MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/09/2012

LITERATURA LÍQUIDA


(em outubro de 2008, ministrei um mini-curso abordando a ficção da “modernidade líquida”, tal como caracterizada por Zygmunt Bauman; para tanto preparei uma apostila de apresentação, que publico aqui em três partes, a primeira das quais segue abaixo

obs- o título “As margens derradeiras”, referido no texto, é o do curso anterior, o qual abordava a ficção curta oitocentista):

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/07/29/o-signo-de-bauman-um-aperitivo-de-%c2%b4modernidade-liquieda/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/28/quando-a-identidade-e-a-memoria-sao-liquidas-uma-rua-de-roma-de-patrick-modiano/

A “literatura líquida” é a literatura da pós-modernidade. Antes seria preciso definir o que se entende pela modernidade com relação à qual estamos “pós”. É preciso não confundi-la com o chamado modernismo. A modernidade, numa acepção simplificada, é o momento histórico que surge em função da Revolução Francesa, da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Industrial, compreendendo, portanto, o período a partir do final do século XVIII.  A literatura da modernidade compreende todos os movimentos literários pós-iluministas, do romantismo em diante. Essa modernidade é definida por Zygmunt Bauman como “pesada”, “sólida”. E é fácil compreender isso: se estudamos em As Margens Derradeiras oito textos (sob a ótica freudiana) que mostravam as fraturas e fissuras da ordem social, da identidade e da psique humanas, é porque elas denunciavam algo que estava “escondido” (o Hyde dentro do Jekyll) num tecido social e psicológico aparentemente coeso e estável. Os textos que estudamos representavam, marginalmente, o avesso, o lado escuro de uma lua que parecia destinada a ser sempre e cada vez mais plena e cheia, com as idéias de Progresso, de Razão, de Desenvolvimento, grandes narrativas-mestras da modernidade.

A partir dos anos 60 do século XX, em conseqüência das guerras de independência das colônias que restaram aos impérios europeus (na África e na Ásia), da Guerra Fria, dos movimentos das minorias pelos direitos civis, do feminismo, do ativismo contra a guerra do Vietnã, o perfil “sólido” da modernidade começa a derreter, o tecido coeso começa a se esgarçar. Porém, os dois fatores essenciais para o surgimento de uma outra modernidade, “líquida”, “leve”, “fluida”, são a queda do muro de Berlim (com as conseqüentes teorias do Fim da História e Triunfo do Capitalismo) e as novas tecnologias eletrônicas (celular, Internet, videogames, diversificação de mídias, etc).

Do ponto de vista literário (e artístico em geral) evidenciou-se um esgotamento das formas, levando a uma recombinação incessante de práticas e fórmulas, geralmente intertextualizante (por exemplo, a trilogia Pânico, cuja base são os clichês do gênero terror). Além disso, caíram por terra definitivamente as barreiras entre a cultura de elite (palavra tomada aqui não no sentido econômico, evidentemente), com altos padrões de exigência estética e formal, e a cultura de massa, com os subprodutos da indústria cultural (música pop, filmes B, pulp fiction). Um mundo em que todas as fronteiras são fluidas: por exemplo, o homem (o sujeito) e seus artefatos (os objetos), um universo cultural em que um cineasta radical como David Cronenberg, em filmes como Videodrome & ExistenZ, pode mostrar pessoas se confundindo com máquinas, e a mente se confundindo com a programação de jogos eletrônicos. O que gera um sentimento de insubstancialidade, uma palavra-chave aqui. Na verdade, o pós-modernismo, grosso modo, segue a concepção de Jean-François Lyotard, de “discurso provisório”, recusando se guiar por qualquer narrativa-mestra (valores universais, Humanismo, Razão, Fé, mesmo a Arte, com A maiúsculo, ou o Mito). Lyotard afirma que tais sistemas são atraentes, talvez até mesmo necessários e vitais, mas que isso não os torna menos ilusórios. Um Eliot ou um Joyce, expoentes modernistas, cultivavam o desejo paradoxal de atingir valores estéticos duráveis, mesmo tendo a percepção da ausência desses valores universais. Quando Eliot parodiou Dante e Virgilio (entre tantos outros) em A terra arruinada, pressentia-se, por trás desse reflexo fragmentário o que Linda Hutcheon chama de ansioso apelo à continuidade [i].

