MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/09/2012

CONTAMINAÇÕES, ARREMEDOS, PACTOS E PARÓDIAS: Um mundo terminal em “Doutor Fausto”, de Thomas Mann


 

t.mann

 

doutor fausto

Em O lobo da estepe (1927), de Hermann Hesse, pode-se ler o seguinte: “…essas fatais relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã (…) uma hegemonia da música, como não se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, sonhamos  todos  com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprimível, que possa representar o irrepresentável. Em vez de tocar seu instrumento da forma mais fiel e honesta possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra e fazendo a corte à música”.

Em Doutor Fausto (1947) talvez o maior entre os romances do século XX (junto com A montanha mágica), as palavras de Hesse citadas acima são lugubremente dramatizadas, tanto no que concerne a Adrian Leverkühn, o protagonista, um compositor que faz pacto com o Diabo para desenvolver a genialidade inata (e que sempre trilhou caminhos perigosos), quanto no que concerne à narrativa, que tenta se apropriar da linguagem musical de uma maneira quase asfixiante, tornando o livro uma experiência difícil, insuportável para muitos.

Para o jovem Adrian, antes do pacto, “a música é ambigüidade organizada como sistema. Para Serenus Zeitblom, o narrador (amigo do músico pactário desde a infância), “a música pertence a um mundo místico, por cuja fidedignidade incondicional em matéria de razão ou do valor humano eu não gostaria propriamente  de garantir”.

Zeitblom tenta manter a tocha do humanismo e da razão em meio ao mundo demoníaco criado pelo Nazismo. Escrevendo a biografia de Adrian, arrasta a narrativa para o universo da ambigüidade. Tudo é o que é. E mais alguma coisa, às vezes o seu contrário. A experiência do prazer sexual traz a doença mortal que levará à loucura e à morte (a “apropriação” da alma de Adrian começa quando contrai sífilis de uma prostituta). O vanguardismo musical (o estilo musical desenvolvido no livro é um espelho da técnica dodecafônica de Arnold Schönberg, que revolucionou a música clássica) mergulha no arcaico, no primitivo. O Diabo aparece como um rufião vulgar e discute como um teólogo.  O pacto é concretizado na Itália que foi berço do humanismo clássico e da Renascença. No plano mais corriqueiro, Adrian envia Rudi Schwerdtfeger, o qual foi seu amante, na missão de fazer a corte a uma mulher por ele.

E há a ambigüidade do próprio romance: ele é realmente uma narrativa na qual se conta uma história terrivelmente dramática, que pode ser uma alegoria da Alemanha desde as raízes luteranas presentes na mentalidade germânica até a loucura nazista, ápice de um processo inerente a essa mesma mentalidade, ou é uma vasta (para muitos, aborrecida, interminável) enciclopédia disfarçada, em que se discute teologia, ética, física, astronomia, biologia, sociologia, economia, teoria musical?

Desde o começo, Mann povoa seu texto com uma desconfortável atmosfera híbrida, com a discussão de certas formas intrigantes como as “flores criadas pelo gelo” e a flora de excrescências inorgânicas desenvolvidas pelo pai de Adrian, formas heliotrópicas que arremedam a vida orgânica. A impressão que se tem é que o restante da narrativa (das 700 páginas, com a tradução impecável de Herbert Caro) é o desdobramento dessas fantasmagorias que desafiam as fronteiras entre os reinos animal, vegetal e mineral. E essa mesma “contaminação” ou esse mesmo “simulacro” vão fornecer a base para um dos grandes temas de Doutor Fausto: o problema da paródia (pela qual Adrian demonstra predileção). A função da arte esgotou-se e ela, na era contemporânea, não é apenas(e isso nos melhores casos) recombinação paródica das formas passadas? A tragédia do pacto com o Diabo não se tornou uma espécie de melodrama? Curiosamente, o filho de Mann, Klaus, escreveu um romance que utilizou igualmente (e também foi igualmente traduzido pelo grande Caro) a aproximação paródico-alegórica com o Diabo e o advento do Nazismo: Mephisto, cuja famosa adaptação cinematográfica lamentavelmente deixava passa em branco na tela o tom de zombaria irônica do texto original, sucumbindo na “pesadez” solene e melodramática que muitos vêem no próprio texto de Mann, o pai. E realmente, Doutor Fausto também parece, a princípio, arrastar-se nessa mesma “pesadez”  solene-melodramática. É incrível como Mann vai libertando o romance dessa armadilha e deixando-o, senão leve (o que é impossível,com um tema desses), cada vez mais ágil, dinâmico, cheio de soluções surpreendentes (Clarissa e Inês, irmãs que são as personagens femininas mais importantes, realizam atos extremos: uma suicida-se; a outra assassina Rudi Schwerdtfeger). Artimanhas de mestre.

