MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/09/2012

Cobra-prima ou A poética-pensamento serpenteante de Paul Valéry


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de abril de 2012)

“O objeto principal do meu trabalho é a dificuldade(Paul Valéry). Há 90 anos, num momento-chave para o Modernismo em geral, o genial poeta francês (1871-1945) lançou em livro Esboço de uma Serpente (também conhecido como A Serpente), composto por 31 estrofes, cada uma com 10 versos. Trata-se de um monólogo da Serpente original, no Éden, tramando contra a Criação divina, o ser falível, mortal, que se sobrepôs ao Não-ser eterno e pleno.

Em A serpente e o pensar, publicado pela Brasiliense em 1984 e que ganha uma bem-vinda reedição (trata-se de um grande momento da tradução em nosso país), Augusto de Campos reúne à sua versão do poema trechos colhidos nos Cadernos que Valéry escreveu entre 1894 e 1945 e que perseguem o tema da serpente, associado—até por causa das possibilidades fonéticas do francês—ao tema do pensar (penser = serpent). Como diz Campos muito bem, são lampejos fascinantes de pensamento fragmentário, para os quais talvez o único equivalente seja a linguagem de Wittgenstein, o peculiaríssimo pensador austríaco, o qual justamente em 1922 também marcou sua presença no Modernismo com o Tractatus Logico-Philosophicus (todavia, os Cadernos valéryanos me lembram mais suas Investigações Filosóficas).  Ajuda muito a perceber o que há de fascinante nesses fragmentos a reprodução fac-similar de algumas (infelizmente poucas) páginas.

Não se pode esquecer, porém, que em Valéry há uma paródia do filosófico: “A serpente come a própria cauda. Mas é só depois de um longo tempo de mastigação que ela reconhece no que ela devora o gosto da serpente. Ela para, então… Mas ao cabo de um outro tempo, não tendo nada mais para comer, ela volve a si mesma… Chega então a ter a sua cabeça em sua goela. É o que se chama UMA TEORIA DO CONHECIMENTO”.

Entretanto, a estrela do volume é mesmo o poema, um dos maiores exemplos do que o próprio poeta dizia ser a “fabricação desenfreada do meu rigor”. O leitor brasileiro pode acompanhar, na magnífica versão de Campos, a “cobra arguta” vituperando o sol, “Rei das sombras, feito de flama, por fazer a manutenção da ilusão para o mundo criado (“mascaras a morte”), protegendo os corações do conhecimento de que o universo não é mais do que um defeito na “pureza do Não-ser. Num discurso insinuante, verdadeiramente ofídico, “coleios verbais vão se aproximando do tema da sedução de Eva e a instauração da insatisfação humana, fruto do orgulhoso pensar:”E oferto à glória do bom Deus/ O triunfo desta tristeza…/Basta-me crer que no ar escuro/ O amargo fruto do futuro/Assombra a raça condenada…”.

E, terminada a “cobra-prima (como Campos insidiosamente coloca no corpo do próprio texto), o leitor pode decidir se procede a seguinte autocaracterização: “Meu trabalho é um trabalho de paciência executado por um impaciente”.

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