MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/09/2012

Leituras em espelho: Vidas passadas, Textos mal passados (segunda parte): A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA


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https://armonte.wordpress.com/2012/07/14/leituras-em-espelho-vidas-passadas-textos-mal-passados-primeira-parte-o-robe-do-dragao/

No texto que consta como Introdução à edição pocket (pela L&PM) de Max e os felinos (uma novela absolutamente comum, sem nada de mais), Moacyr Scliar (1937-2011) comenta o suposto plágio (desmentido por ele mesmo) do seu texto cometido pelo canadense Yann Martel em A vida de Pi (este sim, um romance absolutamente fora do comum): “… o fato de Martel ter usado a ideia não chegava a me incomodar [em outro trecho lemos: “Depois de muito debate sobre o assunto o livro de Martel finalmente chegou-me às mãos. Li-o sem rancor; ao contrário, achei o texto bem escrito e original. Ali estava a minha ideia, mas era com curiosidade que eu seguia a história—boa narrativa, aliás, dotada de  humor e imaginação. Ficou claro que nossas visões da ideia eram completamente diferentes. As associações que fiz são diferentes das que Martel faz”].. Incomodava-me… a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro  A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma  parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro—que enviei a ele (nunca respondeu—nem sei se recebeu—, mas cumpri minha obrigação)…”

   Se Harold Bloom viesse a saber que, além de aproveitar sua extravagante hipótese, o romance de Scliar ainda receberia o Jabuti, o nosso mais badalado prêmio literário, talvez ficasse impressionado e louco para ler A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA. E ficaria certamente incrédulo com a ruindade do livro, que espanta até quem nunca foi muito fã do escritor gaúcho. Diga-se de passagem, graças principalmente a essa premiação, nunca consegui levar a sério o Jabuti, tanto que se um livro sai vencedor e eu ainda não o  li, fico ressabiado, e dificilmente tenho pressa de lê-lo. É o efeito Scliar.

Agora: por que um cara desses pega uma ideia tão sensacional para assassiná-la logo de saída? Sim, porque já dou o romance por liquidado a partir do seu prólogo: nele, um “terapeuta de vidas passadas” conta como conheceu a narradora do relato principal, filha de um fazendeiro, feia, mas que causa nele um efeito de sedução inesperado nas sessões de regressão. O propósito é sarcástico, claro, a “terapia de vidas passadas” não é levada a sério, porém serve de mote para se apresente o relato principal e se aceite o “rebaixamento” do tom bíblico. Como a narrativa é contemporânea e anacrônica em relação aos tempos de Salomão, e pode ser uma fantasia pessoal da narradora, uma sublimação da sua feiúra e de seus conflitos com o pai e com os homens em geral, o “tom” já seria aceitável de cara, sem nenhum choque histórico-linguístico. Certo?

Errado. Para sobreviver (pelo menos no sentido ficcional) à tosquice da primeira parte (que, além de ser uma introdução canhestra, é MUITO RUIM enquanto texto), Scliar teria que criar uma voz para a narradora (mesmo que ela seja “não-confiável”, uma mulher contemporânea devaneando ser uma mulher da época salomônica) que nos convertesse à sua proposta, que tornasse secundária a “inverossimilhança” e “desajuste” do tom, debochado e chanchadesco, com relação aos clichês com que as épocas bíblicas normalmente são tratadas e retratadas (em geral, de forma solene e elevada). Munido com as armas do pós-feminismo, o tom narrativo ressalta a sexualidade da mulher que se contrapõe ao universo chauvinista do patriarcalismo dominante no imaginário bíblico e no discurso que sempre se adotou com relação aos episódios do “livro sagrado”:

“Mas eu não podia parar de pensar, de maquinar coisas. E o que maquinava agora era um plano para mobilizar as mulheres. Para que trabalhassem para mim?  Para que me ajudassem a chegar ao leito de Salomão? Sim, mas não apenas isso. De repente, eu queria mais. Queria solidariedade, a verdadeira solidariedade das oprimidas. E contava chegar a isso partilhando com elas, da forma mais sincera e aberta possível, minha angústia. Queria mostrar-lhes que minha virgindade era um pouco a virgindade delas (mostrando que mesmo as descabaçadas continuavam, psicologicamente, socialmente, virgens), que minha marginalização tornava-as também marginais, que minha feiura era também a feiura delas—se não uma feiura externa, pelo menos interna, feiura de tristeza, do desamparo, por aí. Não tínhamos por que competir; ao contrário, só a união nos faria fortes, daria sentido à nossa vida ali no harém…” (ela realmente precisava assistir a Lanternas Vermelhas).