Agora: que ironia cruel a de Thomas Mann fazer com que a danação de Adrian e sua repercussão no círculo de relações dele espelhem episódios da biografia da sua própria família. Já acontecera tal espelhamento biográfico em Os Buddenbrooks, só que dessa vez ele foi além da narração da decadência: lançou-os –só com passagem de ida—no Inferno. Grande escritor (o maior), mas péssimo (por que não dizer perverso) parente. Não é à toa que o filho Klaus  tenha se suicidado.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 5 de setembro de 2000)

 

3 Comentários »

  1. Olá, Alfredo

    Há dezoito anos ganhei do meu irmão e da namorada dele A Montanha Mágica. Iniciei a leitura há 3 dias e a passagem de ano é o que está menos importando. Talvez a resistência em ler textos traduzidos postergou o início da leitura, já que não sei Alemão. Talvez o corre corre, trabalho, estudos. Sei que existem ótimos tradutores, mas penso que a tradução é outro livro, não é mesmo o original, mas me rendi a esse preconceito. Já havia lido contos Os famintos e outras histórias. Gostei particularmente de um dos contos, o homem e o seu cão, e não me lembro do nome desse conto. Vou comprar o livro depois. Fiquei curiosa em conhecer imagens de Davos, do sanatório, fotos do autor na internet. Deparei-me com o rosto inteligene de Thomas Mann, uma foto bem expressiva. Assim descobri o seu site. Não vou ler as resenhas agora, pois os amigos me esperam para a última noite do ano. Lembrei-me de Castorf descrevendo a particularidade dos domingos em Berghof. Estou na deliciosa página 140 e penso se o autor ainda vai mostrar o final de algum ano no sanatório nas próximas páginas (que bom que são muitas). Um ótimo ano ano para você.
    Abraços
    Dina

    Comentário por Dina — 31/12/2009 @ 19:17 | Responder

  2. Olá,alfredo.

    Conheci o seu blog quando me deparei com a foto expressiva do Thomas Mann na internet. Ontem, antes da virada do ano, quis visualizar o sanatório de Berghof em Davos Platz para ajudar-me a construir mentalmente o espaço físico onde se passa a trama de A Montanha Mágica. Sorte foi a minha ao deparar-me com um site tão organizado e substancial. Ganhei esse livro há dezoito anos e fico aliviada em constatar que era mesmo este o momento “mágico” para iniciar a leitura. Talvez o corre corre de trabalhar e estudar tenha retardado o início da leitura, ou, talvez, um arranjo inconsciente que programa cronologicamente minhas leituras para que eu tire melhor proveito delas. Já havia lido há cerca de um ano “Os famintos e outras histórias” e adorei um conto enorme que fala da convivência de um homem com um cão. Não me recordo do nome desse conto, mas sim da ambiência, da espantosa habilidade do autor em escrever com consistência sem se apoiar em acontecimentos mais significativos, mais evidentes. Obrigada por compartilhar com desconhecidos dicas valiosas de leitura: vou encomendar “A cidade de quatro portas” de Doris Lessing. Desejo a você e à sua família um 2010 com novas aprendizagens e alegrias.
    Abraços
    Dina

    Comentário por Dina — 01/01/2010 @ 11:33 | Responder

    • Obrigado pelo seu comentário incrível e tudo de bom para você, amigos e familiares em 2010.

      Comentário por alfredomonte — 02/01/2010 @ 19:10 | Responder


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