         No século XIX, o avesso era o “à margem”, trazia a marca do umheimlich, do “sinistro”, do “inquietante”. No século XXI, o avesso é a norma, é o horizonte estético que contemplamos, o ar que respiramos.

Permitam-me fazer uma distinção básica dessa literatura do pós-modernismo com a qual iremos trabalhar e o chamado alto modernismo (representado por figuras como os já citados James Joyce e T.S. Eliot, e mais Ezra Pound, Marcel Proust, Maiakóvski, Thomas Mann, Carlo Emilio Gadda, William Faulkner, Guimarães Rosa, Pirandello, Brecht…): os autores do modernismo assim identificado, muitas vezes utilizavam a paródia, incorporando discursos alheios aos seus textos, mas seu horizonte era sempre e prioritariamente a cultura de elite, a tradição literária no seu mais alto nível. Basta lembrar de dois exemplos óbvios: em Ulisses, a utilização minuciosa da moldura homérica para a narração das 24 horas da vida em Dublin; em Grande Sertão: Veredas, a utilização do pacto fáustico, trazendo para o mundo da jagunçagem a sombra do elisabetano Christopher Marlowe e do ultra-clássico Goethe.

Por outro lado, outro traço comum em boa parte dos altos expoentes do modernismo é que eles trabalham muito no nível do significante, do aspecto formal da palavra, o que permitiu a Guimarães Rosa revolucionar o regionalismo utilizando ao mesmo tempo um vocabulário arcaico e neologismos, de forma a desrobotizar o leitor de todos os clichês e expectativas com relação à ambientação no sertão. As obras do modernismo também são realizações lingüísticas e, por isso, muitas vezes representam desafios cognitivos enormes (basta lembrar das referências culturais que é preciso ter para ler A terra arruinada, de T.S. Eliot, ou Os cantos, de Ezra Pound, para não citar novamente Ulisses). Além disso, são enciclopédicas, aspiram a uma apreensão totalizante do mundo mesmo em seus aspectos fragmentários. Como esquecer das obras de Thomas Mann onde são discutidas teorias musicais, biologia, teologia, física, química, filosofia?

Nada disso é traço do pós-Modernismo. A paródia é substituída pelo pastiche (utilizo aqui uma distinção trabalhada por Fredric Jameson [ii]), pela utilização indiscriminada de qualquer discurso, não mais a cultura de elite como horizonte único: a linguagem das ruas, da cultura pop, dos modismos, tudo é incorporado e não há uma hierarquia segura. Homero & Hollywood, Haydn & hip hop se equivalem em termos de contribuição formal, e não é à toa que o romance policial é um registro-fetiche de inúmeros textos. O romance policial, que era um subproduto do mercado editorial, se torna um padrão de legibilidade, um manual, um guia, algo coeso que resiste ao caos.

O trabalho com o significante já não é mais tão badalado. As fontes modernistas são (mais que Joyce ou Pound) Kafka, Pessoa, Borges & Samuel Beckett, autores que trabalharam com o esvaziamento do significado, o sentido da palavra.

Mas atenção: não se pode remontar o pós-modernismo a Kafka até por razões editoriais: ele escreveu boa parte da sua obra sem publicar (o que ocorreu postumamente), e grande parte dela ficou incompleta, “em aberto”. O que Kafka fez na intimidade, fora da norma, como um autor falhado que não conseguia terminar seus grandes textos, tornou-se a norma. Hoje, Kafka domina a cena, embora seja um domínio que veio de fortuitas circunstâncias da sua existência biográfica (o mesmo vale para Fernando Pessoa) tanto quanto da sua poderosa visão do mundo. Os autores fazem conscientemente hoje, e são publicados, e premiados, e fazem sucesso, com o material que era o desespero do autor tcheco: textos cujo sentimento de incompletude, cujo peso fantasmático (se podemos falar assim), cuja insubstancialidade (eis a palavra-chave de novo, vocês vão cansar de lê-la), já fazem parte da expectativa do leitor “informado”, treinado. Não é de estranhar que os autores de hoje utilizem tantas vezes a forma do romance policial: é uma garantia de que há um fiozinho da meada, uma tênue possibilidade de inscrever uma trilha no labirinto da desconstrução do mundo e da narrativa. E é por isso que muitas vezes o leitor comum, “desinformado”, fica frustrado com a leitura de um pós-moderno, pois tinha nas mãos um texto com a “aparência” de uma narrativa, um texto até fácil de ler, em termos de significante, mas que lhe rouba a satisfação do significado, da história contada de forma a chegar a algum lugar. É evidente que esse é apenas um dos prismas da pós-Modernidade literária, entretanto é o que iremos abordar.


