOS–DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO”

Num ônibus, trocando frases com outros passageiros: “… embora tenha julgado que naquele torvelinho de amenidades e frases feitas devia se esconder um sem-número de verdades mundanas de indubitável valor para aqueles que se propõem a abarcar o mundo em suas histórias, e tenha lamentado sua própria incapacidade de prestar atenção nelas por mais de alguns mesquinhos segundos…”

 “Mas, novo mal que se anuncia, terá também passado a era de matizar abatimentos, terá sido a melancolia sucedida por uma prostração irredimível? E, se assim for, caberá a escritor e artista dar conta exclusiva do vazio, fazer da tinta que macula a tela gotículas ínfimas de vácuo?”

“Não pode, não poderia [ mas deveria, se tivesse simancol] , não seria de seu feitio arremeter o corpo contra a janela obstrutiva, estilhaçando vidro e pele e ossos na malograda tentativa de atravessar o espaço intransponível—de vidas e narrativas trágicas já parecemos exauridos…” …”

“…e agora Sebastián caminha pela antiga calle Serrano, agora Jorge Luis Borges, já bastante distanciado do lugar que estipulou consigo mesmo chamar de seu apartamento ou sua casa, não sem consciência mas ao menos esquecido, abstraído ou desatento ao fato de que é Sebastián e de que caminha pela calle Borges já bastante distanciado do lugar que estipulou chamar de casa…”

“Sente-se bem, e esse sentir-se bem, pensa, parece não se concentrar na região do encéfalo, parece não se constituir de meras sinapses entre os neurônios superiores desligados das demais células, pelo contrário, pensa sem tentar fraguar um discurso claro ou encontrar as palavras certas, sentir-se bem é algo que se irradia espinha abaixo entre as vértebras e pelos tramos do sistema nervoso, algo que se expande da medula aos demais órgãos e acaba por lhes conferir uma inesperada unidade, a unidade de seu ser, um ser que por complexos trâmites internos caminha em ritmo constante sem dar a ver as mil engrenagens necessárias ao processo, revelando-se tão somente em sua superfície de ser e com sua superfície elidindo sua natureza infinitamente fragmentária…”

 

O meu trecho favorito: “Não, prossegue em seu caminho e se indaga em questionamentos erráticos, por que esse impulso de roubar para o texto o que é da vida, de converter em ficção o que a ficção não comporta, por que quer brindar seu personagem ou o personagem de seu personagem com essa manifestação patente de voluptuoso acaso quando poderia guardar para si e só para si essa volúpia…”

O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, no seu texto, ele não tirou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos nas 200  mil pilas que ele pode amealhar com essa abobrinha no dia 24 de setembro, caso venha a ganhar o Prêmio São Paulo de literatura 2012. Será a abobrinha mais cara da história. Quem disse que a “literatura exigente” não pode ser um bom investimento?

(escrito para o blog em setembro de 2012)

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10 Comentários »

  1. Estou me dobrando de rir:
    “O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, no seu texto, ele não roubou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos nas 200 mil pilas que ele pode amealhar com essa abobrinha no dia 24 de setembro, caso venha a ganhar o Prêmio São Paulo de literatura 2012. Será a abobrinha mais cara da história”. !!!!!

    Comentário por Diogo Ávares — 19/09/2012 @ 23:03 | Responder

    • Valeu pelo comentário bem-humorado, Diogo. Abração

      Comentário por alfredomonte — 20/09/2012 @ 9:23 | Responder

  2. Em tempo: não seriam os “50 tons de fúcsia”?

    Comentário por Diogo Ávares — 19/09/2012 @ 23:11 | Responder

    • Genial, Diogo, quase me dá a tentação de roubar seu achado para novo título do post.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 20/09/2012 @ 9:24 | Responder

  3. À vontade, Alfredo! Será uma honra pra mim, que sou um mero e velho leitor rabugento!

    Comentário por Diogo Ávares — 23/09/2012 @ 20:01 | Responder

    • Já aproveitei, mas não no título, e sim no corpo do texto, citando seu nome.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 24/09/2012 @ 13:21 | Responder

  4. suspiro

    Comentário por dbottmann — 22/04/2013 @ 22:19 | Responder

    • hahahahah, Denise, tudo isso é porque a carne é triste etc etc etc.

      Comentário por alfredomonte — 22/04/2013 @ 22:20 | Responder

  5. Esse é o problema da parte mais festejada da literatura brasileira, de nossa “alta literatura”, muitas vezes ela ganha cartaz por sua imaturidade com verniz de coisa séria. Se alguém fizer uma rápida pesquisa pela internet vai perceber que a literatura que está sendo reconhecida e premiada mundo afora atualmente, vindo dos EUA, Europa, África, Ásia etc., é aquela que investe em linguagem, mas também no storytelling, nos personagens, na trama, em temas importantes para a sociedade. Patrick Modiano, o último ganhador do Nobel, é um contador de estórias. Dois dos mais celebrados autores em língua inglesa, J. M. Coetzee e Ian McEwan, são contadores de estórias. Aliás, os melhores livros de Coetzee são aqueles que ele deixa os jogos literários de lado e conta uma estória precisa e intensa. McEwan é um autor considerado maior e que utiliza muitos recursos da chamada literatura comercial: suspense, reviravoltas, final surpresa. Chimamanda Ngozi Adichie, que está se firmando como uma nova estrela da literatura internacional com seu ponto de vista de mulher nigeriana, é uma contadora de estórias. Acho que falta mais essa preocupação dos autores brasileiros contemporâneos. Gostei muito de Diário da Queda, de Michel Laub. Porque tem uma linguagem apurada e porque conta uma estória poderosa, não só centrada no protagonista, mas que faz referência ao país, de maneira bastante particular, mas não menos relevante. E você, Alfredo, como sempre afiado.

    Comentário por ricardo santos — 18/02/2015 @ 12:46 | Responder

    • Acho que há espaço para contar histórias, para a metaficção, para a fusão de ambos, mas não nesse modo “literatura exigente”, anti-leitor.

      Comentário por alfredomonte — 18/02/2015 @ 12:49 | Responder


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