MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/09/2012

Lolito ou Anjo da Morte?


(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 01 de fevereiro de 2011)

“Veneza: É um lugar esplêndido, mas para morrer…”

(Virginia Woolf)

Já era tempo de Morte em Veneza ser publicado isoladamente. As edições brasileiras quase sempre o colocavam junto a outros textos menores, principalmente Tonio Kröger (muito bonito, mas aquém do alcance do companheiro), e afinal se trata da maior novela (aquela forma intermediária e imprecisa entre o conto e o romance) do século XX, junto com A metamorfose, de Kafka, esta sim sempre valorizada enquanto peça individual (o incrível é que elas foram escritas no mesmo ano, 1912).

Durante toda sua vida de escritor, Thomas Mann foi obcecado pela idéia da posição duvidosa do artista na sociedade, e a proximidade da criação artística com a doença (não é à toa que o gênio de Adrian Leverkühn, em Doutor Fausto, vem junto com a sífilis): um de seus personagens sente-se um “burguês que se extraviou na arte, um boêmio com saudades do bom berço, um artista de consciência pesada”.

Morte em Veneza dramatiza de forma lapidar essa dicotomia estranha entre ser “respeitável” e ser um “aventureiro da arte” que tanto atormentava o genial alemão: o escritor cinqüentão (no lindíssimo filme de Visconti, transformado em compositor) Gustav Aschenbach, de Munique, apesar do afinco maníaco com que se entrega ao ofício, sente-se morto por dentro. Resolve, então, sair de sua rotina disciplinada e estafante, indo para algum balneário no sul da Europa. Depois de sentir-se insatisfeito em outros lugares, opta  pela irresistível  Veneza, onde vai  impressionar-se  com a beleza de um adolescente polonês de 14 anos, Tadzio.

Apaixonado (não se alarmem, leitores que se chocam com a pedofilia, Tadzio é de boa família, não é nenhum garoto árabe do gênero que fez a felicidade de um André Gide; tudo será platônico, cosa mentale), começa a segui-lo por toda a parte, não se decidindo as ir embora da cidade, mesmo ao tomar conhecimento de que uma peste a assola. Após um passeio durante o qual perdeu de vista Tadzio, sentindo-se angustiado e esgotado fisicamente, come morangos (contaminados) para se refrescar e, pouco tempo depois, em plena praia, entra em agonia mortal…

Esqueça o pormenor (sim, é um pormenor) do homossexualismo, leitor, não é por aí, que se compreenderá Morte em Veneza, por mais que os departamentos gays da indústria cultural (com sua insistência nas “obras de gênero”) tentem hipertrofiar a questão, e mesmo que agora se trombeteie ter Mann—um senhor casado e que teve seis filhos—sentido atração por jardineiros, ascensoristas e mensageiros.  Mesmo assim, enquanto dono do seu imaginário artístico, para ele a beleza pessoal era mais importante do que a identidade de gênero. E depois, e sobretudo,  Tadzio, com sua beleza, exerce mais do que uma banal sedução erótica: mais que um “lolito”,  é o anjo da morte que conduz, no final da história, Aschenbach, aquele que trabalha incessantemente (e por isso não tem uma “vida”) para criar formas artísticas perfeitas e domesticar o caos, para o mar, o outro pólo poderoso da narrativa: “…amava o mar pela necessidade de repouso do artista exausto que, assediado pela multiformidade das aparências, anseia por abrigar-se no seio da simplicidade, da imensidão, e por um pendor proibido, diametralmente oposto à sua tarefa epor isso mesmo tentador, para o indiviso, o desmedido, o eterno, para o nada. Repousar na perfeição é o anseio nostálgico daquele que se esforça para alcançar a excelência; e o nada não é uma forma de perfeição?”

Assim, Aschenbach, que vagara por Veneza atordoado por Eros, não sabia que ele o estava conduzindo para o reino do nada. A beleza encarnada num corpo humano jovem serve como perverso portal para o reino onde não existem formas.

Derrota para Aschenbach, vitória absoluta para Thomas Mann, que, aos 37 anos, criou uma de suas obras-primas supremas, e a mais famosa hoje em dia. Mesmo quem não tem paciência de ler A montanha mágica ou Doutor Fausto se encanta com a precisão lapidar dessa dança da morte.

5 Comentários »

  1. livro lindo e terrível.

    respondendo ao título: é um lolito sim, mas um lolito do inferno. passaporte para ele.
    ceder a esse lolito é fazer o pacto de Fausto.

    e fazemos o pacto, de diversos modos, todos os dias.

    Comentário por niltonresende — 08/02/2011 @ 17:43 | Responder

    • Realmente, é um texto terrível, meu caro Nilton, e por isso não deve ser reduzido a meras opções sexuais. Muito legal sua imagem do “lolito do inferno”, se a gente abstrair o inferno do cenário kitsch católico de gente em lagos de fogo e coisas afins. O inferno pode ser a beleza “que deixa a rua deserta quando não olha pra trás”.

      Comentário por alfredomonte — 09/02/2011 @ 12:14 | Responder

      • O inferno pode ser a beleza “que deixa a rua deserta quando não olha pra trás”. [2].

        Comentário por niltonresende — 09/02/2011 @ 12:22

  2. Sim. Além de ser o Anjo da Morte, Tadzio também representa a beleza da juventude perdida, que se foi na bruma do tempo …

    Como a areia(vida, juventude) que se escoava sem ser percebida, monologo, logo no começo do filme….

    Sem dúvida o melhor filme de Visconti…

    Segue o monologo…

    “Lembro-me de que…tivemos uma como essa…na casa de meu pai.

    A abertura pela qual escorre a areia é tão pequena…
    que, à primeira vista, parece que o nível na parte superior…
    nunca se altera.

    Aos nossos olhos, parece que a areia escoa apenas…
    apenas no final…e, até que isso aconteça,não vale a pena pensar a respeito.

    Até o último instante…quando não há mais tempo…quando não resta mais tempo
    para pensar a respeito.”

    Comentário por Geraldo Moreno — 27/05/2013 @ 12:37 | Responder

    • Obrigado, Geraldo Moreno, pelo seu comentário. Abraço, Alfredo MOnte.

      Comentário por alfredomonte — 27/05/2013 @ 13:57 | Responder


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