[i] Cf.  Poética do pós-modernismo (ed. Imago).

[ii] Cf. A virada cultural (Civilização Brasileira) e O pós-modernismo (Ática), seus livros mais “didáticos” e menos difíceis sobre o assunto.

ANEXO- A DIVULGAÇÃO DO CURSO

Literatura Líquida:

Em busca do Enredo Perdido

(a ficção pós modernista da virada do milênio)

“A mutação tomou conta das formas exteriores da realidade. Aquilo que ainda não é define a arquitetura do mundo”. (Ricardo Piglia, A cidade ausente)

“Tudo desmorona; o centro não mais retém”. (Yeats)

Pós-modernidade. Desconstrução. Esses termos tão utilizados e tão vagos permeiam nossa época “fluida”, “líquida” (na acepção de

Zygmunt Bauman); à modernidade “pesada”, era do hardware (que foi a “era da conquista territorial. A riqueza e o poder estavam firmemente enraizadas ou depositadas dentro da terra… Os impérios se espalharam, preenchendo todas as fissuras do globo; apenas outros impérios de força igual ou superior punham limites à sua expansão”), vem se contrapondo a era do software (o mundo “instantâneo”, leve, preconizando não o futuro, o progresso constante, mas a “realização imediata”, um mundo que é também “exaustão e desaparecimento do interesse”; ou como diz Paul Valéry, citado por Bauman: “Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos”).

Também as obras de arte são permeadas por essa atmosfera: uma linhagem de artistas destrói ou desconstrói tradições e práticas éticas e estéticas, entre elas a arte de contar histórias de forma coesa, contínua, desembocando num final tangível e discernível. Como fica essa Grande Arte quando o fundamento da pós-modernidade é a recusa em acreditar nas Narrativas?

A proposta do curso é estudar os contornos dessa “literatura do software”, “literatura líquida”, ancorada na insubstancialidade desta civilização onde tudo que é sólido se desmanchou no ar, mas permaneceu fantasmático em torno de nós, através de algumas obras de quatro grandes autores contemporâneos: dois do centro do Império (os norte-americanos Paul Auster e Don DeLillo); dois, da Periferia (os brasileiros João Gilberto Noll e Bernardo Carvalho), os quais exploram fios de enredo que não se completam, que se ramificam em outras histórias. Vejam-se algumas passagens da Trilogia de Nova York (1986), de Paul Auster: “Nova York era o lugar nenhum que ele havia construído para si mesmo”; “ o que interessava nas histórias que escrevia não era a sua relação com o mundo, mas a sua relação com outras histórias” .

A virada do milênio seria o princípio organizador do curso. Teríamos dois livros anteriores a 2000, situados nos últimos anos do século XX, o referido Trilogia de Nova York e Bandoleiros (1985), de João Gilberto Noll, e dois livros imediatamente após a entrada do novo século e milênio, Cosmópolis (2001), talvez o maior livro da nossa época, e Nove Noites (2002), de Bernardo Carvalho.

A proposta seria a princípio de quatro aulas (em quatro sábados consecutivos), uma para cada obra.

Início: 18/10/08

Horário: 17h30m (duração: duas horas)

Local: Ed. Quinta Avenida, cj. 64

       Av. Mal.Deodoro, 4 ou Ana Costa, 5

 

Bibliografia Básica:

Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman, ed. Jorge Zahar)

A virada cultural (Fredric Jameson, Civilização Brasileira)

A poética da Pós-Modernidade (Linda Hutcheon, Imago)

O mínimo eu (Christopher Lasch, Brasiliense)

A Trilogia de Nova York (Paul Auster, Companhia das Letras)

Bandoleiros (João Gilberto Noll, Record)

Cosmópolis (Don DeLillo, Companhia das Letras)

Nove Noites (Bernardo Carvalho, Companhia das Letras)

 

 

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