A narradora é a moça feia, com uma fome sexual intensa e frustrada (só tinha uma pedra polida para se satisfazer), mesmo casando-se com o rei Salomão, que tem tantas esposas e concubinas que não quer perder tempo com uma feiosa que arrematou para consignar uma aliança política mais para insignificante. O desvirginamento da nova esposa nem é consumado porque o rei broxa no momento azado (apesar de ela ser, como se diz, uma “raimunda”, feia de cara, boa de bunda).

Que oportunidade perdida por Scliar. O que um Joseph Heller não faria (e aliás fez, em obras como o adorável Só Deus sabe) com essa sem-cerimônia com os incidentes da Bíblia, com esse rebaixamento do solene e do elevado para mostrar quão comezinho e humano tudo aquilo é, no fundo, como todas as épocas e fatos “históricos” o são, quando se lhes retira a capa mistificatória. O problema é que Scliar passa longe de ser um Heller, seu reles relato faz parecer que, para ele, o máximo de profanação do tom solene-patriarcal, da supremacia do macho da espécie, é usar termos chulos (foder, broxa, cabaço, caralho etc) e o repertório da sacanagem popular, que sempre foi e sempre será pândego e rebaixante, tanto no sentido saudável, picaresco, quanto no sentido preconceituoso e truculento. O encanto que poderia ter o uso desse recurso logo se torna cansativo e gratuito.

Como já disse, o desastre de A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA não reside no apelo ao chulo, ao chanchadesco ou a qualquer elemento paródico: é o fato de que a “voz” da narradora não consegue nos conquistar, não consegue nos convencer, comover ou instigar, nem no plano sexual (no sentido político e/ou erótico), nem no plano histórico, nem no plano da linguagem. A certa altura, ela diz que “Eu tinha uma história para contar—eu tinha uma grande história para contar—e iria contá-la…” Se ela iria contá-la como estava nos contando a sua própria história, a Bíblia jamais teria se tornado o Livro da Humanidade. Me desculpe, Dona Feia, mas beleza, aqui, é fundamental.

Porque o grande crime de Scliar com relação ao mote que recolheu de Bloom é o de tornar escandalosa a ideia de que essa mulher, em particular, possa ter escrito a Bíblia. Ele não nos dá uma migalha de fome intelectual, de curiosidade filosófica ou de qualquer coisa próxima de uma estatura cognitiva ou criativa que a autorizem a ser essa pessoa evocada por Bloom. A narradora de Scliar aprende (transgressoramente, para os padrões da época) a escrever. E tão somente.  Ao interceptar uma carta dela, em que se queixa ao pai do tratamento a que está sendo submetida na Corte do rei, Salomão—o qual está insatisfeito com o resultado do trabalho dos anciãos encarregados de escrever o que será posteriormente a História Sagrada—a perdoa pela “traição”,  encantando-se com o estilo, e a encarrega de fazer a versão final. Mas isso são fatos “externos” à personagem e à sua voz narrativa, em nenhum momento o leitor é brindado com um vislumbre dessa capacidade estilística e intelectual. Ou seja, no fundo Scliar rebaixa a sua heroína:

“Segundo os anciãos, Deus criara o primeiro homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? (…)

   Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoram-se loucamente um do outro, e aí transformam o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto aos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big-Bang do sexo, muito Big e muito Bang. Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.

   Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.”[1]

Pior ainda: ele torna a hipótese da sua existência um besteirol. Deve ser por isso que o romance agradou uma parcela de leitores que o acharam “delicioso” e “divertidíssimo”.  É a triste ideia de humor que algumas vozes “(de)formadoras de opinião” fazem.


[1] Há inclusive passagens de mau-gosto extremo, como aquela em que ela descreve o corpo da concubina que se torna sua melhor amiga, tomado pelo câncer:

“Aqueles seios—o que fora feito deles? Um deles, o esquerdo, ou o direito, já não lembro, ainda se mantinha um tanto ereto, como resistindo teimosamente, mas o outro, o direito ou o esquerdo, apresentava-se murcho, deprimido, exaurido: aquele seio já desistira de lutar, aquele seio começava a percorrer o Vale das Sombras da Morte, abanando à direita e à esquerda, alô, Sombras da Morte, estou chegando, o que é que se vai fazer, hein, Sombras da Morte, bem que eu queria ter evitado esta jornada, ou pelo menos ter ficado para trás como o meu companheiro seio, mas que posso fazer, Sombras da Morte, sempre fui apressado, sempre quis resolver logo as coisas, quando Salomão nos chupava eu era sempre o primeiro a crescer e a ficar com o bico durinho e agora estou aí, uma passa seca…”

7 Comentários »

  1. Adoro quando você escancara a ruindade dos livros…
    Essas suas críticas além de sempre muito engraçadas, são de enorme utilidade:
    Esse livro do Scliar é o tipo de livro que leria se topasse com ele em alguma livraria ou biblioteca
    perderia horas preciosas da minha vida (tá, nem tão preciosas assim) para me aborrecer…
    Eu sou aquele tipo que encara a desistência de um livro como uma deficiência pessoal, não importa quão ruim ele seja.

    Comentário por Thiago Motta — 15/07/2012 @ 21:24 | Responder

    • Obrigado, Thiago. Também não gosto de abandonar mesmo as leituras mais desastrosas, mas acho que é muito ruim para a minha vida, pois me tornei uma espécie de caçamba de disk-entulho de leituras ruins. Fazer o quê? Ninguém me obriga.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 16/07/2012 @ 13:05 | Responder

      • Pois é, Alfredo, para uma pessoa que lê tanto quanto você essas leituras são incontornáveis.
        Já eu posso ser mais seletivo.
        Mudando de assunto, eu descobri semana passada aqueles vídeos dos DEPORTADOS.
        Gostei bastante, principalmente aqueles raio-x de alguns escritores…
        Abraço!

        Comentário por Thiago motta — 16/07/2012 @ 22:01

  2. eu confesso que achei engraçado o livro e a personagem , mesmo perdendo o fôlego até o final, porém muito bem lembrado….tal mulher tão inócua e rasa nunca poderia ter escrito a bíblia.

    Comentário por edu vieira — 16/07/2012 @ 3:22 | Responder

    • É, o livro e a personagens são engraçados, mas na linha besteirol. No que se refere à exploração da ideia da “mulher que escreveu a bíblia”, é pífio.
      Obrigado por seu comentário. Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 16/07/2012 @ 13:03 | Responder

  3. Querido Alfredo, de férias, aproveito para colocar em dia minhas leituras de vc. Rssss. Ótimo sobre o Scliar. Um escritor pelo qual retomei leituras após sua morte; mas fui uma das que deixou-se levar pela curiosidade quando da premiação do Jabuti. Lembro-me que achei muito chato, irregular. Leio agora que não estava enganada ou sozinha. Abraço. Mônica Hummel.

    Comentário por Monica Sydow Hummel — 17/07/2012 @ 14:59 | Responder

    • Queridíssima Mônica, você realmente não estava enganada. Creio, aliás, que já chegou a comentar pessoalmente comigo essa sua impressão, num dos papos dos quais tenho tanta saudade. È incrível como o tempo voa e a gente fica meses, quase anos, sem ver os amigos mais queridos.
      Se você estiver em Santos, me dê um alô.Bjs.

      Comentário por alfredomonte — 18/07/2012 @ 12:56 | Responder


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